As histórias dos Sioux conhecidas como contos de Iktomi têm como protagonista a figura do malandro Iktomi (também conhecido como Unktomi), que surge, consoante o contexto, como herói, sábio, vilão, palhaço, bufão incompetente — ou noutros papéis —, mas que serve sempre para ilustrar alguma lição importante ou transmitir valores culturais.
Em Pluma Branca, ele é o vilão que tenta roubar a identidade do herói, e em As Crianças Acorrentadas é o sábio que medeia uma disputa; mas em Iktomi e o Rato-Almiscarado e A Manta de Iktomi, apresentados abaixo, é o bufão que destaca os valores sioux da gratidão, do cumprimento das promessas e da importância da hospitalidade.
Outros contos de Iktomi, tais como Iktomi e o Coiote e Unktomi e as Pontas de Flecha, apresentam a personagem noutros papéis — como um tolo que não consegue distinguir entre a vida e a morte e como um ajudante e castigador de transgressores, respetivamente — mas estes contos, tal como muitos outros que têm Iktomi como protagonista, servem todos o mesmo propósito de entreter quem os ouve, ao mesmo tempo que transmitem alguma lição de vida importante.
O Texto
As traduções infra são dos dois contos extraídos da obra American Indian Stories and Old Indian Legends (Histórias Nativas Americanas e Antigas Lendas Indígenas), da autoria da ativista e escritora da tribo Yankton Dakota Sioux, Zitkála-Šá (1876-1938).
Em Iktomi e o Rato-almiscarado», destaca-se o valor da hospitalidade e, para o ouvinte original, isso teria tido um significado especial, uma vez que o rato-almiscarado (Ondatra zibethicus) é, por vezes, apresentado no lugar da lontra (Lontra canadensis ) na História da Criação dos Lakota Sioux como o primeiro dos animais a mergulhar nas águas primordiais para tentar trazer lama para a superfície e formar terra firme. O rato-almiscarado estava, portanto, associado à criação e ao Grande Espírito e, por isso, simboliza riqueza, tanto grandeza espiritual como ganhos materiais.
Quando Iktomi recusa a hospitalidade ao rato-almiscarado, portanto, não está apenas a negar a uma criatura semelhante um lugar à sua mesa, mas está a privar-se de quaisquer dons que pudesse ter recebido ao comportar-se adequadamente. Além disso, uma vez que o rato-almiscarado está tão intimamente associado ao Deus Criador, Iktomi está, essencialmente, a insultar o seu criador.
A Manta de Iktomi centra-se no valor da gratidão e no cumprimento das promessas. Inyan, o bisavô e doador de dádivas, é um dos quatro deuses primordiais, juntamente com Han, Maka e Skan, todos eles aspetos de Wakan Tanka — O Grande Mistério — e, como tal, reverenciados como entidades sagradas. Inyan está associado à estabilidade, certeza e fiabilidade, e é simbolizado pela rocha. Quando Iktomi pede o dom da comida, este é-lhe concedido; mas Inyan é tão capaz de tirar como de dar quando a situação o justifica e, neste caso, quando Iktomi retira o seu dom de gratidão, Inyan responde na mesma moeda, retirando a comida. A audácia de Iktomi ao roubar de volta o que lhe fora dado de graça teria também um significado mais profundo para o público original, na medida em que Iktomi não está apenas a tirar injustamente a alguém, mas a um deus.
Iktomi e o Rato almiscarado
À beira de um lago branco, debaixo de um grande salgueiro, Iktomi estava sentado no chão nu. O monte de cinzas ainda fumegantes revelava que ali se tinha feito recentemente uma fogueira. Com os tornozelos cruzados à volta de uma panela de sopa, Iktomi debruçou-se sobre um delicioso peixe cozido. Rapidamente mergulhou a colher de chifre preto na sopa, pois estava esfomeado. Iktomi não tinha horários fixos para as refeições. Muitas vezes, quando tinha fome, ficava sem comer. Bem escondido entre o lago e o arroz selvagem que crescia nas suas margens, não olhava para mais lado nenhum, a não ser para a panela de peixe. Sem saber quando seria a próxima refeição, pretendia comer o suficiente agora para aguentar algum tempo.
«E então, meu amigo!», disse uma voz vinda do meio do arroz selvagem. Iktomi deu um sobressalto. Quase se engasgou com a sopa. Espreitou por entre os juncos altos, de onde estava sentado com a sua longa colher de chifre suspensa no ar.
«Olá, meu amigo!», disse a voz novamente, desta vez bem ao seu lado. Iktomi virou-se e ali estava um rato almiscarado encharcado que acabara de sair do lago.
«Oh, é o meu amigo que me assustou. Perguntava-me se, por entre o arroz selvagem, seria a voz de algum espírito a falar. Olá, meu amigo!», disse Iktomi. O rato-almiscarado permanecia ali, sorrindo. Nos seus lábios pairava um «Sim, meu amigo» pronto a ser dito, assim que Iktomi perguntasse: «Meu amigo, queres sentar-te ao meu lado e partilhar a minha comida?»
Esse era o costume do povo das planícies. No entanto, Iktomi permaneceu em silêncio. Cantolava uma velha canção de dança e batia suavemente na borda da panela com a sua colher de chifre de búfalo. O rato-almiscarado começou a sentir-se constrangido perante tal falta de hospitalidade e desejou ter ficado debaixo de água.
Após muitas batidas do coração, Iktomi parou de bater com a sua colher de chifre e, olhando para cima, para o rosto do rato-almiscarado, disse: «Meu amigo, vamos fazer uma corrida para ver quem ganha esta panela de peixe. Se eu ganhar, não precisarei de a partilhar contigo. Se ganhares, ficarás com metade.» Levantando-se de um salto, Iktomi começou imediatamente a apertar o cinto à volta da cintura.
«Meu amigo Ikto, não posso correr contigo! Não sou um corredor veloz e tu és ágil como um veado. Não vamos fazer nenhuma corrida juntos», respondeu o rato-almiscarado esfomeado.
Por um momento, Iktomi ficou de pé com uma mão no seu queixo comprido e saliente. Os seus olhos estavam fixos em algo no ar. O rato-almiscarado olhava pelo canto do olho, sem mover a cabeça. Observava o astuto Iktomi a tramar algo.
«Sim, sim», disse Iktomi, voltando subitamente o olhar para o visitante indesejado, «vou carregar uma pedra grande às costas. Isso vai diminuir a minha velocidade habitual, e a corrida será justa.» Dizendo isto, colocou uma mão firme no ombro do rato-almiscarado e partiu ao longo da margem do lago.
Quando chegaram ao lado oposto, Iktomi começou a vasculhar o terreno à procura de uma pedra pesada. Encontrou uma meio enterrada na água rasa. Puxando-a para terra firme, envolveu-a na sua manta.
«Agora, meu amigo, tu vais correr pelo lado esquerdo do lago, e eu pelo outro. A corrida é pelo peixe cozido naquela panela ali!», disse Iktomi.
O rato-almiscarado ajudou a colocar a pedra pesada nas costas de Iktomi. Depois, separaram-se. Cada um seguiu por um caminho estreito entre os juncos altos que bordavam a margem. Iktomi achou a sua carga pesada. O suor pendia como gotas na testa. O peito arfava com força e rapidez. Olhou para o outro lado do lago para ver até onde o rato-almiscarado tinha chegado, mas não viu qualquer sinal dele em lado nenhum.
«Bem, deve estar a correr por baixo do arroz selvagem!», disse ele para si mesmo. No entanto, ao examinar as ervas altas na margem do lago, não viu nenhuma a mexer-se, como se estivessem a abrir caminho para o corredor. «Ah, será que avançou tão depressa que as ervas agitadas no seu rasto já se acalmaram de novo?», exclamou Iktomi. Com esse pensamento, largou rapidamente a pedra pesada. «Chega disto!», disse ele, batendo no peito com ambas as mãos.
Com um salto ágil, correu rapidamente em direção à meta. Tufos de juncos e erva ficavam achatados sob os seus pés. Mal tinham levantado a cabeça quando Iktomi já estava a muitos passos de distância. Em breve chegou ao monte de cinzas frias. Iktomi parou, rígido, como se tivesse batido num penhasco invisível. Os seus olhos negros revelavam um anel branco à volta enquanto fitava o chão vazio. Não havia nenhuma panela de peixe cozido! Não havia nenhum rato almiscarado à vista!
«Ah, se ao menos tivesse partilhado a minha comida como um verdadeiro Dakota, não teria perdido tudo! Porque é que não sabia que o rato-almiscarado correria pela água? Ele nada mais depressa do que eu jamais poderia correr! Foi isso que ele fez. Riu-se de mim por carregar um peso às costas enquanto ele disparava para aqui como uma flecha!» Chorando assim para si mesmo, Iktomi aproximou-se da beira da água. Inclinou-se para a frente, com uma mão em cada joelho dobrado, e espreitou para as profundezas da água.
«Ali!», exclamou ele, «vejo-te, meu amigo, sentado com os tornozelos enrolados à volta do meu pequeno pote de peixe! Meu amigo, estou com fome. Dá-me um osso!»
«Ha! Ha! Ha!», riu o homem da água, o rato-almiscarado. O som não surgiu do lago, pois veio de cima. Com as mãos ainda nos joelhos, Iktomi voltou o rosto para cima, em direção ao grande salgueiro. Abrindo bem a boca, implorou: «Meu amigo, meu amigo, dá-me um osso para roer!»
«Ha! Ha!», riu o rato-almiscarado e, inclinando-se sobre o ramo em que estava sentado, deixou cair um pequeno osso afiado que foi parar diretamente à garganta de Iktomi. Iktomi quase se engasgou antes de conseguir retirá-lo. Na árvore, o rato-almiscarado ficou sentado a rir alto. «Da próxima vez, diz a um amigo que te visita: "Senta-te ao meu lado, meu amigo. Por favor, partilha a minha comida." Então, talvez não percas tudo.»
A Manta de Iktomi
Sozinho dentro da sua tenda, estava sentado Iktomi. O sol estava a apenas a um palmo da extremidade ocidental da terra.
«Aqueles lobos cinzentos, maus, maus! Comeram todos os meus patos gordos e deliciosos!», murmurou ele, balançando o corpo para a frente e para trás. Estava a acalentar a memória amarga que guardava daqueles lobos famintos. Por fim, deixou de balançar o corpo para a frente e para trás, mas ficou sentado, imóvel e rígido como uma estátua de pedra. «Vou ter com Inyan, o bisavô, e rezar por comida!», exclamou.
Imediatamente, saiu apressadamente da sua tenda e, com a manta sobre um ombro, aproximou-se de uma enorme rocha na encosta de uma colina. Com passos meio agachados, meio a correr, lançou-se sobre Inyan com as mãos estendidas.
«Avô! Tem piedade de mim. Tenho fome. Estou a morrer de fome. Dá-me comida. Bisavô, dá-me carne para comer!», gritou ele. Ao mesmo tempo, acariciava e acariciava o rosto do grande deus de pedra.
O Todo-Poderoso Grande Espírito, que cria as árvores e a relva, consegue ouvir a voz daqueles que rezam de muitas e variadas formas. A audição de Inyan, a grande pedra dura, era a mais procurada. Ele era o bisavô, pois já se sentava na encosta há muitas, muitas estações. Tinha visto a pradaria vestir um manto branco como a neve e depois trocá-lo por uma túnica verde brilhante mais de mil vezes. Ainda imperturbável pelas miríades de luas, repousava na colina eterna, a ouvir as orações dos guerreiros indígenas. Já ali se encontrava antes mesmo de se descobrir a flecha mágica.
Agora, enquanto Iktomi rezava e chorava perante o bisavô, o céu a oeste estava vermelho como um rosto resplandecente. O pôr-do-sol derramava uma luz suave e amena sobre a enorme pedra cinzenta e a figura solitária ao seu lado. Era o sorriso do Grande Espírito sobre o avô e a criança rebelde.
A oração foi ouvida. Iktomi sabia disso. «Agora, Avô, aceita a minha oferenda — é tudo o que tenho», disse Iktomi enquanto estendia a manta meio gasta sobre os ombros frios de Inyan. Depois, Iktomi, feliz com o sorriso do céu ao pôr-do-sol, seguiu um trilho que conduzia a uma ravina coberta de matagal. Mal tinha dado alguns passos pelo matagal quando, diante dele, se encontrava um veado recém-abatido!
«Esta é a resposta do céu vermelho do oeste!», exclamou Iktomi, com as mãos erguidas. Tirando uma lâmina longa e fina do cinto, cortou grandes pedaços de carne de primeira qualidade. Afiando alguns paus de salgueiro, fincou-os à volta de uma pilha de lenha que tinha preparada para acender. Nestas estacas, pretendia assar a carne de veado.
Enquanto esfregava vigorosamente dois paus compridos para acender o fogo, o sol a oeste desapareceu no horizonte, por baixo da linha da terra. O crepúsculo tomava conta de tudo. Iktomi sentiu o ar frio da noite no pescoço e nos ombros nus. «Ui!», estremeceu enquanto limpava a faca na relva. Guardando-a num estojo com contas que pendia do cinto, Iktomi endireitou-se, olhando à sua volta.
Estremeceu novamente. «Ui! Ah! Tenho frio. Quem me dera ter a minha manta!», sussurrou ele, debruçado sobre a pilha de gravetos secos e as estacas afiadas à sua volta. De repente, parou e deixou cair as mãos ao lado do corpo.
«O velho bisavô não sente o frio como eu. Ele não precisa da minha velha manta como eu preciso. Quem me dera não lha ter dado. Oh! Acho que vou correr até lá e recuperá-la!», disse ele, apontando o queixo comprido na direção da grande pedra cinzenta.
Iktomi não precisava da sua manta sob o sol quente, e tinha sido muito fácil separar-se de algo de que não sentia falta. Mas o vento frio da noite congelou completamente a sua ardente oferenda de agradecimento. Assim, subindo a encosta a correr, com os dentes a bater durante todo o caminho, aproximou-se de Inyan, o símbolo sagrado. Agarrando um canto da manta meio gasta, Iktomi puxou-a com um puxão.
«Devolve-me a minha manta, velho avô! Tu não precisas dele. Eu é que preciso!» Isto estava muito errado, mas Iktomi fê-lo, pois a sua perspicácia não era sabedoria.
Apertando bem a manta sobre os ombros, desceu a colina a passos apressados. Em breve chegou à beira da ravina. Uma lua nova, como um arco brilhante e curvado, subia do horizonte sudoeste, avançando um pouco no céu. Nessa luz pálida, Iktomi permanecia imóvel como um fantasma no meio do matagal. A sua pilha de lenha ainda não estava acesa. As suas estacas pontiagudas continuavam nuas, tal como ele as tinha deixado. Mas onde estava o veado — a carne de veado que ele tinha sentido quente nas mãos há um instante? Tinha desaparecido. Apenas os ossos secos das costelas jaziam no chão como dedos gigantes. Iktomi ficou perturbado.
Por fim, inclinando-se sobre os ossos brancos e secos, agarrou um deles e abanou-o. Os ossos chocalharam ao seu toque. Iktomi soltou-o. Recuou de espanto. E, apesar de ter uma manta vestida, os dentes batiam-lhe mais do que nunca. Então, em vez de se lamentar por ter ido buscar a manta, gritou em voz alta:«Hin-hin-hin! Se ao menos tivesse comido a carne de veado antes de ir buscar a minha manta!»
Essas lágrimas já não comoviam a mão do Doador Generoso. Eram lágrimas egoístas. O Grande Espírito nunca lhes dá ouvidos.
