O cerco de 13 dias e a Batalha do Álamo, de 23 de fevereiro a 6 de março de 1836, estão entre os mais famosos da história americana, mas, como qualquer evento deste tipo, inspiraram vários mitos, muitos dos quais aceites como factos históricos. A minissérie Davy Crockett da Disney (1954-1955), e especialmente Davy Crockett no Álamo, e a longa-metragem de John Wayne, O Álamo ( 1960), popularizaram muitos destes mitos, uma vez que ambos foram frequentemente a primeira introdução das pessoas à história do Álamo.
Os argumentistas, tanto da minissérie como do filme, não estavam, decerto, a inventar acontecimentos, mas limitavam-se a replicar o que entendiam ser a história factual. Entre estes mitos figura um que é ainda, frequentemente, alvo de acesa contestação: o de que Davy Crockett teria morrido a combater nas muralhas do Álamo. De acordo com o coronel mexicano José Enrique de la Peña (1807-1840), presente na batalha, Crockett encontrava-se entre aqueles que se renderam e foram executados a 6 de março de 1836. Embora esta tese tenha sido refutada quando as memórias de de la Peña (Com Santa Anna no Texas: Uma Narrativa Pessoal da Revolução,- La Rebelión de Texas: Manuscrito Inédito de 1836 por un Ofidial de Santa Anna) foram publicadas pela primeira vez em 1955, o rumor de que Crockett se teria rendido circulava já em março ou abril de 1836, tendo esta versão passado a ser mais amplamente aceite como factual por académicos e historiadores contemporâneos.
Outros mitos adquiriram uma pátina de facto histórico através da propaganda escrita sobre o cerco e a batalha, desde o século XIX até meados do século XX, ao passo que outros resultam de invenções mais recentes. Por exemplo, o episódio The Most Shocking Place in Texas – Real Alamo Ghost Stories, do canal de YouTube Shocking Ghost Stories, sustenta que a sala onde Jim Bowie pereceu no Álamo é hoje assombrada pelo seu espectro. Tal é impossível — pela simples razão de que essa sala já não existe. O aposento de Bowie situava-se no quartel baixo, no flanco norte da capela, e essa estrutura foi demolida em 1871. Este mito não é uma criação recente do referido canal: em 2004, quando me encontrava no Álamo, uma visitante interpelou-me sobre a localização do quarto de Jim Bowie, na esperança de avistar o seu fantasma.
Um mito do Álamo, oriundo diretamente do filme de John Wayne, sustenta que o exército mexicano possuía um canhão de grande calibre e longo alcance, o qual os defensores do Álamo teriam tido de destruir numa incursão furtiva. Enquanto docente, li trabalhos de alunos que afirmavam tratar-se do «maior canhão da América do Norte», porém, tal peça de artilharia nunca existiu. Na verdade, todos os canhões das forças mexicanas no Cerco do Álamo eram de 4 ou 8 libras. Os oficiais de Santa Anna instaram-no a aguardar a chegada dos canhões de 12 libras — de maior calibre — em vez de lançar o assalto de 6 de março, mas, como é sabido, o General não lhes deu ouvidos.
A seguir estão alguns dos mitos mais conhecidos em torno do Álamo – embora esta lista não seja, de forma alguma, exaustiva.
O Álamo foi Construído como um Forte
Embora o Álamo tenha vindo a ser utilizado como fortificação, foi erguido pelos espanhóis em 1718 como uma missão católica — conhecida por Misión San Antonio de Valero — com o intuito de converter os nativos americanos ao catolicismo. A célebre capela que hoje identificamos como o Álamo foi construída em 1758, aquando da expansão do complexo para uma área de 1,2 hectares. Arquitetonicamente, o edifício deveria assemelhar-se à Catedral de San Fernando, incorporando cúpula e torres de sinos, embora apenas os dois registos inferiores tenham sido efetivamente edificados.
A missão foi secularizada em 1793 e, após um período de abandono, passou a ser utilizada em 1803 pelo exército espanhol — a Segunda Companhia Volante de San Carlos de Parras — como fortificação. Foi esta companhia que atribuiu ao complexo da missão a designação de Álamo, em alusão aos álamos que cresciam nas imediações. Após o México ter conquistado a independência de Espanha em 1821, o Álamo serviu como complexo militar mexicano até dezembro de 1835, data em que o General Cos o rendeu aos texanos. Estes estabeleceram ali uma guarnição e mantiveram a sua posse até à retoma por Santa Anna na Batalha do Álamo.
A Batalha do Álamo foi Considerada uma Grande Vitória pelos Mexicanos
Os efectivos das forças mexicanas no Álamo oscilavam entre os 1500 e os 3000 homens, ao passo que os defensores totalizavam entre 187 e 250 elementos. Conquanto o número de baixas entre as forças mexicanas varie, este é habitualmente fixado em cerca de 600. Santa Anna considerou a sua vitória no Álamo um êxito retumbante, todavia, tal sentimento não era perfilhado pela totalidade dos seus oficiais, soldados de fileira ou recrutas. De la Peña escreveu:
Por que razão, antes de se anuir ao sacrifício [da batalha], que foi de facto imenso, ninguém ponderara que não dispúnhamos de meios para salvar os nossos feridos? Por que motivo foram as nossas vidas inutilmente sacrificadas num país deserto e totalmente hostil, se as nossas baixas não podiam ser repostas? A estas reflexões seguiram-se outras, mais ou menos fundamentadas, pois a tomada do Álamo não foi considerada um evento auspicioso, mas antes uma derrota que a todos nos entristeceu.
(pág. 55)
Devido à disposição das colunas mexicanas durante o assalto de 6 de março, inúmeros soldados pereceram vítimas de fogo amigável, uma vez que as fileiras recuadas disparavam contra as precedentes na escuridão que antecedia o alvorecer. Santa Anna não providenciara corpo clínico, o que resultou na morte de muitos feridos cujas lesões não seriam, de outro modo, fatais. O estado-maior de Santa Anna tentara persuadi-lo a aguardar a chegada da artilharia pesada, a qual tornaria o assalto desnecessário; contudo, o General considerava que uma vitória sem derramamento de sangue careceria de honra.
A Guarnição do Álamo não Gostava de Travis
Embora as adaptações cinematográficas do Cerco do Álamo retratem habitualmente William Barret Travis como uma figura distante ou autoritária, ele era, na realidade, bastante sociável e estimado pelos seus pares. Travis fora a figura central nas Perturbações de Anahuac de 1832 e 1835, razão pela qual granjeara o respeito dos demais defensores. Todavia, persiste o mito de que a guarnição nutria antipatia por Travis, apontando como prova o facto de os homens terem votado em Jim Bowie para seu comandante.
Não se tratava de uma animosidade pessoal contra Travis; a questão residia no facto de, na qualidade de voluntários, estes se oporem a ser comandados por alguém oriundo do exército regular, tal como observa o académico William C. Davis:
Ao passo que uma companhia declarou aceitar [Travis] como seu comandante, duas outras deixaram claro que se opunham a ser por ele comandadas; isto porque Travis pertencia ao exército regular, ao passo que aquelas tinham servido, desde o outubro anterior, num exército que elegera popularmente o seu próprio comandante.
(pág. 518)
Travis e Bowie concordaram num comando conjunto, mas tudo isto se tornou irrelevante a 24 de fevereiro, quando Bowie adoeceu e Travis se tornou o comandante da guarnição.
A Batalha ganhou Tempo para Sam Houston
Este é mais um dos mitos popularizados pelo filme de John Wayne, o qual sustenta que Travis e os demais necessitavam de reter o Álamo o máximo de tempo possível para conceder a Houston o tempo de organizar um exército. Na realidade, entre meados de janeiro e o início de março, Houston nada fizera para estruturar uma força militar. Fora nomeado comandante-geral do exército regular em novembro de 1835, contudo, dispunha de poucos soldados regulares sob o seu comando e carecia de autoridade sobre a milícia de voluntários. Entre janeiro e março, Houston tratou de outros negócios, de questões de foro pessoal e participou na convenção do governo provisório em Washington-on-the-Brazos.
A batalha foi travada porque o Álamo fôra fortificado pelos texanos após o General Cos, cunhado de Santa Anna, ter sido derrotado no Cerco de Béxar em dezembro de 1835. Jim Bowie, enviado em janeiro de 1836 com ordens para destruir a missão, considerou que esta poderia ser um trunfo para a causa texana e insistiu na sua manutenção. Santa Anna, por seu turno, pretendia vingar a afronta à honra da sua família, razão pela qual marchou sobre o Álamo. Poderia ter facilmente prolongado o cerco até que os defensores esgotassem as munições e provisões ou, como já referido, aguardado a chegada da artilharia pesada para bombardear a guarnição até à rendição.
O exército que Houston liderou em San Jacinto era composto pelos homens que este encontrara em Gonzales a 11 de março — os quais aguardavam que o Coronel Fannin os conduzisse ao Álamo — e por outros que se lhes juntaram posteriormente para vingar os que haviam tombado no Álamo e no Massacre de Goliad. Houston não procedeu ao recrutamento activo de nenhum destes efectivos.
O Coronel Fannin foi Emboscado a Caminho do Álamo
O Coronel James W. Fannin comandava 320 homens no Fort Defiance, em Goliad, e, atendendo ao apelo de Travis por reforços no Álamo, reuniu a sua tropa para iniciar a marcha a 25 ou 26 de fevereiro. Contudo, ainda à vista do Fort Defiance, uma carroça avariou-se e teve de ser reparada, seguindo-se a quebra de outras duas. Os bois não tinham força suficiente para rebocar os canhões através do rio, pelo que Fannin ordenou aos seus homens que acampassem para pernoitar.
Na manhã seguinte, depararam-se com a fuga dos bois, que se tinham dispersado, pelo que Fannin convocou um conselho para deliberar sobre como deveriam proceder. Dispunham de pouca munição, quase nenhumas provisões e, agora, careciam de bois para puxar as carroças. Ser-lhes-ia impossível levar a artilharia, uma vez que não conseguiam atravessar o rio com os canhões. Por conseguinte, Fannin ordenou aos homens que dessem meia-volta e regressassem ao Fort Defiance.
Estes homens, e outros que se juntaram à guarnição, viriam a ser derrotados pelas forças mexicanas sob o comando do General José de Urrea na Batalha de Coleto Creek, a 19 e 20 de março, sendo posteriormente executados por fuzilamento a 27 de março. Contudo, um pequeno grupo ignorou as ordens de Fannin em fevereiro e prosseguiu viagem até ao Álamo, onde pereceu com os demais.
A Linha de Travis na Areia
Este «mito» não é tanto um mito, mas sim um relato não corroborado que se tornou um facto histórico. Segundo a lenda, a 5 de março, William Barret Travis informou a guarnição do Álamo de que estava iminente um ataque e que a sua posição era insustentável. Traçou então uma linha na areia do pátio do Álamo com a sua espada e pediu a qualquer homem que quisesse ficar ao seu lado para defender o forte que a atravessasse. Todos os homens presentes, exceto um, Moses Rose, assim o fizeram. Diz-se que Jim Bowie, doente num catre, pediu a alguns dos seus homens que o carregassem para atravessar a linha. Moses Rose saltou então as muralhas e escapou.
Rose, segundo a lenda, contou a história mais tarde à família Zuber, que publicou o relato em 1873. Susanna Dickinson, casada com Almaron Dickinson, o oficial de artilharia do Álamo que sobreviveu à batalha, relatou que Travis, de facto, discursou à guarnição antes da batalha, mas nunca mencionou que tivesse traçado a linha na areia. Joe, o escravo de Travis, também nunca menciona a linha traçada no seu relato do cerco. Ainda assim, esta história tornou-se central na tradição do Álamo e, no Sítio Histórico do Álamo, hoje em dia, pode ver-se uma linha metálica e uma placa na frente a comemorar o local onde Travis traçou a linha.
Não Houve Sobreviventes
Todos os defensores do Álamo foram mortos na batalha ou executados imediatamente a seguir, contudo sobreviveram cerca de 15 não combatentes. Entre estes estavam o escravo de Travis, Joe, Susanna Dickinson e a filha bebé Angelina, Ana Salazar Esparza e os filhos, e Brigido Guerrero, um soldado mexicano que tinha desertado para lutar pelos texanos e que, durante a batalha, convenceu os soldados mexicanos de que tinha sido feito prisioneiro.
Moses Rose escapou do Álamo antes do início da batalha e, por isso, não é tecnicamente um «sobrevivente», embora seja normalmente contado entre eles. Juan Sequin também entra na contagem dos sobreviventes, apesar de ter partido do Álamo a 25 de fevereiro para reunir reforços.
Davy Crockett era um dos Comandantes
Houve apenas dois comandantes no Álamo — William B. Travis e James 'Jim' Bowie — contudo, devido em larga medida à representação mediática de David 'Davy' Crockett como 'Coronel Crockett', consolidou-se o mito de que este seria também um co-comandante. O académico William C. Davis observa:
Havia apenas dois candidatos óbvios [para comandante]. Alguns dos voluntários queriam que Crockett aceitasse o cargo. Afinal, ele era o «Coronel» Crockett e tinha experiência de guerra, sobre a qual a maioria deles, sem dúvida, tinha ouvido versões muito exageradas nos últimos anos. no entanto, quando o abordaram ele recusou.
(pág. 519)
Jim Bowie foi Ferido Durante o Cerco
Na obra cinematográfica de John Wayne, O Álamo, Jim Bowie é recorrentemente retratado como tendo sido ferido em combate e transportado para os seus aposentos no quartel baixo, onde seria mais tarde morto pelas tropas mexicanas. Na realidade, Bowie desempenhou um papel muito pálido no Cerco do Álamo, visto ter adoecido — provavelmente com tuberculose — a 24 de fevereiro, apenas um dia após o início do cerco. A partir desse momento, permaneceu acamado. Existem relatos divergentes sobre a sua morte, que variam entre o suicídio ou o ter sido arrastado do seu quarto e executado. A maioria dos académicos crê que terá morrido a combater a partir do seu leito, mas não existem provas de que tenha sido ferido em algum momento durante os treze dias de cerco.
Todos os Defensores do Álamo eram Anglo-Americanos
A maioria dos defensores do Álamo era composta por anglo-americanos oriundos dos Estados Unidos; contudo, contavam-se também entre eles defensores tejanos que perfilhavam a mesma causa. De entre estes, destacavam-se Juan Seguín, Juan Abamillo, Gregorio Esparza — cujo irmão servia no exército de Santa Anna —, José Maria Guerrero e José Toribio Losoya.
Desde a Batalha de Gonzales, em 2 de outubro de 1835, até à Batalha de San Jacinto, em 21 de abril de 1836, muitos tejanos lutaram pela causa texana, contudo depois de conquistada a independência do México, a situação não lhes foi benéfica. Os anglo-americanos tomaram as terras dos tejanos e, em geral, desconfiavam deles. Juan Sequin, que tinha nascido em San Antonio de Béxar, serviu no Álamo e liderou os seus homens em San Jacinto, foi expulso de casa com a sua família pelos anglo-americanos e viria mais tarde a lutar pela causa mexicana na Guerra Mexicano-Americana de 1846-1848.
