Campanha de Marco António na Pártia

Oxford University Press
por e W. Jeffrey Tatum, traduzido por João Paulo Simões Valério
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Em 36 a.C., Marco António (83-30 a.C.) invadiu a Pártia com a esperança de se tornar num dos maiores conquistadores do mundo greco-romano, mas foi impedido pelas forças partas e obrigado a empreender uma retirada árdua e dispendiosa. O que fazer com este revés foi uma questão importante – e continua a sê-lo no presente.

Artistic Facial Reconstruction of Mark Antony
Reconstrução facial de Marco António Arienne King (CC BY-NC-SA)

Análise Histórica

Os historiadores variam no que diz respeito à análise que fazem da campanha parta de António. Para alguns, foi uma derrota, mas não uma debandada ou um desastre como a esmagadora derrota de Crasso em 53 a.C. Outros, contudo, acreditam que este episódio manchou tão severamente a reputação de António que constituiu um ponto de viragem na sua carreira. Seja o que for, a expedição não foi um êxito. António não capturou Fraaspa nem derrotou Fraates numa batalha decisiva. Qualquer um destes feitos ter-lhe-ia proporcionado glória suficiente para manter a aura de invencibilidade de António e preservar a sua inquestionável predominância romana.

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o cerco fracassou devido à perda de equipamento e mantimentos por parte dos Romanos, um desastre imputável ao excesso de confiança e à impaciência de António.

Os críticos não deixaram de observar, correctamente, como António subestimou as defesas e a determinação da capital meda e avaliou mal a habilidade e a pertinácia demonstradas pelos Partos na protecção do seu reino dos invasores. Ainda assim, por muito ferozes que fossem, os Partos não conseguiram expulsar os Romanos de Fraaspa. O cerco fracassou devido à perda de equipamento e mantimentos por parte dos Romanos, um desastre imputável ao excesso de confiança e impaciência de António. Todavia, mesmo depois destas perdas, os Romanos infligiram múltiplas derrotas aos Partos, ainda que não tenham conseguido alcançar uma vitória decisiva. Conquanto as nossas fontes sejam hostis a António, elas indicam que, na sua marcha de regresso, os Romanos venceram os Partos pelo menos dezoito vezes. Mas nenhuma retirada, por muito corajosa que seja, pode ser verdadeiramente gloriosa.

Perspectiva Romana

Na sua correspondência com Roma, António podia honestamente ensaiar os seus actos de bravura e prolongar-se sobre o castigo que o seu exército infligiu ao inimigo: nunca antes, podia ele correctamente observar, os Romanos tinham marchado para territórios partos e agido tão valentemente. Estas alegações poderão não nos causar grande impressão. Mas devemos questionar quão credíveis ou persuasivas elas foram sob o ponto de vista romano. Qual teria sido a resposta romana mais provável – pelo menos para aqueles homens que não se encontravam já hostis a António? Poder-nos-á parecer intuitivo que, numa sociedade tão belicosa quanto Roma, a derrota era indubitavelmente vergonhosa, de facto, intolerável. Certamente, não era uma recomendação.

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Não obstante, é claro para nós que a visão romana dos comandantes que sofriam reveses militares era complicada pela influência muito real do que era naquele tempo o amplamente difundido ‘mito da competência aristocrática universal’, uma predisposição popular que funcionava ainda mais fortemente a favor da nobilitas. Uma derrota inequívoca no campo de batalha não diminuía necessariamente o prestígio de um membro da nobilitas que tivesse combatido com bravura. Este era um juízo que, como as nossas fontes claramente demonstram, os Romanos estavam tanto mais inclinados a alcançar quando era possível apontar falhas por parte dos subordinados ou à perfídia dos aliados, mormente quando essas falhas contrastavam com a energia e a valentia de um general. Além disso, era um hábito mental romano considerar cada derrota como um contratempo que não era mais do que um incidente isolado no seu caminho para a vitória final. António, como todo o mundo sabia, superou o relâmpago depois da sua derrota em Mútina (43 a.C.). O mundo esperava que o voltasse a fazer.

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Reacção dos Medos

A perspectiva romana da campanha de António não era a única. Durante o Inverno, ele recebeu uma embaixada de Artavasdes, rei da Média Atropatene, que agora procurava uma aliança com Roma. Díon Cássio afirma que Artavasdes se tinha desentendido com Fraates devido a um conflito relativo à distribuição dos despojos de guerra capturados aos Romanos. Isto parece pouco provável, uma vez que não podia haver saque suficiente capturado aos Romanos para motivar qualquer litígio sério. Mas não é de todo surpreendente que a invasão dos Romanos, e a incapacidade de Fraates para esmagá-la, tenha criado uma tensão entre o rei e os seus vassalos – especialmente o vassalo cujo território tinha sido devastado e que seria de certeza o alvo da próxima expedição de Roma. Do outro lado desta guerra, o que Artavasdes observou do exército romano de António deve tê-lo causado uma profunda impressão, de tal forma que ele estava disposto a romper a aliança com Fraates com o intuito de se tornar aliado romano. O seu principal emissário foi o amigo de António, o rei Pólemon. A diplomacia levou então a Média Atropatene para o lado de Roma e, mais tarde, com a conclusão final do acordo, os Medos restituíram os estandartes que António tinha perdido durante a expedição. A amizade do rei foi duradoura: a filha de Artavasdes foi posteriormente prometida a Alexandre Hélio, e o rei meda combateu ao lado de António na Batalha de Áccio (31 a.C.).

António podia legitimamente afirmar que tinha intimidado a Arménia, subjugado a Ibéria e a Albânia, e ganhado a Média Atropatene para Roma.

Para António, esta abertura foi de facto bem-vinda. Ele ganhou um aliado valioso na região, útil tanto contra a Arménia quanto contra à Pártia. Além disso, ele podia agora legitimamente afirmar que, graças à sua expedição, tinha intimidado a Arménia, subjugado a Ibéria e a Albânia, e ganhado a Média Atropatene para Roma. Indubitavelmente, António retratou o rei meda como um suplicante, apavorado pelas armas romanas, horrorizado com a fraqueza e a traição dos Partos, e suplicando à república a sua amizade. Um grande e rico reino, podia António proclamar, e certamente assim o fez, tinha sido acrescentado ao império. Subitamente, a invasão da Pártia não foi, afinal, uma desilusão tão grande.

Um Êxito Dispendioso?

Roma aguardava por notícias da campanha de António. O Inverno terá atrasado a chegada dos seus emissários, mas certamente na Primavera Octaviano e o senado romano tinham recebido o relatório de António. Díon Cássio descreve-o como um exercício de auto-elogio, e sem dúvida que o era. Tanto Veleio Patérculo quanto Floro queixam-se de que António se apresentou a si mesmo como se tivesse saído vitorioso. Mas mesmo os inimigos de António, por muito que isso lhes custasse, não podiam negar a relevância de separar a Média Atropatene da Pártia e de a acrescentar ao domínio de Roma. Octaviano certamente não o negou. Com efeito, ele obedientemente celebrou os feitos do seu cunhado com acções de graças e festas públicas. Estas festividades causaram uma impressão duradoura, que não foi totalmente dissipada pela posterior campanha de propaganda de Octaviano, nem mesmo pela posterior supressão da reputação de António por parte de Augusto.

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Mapa das Províncias do Império Romano Sob Augusto
As Províncias do Império Romano sob Augusto Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Vergílio, na sua Eneida, apresenta António como “vitorioso dos povos da Aurora” – victor ab Aurorae populis (8.685), uma expressão que o comentador posterior Sérvio explica com a nota: “porque ele tinha anteriormente conquistado os Partos” (Serv. Ad Verg. Aen. 8.686), tornando claro para nós como esse verso era geralmente interpretado. Mesmo assim, os aspectos menos atractivos da campanha de António acabaram, por fim, por ser tornar conhecidos em Roma, certamente entre os homens da classe política, e alguns, mesmo sem inclinações partidárias, terão ficado desconcertados com eles. Afinal, a disposição romana para confiar no valor marcial da nobilitas, por mais predominante que fosse, provavelmente não era um instinto universal. Para a maioria dos Romanos, contudo, e tanto quanto a Itália sabia, a campanha de António, embora dispendiosa, tinha sido um êxito. A Pártia tinha sido castigada. E voltaria a sê-lo.

O custo humano desta campanha tinha sido grande. Muitos caíram às mãos dos Partos. Outros tantos por causa de doenças e de complicações resultantes dos ferimentos. Mesmo números aproximados de baixas, no entanto, são difíceis de determinar. Os números fornecidos pelas nossas fontes são exagerados e provêm quase certamente de Délio, cuja atitude relativamente a António era hostil. Todavia, pelo menos duas legiões pereceram no ataque inicial dos Partos e milhares mais devem ter partilhado do mesmo destino antes de os Romanos alcançarem os seus quartéis de Inverno. Como é habitual, as perdas entre as tropas auxiliares não são mencionadas. Estas, também, foram certamente severas. Provavelmente um quarto do exército de António, e talvez até um terço, foi perdido. António, que mantinha uma relação próxima com os seus homens, sentiu profundamente estas perdas. Nem tão-pouco, por muito triunfante que fosse a sua postura, ele podia ignorar as implicações de um tão grande revés na sua campanha contra a Pártia. Enquanto os seus soldados recuperavam nos seus quartéis de Inverno, António juntou-se a Cleópatra e viajou com ela para Alexandria. Aí, de novo, o triúnviro desiludido sentiu-se reconfortado na sua companhia e nos seus conselhos. Havia muito para conversar.

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Sobre o Tradutor

João Paulo Simões Valério
& W. Jeffrey Tatum
João Paulo Simões Valério é investigador do Centro de História da Universidade de Lisboa. Os seus interesses de investigação passam pela oratória e mundo político em Roma e estudos de recepção dos Clássicos.

Sobre o Autor

Oxford University Press
João Paulo Simões Valério is a researcher at the Centre for History at the School of Arts and Humanities in Lisbon. His research interests centre on Roman oratory and politics, as well as Classical reception studies. His publications include “The Romanitas of Mark Antony’s Eastern Coins”, Greek Art in Motion: Studies in honour of Sir John Boardman on the occasion of his 90th Birthday (Archaeopress, 2019) and “Ciceronian Portraits in Oliveira Martins and António Roma Torres”, Images, Perceptions and Productions in and of Antiquity (Cambridge Scholars, 2023).

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Estilo APA

Press, O. U. (2025, julho 29). Campanha de Marco António na Pártia. (J. P. S. Valério, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2373/campanha-de-marco-antonio-na-partia/

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Press, Oxford University. "Campanha de Marco António na Pártia." Traduzido por João Paulo Simões Valério. World History Encyclopedia, julho 29, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2373/campanha-de-marco-antonio-na-partia/.

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Press, Oxford University. "Campanha de Marco António na Pártia." Traduzido por João Paulo Simões Valério. World History Encyclopedia, 29 jul 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2373/campanha-de-marco-antonio-na-partia/.

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