A História da Criação dos Cheyenne é o relato do início do mundo, das estações do ano e dos primeiros povos, numa época anterior ao tempo, quando tudo era água e nada existia além do Criador e das aves aquáticas. Existem muitas versões deste conto, mas a mais popular apresenta semelhanças com A História da Criação dos Lakota Sioux.
Nessa história, o Criador envia vários animais (o mergulhão, a lontra, o castor e a tartaruga) até ao fundo das águas infinitas para trazerem o lodo primordial com o qual se formou a Terra, enquanto que, no conto dos Cheyenne, apenas as aves aquáticas são protagonistas. O conto é também conhecido como A História da Criação dos Cheyenne e dos Arapaho, uma vez que sempre foi — e continua a ser — contada pela Nação Arapaho, um aliado dos Cheyenne. Os Arapaho têm também a sua própria História da Criação, bastante semelhante à primeira dos Cheyenne apresentada infra, tal como acontece frequentemente com muitas das lendas e contos das duas nações. Um segundo conto da criação dos Cheyenne, centrado na origem do povo, é semelhante à História da Criação dos Mandan, na qual os seres humanos são, originalmente, subterrâneos e emergem da terra para a superfície, que se torna o seu lar ancestral.
As histórias da criação de outras nações nativas americanas partilham algumas semelhanças com todas as acima referidas, mas todas diferem significativamente nos detalhes, na conclusão e na mensagem específica. Uma constante nestes contos, no entanto, é a presença de um Criador — explicitamente mencionado ou implícito — responsável pela «terra em que pisamos» e por todas as coisas nela contidas. Outra semelhança nos contos é a ausência do mal. Os aspetos da existência que as pessoas temem e com os quais sofrem, tais como a doença, as dificuldades, as desilusões e a morte, são entendidos como parte da condição humana na sua totalidade, tal como concebida pelo Criador desde o início, e não como um castigo por uma «condição decaída» provocada pelo pecado.
Não há data de composição atribuída a nenhuma destas histórias, uma vez que foram transmitidas oralmente de geração em geração até começarem a ser registadas pelos colonos brancos no século XVIII e, principalmente, no século XIX. Muitos dos contos dos Cheyenne, incluindo este, foram transcritos pelo antropólogo e historiador George Bird Grinnell (1849-1938). A tradução infra é do texto extraído da obra By Cheyenne Campfires (Histórias Contadas nas Fogueiras Cheyennes), publicada pela primeira vez em 1926.
O Texto
A história da criação dos Cheyenne fala de um ser que flutuava à superfície da água. Já existiam aves aquáticas — cisnes, gansos, patos e outras aves que nadam — e todas elas estavam à sua volta. O ser as chamou e pediu-lhes que lhe trouxessem um pouco de terra. Elas ficaram contentes por fazê-lo e concordaram, uma a seguir à outra, em mergulhar na água para ver se conseguiam encontrar terra no fundo. As aves maiores mergulharam em vão. Voltaram à superfície sem nada, pois não conseguiam chegar ao fundo, mas, por fim, um pequeno pato veio à superfície com um pouco de lama no bico.
A ave nadou até ao ser e colocou a lama na sua mão; o ser pegou nela e amassou-a com os dedos até secar, altura em que a dispôs em pequenos montículos à superfície da água, e cada montículo transformou-se em terra, crescendo e espalhando-se cada vez mais, até que, tanto quanto se podia ver, havia terra firme por todo o lado. Assim foi criada a terra sobre a qual caminhamos.
Depois de haver terra firme, o Criador retirou do seu lado direito uma costela e, a partir dela, criou um homem. Do lado esquerdo do homem, retirou uma costela e, a partir dela, criou uma mulher. Estas duas pessoas foram criadas no mesmo local, mas, depois de terem sido criadas, foram separadas: a mulher foi colocada no extremo norte e o homem no sul.
Outra história da criação, que me foi contada há muito tempo por Ben Clark — que se casara com uma mulher cheyenne e vivera muito tempo com a tribo —, diz que, outrora, todos os cheyennes viviam debaixo da terra, na escuridão. Um dia, um homem avistou ao longe um pequeno ponto branco. Aproximou-se dele e, gradualmente, este foi-se tornando maior; em breve, viu-se rodeado pela luz, que o cegou e o assustou. Passado algum tempo, porém, habituou-se a isso e, regressando ao subsolo por onde tinha vindo, contou a seus companheiros, e uma parte deles também saiu do subsolo, passando a viver, a partir de então, à superfície da Terra. Isto sugere um conto sobre os primórdios dos índios Mandan.
Depois de o Criador ter criado os dois povos, que colocou bem afastados um do outro, no norte e no sul, ficou entre eles, de costas para o sol nascente. Disse-lhes: «Nessa direção», apontando para o sul, «encontrarão muitos tipos de animais e aves diferentes daqueles que encontrarão nessa direção», apontando para o norte, onde a mulher se encontrava. «As aves que vivem no sul irão para o norte no verão. Onde a mulher está, fará frio, e a relva e as árvores não crescerão bem. Quase não haverá nenhuma delas, mas onde o homem está, tudo crescerá: árvores, arbustos, relva.»
A mulher no norte, apesar de ter cabelos grisalhos, não era velha. Parecia nunca envelhecer. O homem no sul era jovem. Ele não envelhecia.
No norte vive Ho im'a'ha, o Homem do Inverno, a força que traz o frio e a neve e também traz a doença e a morte. Ele obedece à mulher do norte. É frequentemente mencionado nas histórias e diz-se que, numa reunião dos seres sobrenaturais, declarou que «não teria piedade de ninguém». Quando, nessa reunião, ele falou dessa forma, o Trovão, que representa o poder do sul, declarou que não era certo deixar Ho im'a'ha ter a última palavra; assim, com a ajuda do búfalo, o Trovão fez fogo e ensinou a um dos heróis culturais a fazer o mesmo.
Ele disse a Sweet Medicine: «Pega num pau e eu vou ensinar-te algo com que o teu povo se possa aquecer, cozinhar comida e queimar coisas.» Mostrou a Sweet Medicine como apoiar a ponta do pau no meio de um excremento seco de búfalo e, em seguida, esfregá-lo entre as mãos e girá-lo rapidamente. O jovem fez isso e, passado algum tempo, o excremento pegou fogo. Assim, com a ajuda do Trovão, foi dado ao povo algo para usar contra o frio, algo que os aquecesse.
O homem e a mulher no sul e no norte parecem simbolizar o verão e o inverno, sendo que o homem representa o sol ou o Trovão, enquanto a mulher representa o poder que luta contra o sol.
Duas vezes por ano há um conflito entre o Trovão e o Homem do Inverno. No final do verão, quando os riachos baixam o nível e a erva fica amarela e seca, Ho im'a'ha desce do norte e diz ao Trovão: «Recuem, recuem, para o lugar de onde vieram. Quero espalhar-me por toda a terra, congelar as coisas e cobrir tudo com neve.» Então, o Trovão recua.
Perto da primavera, quando os dias começam a ficar mais longos, o Trovão regressa do sul e diz a Ho im'a'ha: «Volta, volta, para o lugar de onde vieste. Desejo aquecer a terra e fazer crescer a relva e que todas as coisas fiquem verdes.» Então, o Homem do Inverno recua, e o Trovão chega, trazendo a chuva; a relva cresce e toda a terra fica verde. Assim, há uma luta entre estes dois poderes. Eles seguem-se um ao outro, indo e vindo.
As duas primeiras pessoas, o homem no sul e a mulher no norte, nunca se encontraram; mas, mais tarde, foram criadas outras pessoas e, a partir delas, a terra foi povoada.
Comentário
As histórias de criação dos povos nativos americanos sobre os Primeiros Homens, incluindo todas as acima referidas, partilham uma característica comum: não existe uma causa sobrenatural para o mal. Aquilo que os humanos definem como «mau» ou «maligno», como a doença e a morte, ocorre naturalmente e é causado por uma entidade que age de acordo com a sua natureza — que não é nem boa nem má. O Homem do Inverno, n'A História da Criação dos Cheyenne, não é uma figura maléfica, mas apenas alguém interessado em perseguir os seus próprios interesses ao cobrir a Terra de neve e congelar as coisas.
Ele afirma que não terá piedade de ninguém como forma de expressar o seu poder: ninguém se intrometerá no seu caminho para fazer o que bem entender. O Trovão opõe-se a ele, mas por motivos próprios: quer que a Terra seja quente e verde. Ele concede ao grande profeta Sweet Medicine o dom do fogo para frustrar os desígnios do Homem do Inverno e para promover os seus próprios objetivos de aquecer a Terra e, por extensão, aqueles que nela vivem, não porque se preocupe especialmente com as próprias pessoas. Aquecer as pessoas é um meio para atingir um fim, não o objetivo final.
Nenhuma destas entidades, nem a mulher do norte nem o homem do sul, representa um poder que se oponha ao Criador conhecido pelos Cheyenne como Maheo (Ma'heo'o), o Sábio do Alto, mas agem de acordo com a sua natureza, conforme orientado por este Criador. As orientações na história representam claramente este conceito, uma vez que Maheo diz ao homem e à mulher que diferentes animais e aves, bem como diferentes condições meteorológicas, surgirão em ambas as direções, mas nenhuma delas é, por si só, melhor ou pior do que a outra. A totalidade da criação é, portanto, entendida como boa; se alguém decidir definir o frio do norte como «mau», isso é apenas o seu próprio julgamento.
As Semelhanças com os Contos dos Mandan e dos Sioux
Ao contrário de muitas das histórias incluídas em By Cheyenne Campfires, a história supra é contada por Grinnell diretamente na sua própria voz, o que se torna especialmente evidente no quarto parágrafo, onde ele relata a lenda da origem dos Cheyenne e menciona a História da Criação dos Mandan. Segundo os Mandan (e muitas outras nações), as pessoas vieram da terra e, por isso, pertencem à terra e, especialmente, àquela área específica de onde surgiram pela primeira vez.
A tradução infra é do texto extraído do site Native-Languages.org (Línguas Nativas) e apareceu originalmente em Myths and Legends of the Mississippi Valley and the Great Lakes (Mitos e Lendas do Vale do Mississípi e dos Grandes Lagos) de Katherine Judson, publicado pela primeira vez em 1914:
Os Mandan eram o Povo dos Faisões. Foram o primeiro povo do mundo. No início, viviam na terra. Naquela terra escura, tinham muitas videiras. Então, finalmente, uma videira cresceu através de um buraco na planície terrestre, muito acima das suas cabeças. Um dos seus jovens subiu imediatamente pela videira até chegar à planície da Terra. Chegou às pradarias, na margem de um rio, exatamente onde hoje se encontra a aldeia dos Mandan.
Olhou à sua volta. A planície da Terra era muito bonita. Havia muitos búfalos ali. Matou um com o seu arco e flecha e descobriu que era bom para comer.
Depois, o jovem regressou ao seu povo, debaixo da terra. Contou-lhes tudo o que tinha visto. Realizaram um conselho e, em seguida, começaram a subir pela videira até à planície da Terra. Alguns dos chefes, os jovens guerreiros e muitas das mulheres subiram. Depois, chegou uma mulher muito gorda. Os chefes disseram: «Não subas.» Mas ela subiu na mesma, e a videira partiu-se.
Os Mandan ficaram muito tristes com isto. Como já ninguém podia subir, a tribo na planície da Terra não é muito grande. E ninguém conseguiu regressar à sua aldeia no subsolo. Por isso, os Mandan construíram a sua aldeia nas margens do rio. Mas o resto do povo permaneceu no subsolo.
No conto dos Cheyenne, um aspeto que não é abordado na íntegra na narrativa de Grinnell, algumas pessoas permanecem no subsolo. Grinnell inclui o pormenor «e uma parte deles também saiu de debaixo da terra», sem explicar o que aconteceu aos outros que não o fizeram. Em algumas versões do conto, a razão é simplesmente que alguns optam por não subir à superfície; noutras, é porque são indignos, ou têm medo, ou ambos. No conto dos Mandan, no entanto, deve-se simplesmente ao facto de a videira se partir; o que significa que ainda há Mandan a viver debaixo da terra — que teriam vindo à superfície se pudessem — que os Mandan consideram seus parentes vivos, que habitam um mundo abaixo do seu lar e ponto de origem.
N'A História da Criação dos Lakota Sioux, Wakan Tanka (o Grande Mistério ou Grande Espírito) criou um primeiro mundo no qual os humanos esqueceram a sua natureza divina e a sua relação com outras criaturas, pelo que este foi destruído pelo fogo. Foi então criado o segundo mundo, mas, mais uma vez, os humanos comportaram-se mal e, por isso, este foi destruído por um grande dilúvio. O terceiro mundo (o mundo da era atual) foi então criado de forma semelhante à história dos Cheyenne acima referida.
Wakan Tanka envia criaturas para as profundezas do mundo inundado para trazerem lama e, quando a tartaruga finalmente consegue, a criação tem início. A história serve não só para explicar como o mundo começou, mas também porque é que os Sioux se referem à América do Norte (e, em alguns contextos, a todo o planeta Terra) como «Ilha da Tartaruga», uma vez que a terra foi construída sobre o dorso da tartaruga generosa que recuperou a primeira lama e continua a transportá-la.
Conclusão
Tal como a humilde tartaruga serve o Criador no conto dos Sioux, o pequeno pato faz o mesmo n'A História da Criação dos Cheyenne. A ação humana não desempenha qualquer papel na criação original e, quando o Criador decide criar as pessoas, o homem é feito a partir de uma parte de Si mesmo e a mulher a partir de uma parte do homem, para que ambos partilhem não só da essência divina, mas também da força vital, do poder espiritual, um do outro.
Desta mesma forma, todos os animais, por mais insignificantes que possam parecer aos olhos dos humanos, partilham todos desta mesma essência divina e são considerados pelo Criador com igual importância. A História da Criação dos Cheyenne destaca este conceito ao longo de toda a narrativa, não só através das ações do pequeno pato, mas também da compreensão de que nada no mundo criado pode ser considerado menos importante ou digno de respeito do que qualquer outra coisa, uma vez que todas as coisas provêm de uma fonte divina.
