La Malinche

Contextualizando Uma Mulher Complicada
Jordy Samuels
por , traduzido por Filipa Oliveira
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La Malinche, ou Malintzin, foi a principal intérprete da comitiva de Hernán Cortés durante a conquista do México no início do século XVI e tornou-se uma das mulheres mais polémicas da história mexicana. Embora fosse chamada de Malintzin pelos povos de língua nahuatl do Império Asteca, ela era conhecida como Doña Marina ou Malinche pelos conquistadores espanhóis, e os estudiosos modernos geralmente referem-se-lhe pelo último nome. Ela foi fundamental para o sucesso da conquista espanhola e é considerada ao mesmo tempo uma traidora do seu povo, um símbolo das respostas indígenas ao poder colonial e um exemplo de sobrevivência e resiliência.

Doña Marina, La Malinche
Doña Marina, La Malinche Kate Stephens (Public Domain)

Primeiros Anos

Nascida em Coatazacoalcos, perto da atual Veracruz, Malintzin era filha de um pai nobre e de uma mãe de baixa classe social, tendo sido vendida como escrava ainda jovem. Retirada da sua casa e dos seus parentes, foi levada para a cidade costeira maia de Xicallanco e trocada por feijões ou rolos de tecido, a moeda que dominava o porto comercial na época. De lá, a jovem escrava foi levada para Potonchan, perto da foz do rio Tabasco, onde viveria entre os poderosos e ricos maias Chontal. Anos mais tarde, quando estes sofreram perdas devastadoras e sem precedentes em escaramuças com a recém-chegada expedição dos conquistadores espanhóis, ela foi uma das 20 jovens que os maias Chontal trocaram como oferta de paz com os espanhóis liderados por Hernán Cortés.

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Marina Escravizada

Embora algumas fontes mencionem o nome "Malinalli", esta pode ser uma atribuição incorreta. No livro, Fifth Sun: A New History of the Aztecs (Quinto Sol: Uma Nova História dos Astecas), Camilla Townsend afirma que não se sabe como se chamava nem durante a sua escravidão pelos maias; argumenta que foi neste momento da sua história, quando foi entregue aos espanhóis pelos maias Chontal, que o seu nome — ou pelo menos os nomes pelos quais ficaria conhecida — entraria para os registros históricos. Nas mãos dos espanhóis, ela foi batizada de "Marina"; de acordo com Townsend, "Os seus captores não perguntaram qual era o seu nome, nem ela lhes contou" (Townsend 2019, pág. 90).

Diz-se que Cortés ofereceu a Marina "mais do que sua liberdade" se ela o ajudasse a encontrar e falar com MoNtezuma.

O nome Marina oferece contexto para os demais nomes pelos quais ela é conhecida atualmente. Os povos indígenas, cuja língua não incluía o som "r", ouviram o nome "Marina" e o pronunciaram como "Malina" e, por terem grande consideração por ela, acrescentaram o honorífico "tzin" ao final do nome, tornando-o "Malintzin" ou, às vezes, "Malintze". Quando os espanhóis, cuja língua nativa não incluía o som "tz", ouviram o nahuatl "Malintzin", ela passou a ser conhecida alternativamente como "Malinche" ou "La Malinche".

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Escravizada e negociada por senhores indígenas aos espanhóis, "Marina" foi dada por Cortés a Alonso Hernández de Puertocarrero, um dos homens do mais alto escalão da expedição, que tinha permissão para fazer o que quisesse com a jovem escravizada. Este teria sido o modus operandi geral dos conquistadores, com as mulheres dadas pelos grupos indígenas como presentes para simbolizar a paz. A partir daí, Marina teria desaparecido na obscuridade se não fosse pela decisão dos espanhóis de deixar as terras dos maias e viajar para o oeste, para o território de Motecuhzoma II (reinou de 1502 a 1520, comummente conhecido como Montezuma ou Moctezuma), governante do Império Asteca.

The Conquistador Hernán Cortés
O Conquistador Hernán Cortés Royal Academy, Madrid (Public Domain)

Entre os maias, Cortés tinha conseguido um homem chamado Jerónimo de Aguilar, que, estava confiante, seria capaz de atuar como intérprete entre as populações indígenas da Mesoamérica. Aguilar tinha naufragado oito anos antes e tinha sido feito escravo pelos maias Iucatecas, viveu entre eles e aprendeu a língua. O que lhe permitiu traduzir para a expedição de Cortés durante a comunicação com os maias Chontal em Potonchan. No entanto, quando entraram nos territórios astecas de língua nahuatl, Aguilar não estava familiarizado com a língua e não pôde continuar como tradutor.

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Doña Marina, a Tradutora

La Malinche demonstrou uma compreensão sutil das complexas situações políticas e sociais nas quais tinha que atuar como intérprete.

Surpreendentemente, neste momento, a mulher chamada Marina tornou-se crucial para o sucesso da expedição de Cortés. Embora não possamos ter a certeza de como aconteceu — se foi por iniciativa própria de Marina ou por indução dos seus captores —, os espanhóis descobriram que ela era fluente em nahuatl e podia traduzir o que estava sendo dito para o maia Chontal, que Aguilar então traduzia para o espanhol. Diante dessa constatação, diz-se que Cortés ofereceu a Marina "mais do que sua liberdade" se ela o ajudasse a encontrar e falar com Montezuma. Townsend escreve: "Em poucos dias, os espanhóis passaram a chamá-la de 'doña Marina', um título reservado para damas de alta linhagem na Europa" (Townsend 2019, pág. 93). Nas semanas e meses seguintes, a própria Marina aprendeu espanhol o suficiente para eliminar a necessidade do papel de Aguilar na cadeia da tradução, tornando-a uma parte essencial dos planos dos espanhóis.

A proeminência do seu papel reflete-se em duas fontes existentes: as cartas do próprio Cortés ao rei da Espanha, Carlos V, Imperador do Sacro Império Romano (reinou 1519-1556), e A Verdadeira História da Conquista da Nova Espanha (Historia verdadera de la conquista de la Nueva España), de Bernal Díaz del Castillo, que escreveu: "este foi o grande início das nossas conquistas... Fiz questão de contar esta história porque, sem Doña Marina, não teríamos conseguido entender a língua da Nova Espanha e do México" (Carrasco 2014, pág. 149).

La Malinche and Hernán Cortés
La Malinche e Hernán Cortés Diego Durán (CC BY)

Enquanto Díaz del Castillo refletia sobre o seu valor, escrevendo em retrospecto, Cortés, que escrevia constantemente ao rei durante o período da conquista, hesitava muito em lhe atribuir crédito. Townsend escreve: "O que Cortés não queria que os outros percebessem era que, se Malintzin não estivesse lá, eles não teriam conseguido" (Townsend 2019, pág. 99). Além disso, Malintzin parece ter sido excepcionalmente capaz de transmitir a mensagem dos espanhóis aos povos indígenas porque, além de sua fluência em maia Chontal, nahuatl e, eventualmente, espanhol, ela era capaz de falar no registro mais elevado da nobreza, que tinha a sua própria gramática. Ela também demonstrou uma compreensão sutil das complexas situações políticas e sociais nas quais tinha que atuar como intérprete. Por exemplo, Malintzin ajudou Cortés a garantir uma aliança com os governantes de Tlaxcala que acabaria sendo essencial para a sua vitória sobre os astecas na capital, Tenochtitlan, apresentando-se aos povos indígenas como uma presença autoritária e confiável. A sua habilidade em lidar com as relações com os povos locais e obter informações também permitiu que as forças de Cortés evitassem uma emboscada a caminho de Tenochtitlan pelo povo de Cholula, entre outras situações que exigiam um tradutor atento.

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Malintzin no Trabalho

Nos meses e anos seguintes, enquanto Cortés e os espanhóis traziam tecnologia, estratégia e, inadvertidamente, varíola para enfrentar o poder do Império Asteca, Malintzin continuou a falar e a aconselhar os recém-chegados. Os conselhos que dava aos espanhóis favoreciam a cautela, a discrição e a comunicação pacífica com os grupos indígenas, enquanto os líderes da Mesoamérica escolhiam lados num conflito entre o poderoso precedente asteca e o advento dos forasteiros.

Após a queda de Tenochtitlan em 1521, Malintzin foi a principal via de transmissão das exigências espanholas de tributo ao povo das áreas dentro e em redor do antigo Império Asteca, que agora eram efetivamente vassalos da coroa espanhola, mas governados, pelo menos por um tempo, pelo próprio Cortés. Em meados de 1524, ela ainda era o principal meio de negociação entre os espanhóis e a população indígena. Townsend mostra-nos uma imagem de Malintzin no seu auge:

Ela traduzia em vários locais, altos e baixos, e estava comprometida com a formação de outros tradutores. Ela administrava a própria casa, ganhando dinheiro para se sustentar, a si, ao seu filho e a equipa por meio de pequenos empreendimentos comerciais que as suas habilidades linguísticas e ligações tornavam possível operar. Ela usava um huipilli, ou blusa, elaboradamente bordado, sobre uma saia fina, bem como sandálias — ao contrário das outras mulheres, que na maioria andavam descalças. Tudo isto sinalizava o seu estatuto, mas nunca se tornou arrogante ou presunçosa. Nem nunca optou por mudar para roupas espanholas... Todos com quem contatava, gostavam dela.

(pág. 139)

Até mesmo Cortés mencionou o quanto ela era dedicada ao esforço espanhol de colonização do México naqueles primeiros anos e expressou um pouco da sua própria gratidão, ainda que moderada. Apesar da sua cumplicidade com os esforços da colonização espanhola e da destruição deliberada da cultura e religião mesoamericanas, Malinztin não permitia simplesmente que os seus talentos fossem usados. Townsend conta-nos que "ela negociou dura e astutamente para garantir proteção para si mesma, seus filhos e seu povo da melhor maneira possível" e, numa vitória sutil, mas clara, "Malintzin recebeu a sua aldeia natal, Olutla, como encomienda. Ela governaria lá, em vez de um espanhol". (Townsend, pág. 140) Townsend deixa claro que a concessão do seu local de nascimento para que governasse teria sido algo que Malintzin teve de lutar, em vez da possibilidade de lhe ter sido dado por Cortés por generosidade.

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La Malinche Leads the Spanish
La Malinche Lidera os Espanhóis Unknown Artist (Public Domain)

Quando Malintzin morreu, por volta de 1529, deixou dois filhos. O primeiro filho era de Cortés e recebeu o nome de Martín, em homenagem ao pai de Cortés. O líder da expedição acabaria por solicitar uma bula papal para legitimar o filho e levá-lo, ainda criança, para longe da mãe, para ser criado na corte do rei espanhol. A segunda foi uma filha chamada María, filha de Juan Jaramillo, um homem com quem se casou por volta de 1524. Após a morte, as pessoas lembravam-se dela como tendo sido, nas palavras de Townsend, "uma pessoa alegre, honrada e extraordinariamente competente, que fez o possível para estabelecer a ordem nos primeiros meses quase sem lei [após a queda de Tenochtitlan]" (pág. 139). Apenas Aguilar, cujo papel como tradutor ela havia usurpado e que tinha motivos de sobra para se sentir amargurado e vingativo em relação a ela, a acusou de promiscuidade após a sua morte, uma alegação que ninguém mais corroborou.

La Malinche e Cortés: Romance e Realidade

Os relatos sobre a vida de Malintzin ocasionalmente situam a relação com Cortés como um amor apaixonado, de devoção ou de sedução. É importante não esquecer, no entanto, que Cortés e os seus homens detinham um poder extraordinário sobre Malintzin e as outras mulheres que lhes foram ofertadas. Para a população indígena em geral, eles demonstraram um nível de tecnologia militar e potencial destrutivo em guerra que era totalmente inédito na Mesoamérica. Para a população vulnerável de mulheres que lhes foram entregues como bens móveis, não há razão para esperar que os homens da expedição não as tivessem usado e abusado. Para os astecas e maias, a oferta de mulheres jovens como presentes a um poder adversário já acontecia muito antes da chegada dos conquistadores e tinha como objetivo, em parte, construir alianças de parentesco e ligações políticas entre os diferentes grupos mesoamericanos que poderiam compartilhar recursos, terras, tradições e linhagens. Se os espanhóis estavam cientes desta tradição por meio da tradução de Aguilar ou de Malintzin, mostraram pouca consideração pelas mulheres por meio das quais estas ligações culturais deveriam ser forjadas.

La Malinche Mediates with the Tlaxcallans
La Malinche Medeia com os Tlaxcallans Wolfgang Sauber (CC BY-SA)

Alguns dos homens próximos a Cortés escreveram que "ele não tinha mais consciência do que um cão" (pág. 143) e que ele tinha "violado várias princesas durante aqueles primeiros anos" da conquista (pág. 111). Além disso, Townsend menciona que uma das filhas mais nobres e respeitadas de Montezuma, Tecuichpotzin, engravidou quase imediatamente após ter sido transferida para os "cuidados" de Cortés na sua residência, após a destruição da sua casa, a devastação do seu povo e o assassinato de seu pai. Quando os estudiosos referem que os espanhóis mantinham as jovens cativas mais atraentes para si mesmos, as implicações não devem ser ignoradas.

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De todas as mulheres mantidas entre os espanhóis durante a conquista, Malintzin estava numa posição única para testemunhar e compreender profundamente as intenções violentas dos espanhóis e a disposição de massacrar, usar ou escravizar populações indígenas em busca de ouro e poder. Não há evidências que sugiram que Malintzin amava ou mesmo gostava de Cortés ou dos seus homens: eles proporcionaram-lhe um caminho para a liberdade, e ela seguiu-o.

O Legado de Malintzin

No entanto, qualquer liberdade que conseguiu garantir adveio dum legado complexo. Muitas pessoas de ascendência mexicana consideram Malintzin uma traidora dos povos indígenas da Mesoamérica. Em alguns casos, ela é objetificada como uma representação corporal da degradação e devastação causadas pela chegada dos espanhóis ao México. Além disso, ao dar à luz Martín, aos olhos de alguns, ela se tornou a mãe do primeiro mestiço formalmente reconhecido, um termo usado para designar uma pessoa de ascendência indígena e europeia. Como as populações mestiças lutariam por direitos sob a coroa espanhola nas décadas após a conquista, o seu papel como uma espécie de mãe ancestral de um grupo marginalizado infunde o legado de Malintzin com dinâmicas sociopolíticas ainda mais complicadas. Para outros ainda, a sua cumplicidade com a causa espanhola, particularmente a erradicação da cultura nativa, coloca-a em desacordo com a herança orgulhosa e vibrante das populações indígenas do México que ainda sobrevive até hoje. Embora estas perspectivas representem tópicos válidos de debate, não há evidências de que as pessoas da época de Malintzin pensassem assim sobre si, independentemente do lado da conquista.

La Malinche of Villa Oluta
La Malinche de Villa Oluta Isaac Vásquez (Isaacvp) (CC BY-NC-SA)

Quando os espanhóis chegaram às costas da Mesoamérica, aportaram numa terra onde os grupos étnicos guerreavam entre si há séculos. A história lendária do surgimento dos astecas da primordial Aztlan e a eventual chegada à sede divinamente indicada de Tenochtitlan está repleta de exemplos dos conflitos violentos com os seus vizinhos. De fato, embora Malintzin tenha, sem dúvida, desempenhado um papel substancial na conquista, o sucesso de Cortés teria sido totalmente impossível sem a sua aliança com os tlaxcalanos e os outros grupos indígenas que guerreavam com o império há gerações e provavelmente detestavam os futuros senhores astecas. Os astecas não eram o povo de Malintzin; eles eram os inimigos do seu povo. "Ninguém no seu mundo imaginaria que ela devesse lealdade ao povo de Montezuma. Enquanto ela viveu, e por muitos anos depois disso, ninguém expressou surpresa com o caminho que escolheu" (Townsend 2019, págs. 93-94).

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Bibliografia

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Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Jornalista brasileiro que vive no Rio de Janeiro. Seus principais interesses são a República Romana e os povos da Mesoamérica, entre outros temas.

Sobre o Autor

Jordy Samuels
Jordy é uma bibliotecária, entusiasta de história e uma pessoa persistentemente curiosa. Adora mitos e o estudo de sistemas de crenças, ler 'graphic novels', cozinhar, olhar para o céu em dias parcialmente nublados e aprender com outras pessoas curiosas, especialmente crianças.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Samuels, J. (2025, novembro 25). La Malinche: Contextualizando Uma Mulher Complicada. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2796/la-malinche/

Estilo Chicago

Samuels, Jordy. "La Malinche: Contextualizando Uma Mulher Complicada." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, novembro 25, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2796/la-malinche/.

Estilo MLA

Samuels, Jordy. "La Malinche: Contextualizando Uma Mulher Complicada." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 25 nov 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2796/la-malinche/.

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