Educação Romana

Laura K.C. McCormack
por , traduzido por Patrícia Mello
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A educação romana teve suas primeiras “escolas primárias” no século III a.C.; essas escolas, porém, não eram obrigatórias e dependiam do pagamento de taxas escolares. Não eram escolas oficinais em Roma, nem possuíam construções específicas para esse propósito. As famílias mais abastadas contratavam tutores particulares para ensinarem seus filhos em casa, enquanto as crianças menos abastadas eram ensinadas em grupo.

Roman School
Escola Romana Shakko (CC BY-SA)

As escolas

As condições de ensino para os professores eram bem diferentes. Um tutor que trabalhasse para uma família abastada realizava o trabalho com certo conforto e facilidades; alguns desses tutores podem ter sido capturados durante os períodos de guerra e levados até Roma como escravos, tendo sido muito bem preparados e educados para esse trabalho. Outros professores, contratados pelas famílias menos abastadas, alugavam um cômodo para dar aulas ou para montar uma escola em uma área estendida de uma loja, o que o historiador romano, Suetónio (69 e.C. e cerca de 130/140), refere como pérgola (Gram.18.1). Era comum ver os professores mais pobres ministrando aulas para seus alunos em espaços públicos como as – trivium (encruzilhadas), ou na esquina de alguma rua, ou nas piazzas (praças). As aulas iniciavam ao amanhecer e iam até ao meio-dia. O poeta romano, Martial (38/41-103), reclamou por ser acordado na aurora pela voz de um professor e seus alunos: “Antes do galo cantar, você quebra o silêncio com suas ásperas palavras...”(Ep. 9.68).

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AS ESCOLAS ERAM ADMINISTRADAS DE FORMA PRIVADA POR PROFESSORES E, PORTANTO, DEPENDIAM DAS TAXAS DE ENSINO PARA SEREM MANTIDAS

As escolas eram administradas de forma privada por professores e, portanto, dependiam das taxas escolares para serem mantidas. Os professores possuíam um status relativamente baixo e, ao longo da antiguidade, a profissão foi vista como humilde. O ensino escolar foi visto como um segmento servil, no sentido comercial, e era muito mal remunerado.

Os pais pagavam as taxas escolares ao final de cada período, porém, não era certo que os professores iriam receber; nem sempre os pais pagavam, por não terem o dinheiro, ou porque estavam insatisfeitos com o progresso de seus filhos, e como resultado, os professores geralmente ficavam em uma situação financeira difícil e desfavorável. Na hierarquia educacional, o litterator (professor de educação infantil), o qual não necessitava de qualificações especiais, possuía o nível mais baixo de ordenado. Em 301, o salário para um professor de educação infantil era de 50 denários por mês por aluno, quando um alqueire (cerca de 35 litros) de trigo custava 30 denários. O grammaticus, a mais prestigiada posição como um educador avançado, tem registros de que recebia um salário de 200 denários por mês por aluno. O orador, ou seja, o professor de retórica, exigia maiores habilidades e conhecimento, e como resultado, havia mais oportunidades de obter um bom salário.

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Os alunos

O educador e orador, Quintilian (35-96), acreditava que era preferível a educação escolar à educação em casa, uma vez que as crianças se beneficiavam do convívio social no ambiente escolar. A educação infantil iniciava propriamente aos sete anos de idade. A maioria dos alunos eram meninos, mas as meninas também estudavam, especialmente no nível primário; porém, as meninas raramente avançavam além do primeiro nível, considerando que elas costumavam se casar no início da adolescência.

Ancient Private Tutor
Tutor Particular Antigo Mohawk Games (Copyright)

O tamanho de uma escola podia variar bastante. Martial em seus Epigramas escreve sobre Munna conseguindo um terceiro aluno (14.223), porém, Quintilian refere-se a um monte deles (Quint. Inst. II. 32-4) nas escolas de gramática e retórica. O professor sentava-se em uma grande cadeira enquanto os alunos – sentavam-se ao redor em semicírculo, ou em fileiras à frente dele. O assento habitual para os alunos em uma sala de aula era uma banqueta sem encosto. As mesas escolares não existiam, e cada um apoiava sua tábua sobre os joelhos para poder trabalhar. Uma classe podia ter estudantes de diferentes idades e habilidades, e geralmente, eles trabalhavam de forma independente. O professor não ensinava para a turma como um todo, mas cada aluno podia ir até ele para receber instruções e ler as suas lições concluídas em voz alta. Os professores tinham acesso a materiais didáticos limitados, livros eram raros e materiais escritos eram caros demais. Eles recitavam trechos, os quais os alunos memorizavam para fins de estudos. As crianças aprendiam a memorizar poesia, tratados gramaticais e palavras desconhecidas e seus significados.

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Os materiais

Os alunos levavam consigo para o local de aprendizagem tábuas enceradas e um kit que incluía uma esponja para apagar, uma faca para afiar bambu e uma régua; esses itens eram carregados em um pequeno estojo conhecido como theca. As crianças que vinham de famílias ricas podiam ser acompanhadas por um escravo até a aula. Papiros raramente eram utilizados, pois eram caros; mas eram usados em folhas soltas ou em folhas costuradas para serem feitos livros de exercícios. Mais comumente, os exercícios eram escritos sobre ostraca – pedaços de cerâmica. Os professores também usavam grandes cerâmicas para escreverem longos trechos ou coleções de máximas morais. Tábuas de madeira também eram usadas, e algumas eram em formato de caderno. As tábuas podiam ser revestidas de cera sobre as quais um buril afiado de metal, madeira ou osso era utilizado para escrever, ou a superfície podia ser limpa, sobre a qual caneta e tinta eram utilizadas.

Wooden Writing-tablet
Tabuletas de Madeira para Escrita Carole Raddato (CC BY-SA)

Curriculum

Havia três níveis de educação: a básica Três Rs era a primeira etapa. O literato era responsável por ensinar as crianças mais novas. As aulas incluíam ensinar a criança a formar e a escrever as letras; o professor gravava o alfabeto em um quadro de madeira e então a criança copiava as letras. As tábuas usadas pelas crianças normalmente eram pequenas o suficiente para caberem em uma mão, e consequentemente não comportariam muito texto. Os alunos escreviam em letras miúdas, cerca de um centímetro (0,39 polegada) de altura, e com prática esse tamanho era reduzido para 0,5 cm (0,19 polegada). Eles aprendiam as formas e os nomes das letras, então as sílabas e finalmente a construção de palavras e frases. As crianças também copiavam frases, as quais não eram necessariamente inúteis, mas, de acordo com Quintiliano em seu livro Instituto Oratório, deveriam levar alguma moral para a criança, de modo que, “a impressão sobre a sua mente ainda não formada, contribuísse para formar seu caráter” (1.1 31-34).

OS LIVROS ANTIGOS ERAM MAIS DIFÍCEIS DE SEREM LIDOS, VISTO QUE A MAIORIA DOS TEXTOS NÃO TINHA ESPAÇO ENTRE AS PALAVRAS, NEM PARÁGRAFOS, E NEM PONTUAÇÃO.

A habilidade de ler era um pouco mais difícil de adquirir do que nos dias de hoje. Os livros de antigamente eram mais difíceis de ler, uma vez que a maioria dos textos não tinha espaços entre as palavras, não havia distinção entre letras maiúsculas e minúsculas, nem parágrafos e nem pontuação. A aritmética para os alunos começava com a conta feita nos dedos e com os seixos (calculi), e então eles progrediam para a utilização do ábaco. Eles também aprendiam adição e multiplicação cantando. Muitas crianças não avançavam além dessa etapa.

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A segunda etapa para alunos entre dez e onze anos era estudar com o gramático, professor de língua e literatura; as crianças que progrediam para essa fase geralmente vinham de classes mais abastadas. Muitas dessas crianças tinham aprendido a ler e a escrever em casa e, então, iam diretamente para os estudos com o gramático, que iria desenvolver e refinar as habilidades de escrita e conversação e iria ensiná-las o grego. Suetónio escreveu sobre um tempo quando os gramáticos, comprometidos com certos tipos de exercícios adequados ao treinamento de oradores, como problemas, discursos, paráfrases e esboços de personagens, para que eles não entregassem seus alunos para os oradores totalmente ignorantes ou despreparados. Esses alunos também aprendiam música, filosofia, astronomia e ciência natural

Quando eles recebiam a toga da masculinidade, os alunos que eram, às vezes, jovens em torno de 15 anos podiam progredir para a terceira etapa, o que requeria um professor de retórica. Um professor treinava os alunos para falar em público, leis romanas e política, astronomia, geografia, literatura, filosofia, música e mitologia. Os alunos estudavam com o retor até a idade de 20 anos ou mais. O retor era encarregado de educá-los para tornarem-se habilidosos oradores; eles recebiam exercícios para o desenvolvimento de suas habilidades, os quais incluíam declamações, uma peça retórica sobre um tema inventado para a oratória política e forense. Os exercícios de declamação abordavam cenários de desordem familiar ou social, reafirmando as visões comuns da elite romana nas mentes dos jovens.

The Arringatore (Orator)
O Arringatore (Orador) corneliagraco (CC BY)

Suetónio recorda-se de seus dias de escola quando seu retor declamava e discursava em dias alternados, algumas vezes dando instruções pela manhã e à tarde. Os alunos recebiam tópicos e eram chamados a comporem discursos. Duas categorias de discursos são mencionadas por Sêneca, o Ancião, (55 a.C. to 39 e.C.) em sua coleção de declamações:

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  • suasoria – um discurso fictício no qual o orador dá conselhos a um personagem histórico ou semihistórico sobre sua conduta futura, com a intenção de persuadir alguém a adotar um determinado rumo de ação.
  • controvérsia – um discurso fictício no qual alguém defende um lado de um ponto da lei.

O comentário de Quintiliano nos pinta um quadro desses rapazes em pé realizando seus discursos e sendo generosamente aplaudidos e elogiados em alta voz por seus colegas de classe sem qualquer preocupação com a qualidade do discurso feito por seus colegas.

Disciplina

Como em qualquer ambiente escolar, havia aqueles momentos de distração; Lucian lembra-se de ter feito figuras de bois e cavalos da cera de suas tabuletas de escrita (Dream 2). Havia brigas entre as crianças, e, claro, as velhas táticas para evitarem as atividades; Persius descreve como ele embaçava a sua visão “... eu espalhava pomada nos meus olhos quando eu não queria fazer um discurso” (Sat. 3. 44-47).

Apesar da punição física ter sido usada por muitos professores como uma forma de disciplina, alguns professores empregavam métodos diferentes como incentivos para evitar o tédio e a distração; Suetónio escreve sobre o método de um professor:

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Para estimular o esforço de seus alunos, ele costumava fazer disputar alunos do mesmo nível, um contra o outro, não apenas estabelecendo o assunto sobre o qual eles deveriam escrever, mas também oferecendo um prêmio àquele que se sobressaísse e ganhasse a disputa. (Gram. 17. 1).

Essas competições, menciona Suetónio, recompensavam o aluno bem-sucedido com o prêmio de um livro antigo, valioso por sua beleza e raridade.

Quintius Sulpicius Maximus Memorial
Memorial de Quintius Sulpicius Maximus Joris (Public Domain)

A importância da educação foi destacada por educadores como Quintiliano, que escreveu sobre a criança sendo nutrida, educada e seu intelecto natural sendo apurado. A educação não era obrigatória. Muitos permaneciam analfabetos. Os meninos de classes mais pobres, cujos pais conseguiam pagar para enviar seus filhos para a escola, não iam além da educação primária, tendo aprendido as habilidades práticas necessárias para conseguirem um trabalho. As meninas também, tendo apenas a educação básica, poderiam começar a trabalhar bem novas. A criança das classes abastadas recebia o luxo de uma educação completa a qual a preparava para cargos na sociedade de classe alta. Não era incomum para alguns jovens continuarem seus estudos em outros lugares como Atenas, com os mestres gregos.

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Perguntas & Respostas

Qual era o objetivo da educação romana?

Havia três níveis na educação romana: o primeiro ensinava as habilidades básicas necessárias para conseguir um trabalho, o segundo refinava a escrita e ensinava o grego, enquanto o terceiro e último nível preparava o aluno para cargos para a classe alta pelo ensino de retórica, leis, política, etc.

Como as crianças romanas eram ensinadas?

As crianças abastadas tinham tutores particulares e eram ensinadas em casa, outras estudavam em instituições privadas, escolas baseadas em mensalidades.

Sobre o Tradutor

Patrícia Mello
Bacharel em Artes Plásticas, Especialista em Literatura Infantil e Juvenil, Especialista em Educação Infantil e Ensino Fundamental, autora de livros para infâncias e tradutora. Tem se dedicado às pesquisas e à realização de projetos literários.

Sobre o Autor

Laura K.C. McCormack
Gosto de pesquisar e muito do meu tempo é gasto trabalhando em projetos e viajando pela Itália. Meu principal interesse são as pedras funerárias romanas.

Cite Este Artigo

Estilo APA

McCormack, L. K. (2025, novembro 11). Educação Romana. (P. Mello, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2224/educacao-romana/

Estilo Chicago

McCormack, Laura K.C.. "Educação Romana." Traduzido por Patrícia Mello. World History Encyclopedia, novembro 11, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2224/educacao-romana/.

Estilo MLA

McCormack, Laura K.C.. "Educação Romana." Traduzido por Patrícia Mello. World History Encyclopedia, 11 nov 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2224/educacao-romana/.

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