Vida do Camponês no Solar Medieval

A Família de Bodo, Agricultores Carolíngios
Ruisen Zheng
por , traduzido por Jose Monteiro Queiroz-Neto
publicado em
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Bodo era um agricultor franco do início do século IX, originários, ele e sua família, da propriedade rural pertencente ao monastério de St.-Germain-des-Prés, próximo a Paris, onde trabalhou como arrendatário. Ele arava as terras da fazenda, enquanto sua esposa, Ermentrude, assumia os cuidados da casa. Suas vidas dão-nos uma vívida imagem do que era o dia a dia dos camponeses vivendo em uma propriedade rural, no início da Idade Média, no mundo Carolíngio.

As casas senhoriais constituíam estrutura básica econômica e social da Europa medieval em seus primórdios. A posse de terras nas mãos de um senhor feudal, era a casa senhorial o coração da produção agrícola, o centro das atividades políticas, sociais e culturais locais. O monastério de St.-Germain-des-Prés manteve um detalhado registro de nomes de arrendatários e de pessoas que mantinham negócios com eles nesse período, registro esse chamado Polyptych.

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Detail of March from Les Très Riches Heures
Detalhe de Março do Les Très Riches Heures Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

Para administrar suas grandes propriedades, o abade do monastério da época, Irminon (cerca de 820s), compilou essa lista, em um manuscrito do século IX atualmente preservado em Paris (Bibliothéque Nationale de France, Ms Latin 12832). Junto com o de Bodo, encontram-se outros 10.000 nomes espalhados por 25 povoados diferentes, com detalhes dos nomes, ocupações e, mais importante, o tipo de obrigação (arrendamento ou trabalho) devido ao monastério. Foi a partir desses dados fiscais que pudemos rastrear e reconstruir a vida de Bodo e sua esposa, bem como de seus três filhos cujos nomes não foram registrados.

Status Social e Experiência

Antes de desvendar os detalhes da vida diária que levavam, é fundamental primeiro examinar o status social de Bodo e sua família, pois isso é por demais importante na determinação do que se esperava deles. Bodo e sua família não eram escravos e, portanto, desfrutavam de algum grau de liberdade, porém é também verdade que na Idade Média, a distinção entre escravizado e livre não era nem rígida, e nem absoluta, e é bem melhor falar a respeito do grau de liberdade, ou de não liberdade, desfrutada por uma pessoa sob várias circunstâncias.

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importante observar que a situação de escravo e livre não era binária

O cristianismo proibia formalmente qualquer escravidão, porém, na prática, era mais a respeito da experiência de alguém como livre ou não livre dentro dos espaços social, econômico e político, a partir do esfacelamento da porção ocidental do Império Romano. A Terra dos Romanos (Romanland ou Romanía), na época do desaparecimento do Império, passou a pertencer às várias tribos germânicas e aos reinos que eles implantaram. Existiam ali os coloni, pequenos agricultores livres, vindos da época do Império, livres somente no sentido de que não se encontravam sujeitos a nenhuma servidão, porém dependentes e presos obrigatoriamente às terras que cultivavam, com pouca ou nenhuma mobilidade. Havia os servos, ligados e dependentes dos donos das propriedades rurais. Enquanto um servo não podia ser vendido como uma pessoa, algumas vezes eram trocados durante uma transação de compra ou venda de terras. Além do trabalho na terra, os servos também podiam realizar outros trabalhos caseiros para seus proprietários. Finalmente, havia os camponeses livres que possuíam terra e eram responsáveis por seus ganhos e perdas. Como homens livres não eram obrigados a pagar nenhum arrendamento ou trabalho e podiam prestar serviço remunerado aos chefes feudais. A independência que desfrutavam, no entanto, era frágil, pois quaisquer más colheitas ou infortúnios, como pilhagens feitas por outros senhores, obrigavam-nos a ficar sujeitos, para proteção, a um senhor feudal, tornando-se coloni ou mesmo servo.

Polyptych of Irminon, folio 2r
Polyptych de Irminon, folio 2r Bibliothèque nationale de France. Département des Manuscrits (Public Domain)

Bodo e sua família encontravam-se ligados ao monastério com diversas obrigações, conforme registrado no Polyptych de Irminon. Moravam em um dos povoados com outros camponeses de status semelhante. Sabemos algumas coisas a respeito dos nomes de alguns vizinhos de Bodo: Frambert, Ermoin e Ragenold e todos possuíam família. O círculo de camponeses agricultores e trabalhadores era, muito provavelmente, das relações sociais que Boldo poderia participar. Ele poderia se encontrar, de tempos em tempos, com o administrador da propriedade e, até mesmo, com os moradores do próprio monastério, que era uma comunidade fechada e visitas externas eram uma raridade. Somente um comerciante itinerante podia visitar o monastério em certas ocasiões, e uma visita real não era impossível, e para alguém como Bodo, a visão desurpreender um rei ou de um grande nobre viajando pela estrada, às vezes com um presente recebido de um califa distante, como um elefante, podia ser a visão, a conversa e a lembrança de toda uma vida.

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Rotina Diária

Bodo e Ermentrude tinham os dias cheios durante o ano todo e somente em raras ocasiões, como festas importantes ou feriados religiosos, conseguiam algum repouso e desfrutar de uma parada nas obrigações que tinham. Bodo acordava muito cedo e se dirigia à fazenda dos monges junto com outros camponeses, levando seus próprios instrumentos agrícolas para arar a terra, providenciavam alguns presentes (ovos, vegetais, etc.) para subornar o administrador para que o trabalho do dia fosse mais ameno. Os encargos de Bodo eram: Trabalho de Campo, quantidade fixa de trabalho na terra, Corvéia (Corvée), arar a terra quando necessário gratuitamente, finalmente, Serviço Militar, na forma de pagamento em dinheiro ou suprimento para os soldados. Havia, também, Serviço Público, participação na manutenção da infraestrutura do povoado sempre que necessário. Todo dia podia ser uma prova de dificuldade para Bodo, uma carga sem fim, do amanhecer ao anoitecer, como um escritor medieval imaginou:

“Oh! Senhor, eu trabalho duramente. Saio ao amanhecer, conduzo o gado para o campo e coloco-lhes a cangalha do arado... diariamente preciso arar um acre de outono, após ter colocado a canga no gado e preparado a lâmina do arado... Sim, de fato é um trabalho pesadíssimo!”

(Aelric, Colloquium, in 'Welding of the Race', 449-1066, p95)

A Sociedade Feudal na Europa Medieval
A Sociedade Feudal na Europa Medieval Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Ermentrude também tinha uma vida agitada, trabalhando na oficina junto com outras mulheres, fiando, tingindo, costurando roupas e realizando outros trabalhos acessórios diariamente. A legislação dos reis carolíngios fornecia uma lista bastante detalhada daquilo que se esperava do trabalho diário de uma mulher camponesa:

Para o trabalho de nossas mulheres, a elas serão dados os materiais, na ocasião certa, isto é, linho, lã, tintura azul, vermelha, tinta de garança, pentes de lã, cardador, sabão, gordura, vasilhas e outros objetos necessários. E que se permita que os quartos das mulheres sejam bem cuidados, em casas e cômodos com fogões e adegas, que sejam cercadas de boa proteção, com fortes portas, para que possam trabalhar adequadamente.

(Capitulários de Carlos Magno. De Villis, c.45)

Para cumprir as obrigações do arrendatário, Ermentrude ia trabalhar na pequena plantação da família senhorial, o que incluía cuidar das criações e aguar os vegetais. Somente após todas essas obrigações, podia ela retornar para sua casa e cuidar dos filhos, preparar refeições para eles, limpar a casa e costurar para a família para o inverno que estava chegando.

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Quando Bodo retornava para casa ao final do dia, a família podia jantar imediatamente e, em seguida, ir dormir, pois um dia de trabalho era fisicamente extenuante para os dois adultos e oportunidades de repouso não apareciam durante o trabalho. E nem tinham muito a se divertir à noite, pois a escuridão cobria a casa. O sono era a recompensa para um dia de trabalho exaustivo nas fazendas, oficinas e dentro do solar, pois o dia seguinte não seria diferente do que foi hoje ou ontem.

February, Les Tres Riches Heures
Fevereiro, As Riquíssimas Horas Limbourg Brothers (Public Domain)

Revolução da Agricultura Medieval

No Ocidente pós-Romano, presenciou-se um declínio bastante elevado no vigor agrícola o que se pode constatar pela redução de edificações, de redes de comércio e da qualidade da produção agrícola, tanto primária, como grãos, e secundária, como moedas e cerâmica. De qualquer forma, já no final do primeiro milênio, pelo menos no noroeste europeu, já se observava uma mudança de direção, com uma lenta, ou até mesmo uma forte, recuperação da produção agrícola. Primeiro, ao invés do Sistema de Dois-Campos, os fazendeiros começaram a adotar o Sistema de Três Campos. O Sistema de Dois Campos significa que as terras de uma propriedade eram divididas em duas secções, com as plantações crescendo em uma metade e a outra metade arada e rastelada, mas não plantada. Com a nova prática, um terço das terras recebia sementes de colheita para o inverno e um terço para o verão, ficando o restante para descanso da terra. Este último Sistema permitiu uma grande produção de alimentos devido a maior fertilidade da terra. Em decorrência disso, os excedentes agrícolas tornaram-se cada vez mais comuns e, ao mesmo tempo, um crescimento populacional mais estável, observando-se uma quase duplicação no número de famílias.

Mais terras cultiváveis foram plantadas e observou-se o aparecimento do comércio para além da comunidade. Houve também uma urbanização pequena e localizada, tanto dos povoados situados nas principais rotas pré-existentes, quanto daqueles recém trazidos para a rede comercial, observando-se em ambos os casos um importante crescimento da população e da infraestrutura.

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Mas, o que tudo isso significa para camponeses como Bodo? Primeiramente, eles poderiam ter outra oportunidade fora da própria terra que os mantinha vivos, mas, que até então, os obrigava a se ligarem permanentemente a ela. Todos os três filhos de Bodo e Ermentrude poderiam ter uma melhor chance de sobreviver ao mundo e mais oportunidades a serem exploradas. O que não significa um quadro melhor no geral, porque segundo todos os relatos, camponeses como Bodo ainda se encontravam fortemente submetidos à opressão econômica, social e política dos poderosos. Enfim, de alguma maneira isso poderia ser, ao final, transformador do mundo medieval europeu como um todo, pois os camponeses experimentaram em primeira mão os benefícios das mudanças na produção da terra e suas vidas algo melhores.

Conclusão

A história de Bodo foi reconstruída a partir do registro manorial do monastério de St.-Germain-des-Prés. Além de ser um importante centro espiritual, o monastério também se apresentava como um centro econômico do recém-formado Império Carolíngio. Manter um detalhado e preciso registro dos arrendatários, como Bodo, era essencial para fixação dos tributos, serviço militar, transações com terras e outras formas de trocas econômicas entre os camponeses, o monastério e a corte imperial. Olhando para o lado dos reis e imperadores, cujos estilos luxuosos de vida tinha de ser sustentado pelo trabalho dos camponeses, muito se escreveu a respeito. No entanto, 99% da população medieval era exatamente como Bodo, ou Ermentrude e seus três inominados filhos, cujos destinos encontravam-se intimamente unidos ao comportamento da terra nos primórdios da Europa Medieval. Tudo o que temos a respeito deles, e de seus mundos, é o Polyptych. Enquanto isso seja somente uma olhadela em suas vidas, o Polyptych torna possível observar o trabalho de uma propriedade rural do início do medievo e as pessoas que passavam a sua vida inteira nela, com pouca possibilidade de experimentarem o grande mundo exterior.

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Sobre o Tradutor

Jose Monteiro Queiroz-Neto
Monteiro é um pediatra aposentado interessado na história do Império Romano e da Idade Média. Tem como objetivo ampliar o conhecimento dos artigos da WH para o público de língua portuguesa. Atualmente reside em Santos, Brasil.

Sobre o Autor

Ruisen Zheng
Ruisen Zheng is a fourth-year History PhD student at King's College London funded by the Arts and Humanities Research Council. He works on the comparative studies of Song dynasty China and Macedonian Byzantium, and on the global Middle Ages in general.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Zheng, R. (2025, dezembro 10). Vida do Camponês no Solar Medieval: A Família de Bodo, Agricultores Carolíngios. (J. M. Queiroz-Neto, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2826/vida-do-campones-no-solar-medieval/

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Zheng, Ruisen. "Vida do Camponês no Solar Medieval: A Família de Bodo, Agricultores Carolíngios." Traduzido por Jose Monteiro Queiroz-Neto. World History Encyclopedia, dezembro 10, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2826/vida-do-campones-no-solar-medieval/.

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Zheng, Ruisen. "Vida do Camponês no Solar Medieval: A Família de Bodo, Agricultores Carolíngios." Traduzido por Jose Monteiro Queiroz-Neto. World History Encyclopedia, 10 dez 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2826/vida-do-campones-no-solar-medieval/.

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