O Coronel José Enrique de la Peña (1807-1840) foi um oficial do exército mexicano durante a Revolução do Texas, em 1836; esteve presente durante o cerco ao Álamo, participou na Batalha do Álamo e retirou-se do Texas após o Presidente e General Antonio López de Santa Anna ter sido derrotado e capturado na Batalha de San Jacinto.
Peña manteve um diário durante a Campanha do Texas de 1836 e continuou-o até 1838, altura em que foi preso por apoiar uma revolta do General José de Urrea - o oficial que alcançou muito mais vitórias nas batalhas da Revolução do Texas do que Santa Anna. Peña, tal como Urrea, culpava Santa Anna pela perda do Texas, algo que deixa bem claro no seu diário. Cumpriu dois anos de pena e em 1840 foi libertado da prisão, com a saúde debilitada, parecendo ter morrido pouco tempo depois.
O Diário de Peña
O diário de Peña foi guardado após a sua morte (desconhece-se onde) e reapareceu em 1955, quando foi autopublicado por um certo Jesús Sanchez Garza, que nunca revelou onde tinha obtido o manuscrito nem onde este teria estado desde cerca de 1840. Publicada em espanhol, no México, em 1955, a obra não recebeu qualquer atenção por parte dos académicos de língua inglesa, que nem sequer sabiam da sua existência.
A obra foi traduzida para inglês em 1975 por Carmen Perry e publicada pela Texas A&M University Press sob o título Com Santa Anna no Texas: Uma Narrativa Pessoal da Revolução. O livro foi imediatamente recebido com polémica, sobretudo devido à afirmação de que David Crockett não morreu a combater até ao fim nas muralhas do Álamo, mas que foi capturado e executado, por ordem de Santa Anna, logo de seguida.
Vários académicos tentaram desmascarar a obra como sendo um embuste mas, em outubro de 2001, o Professor David B. Gracy II, da Escola Superior de Biblioteconomia e Ciências da Informação da Universidade do Texas em Austin, juntamente com a sua equipa, estabeleceu a sua autenticidade, declarando que o manuscrito "é, de facto, aquilo que se pretende que seja" (Crisp pág. 102).
O que se segue é o relato de Peña sobre a Batalha do Álamo, desde o início do assalto à fortaleza na escuridão que precedeu a aurora de 6 de março de 1836, até ao fim das hostilidades cerca de uma hora mais tarde. Esta secção da obra surge imediatamente antes do relato de Peña sobre a morte de David Crockett no Álamo (abordada num artigo à parte) e inclui a morte de William Barret Travis, o comandante da guarnição.
A passagem oferece um relato único, na primeira pessoa, da Batalha do Álamo sob a perspetiva de um soldado que recebeu ordens para se juntar ao assalto a uma posição que poderia ter sido facilmente tomada com muito menos derramamento de sangue. Os oficiais de Santa Anna tinham instado vivamente o seu comandante-em-chefe a esperar alguns dias pela chegada de canhões de maior calibre, que teriam reduzido as muralhas do Álamo a escombros sem arriscar as vidas dos soldados; contudo, Santa Anna afirmava que uma vitória sem derramamento de sangue não teria honra.
Peña foi extremamente crítico em relação à conduta de Santa Anna durante a Revolução do Texas, mas especialmente quanto à sua decisão de enviar as tropas contra o Álamo num assalto desnecessário. As forças mexicanas perderam entre 400 a 600 homens no ataque, e muitos mais morreram posteriormente devido aos ferimentos, uma vez que Santa Anna pouco ou nenhum pessoal médico providenciara. Embora Santa Anna se tenha congratulado por uma vitória retumbante, o seu estado-maior e outros elementos do exército, incluindo Peña, consideraram-na um trágico desperdício de vidas.
O Texto
O excerto seguinte foi retirado da obra Com Santa Anna no Texas: Uma Narrativa Pessoal da Revolução, (With Santa Anna in Texas: A Personal Narrative of the Revolution tradução inglesa de La Rebelión de Texas: Manuscrito Inédito de 1836 por un Ofidial de Santa Anna) de José Enrique de la Peña, traduzida do espanhol e editada por Carmen Perry, publicada pela Texas A&M University Press, 1975, págs. 48-52. A narrativa tem início no momento em que as colunas mexicanas convergem sobre o Álamo, nas primeiras horas de 6 de março de 1836.
As colunas, que assaltavam a fortaleza com bravura sob uma terrível chuva de balas e fogo de artilharia, tinham alcançado a base das muralhas, com exceção da terceira, que fora severamente fustigada no seu flanco esquerdo por uma bateria de três canhões instalada numa barbeta, a qual abriu uma brecha profunda nas fileiras; uma vez que estava a ser atacada frontalmente, e ao mesmo tempo, a partir de uma posição elevada, foi forçada a procurar uma entrada menos sangrenta, mudando assim o seu curso em direção ao ângulo reto da fachada norte.
As poucas e parcas escadas que trazíamos não tinham chegado, pois os seus portadores tinham perecido pelo caminho ou tinham escapado. De todas as que tinham sido planeadas, apenas uma foi avistada. O General Cos, procurando um ponto de partida por onde subir, tinha avançado frontalmente com a sua coluna até ao local onde se encontravam a segunda e a terceira. Todas se uniram num só ponto, misturando-se e formando uma massa confusa.
Felizmente, o reforço da muralha nesta fachada era de madeira, a sua escavação mal tinha começado e a altura do parapeito era de oito ou nove pés; havia, portanto, um ponto de partida por onde se podia subir, embora com alguma dificuldade. Mas a desordem já se instalara; oficiais de todas as patentes gritavam, mas mal se ouviam.
Os mais ousados dos nossos veteranos tentavam ser os primeiros a subir, o que conseguiram, gritando desenfreadamente para que lhes abrissem espaço, por vezes trepando por cima dos seus próprios camaradas. Outros, apinhados, faziam esforços inúteis, obstruindo-se mutuamente, estorvando os mais ágeis e empurrando para baixo aqueles que estavam prestes a concretizar o seu corajoso esforço.
Um fogo vivo de fuzilaria vindo do telhado do quartel e de outros pontos causava estragos dolorosos, aumentando a confusão da nossa massa desordenada. Os primeiros a subir eram projetados para baixo pelas baionetas que já os esperavam atrás do parapeito, ou por tiros de pistola; contudo, a coragem dos nossos soldados não esmorecia ao verem os seus camaradas cair mortos ou feridos, e apressavam-se a ocupar os seus lugares para os vingar, trepando por cima dos seus corpos ensanguentados.
Os estalidos secos das espingardas, os sibilarem das balas, os gemidos dos feridos, as pragas dos homens, os suspiros e gritos angustiados dos moribundos, as arengas arrogantes dos oficiais, o ruído dos instrumentos de guerra e os gritos desmedidos dos atacantes, que subiam vigorosamente, atordoavam tudo e todos, tornando este momento tremendo e crítico. O clamor daqueles que estavam a ser atacados não era menos ruidoso e, desde o início, tinha-nos perfurado os ouvidos com gritos de alarme desesperados e terríveis, numa língua que não compreendíamos.
Do seu ponto de observação, o General Santa Anna via com preocupação esta cena horrível e, induzido em erro pelas dificuldades encontradas na escalada das muralhas e pela manobra executada pela terceira coluna, acreditou que estávamos a ser repelidos; ordenou, portanto, ao Coronel Amat que avançasse com o resto das reservas; o Batalhão de Sapadores, que já recebera ordens para movimentar a sua coluna de ataque, chegou e começou a subir ao mesmo tempo.
Ordenou então que entrassem também em combate o seu estado-maior e todos os que se encontravam ao seu lado. A galante reserva limitou-se a aumentar o ruído e o número de vítimas, o que é tanto mais lamentável quanto não havia necessidade de esta se envolver no combate. Antes que o Batalhão de Sapadores, avançando sob uma chuva de balas e uma descarga de metralha, tivesse oportunidade de alcançar o sopé das muralhas, metade dos seus oficiais já havia sido ferida.
Outro desses oficiais, o jovem Torres, morreu no interior da fortaleza no preciso momento em que tomava uma bandeira [a bandeira dos New Orleans Greys, a única que se sabe ter flutuado sobre o Álamo]. Morreu de um só golpe, sem proferir uma palavra, coberto de glória e pranteado pelos seus camaradas…
Tinha decorrido um quarto de hora, durante o qual os nossos soldados permaneceram numa situação terrível, exaurindo-se enquanto subiam em busca de uma morte menos obscura do que aquela que lhes era visitada, amontoados numa massa única; mais tarde, e após grande esforço, conseguiram em número suficiente alcançar o parapeito, sem distinção de patentes.
Os defensores, aterrorizados, retiraram-se de imediato para os alojamentos situados à direita e à esquerda da pequena área que constituía a sua segunda linha de defesa. Tinham trancado e reforçado as portas mas, para formarem trincheiras, tinham escavado alguns locais no interior que agora lhes serviam de estorvo. Nem todos se refugiaram, pois alguns permaneceram em campo aberto, observando-nos antes de disparar, como que atónitos perante a nossa ousadia.
Viu-se Travis hesitar, mas não quanto à morte que escolheria. Dava alguns passos e parava, voltando o seu rosto altivo para nós para descarregar os seus tiros; lutou como um verdadeiro soldado. Finalmente, morreu, mas morreu após ter vendido muito cara a sua vida. Nenhum dos seus homens morreu com maior heroísmo, e todos eles morreram. Travis portou-se como um herói; deve fazer-se-lhe justiça, pois com um punhado de homens sem disciplina, resolveu enfrentar homens habituados à guerra e muito superiores em número, sem mantimentos, com escassas munições e contra a vontade dos seus subordinados. Era um loiro elegante, com um físico tão robusto quanto o seu espírito era forte.
Entretanto, o Coronel Morelos com os seus caçadores, tendo cumprido as instruções recebidas, encontrava-se mesmo à nossa frente, a poucos passos de distância e, temendo com razão que o nosso fogo o atingisse, refugiara-se nas trincheiras que tinha conquistado, tentando infligir danos ao inimigo sem nos prejudicar. Foi uma sorte que as outras colunas se tivessem conseguido unir numa única frente, pois, devido à reduzida área, pôde evitar-se parcialmente que nos dizimássemos uns aos outros; não obstante, alguns dos nossos homens sofreram a dor de cair sob disparos feitos pelos seus próprios camaradas — uma ferida deveras penosa e uma morte ainda mais lamentável.
Os soldados tinham sido sobrecarregados com munições, pois tanto as reservas como todas as companhias de elite transportavam sete cartuchos cada. Ao que parece, o intuito era transmitir ao soldado que não deveria fiar-se na sua baioneta — a arma geralmente empregue em assaltos, enquanto alguns caçadores apoiam os atacantes com o seu fogo; contudo, cometem-se sempre erros nestas ocasiões, impossíveis de remediar. Não resta outro consolo senão o arrependimento por parte dos responsáveis nesta ocasião, e foram muitos.
Os nossos soldados, uns estimulados pela coragem e outros pela fúria, irromperam pelos alojamentos onde o inimigo se entrincheirara e dos quais saía um fogo infernal. Atrás destes vinham outros que, aproximando-se das portas e cegos pela fúria e pelo fumo, disparavam contra amigos e inimigos de igual modo, e desta forma as nossas perdas foram pesadíssimas. Por outro lado, voltaram os próprios canhões do inimigo para abater as portas dos quartos ou os próprios aposentos; seguiu-se uma carnificina horrível e alguns morreram esmagados.
O tumulto era imenso, a desordem espantosa; parecia que as fúrias tinham descido sobre nós; diferentes grupos de soldados disparavam em todas as direções, sobre os seus camaradas e sobre os seus oficiais, de tal modo que era tão provável morrer por uma mão amiga como por uma inimiga. No meio deste estrondo troante, a confusão era tal que as ordens não podiam ser compreendidas, embora quem comandava levantasse a voz sempre que surgia a oportunidade.
Alguns poderão acreditar que esta narrativa é exagerada, mas aqueles que foram testemunhas confessarão que a mesma é exata e, na verdade, qualquer moderação ao relatá-la ficaria aquém da realidade.
Era, pois, tempo de pôr fim à confusão que aumentava o número das nossas vítimas e, sob o meu conselho e por minha insistência, o General Cos ordenou o cessar-fogo; contudo, o corneteiro Tamayo, do corpo de sapadores, tocou em vão o seu instrumento, pois a fuzilaria não cessou enquanto não restou ninguém para matar e esgotaram-se cerca de cinquenta mil cartuchos…
Entre os defensores contavam-se trinta ou mais colonos; os restantes eram piratas, habituados a desafiar o perigo e a desdenhar a morte, e que por esse motivo lutaram com coragem; a sua bravura, a meu ver, tornava-os merecedores da clemência pela qual, já perto do fim, alguns clamaram; outros, desconhecendo a língua, não o puderam fazer. De facto, quando estes homens notaram a perda do seu líder e viram que estavam a ser atacados por forças superiores, vacilaram.
Alguns, com um sotaque mal inteligível, gritavam desesperadamente: "Mercê, valentes mexicanos"; outros enfiavam as pontas das suas baionetas através de um buraco ou de uma porta com um pano branco, o símbolo do cessar-fogo, e alguns usaram mesmo as suas meias. Os nossos soldados, confiantes, ao verem estas demonstrações, entravam desprevenidos nos seus alojamentos; porém, aqueles de entre o inimigo que não tinham suplicado mercê, que não pensavam em render-se e que não contavam com outro recurso senão vender as suas vidas bem caras, recebiam-nos com tiros de pistola e baionetas.
Traídos desta forma, os nossos homens reanimaram a sua cólera e, a cada instante, eclodiam novas escaramuças com uma fúria renovada. Fora dada ordem para não poupar ninguém salvo as mulheres, e assim se cumpriu; mas tal carnificina foi inútil e, caso a tivéssemos evitado, teríamos poupado muito sangue do nosso lado.
Aqueles de entre o inimigo que tentaram escapar caíram vítimas dos sabres da cavalaria, que fora destacada para esse efeito; contudo, mesmo em fuga, defendiam-se. Viu-se um pai infeliz, com um filho jovem nos braços, atirar-se de uma altura considerável, perecendo ambos no mesmo instante.
Esta cena de extermínio prolongou-se por uma hora até que a cortina da morte a cobriu e encerrou; pouco depois das seis da manhã, tudo terminara; os corpos começavam a reagrupar-se e a identificar-se, revelando nos seus semblantes pesarosos as perdas nas fileiras raleadas de oficiais e camaradas, quando surgiu o comandante-em-chefe.
Ele pôde ver por si mesmo a desolação entre os seus batalhões e aquela área devastada juncada de cadáveres, de membros decepados e balas, de armas e uniformes rasgados. Alguns destes ardiam juntamente com os cadáveres, o que produzia um odor insuportável e nauseabundo.
Os corpos, com os seus rostos enegrecidos e ensanguentados, desfigurados por uma morte desesperada, com os cabelos e uniformes a arder em simultâneo, apresentavam uma visão medonha e verdadeiramente infernal. Que troféus — os do campo de batalha!
Pouco depois, alguns dos corpos jaziam nus, uns devido ao fogo, outros pela rapacidade ignominiosa, especialmente entre os nossos homens. O inimigo distinguia-se pela brancura da pele e pela sua compleição robusta e corpulenta. Que espetáculo desolador, o dos mortos e moribundos! Que horror, percorrer o local e encontrar os despojos de amigos! Com que ansiedade uns procuravam pelos outros e com que êxtase se abraçavam! As perguntas sucediam-se, mesmo quando as balas ainda sibilavam em redor, por entre os gemidos dos feridos e os últimos suspiros dos que expiravam.
