Oficiais do Exército Romano

Donald L. Wasson
por , traduzido por Raimundo Raffaelli-Filho
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Com o surgimento do legionário, o exército romano conseguiu manter um vasto império que abrangia a totalidade do Mar Mediterrâneo. Embora o sucesso do exército dependesse da infantaria e da cavalaria, havia outros indivíduos — tanto no campo de batalha quanto no acampamento — que possibilitavam a vitória dessas tropas. Além do célebre centurião, que se posicionava à frente de sua coorte e conduzia seus legionários à batalha, existia uma hierarquia de comando composta por tribunos militares, um prefeito do acampamento e um legado. Ao lado do centurião, no calor do combate, estavam os principales: o optio, o signifer, o aquilifer e o tesserarius. Havia também outros profissionais — alguns com habilidades especializadas — que, embora permanecessem no acampamento, eram igualmente essenciais: os immunes e os beneficiarii, incluindo trabalhadores, escribas, agrimensores, arquitetos, engenheiros e ordenanças. Os legionários não teriam sido capazes de conquistar e manter um império sem esse suporte competente; juntos, eles fizeram do exército romano um adversário temido por mais de oito séculos.

Roman Officers & Standard-Bearers
Oficiais e Carregadores de Estandartes Romanos The Creative Assembly (Copyright)

Um Exército Cada Vez Mais Profissional

Originalmente, o exército romano consistia em uma milícia de cidadãos recrutados entre aqueles que possuíam propriedades e que serviam apenas durante a duração da guerra. Havia um vínculo direto entre cidadania, propriedade e a esfera militar. Durante o consulado de Caio Mário (c. 157–86 a.C.), a milícia se reinventou e transformou-se em um exército profissional. As distinções de idade e experiência que existiam anteriormente foram abolidas. A guerra constante havia reduzido drasticamente os efetivos militares. Percebendo a necessidade, Mário identificou um recurso inexplorado e alterou os requisitos de alistamento, recrutando cidadãos mais pobres e sem propriedades de Roma. O soldado não precisava mais fornecer seu próprio equipamento; o governo providenciava todos os itens essenciais: armas, armaduras e até mesmo vestuário. Com essas mudanças, o serviço no exército tornou-se extremamente popular entre os pobres, pois oferecia alimentação, vestuário, assistência médica e um salário garantido. O legionário dessa nova fase tornou-se mais bem treinado e disciplinado e, consequentemente, mais flexível e eficaz.

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O TREINAMENTO NO EXÉRCITO ROMANO ERA SUPERVISIONADO POR UM OFICIAL ESPECIALIZADO, GERALMENTE O OPTIO.

As mudanças continuaram ao longo do período imperial. Antes da época do imperador Augusto (gov. 27 a.C. – 14 d.C.), o exército romano estava em constante deslocamento. À medida que as fronteiras do império se expandiam pela Europa e pelo Oriente Médio, começaram a surgir fortalezas permanentes para ajudar a estabilizar a fronteira. Augusto reduziu o número de legiões de 60 para 28. A maioria delas estava estacionada em províncias instáveis ​​e ao longo das fronteiras. Ao final, Roma contava com um exército permanente de 150.000 legionários e 180.000 soldados de infantaria e cavalaria auxiliares. Embora o número de legiões tenha sido reduzido, ainda havia necessidade de legionários leais; no entanto, o longo processo de avaliação e treinamento permaneceu inalterado. Primeiramente, verificava-se a situação jurídica de todos os recrutas para impedir que escravos ingressassem no exército. Além da situação jurídica, levavam-se em conta a idade, o condicionamento físico, a instrução e a ocupação anterior do indivíduo. Se todos os requisitos fossem atendidos durante esse período de prova, o recruta avançava para a etapa seguinte, recebendo seu signaculum: uma peça de metal usada no pescoço contendo informações pessoais do soldado — semelhante às placas de identificação (dog tags) dos exércitos atuais. Ao chegar ao acampamento designado, ele passava por um treinamento rigoroso antes de se tornar oficialmente um legionário.

O Centurião

O treinamento era supervisionado por um oficial especializado, geralmente o optio. As atividades incluíam exercícios de ordem unida, simulações de batalha e combate individual. O treinamento com armas era realizado utilizando escudos de vime e espadas de madeira. No entanto, uma das primeiras lições que o futuro legionário aprendia rapidamente era que a disciplina era rigorosa. O legionário devia obedecer às ordens sem hesitação; caso contrário, teria de prestar contas ao centurião (centurio). Além de suas outras atribuições, o centurião era responsável pela disciplina, portando a vitis (vara de videira). Com ela, podia punir fisicamente um legionário até mesmo por uma infração menor. Acredita-se que o treinamento rigoroso, a obediência e a disciplina severa moldavam um soldado intimidador.

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Centurion
Centurião Luc Viatour / www.Lucnix.be (CC BY-NC-SA)

Júlio César considerava o centurião a espinha dorsal do exército, mas os caminhos para alcançar essa patente eram variados. Normalmente, o centurião ascendia na hierarquia militar. Alguns eram ex-membros da Guarda Pretoriana imperial, enquanto outros pertenciam à classe equestre e recebiam suas nomeações diretamente do imperador. Em batalha, o centurião podia ser reconhecido por sua armadura de prata, grevas de metal e capacete com crista transversal. Além disso, diferentemente dos legionários sob seu comando, ele portava a espada (gladius) do lado esquerdo e o punhal (pugio) do lado direito. Na formação de batalha, posicionava-se à esquerda da primeira fileira. Nos alojamentos do acampamento, dispunha de aposentos privativos com latrina separada.

A HIERARQUIA OFICIAL DE UMA LEGIÃO BASEAVA-SE EM TRÊS FIGURAS: O LEGADO, O TRIBUNO E O PREFEITO DO ACAMPAMENTO.

Para tornar-se centurião, o indivíduo precisava, antes de tudo, e o mais importante, ser alfabetizado, o que lhe permitia compreender as ordens (sempre dadas em latim) e transmiti-las aos legionários. Embora fosse um oficial de patente intermediária, frequentemente lhe eram confiadas outras funções de grande responsabilidade. Ele podia atuar como instrutor ou em missões destacadas, servindo como administrador em uma das províncias. Frequentemente, ele servia em até 12 legiões diferentes ao longo de sua carreira de 46 anos. Embora tal prática fosse malvista por mais de um imperador, ele podia complementar sua renda cobrando uma pequena taxa para conceder licença a um legionário durante os meses mais tranquilos do inverno. Ao se aposentar, além de receber seus proventos de reforma, um centurião poderia tornar-se lictor (oficial de escolta) de um magistrado romano ou comandar a Guarda Pretoriana.

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Com a assistência dos principales (oficiais subalternos), o centurião comandava uma centúria de 80 homens — seis centúrias equivaliam a uma coorte de 480 homens. Cada centúria era dividida em dez grupos de oito homens, conhecidos como contubernium. Esses oito legionários desenvolviam um vínculo estreito, compartilhando o mesmo alojamento no acampamento. Eles lutavam juntos, comiam juntos e, em alguns casos, morriam juntos. Havia, ao todo, 59 centuriões em uma legião composta por dez coortes. Com exceção da primeira coorte, que contava com o dobro de legionários e cinco centuriões, as nove coortes restantes somavam 54 centuriões, ou seis por coorte. Cada um desses seis centuriões possuía um título específico; em ordem decrescente, eram eles: pilus prior, princeps prior, hastatus prior, pilus posterior, princeps posterior e hastatus posterior.

Roman Optio
Optio Romano Siôn McElveen (CC BY-SA)

Os centuriões da primeira coorte eram os mais importantes de toda a legião, conhecidos coletivamente como primi ordines ou "homens da primeira ordem". Essa coorte era liderada pelo centurião de maior patente e antiguidade de toda a legião: o primus pilus (ou "primeira lança"). Frequentemente, ele passava a exercer o cargo de prefeito do acampamento (praefectus castrorum). Tradicionalmente, ele devia ter pelo menos 50 anos de idade e, geralmente, servia por um mandato de apenas um ano. Além de tornar-se prefeito do acampamento, ele poderia ser elevado à classe equestre ou tornar-se governador provincial. Abaixo dele, na primeira coorte, estavam os quatro centuriões restantes: em ordem decrescente, eram o princeps prior, princeps posterior, hastatus prior e hastatus posterior. Os termos princeps e hastatus são títulos que remetem aos antigos manípulos.

Os Principales

Ao lado do centurião, tanto no acampamento quanto no campo de batalha, atuavam diversos legionários de patente superior conhecidos como principales. Esses legionários frequentemente recebiam entre uma vez e meia e o dobro do soldo normal. Dois dos principales serviam como auxiliares diretos: o cornicularius e o optio. Além de suas responsabilidades como instrutor, cabia ao optio posicionar-se — portando seu bastão de comando, o hastile — na extremidade direita da retaguarda da centúria, para manter a ordem e impedir deserções. Na ausência do centurião, o optio assumia o seu lugar e, caso surgisse uma vaga para um novo centurião, o optio era promovido para preenchê-la. No entanto, havia a opção de seguir um caminho diferente e tornar-se um tesserarius. Esse oficial era responsável por obter as senhas (registradas em uma tabuleta de cera ou tessera), mantê-las em segurança e transmiti-las às sentinelas. Em batalha, ele se posicionava à esquerda, na retaguarda da centúria.

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Roman Victory Procession
Desfile da Vitória Romano The Creative Assembly (Copyright)

Como cada legião possuía seu próprio estandarte, existiam cargos de grande honra associados aos diversos pavilhões e insígnias. Entre eles estavam o vexillarius (portador do estandarte da cavalaria, o vexillum), o signifer (portador do estandarte da infantaria, o signum), o imaginifer (portador da imagem do imperador) e, o mais importante, o aquilifer (portador do estandarte da águia de ouro, a aquila). Associados a esses homens estavam os antesignani — soldados de infantaria posicionados à frente do estandarte — e os postsignani, que vinham logo atrás. Um estandarte singular, frequentemente utilizado em desfiles, era o signum draconis (ou draco), carregado pelo draconarius. Consistia em uma cabeça de dragão de bronze fixada a um tubo multicolorido de tecido tingido; esse dispositivo funcionava como uma biruta, emitindo um som semelhante a um uivo quando o cavaleiro se deslocava em alta velocidade. O draco passou a ser utilizado por todas as unidades de cavalaria romanas.

A necessidade de indivíduos para auxiliar o centurião, tanto dentro quanto fora do campo de batalha, criava oportunidades para aqueles que possuíssem a motivação, a instrução e as habilidades necessárias. Podia-se optar por integrar a artilharia, tornando-se um ballistarius e operando as máquinas de cerco. Outra função, subordinada à do centurião, era a de decurião — um oficial subalterno que frequentemente comandava uma unidade auxiliar. Os acampamentos e as fortalezas também contavam com um contingente de pessoal essencial que, muitas vezes, estava isento de deveres de campanha. Havia os beneficiarii, geralmente veteranos que atuavam como ordenanças e escribas (libarii). Indivíduos com habilidades especializadas — engenheiros, carpinteiros, instrutores e pessoal médico — eram denominados immunes e recebiam remuneração adicional pelo seu trabalho. Um acampamento ou fortaleza também necessitava de médicos, arquitetos, administradores e veterinários. Havia ainda trombeteiros e corneteiros que atuavam como sinalizadores em batalha: os tubicines, cornicines e buccinators. No entanto, um legionário verdadeiramente ambicioso podia almejar tornar-se centurião, embora isso pudesse levar de 12 a 15 anos ou mais. Felizmente, a proibição de casamento aplicava-se aos centuriões e aos demais oficiais superiores.

O Legado

A hierarquia oficial de uma legião baseava-se em três indivíduos. O primeiro era o legado (legatus legionis), seguido pelo tribuno de faixa larga (tribunus laticlavius) e, por fim, pelo prefeito do acampamento (praefectus castrorum). Nomeado pelo imperador, o legado não era um soldado de carreira. Geralmente na casa dos trinta anos e membro da ordem senatorial, ele provinha da elite social e política de Roma. O legado era o comandante da legião e, durante o início do período imperial, exercia o cargo por apenas dois anos; posteriormente, esse prazo foi estendido para quatro. No acampamento, sua residência — o praetorium — refletia seu status de senador romano, contando com jardim, aposentos para criados e acomodações para sua família. No campo de batalha, ele vestia um elmo ricamente decorado, armadura corporal, uma capa escarlate (paludamentum) e uma faixa de cintura escarlate (cincticulus). Assim como outros oficiais superiores do Império, ele tinha direito a fasces e lictores: no seu caso, cinco de cada. Quando ele se ausentava da fortaleza, suas atribuições passavam para o prefeito do acampamento.

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Roman Fort, Lunt
Forte Romano de Lunt (Inglaterra) Snowmanradio (CC BY-SA)

O Tribuno

Os dois oficiais superiores restantes na legião eram o tribuno de faixa larga e o prefeito do acampamento. O tribuno de faixa larga, ou tribunus laticlavius, ocupava o segundo lugar na hierarquia e estava em uma trajetória rumo ao Senado. É importante não confundir o tribuno militar com o tribuno da plebe. Cada legião imperial contava com seis tribunos, mas apenas um usava uma faixa púrpura larga na toga e na túnica, enquanto os outros cinco — os augusticlavii — usavam uma faixa púrpura estreita. Um jovem romano da classe equestre frequentemente via o cargo de tribuno como um degrau na carreira, embora fosse um objetivo que poderia levar até nove anos para ser alcançado. Embora não fosse garantia absoluta, essa aspiração senatorial era frequentemente concretizada pelo tribuno de faixa larga apenas após servir na legião por um período de três a seis anos. O tribuno de faixa estreita não detinha autoridade ou poderes de comando, limitando-se a funções de estado-maior, à participação em cortes marciais e a tarefas de supervisão de guardas. Para tornar-se tribuno de faixa larga, o indivíduo precisava servir como prefeito ou comandante tanto de uma unidade de infantaria auxiliar quanto de uma de cavalaria auxiliar. Em batalha e no exercício do comando de uma unidade, o tribuno de faixa larga podia ser reconhecido pelo elmo ricamente decorado, pela armadura moldada e pela capa branca, além de portar a espada no quadril esquerdo. Ele também possuía uma casa, ou domus, que refletia seu status de elite romana; contudo, não lhe eram conferidos fasces nem lictores.

O Prefeito do Acampamento

Depois do tribuno, o terceiro na hierarquia era o prefeito do acampamento, ou praefectus castrorum. Como ex-primus pilus, ele atuava no comando de um destacamento da legião e, na ausência do legado, exercia a função de intendente responsável pela infraestrutura do acampamento: construção, alojamentos, instalações, manutenção de armas, assistência médica, alimentação, abastecimento de água, bem como a fabricação e o armazenamento de materiais de construção. O cargo foi extinto no século IV.

A legião romana e seus legionários tornaram-se lendários, sendo imitados por exércitos ao longo dos séculos. O legionário foi frequentemente aclamado por seu valor e resistência em combate. Ao seu lado na batalha estava o centurião — um líder tanto dentro quanto fora do campo de batalha. No entanto, embora esses homens fossem celebrados e tidos como exemplo, havia uma série de outros indivíduos — presentes no acampamento e ao lado dos legionários durante os combates — que, embora um tanto esquecidos, foram vitais para o sucesso da máquina militar romana. Eram eles os immunes, os beneficiari e os principales. Todos esses homens auxiliaram os romanos na conquista de um império que abrangia toda a região do Mediterrâneo.

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Perguntas & Respostas

Qual oficial era responsável pela disciplina dos legionários?

Os centuriões eram responsáveis pela disciplina dos legionários. Em batalha, o centurião comandava uma "centúria" de 80 homens — seis centúrias equivaliam a uma coorte de 480 homens.

Quem eram os “principales”?

Os “principales” eram oficiais de patente superior que atuavam como instrutores no exército romano. Dois dos “principales” serviam como oficiais de estado-maior: um deles era o “cornicularius” e o outro, o “optio”.

Qual era a função do legado?

A função do legado, ou “legatus legionis”, era comandar uma legião romana.

Quais eram as atribuições do prefeito do acampamento?

As atribuições do prefeito do acampamento eram comandar um destacamento da legião e, na ausência do legado, atuar como oficial de intendência responsável pela infraestrutura do acampamento.

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Wasson, D. L. (2026, outubro 23). Oficiais do Exército Romano. (R. Raffaelli-Filho, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1711/oficiais-do-exercito-romano/

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Wasson, Donald L.. "Oficiais do Exército Romano." Traduzido por Raimundo Raffaelli-Filho. World History Encyclopedia, outubro 23, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1711/oficiais-do-exercito-romano/.

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Wasson, Donald L.. "Oficiais do Exército Romano." Traduzido por Raimundo Raffaelli-Filho. World History Encyclopedia, 23 out 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1711/oficiais-do-exercito-romano/.

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