A Primeira Guerra Mundial (1914-18) estimulou uma vasta onda de produção literária, sobretudo no domínio da poesia. Numa época em que a fotografia e o cinema se encontravam ainda na infância, os poemas, especialmente os redigidos por participantes diretos, eram regularmente publicados em jornais, revistas e antologias, servindo como o principal veículo para transmitir ao público na retaguarda o desenrolar da frente de batalha. Nesta coleção, apresentam-se dez poemas que capturam a pluralidade de experiências durante o conflito. No seu conjunto, estas obras transmitem as realidades brutais da guerra, as aspirações frustradas e as mutações irreversíveis impostas às vidas daqueles que sobreviveram.
Todos os poemas transcritos integram a obra The Penguin Book of First World War Poetry (Antologia Penguin de Poesia da Primeira Guerra Mundial), editada por G. Walter.
Herbert Asquith
Herbert Asquith (1881-1947) era filho de Herbert Henry Asquith, o Primeiro-Ministro britânico que liderou o país durante a primeira metade do conflito. Educado em Oxford, Asquith foi incorporado na Artilharia Real de Marinha (Royal Marine Artillery), onde operou baterias antiaéreas. Ferido em combate e enviado para casa no verão de 1915, regressou à frente de batalha um ano mais tarde, vindo a alcançar o posto de capitão.
O Voluntário
Aqui jaz um caixeiro que passou metade da vida
Lidando arduamente com livros de escrita numa cidade cinzenta,
Julgando que assim os seus dias decorreriam
Sem qualquer lança partida no torneio da existência;
Contudo, entre os livros e os seus olhos brilhantes,
As águias reluzentes das legiões surgiram,
E cavaleiros, investindo sob céus fantasmagóricos,
Passaram trovejando sob o estandarte.
E agora esses sonhos expectantes estão satisfeitos;
Do crepúsculo para a aurora imensa ele partiu;
A sua lança está partida; mas repousa contente
Com aquela hora gloriosa em que viveu e morreu.
Ele, que encontrou a sua batalha por derradeiro fado,
E não carece de coche fúnebre para o levar daqui,
Pois vai juntar-se aos homens de Agincourt.
(pág. 154)
Rupert Brooke
Rupert Brooke (1887-1915) serviu na Marinha Real em Antuérpia antes de ser transferido para o exército e participar na desastrosa Campanha de Gallipoli. Formado pela Universidade de Cambridge e tendo viajado anteriormente pelos Estados Unidos e pelo Pacífico Sul, Brooke capturou em poesia os horrores da Grande Guerra. Tendo sobrevivido à guerra de trincheiras, a morte de Brooke foi cheia de ironias: ele sucumbiu à septicemia causada por uma picada de mosquito, falecendo num navio-hospital no Mar Egeu. Escrito em 1914, o seu soneto The Soldier (O Soldado) ficou indelevelmente associado ao conflito, tornando-se, desde então, leitura obrigatória no currículo escolar britânico.
O Soldado
Se eu morrer, pensa apenas isto de mim:
Que existe um recanto num campo estrangeiro
Que será para todo o sempre Inglaterra. Haverá Nessa terra rica, um pó mais rico oculto;
Um pó que a Inglaterra gerou, moldou e despertou,
Que deu, outrora, as suas flores para amar, os seus caminhos para trilhar;
Um corpo da Inglaterra, respirando o ar inglês,
Lavado pelos rios, abençoado pelos sóis da pátria.
E pensa: este coração, despojado de todo o mal,
Um pulsar na mente eterna, nada menos
Devolve, algures, os pensamentos dados pela Inglaterra;
As suas imagens e sons; sonhos felizes como os seus dias;
E o riso, aprendido com amigos; e a bonomia,
Em corações em paz, sob um céu inglês.
(pág. 108)
Wilfred Owen
Wilfred Owen (1893-1918) alistou-se no Exército Britânico em 1915, sofreu de neurose de guerra na Frente Ocidental e, após regressar ao combate, foi condecorado com a Cruz Militar, vindo a sucumbir apenas uma semana antes do armistício com a Alemanha, aos 25 anos. A sua obra poética foi publicada postumamente com grande aclamação, consagrando-o como um dos mais proeminentes poetas de guerra.
Hino à Juventude Condenada
Que sinos dobram por quem morre como o gado?
Apenas a raiva monstruosa da artilharia.
Apenas o gaguejar célere das espingardas
Pode matraquear as suas preces apressadas.
Para eles não há escárnio, nem orações, nem sinos;
Nem vozes de luto, salvo o coro dos obuses
O coro estridente e demente das granadas em pranto;
E as cornetas chamando por eles em tristes condados.
Que velas se acenderão para os encomendar?
Não nas mãos dos rapazes, mas nos seus olhos
Brilharão os santos clarões das despedidas.
A palidez nas frontes das raparigas será o seu manto;
As suas flores, a ternura de mentes pacientes;
E cada crepúsculo lento, um fechar de persianas.
(pág. 131)
Edgell Rickword
Edgell Rickword (1898-1982) alistou-se aos 18 anos e ganhou a Cruz Militar em 1917. A guerra de Rickword terminou quando perdeu um olho e foi dispensado por invalidez; mais tarde, teve uma carreira de destaque como jornalista político.
Guerra e Paz
Nas trincheiras encharcadas, ouvi homens falar,
Embora entorpecidos e miseráveis, de coisas sábias e espirituosas;
E amei-os pela teimosia que se agarra
Ao riso por mais tempo, quando as roldanas da morte rangem;
E, vendo enfermeiras frias moverem-se com pés incansáveis,
Fazer coisas abomináveis com graciosidade,
Considerava-as doces irmãs naquele lugar assombrado
Onde, com vozes de criança, homens fortes uivam ou balem.
Mas agora esses homens abandonam a coragem teimosa,
Viajando com olhos baços e em silêncio no comboio
Para os bancos dos velhos; ou vendem meias coloridas
E escutam com pavor a Morte; por isso eu
Amo as raparigas de riso contido, que agora novamente
Caminham com delicadeza, em vestidos finos e floridos.
(pág. 249)
Robert Graves
Robert Graves (1895-1985) nasceu em Londres e serviu na Frente Ocidental antes de ser dispensado por motivos de saúde. Graves tornou-se professor de poesia no Cairo, Maiorca e Oxford, e escreveu sobre as suas experiências durante a guerra no famoso livro Adeus a Tudo Isso (título original Goodbye to All That) publicado em 1929.
A última chamada
O corneteiro entoou uma melodia romântica —
«Apaguem as luzes! Apaguem as luzes!» para a praça deserta.
Nas notas finas e audazes, lançou uma prece:
«Deus, se for esse o fado que me aguarda em França...
Poupai a corneta fantasma enquanto eu jazer
Morto entre o gás, o fumo e o rugido das armas,
Morto em fileira com os outros estilhaçados,
Jazendo tão hirtos e imóveis sob o céu,
Jovens fuzileiros alegres, bons demais para morrer.»
(pág. 38)
Eva Dobell
Eva Dobell (1867-1973) viajou pela Europa e África antes de servir como enfermeira durante a guerra, e, após, trabalhou como autora infantil.
Em A Soldier's Hospital I: Fibra (Pluck)
Aleijado para a vida aos dezassete anos,
Os seus grandes olhos parecem questionar o porquê:
Com ambas as pernas esmagadas, talvez tivesse sido
Melhor morrer naquela trincheira sombria
Do que arrastar anos mutilado e indefeso.
Uma criança — tão definhada e tão pálida,
Ele mentiu para conseguir o que desejava:
Marchar, um homem entre homens, e lutar
Enquanto outros rapazes ainda brincam.
Uma mentira galante, dirá o vosso coração.
Tão quebrado pela dor, ele encolhe-se de medo
Ao ver o enfermeiro aproximar-se para o penso;
E enrola os lençóis em torno da cabeça
Para que ninguém veja o seu pavor lancinante.
Ouvem-se os seus soluços trêmulos e sufocados.
Mas quando o momento temido chega,
Ele enfrenta-nos, ainda um soldado,
Observa as suas feridas expostas com ar impassível,
(Embora as suas pestanas denunciadoras ainda estejam húmidas)
E fuma o seu cigarro de madeira.
(pág. 207)
Gilbert Frankau
Gilbert Frankau (1884-1954) nasceu em Londres e frequentou Eton. Tendo viajado extensivamente antes da guerra, serviu na França e na Itália até ser ferido e enviado para casa em 1918. Frankau serviu na Força Área Real (RAF) durante a Segunda Guerra Mundial e foi um romancista prolífico.
O Desertor
«Sinto muito por ter feito isto, Major»,
Nós vendámos-lhe o rosto lívido;
E levámo-lo, antes do pálido sol nascer,
Para morrer em desgraça.
As culatas trancadas nos cartuchos;
As espingardas firmemente apoiadas,
Enquanto a coronha fria se aninhava na face ainda mais fria
E a mira se alinhava com o peito.
«Fogo!», gritou o sargento-ajudante.
Os canos dispararam mal ele falou:
E a alma sem vergonha de um homem sem nome
Elevou-se no fumo da cordite.
(pág. 163)
Siegfried Sassoon
Siegfried Sassoon (1886-1967) foi nomeado segundo-tenente dos Fuzileiros Reais de Gales (Royal Welch Fusiliers). Lutou na Frente Ocidental e ganhou a Cruz Militar, mas foi dispensado por invalidez em abril de 1917. Sassoon voltou à ação na França e no Oriente Médio e terminou a guerra com o posto de capitão.
Eles
O Bispo diz-nos: «Quando os rapazes regressarem,
Já não serão os mesmos; pois terão combatido
Por uma causa justa: eles lideraram o derradeiro ataque
Contra o Anticristo; o sangue dos seus camaradas comprou
Um novo direito de criar uma estirpe honrada;
Desafiaram a Morte e encararam-na face a face.»
«Nenhum de nós é o mesmo!», respondem os rapazes.
«Pois o George perdeu ambas as pernas; e o Bill está cego de todo;
O pobre Jim levou um tiro nos pulmões e está às portas da morte;
E o Bert apanhou sífilis: não encontrará
Um rapaz que tenha servido e não tenha sofrido mudança.»
E o Bispo disse: «Os caminhos de Deus são misteriosos!»
(pág. 205)
G. K. Chesterton
O jornalista e romancista inglês G. K. Chesterton (1874-1936) é principalmente conhecido pelas suas histórias do detetive 'Padre Brown'.
Elegia num cemitério rural
Os homens que trabalharam pela Inglaterra
Têm os seus túmulos no lar;
E as abelhas e os pássaros da Inglaterra
Podem em torno da cruz voar.
Mas aqueles que lutaram pela Inglaterra,
Seguindo uma estrela cadente,
Ai, ai pela Inglaterra,
Têm os seus túmulos em terra ausente.
E aqueles que governam na Inglaterra,
Reunidos em majestoso conclave,
Ai, ai pela Inglaterra,
Ainda não têm sepultura.
(pág. 245)
Charlotte Mew
Charlotte Mew (1869-1928) foi uma poetisa inglesa admirada por muitas figuras literárias notáveis, incluindo o autor britânico Thomas Hardy. Mew foi diagnosticada com neurastenia e suicidou-se em 1928.
Maio de 1915
Lembremo-nos de que a primavera voltará
Às florestas queimadas e enegrecidas, onde as árvores feridas
Esperam, com a sua antiga e sábia paciência, pela chuva do céu,
Certas do firmamento: certas de que o mar enviará a
sua brisa
curativa,
Certas do sol. E, quanto a estes,
Certamente a Primavera, quando Deus quiser,
Virá de novo, como uma surpresa divina,
Para aqueles que hoje se sentam com os seus
grandes mortos, mãos nas
Mãos, olhos nos olhos,
Em união com o Amor, em união com a Dor: cegos para as coisas dispersas e para os céus mutáveis.
(pág. 204)
