A bandeira Jolly Roger, com o crânio e os ossos cruzados em branco sobre um fundo preto, se tornou uma parte bastante jovial do folclore pirata, mas, na época, ela e outras bandeiras com desenhos semelhantes tinham um único e terrível objetivo. O hasteamento da bandeira pirata, que geralmente só era içada no último minuto, sinalizava que o navio do qual os piratas se aproximavam deveria se render imediatamente, ou enfrentaria não apenas a invasão e o ataque, como também a execução de todos a bordo. A ameaça de que não haveria misericórdia costumava ser reforçada com o hasteamento de outra bandeira, uma vermelha. Os piratas içavam vários outros tipos de bandeira para sinalizar seu terrível objetivo ao se aproximar de um navio, normalmente com imagens sinistras, como esqueletos, espadas e corações sangrando. Bandeiras de países também eram usadas, em geral como um truque para disfarçar a verdadeira intenção dos piratas: pilhar e matar.
O Jolly Roger
O termo “Jolly Roger” a princípio se referia a qualquer bandeira hasteada por piratas e corsários (piratas legalizados pelo governo), e seus desenhos certamente variavam. O nome “Jolly Roger” passou a se referir desde então a um tipo específico de bandeira pirata: um fundo preto com um crânio humano em branco em cima de dois ossos cruzados, também em branco. Não se sabe ao certo a origem do nome, mas é possível que derive da palavra “Roger”, que, na época, simbolizava o Diabo, uma figura comumente chamada de “Old Roger”. Um grupo de piratas enforcados em Newport, Rhode Island, em 1723, chamava a sua bandeira com um esqueleto segurando uma ampulheta e um coração sangrando de “Old Roger”. O termo “roger” também era usado para mendigos ou ambulantes, e os corsários eram por vezes chamados de “mendigos do mar”, especialmente na Holanda. Uma origem alternativa é o termo francês le jolie rouge (o “lindo vermelho”), que se referia à bandeira vermelha que foi hasteada por corsários durante séculos. Outra possível origem (e há várias) é o pirata galês Black Bart Roberts (também conhecido como Bartholomew Roberts, por volta de 1682-1722), que era tão famoso por vestir sedas em vermelho vivo nas batalhas que os franceses também o apelidaram de le jolie rouge. Roberts era conhecido por içar a bandeira com o crânio e os ossos cruzados, entre outras, em sua frota de navios, e essa bandeira ficou conhecida como “Jolly Roger” por associação.
Embora piratas e outros marinheiros possam ter usado crânios e ossos em bandeiras muito antes na história, o primeiro registro do uso da “bandeira preta” Jolly Roger data do navio de Emmanuel Wynne, um pirata bretão que utilizou um modelo com um crânio, ossos cruzados e uma ampulheta em um combate ocorrido em 1700 nas redondezas de Santiago. Apesar disso, o Jolly Roger era utilizado com bem mais frequência por piratas britânicos e estadunidenses no começo do século XVIII depois que a bandeira toda em preto já era comumente usada há cerca de um século. Christopher Condent, que saqueou o Caribe e o Pacífico entre 1668 e 1672, talvez usasse uma versão mais antiga do Jolly Roger, com três crânios e conjuntos de ossos cruzados. O pirata britânico Richard Worley (enforcado em Charleston, em 1718) hasteou uma versão com o crânio sobreposto aos ossos cruzados. Sabe-se que Edward England, que atuou no Caribe (Caraíbas) entre 1717 e 1720, hasteou o Jolly Roger na versão que conhecemos hoje em dia (junto a uma bandeira do Reino Unido e uma vermelha, por precaução). Henry Jennings, um pirata inglês que esteve ativo no Caribe e no Atlântico de 1715 a 1717, foi outro que hasteou o agora clássico Jolly Roger.
O significado da bandeira preta em específico, e por extensão do Jolly Roger, era certamente conhecido pela maioria dos capitães que seguiam a lei. Em 1719, o capitão Snelgrave relatou que o Jolly Roger “tinha o objetivo de intimidar comerciantes honestos para que se rendessem, caso contrário eles seriam executados” (Rogozinski, 174). É possível que a bandeira Jolly Roger fosse uma primeira advertência e que, caso não fosse respeitada, o hasteamento de uma bandeira vermelha indicasse que não haveria misericórdia. Foi dessa forma que as duas bandeiras foram usadas pelo navio pirata que atacou o capitão Richard Hawkins, um acontecimento que ele registrou em uma carta de 1724.
Apesar do uso relativamente limitado na prática, o Jolly Roger se consolidou no imaginário popular graças à sua aparição em histórias famosas de piratas, como o romance de R. M. Ballantyne, “A Ilha de Coral” (1858), e “A Ilha do Tesouro”, de Robert Louis Stevenson, a princípio serializado em uma revista, em 1881, e depois publicado como romance, em 1883. Nesses dois livros, o navio pirata principal iça o Jolly Roger e todos reconhecem seu significado. A bandeira se tornou ainda mais conhecida após inúmeras aparições em filmes de Hollywood, desde os mudos até os sucessos de bilheteria do século XXI.
Símbolos Medonhos
Os piratas não eram nada além de indivíduos espalhafatosos, logo não é surpresa alguma que eles quisessem ter bandeiras únicas. As cores mais comuns para o fundo de bandeiras piratas eram preto e vermelho, e as imagens deviam lembrar as vítimas das consequências de resistir. Esqueletos, crânios, corações sangrentos, ampulhetas (indicando que o tempo da pessoa no mundo logo chegaria ao fim) e asas (indicando que o tempo da pessoa estava voando para longe) eram estampas comuns em bandeiras. Além disso, como muitos desses símbolos também eram vistos em lápides daquela época, todos sabiam o que eles significavam. Armas — como espadas, sabres de lâmina curva, balas de canhão em chamas e lanças — eram outro símbolo que eles gostavam. Por exemplo, o pirata inglês John Rackham (morto em 1720), apelidado de “Calico Jack”, era famoso por usar uma bandeira preta com um crânio branco acima de dois sabres cruzados em seus navios que saquearam o Atlântico e o Caribe.
Henry Every, um pirata britânico ativo no Mar Vermelho e no Atlântico entre 1692 e 1695, usava na bandeira a figura de um corpo humano segurando uma ampulheta em uma mão e um coração sangrando com um ferimento da lança na outra. Segundo a lenda, o pirata mais famoso de todos, Edward Teach (“Barba Negra”, morto em 1718), usava uma bandeira parecida, porém mais assustadora, pois o corpo foi trocado por um esqueleto. Black Bart Roberts escolheu uma bandeira mais cômica, que mostrava ele bebendo vinho com um esqueleto ou um demônio segurando uma lança em chamas. Piratas também gostavam de se exibir um pouco. O símbolo pessoal de Roberts era ele com uma espada, de pé sobre dois crânios. Abaixo dos crânios estavam as letras ABH e AMH, indicando que eles representavam respectivamente as cabeças decapitadas dos governadores de Barbados e Martinica — "A Barbadian Head" (A Cabeça de um Barbadiano) e "A Martiniquan Head” (A Cabeça de um Martinicano) —, que enviaram navios para perseguir Roberts. Finalmente, alguns piratas parecem ter tido dificuldade para escolher o símbolo da bandeira, então algumas composições bastante poluídas foram criadas, como a que foi atribuída (talvez erroneamente) a Christopher Moody, que tinha um crânio, ossos cruzados, uma espada e uma ampulheta com asas, tudo em um fundo vermelho.
Bandeiras Nacionais & Coloridas
As bandeiras também podiam ser usadas para os piratas se comunicarem. O notório pirata chinês Cheng I (também conhecido como Zheng Yi, que viveu de 1765 a 1807) aterrorizou os mares da Ásia Oriental, desde o Vietnã até Hong Kong. A partir de 1801, Cheng chefiou uma aliança de seis líderes piratas da Ásia, e cada uma das frotas dos comandantes hasteava uma bandeira colorida para que conseguissem se diferenciar uns dos outros. As cores usadas eram vermelho, preto, branco, verde, azul e amarelo. Além disso, cada bandeira tinha uma forma diferente. Cada comandante atuava em uma área específica, mas o uso das bandeiras garantia que eles não se confundissem quando navios inimigos entrassem nas zonas de ataque.
Alguns piratas hasteavam a bandeira de seu principal patrocinador, que era ou a bandeira de uma família ou a de um país. Usar bandeiras nacionais também era uma tentativa de criar uma fachada respeitável para as ações dos piratas que se consideravam corsários e adversários legítimos dos inimigos de seus soberanos. Em 1694, o Almirantado Britânico ordenou que todos os corsários que trabalhavam para a Coroa usassem uma bandeira vermelha em vez da bandeira nacional. No século XVIII, corsários estadunidenses costumavam hastear bandeiras vermelhas com faixas brancas na horizontal.
Algumas organizações, como os Estados Berberes do Norte da África e a Ordem de Malta (também chamada de Cavaleiros Hospitalários), que almejavam embarcações de comerciantes muçulmanos, insistiam que os corsários usassem a bandeira deles. Outros capitães se orgulhavam da própria nacionalidade e hasteavam uma bandeira condizente, como o corsário Hamidou Reis (1790-1815), que operava no Mediterrâneo e navegava com uma bandeira inglesa.
Alguns piratas também usavam bandeiras nacionais comuns para enganar suas vítimas. Um capitão notório que empregava esse truque era o pirata inglês John Deane, que atuou no Caribe na década de 1670. Dean içava as bandeiras da Holanda, da Espanha e da França para induzir as vítimas a uma falsa noção de segurança. De vez em quando, as autoridades usavam esse mesmo artifício, como no caso dos navios estadunidenses que hastearam bandeiras inglesas em 1815 e se aproximaram o suficiente do navio de Hamidou Reis para disparar a bala de canhão que cortou o corsário ao meio. As bandeiras claramente podiam ser um fator letal nas batalhas marítimas que envolviam piratas e corsários.
