O cerco de Mafeking (1899-1900) foi um dos principais confrontos da Guerra dos Bóeres (também conhecida como a Guerra da África do Sul, 1899-1902), quando cerca de 8 000 bóeres cercaram a cidade sob controlo britânico, que contava com menos de 2 000 homens armados para a defender. Comandados por Robert Baden-Powell, os cercados resistiram durante 217 dias até à chegada de uma coluna de reabastecimento e libertação. O fim do cerco foi amplamente celebrado na Grã-Bretanha, dada a sua vitória, como um ponto de viragem simbólico no conflito. Baden-Powell, que mais tarde viria a fundar o Movimento Escutista (ou Escotismo), foi aclamado como herói nacional pela sua engenhosa e audaz defesa de Mafeking.
As Causas da Guerra dos Bóeres
As causas do conflito na África Austral, conhecido como a Segunda Guerra Anglo-Bóer (também designada por Guerra da África do Sul), travada entre os bóeres (colonos com ascendência holandesa e de alguns outros países europeus) e as colónias britânicas da Colónia do Cabo e de Natal, eram variadas. Ambos os lados queriam terras para a agricultura e o controlo de recursos naturais ricos, tais como as minas de diamantes em Kimberley e as minas de ouro em Witwatersrand; outro pomo de discórdia era o tratamento prejudicial dado aos colonos britânicos nas duas repúblicas bóeres do Transvaal e do Estado Livre de Orange. Levantaram-se suspeitas mútuas em ambos os lados pela tentativa britânica não oficial de um golpe de Estado no Transvaal, com o fracasso do Raide de Jameson em 1895. Como consequência desta incursão, o governo do Transvaal começou a comprar armas estrangeiras e assinou um tratado com a Alemanha, para horror da Grã-Bretanha, uma vez que o envolvimento alemão na África Austral poderia comprometer os interesses e a soberania britânica em toda a região. Os dois lados já se tinham confrontado na Primeira Guerra Anglo-Bóer (1880-81), ganha pelos bóeres. Sendo essencialmente uma guerra de escaramuças, este primeiro conflito seria completamente ensombrado pela escala massiva e pela violência acrescida do segundo confronto.
A Luta pelas Cidades
Nas primeiras fases da segunda guerra, a cavalaria bóer saiu-se bem contra as inadequadas forças britânicas. Embora não tivessem treino formal, os bóeres dispunham de excelentes espingardas e eram igualmente bons a dispará-las; igualmente, faziam um uso excelente do terreno local, organizando-se em unidades conhecidas como comandos. Ao contrário da guerra anterior, desta vez o governo britânico enviou tropas britânicas para reforçar as que já se encontravam nas colónias. Desta forma, as forças armadas lideradas pelos britânicos, que incluíam 30 000 tropas coloniais vindas da Austrália, da Nova Zelândia e do Canadá, dispararam rapidamente dos 25 000 para os 250 000 homens. Esta vantagem numérica ajudou os britânicos a capturar as principais cidades bóeres de Pretória, Bloemfontein e Joanesburgo. Uma cidade que permaneceu no centro dos combates foi Mafeking, então localizada na Colónia do Cabo, na fronteira entre a Bechuanalândia Britânica e a República Bóer do Transvaal, e a escassas milhas do implacável deserto do Kalahari. Mafeking era uma das três principais guarnições britânicas, a par das de Ladysmith e Kimberley, que os bóeres decidiram cercar.
Mafeking, que significa "lugar de pedras" na língua dos locais Tswana, tinha uma importância estratégica, pois controlava a rota para o norte e era o maior entreposto de mercadorias na linha ferroviária de Kimberley a Bulawayo. Mafeking era também o centro administrativo da Bechuanalândia Britânica (o atual Botsuana). A cidade tinha uma importância que ia muito além do seu tamanho e localização, visto que fora dali que o fatídico Raide de Jameson partira para atacar o Transvaal.
Começa o Cerco
Mafeking foi cercada a partir de 14 de outubro de 1899 por uma força bóer de entre 6 000 e 8 000 homens, comandada pelo General Piet Cronjé (1836-1911). A guarnição britânica de 1 000 soldados regulares era comandada pelo Tenente-Coronel Robert Baden-Powell (1857-1941 - que mais tarde viria a fundar o movimento mundial do Escotismo); dispunha de cerca de 700 europeus adicionais que podia juntar-se à força de combate. Os britânicos receberam também uma ajuda valiosa dos africanos locais, nomeadamente dos Tswana, cujas terras ficavam sob a jurisdição territorial de Mafeking e que mantinham uma rivalidade de longa data com os bóeres. O chefe Tswana, Simon Makodi, observou que esta rivalidade se devia «…à terra. Eles queriam escravizar os negros e fazer-nos trabalhar para eles. Lutaram pela nossa terra e pelo dinheiro que nela estava a ser encontrado» (Jackson, pág. 34). Baden-Powell aproveitou este ressentimento contra os bóeres para formar um regimento de Tswanas, uma decisão controversa, visto que ia contra a política britânica padrão de armar africanos negros, a tal ponto que o Coronel negou mais tarde ter alguma vez formado tal regimento, este regimento foi nomeado de "Black Watch" (Guarda Negra). Além disso, Baden-Powell armou um pequeno contingente de africanos negros da Colónia do Cabo e utilizou mineiros africanos negros locais para cavar trincheiras, de modo a proteger melhor o perímetro da cidade e a povoação nativa adjacente.
Cronjé ficou indignado quando descobriu que os seus homens iriam combater africanos negros armados e enviou prontamente uma nota a Baden-Powell, afirmando que essa decisão era «um enorme ato de maldade» (Idem, pág. 39). Cronjé exigiu que o coronel britânico desarmasse imediatamente os africanos negros. Isto era algo hipócrita, visto que o próprio Cronjé tinha armado cerca de 300 africanos Rapulana para o auxiliarem no cerco.
Os defensores dispunham de várias peças de artilharia, incluindo canhões improvisados e peças de artilharia naval adaptadas, cujo exemplo mais famoso foi batizado de "Wolf" (embora a culatra desta arma tenha acabado por explodir). Os britânicos teriam tido mais armamento se os bóeres não tivessem intercetado um comboio blindado de abastecimento em Kraaipan, que se dirigia para Mafeking. Os bóeres também tinham muita artilharia e, ao contrário do sucedido no cerco de Ladysmith, bombardeavam a cidade regularmente. Uma peça de artilharia particularmente eficaz, um enorme canhão de 94 libras que exigia 16 bois para ser puxado, foi apelidada pelos bóeres de "Long Tom". Os bóeres foram implacáveis e não tiveram qualquer escrúpulo em atingir civis. O primeiríssimo bombardeamento destruiu tanto o hospital como o convento. Aos habitantes brancos foram fornecidos materiais para construir abrigos antiaéreos primitivos, mas estes foram negados aos residentes negros.
Outra diferenciação entre brancos e negros prendeu-se com as rações de comida que recebiam. À medida que o cerco se arrastava, Baden-Powell cortou primeiro as rações dos africanos negros, o que fez com que estes não tivessem nada mais para comer senão uma sopa rala; e para cumular a afronta, os africanos negros tinham de a pagar, visto que a cozinha comunitária era gerida com fins lucrativos. Quaisquer africanos negros apanhados a roubar comida eram açoitados ou mesmo executados. Muitos africanos negros viram-se obrigados a comer gafanhotos para sobreviver, mas, ainda assim, a fome ceifou vidas durante o cerco. Os residentes brancos, em contrapartida, recebiam carne de cavalo e papas de aveia.
Os artilheiros bóeres aprenderam rapidamente o alcance mais limitado dos canhões britânicos e, por isso, retiraram-se para posições onde podiam disparar sobre Mafeking sem serem eles próprios atingidos. Apesar do rigor do cerco, ambos os lados acordaram uma trégua de artilharia aos domingos. O cessar-fogo semanal permitia algum descanso às gentes de Mafeking, sendo aproveitado ao máximo com a realização de jogos de críquete e concertos todos os domingos. Assim que a trégua semanal terminava, os bombardeamentos eram retomados com uma eficácia mortífera.
Baden-Powell era certamente engenhoso e utilizou todo o tipo de estratagemas para confundir os bóeres. Criou, por exemplo, um projetor de busca a partir de uma lata de bolachas e entregou-o a um mensageiro, que projetava a luz a partir de várias posições para dar a impressão de que existiam muitos holofotes, tornando assim menos provável um ataque noturno por parte dos bóeres. Outro ardil consistiu em colocar estacas por entre as defesas e depois criar a ilusão de que estas seguravam arame farpado, fazendo com que os defensores passassem regularmente por cima de um arame inexistente. Um terceiro ardil passou por colocar caixotes de madeira em redor do perímetro da cidade, dos quais apenas alguns continham dinamite. Alguns destes caixotes foram detonados como elemento de dissuasão para os bóeres e para convencer os espiões dentro da cidade de que todos eles eram perigosos.
De forma mais controversa, Baden-Powell decidiu resolver o problema crónico de rações alimentares forçando, na prática, 2 000 africanos negros a abandonar Mafeking: forçando-os a uma escolha cruel entre ficar e não receber qualquer comida ou enfrentar os perigos do cerco para tentar alcançar um posto de abastecimento britânico. Pequenos grupos tentaram de facto deixar Mafeking, mas a maioria foi capturada e, em alguns casos, maltratada ou mesmo fuzilada pelos bóeres. À medida que o cerco se arrastava, os bóeres reduziram o número de homens que cercavam a cidade, o que deixou lacunas que puderam ser aproveitadas por aqueles que foram obrigados por Baden-Powell a partir.
A Libertação de Mafeking
Enquanto Mafeking resistia resolutamente, mais e mais tropas britânicas chegavam de navio ao Cabo, no extremo sul. Uma coluna móvel de libertação de cerca de 1 150 homens foi enviada para Mafeking sob o comando do Coronel Bryan Mahon. A coluna demorou onze dias a chegar ao posto avançado fustigado, mas a sua chegada iminente foi notada pelos bóeres, que fizeram uma última tentativa desesperada de tomar Mafeking a 12 de maio. Este último assalto, embora tenha ateado fogo a uma parte da cidade, acabou por fracassar, em grande parte porque a força bóer era agora demasiado pequena para a tarefa e os defensores lutaram corajosamente. Mafeking foi finalmente libertada a 17 de maio de 1900; e o cerco tinha durado 217 dias.
A libertação de Mafeking foi amplamente celebrada na Grã-Bretanha aquando da chegada da notícia, a 18 de maio. Em Londres, Birmingham e Edimburgo, «cidadãos ponderados… podiam ser vistos a desfilar pelas ruas, cantando canções patrióticas com toda a força dos seus pulmões, dançando, saltando, gritando num delírio de alegria desenfreada» (Marshall, pág. 53). Uma explicação parcial para a euforia do público face ao destino de uma cidade remota noutro continente prende-se com a sucessão de duras derrotas e com a má imprensa (tanto a nível interno como no estrangeiro) que tinham tido de suportar nos meses anteriores. De facto, o cerco «alcançou uma importância emocional totalmente desproporcionada em relação ao seu significado estratégico» (Knight, pág. 36). As celebrações foram muitas vezes tão desregradas e as ressacas resultantes de tal forma generalizadas que foi cunhado um novo termo para descrever festejos excessivos: "mafficking". Baden-Powell tornou-se um herói nacional e recebia frequentemente ovações de pé sempre que aparecia nos jornais cinematográficos exibidos nos cinemas britânicos.
As Consequências
A decisão de cercar Mafeking e outras cidades sob controlo britânico foi um erro estratégico por parte dos bóeres, visto que deu tempo aos britânicos para trazerem reforços e anulou as óbvias vantagens dos bóeres na condução de um tipo de guerra mais móvel. Em março de 1900, o maior grupo do exército bóer rendeu-se em Paardeberg. Pretória foi abandonada no início de junho. Daí em diante, os bóeres viram-se obrigados a travar uma guerra de guerrilha, à qual os britânicos responderam com controversas táticas de terra queimada e com o internamento de civis em campos de concentração.
A Segunda Guerra dos Bóeres chegou ao fim em maio de 1902 com o Tratado de Vereeniging. A Grã-Bretanha foi a vencedora e assumiu o controlo do Transvaal e do Estado Livre de Orange e, em 1910, ambos os estados — a par da Colónia do Cabo e de Natal, bem como de vários antigos reinos africanos — foram unificados numa única colónia: a União da África do Sul.
