Armas e Armaduras Romanas

Donald L. Wasson
por , traduzido por Felipe Muniz
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Desde os dias dos hoplitas até à queda do Império Romano Ocidental, passando pela criação do legionário, o exército romano foi um adversário temido. O equipamento do legionário sempre foi o mesmo, ainda que com pequenas modificações: uma lança, uma espada, um escudo e um capacete.

Roman Legionary Kit
Equipamento do Legionário Romano Carole Raddato (CC BY-SA)

Ainda que a República Romana Inicial tenha conquistado vitórias com uma milícia de cidadãos, o verdadeiro sucesso de Roma veio com a criação da célebre legião. Profundas transformações táticas aconteceram durante os últimos dias da República Tardia, especialmente sob a liderança de Caio Mário (157-86 a.C.). Reformas posteriores foram iniciadas pelo primeiro imperador romano, Augusto, que governou de 27 a.C. até 14 d.C.

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Da Milícia de Cidadãos às Legiões

Inicialmente, o exército romano era uma milícia de cidadãos, recrutada entre os proprietários. Eles serviam sem o recebimento de soldo, somente durante o período de guerra. Foi só durante a República Tardia, com o consulado de Caio Mário (157-86 a.C.), que tal milícia de meio-período se tornou um exército profissional e de tempo integral. Os soldados romanos - também conhecidos como hoplitas, por seu escudo circular, o hoplon - eram, basicamente, lanceiros fortemente armados. Usavam um escudo com cerca de 90 cm (3 pés) de diâmetro, preso por uma alça e uma tira. Portavam, ainda, um capacete de bronze que cobria o rosto e o topo da cabeça; grevas para a parte debaixo das pernas (alguns utilizavam caneleiras, em vez de grevas); e uma couraça, feita de bronze ou linho endurecido, para proteger o peito. Suas armas principais eram uma lança de 2,5 m (8 pés) e uma espada curta. A primeira era utilizada principalmente para estocadas, e não para arremessos. A segunda, por sua vez, destinava-se ao corte e ao talhe.

O pilum permaneceria no arsenal do legionário por mais de cinco séculos.

A milícia adotou a formação em falange dos colonos gregos. Entretanto, tal formação, com o tempo, mostrou-se ineficiente, na medida em que funcionava melhor em espaços abertos. Embora cada soldado tivesse que fornecer e manter seu próprio equipamento, uma série de reformas durante o governo de Sérvio Túlio (578-535 a.C.), no século VI a.C., impactaram sua formação. Os cidadãos passaram a ser segmentados em classes, utilizando da riqueza como critério divisório. Cada classe, então, era obrigada a prover seu próprio equipamento militar. Existia uma conexão direta entre cidadania, propriedade e o serviço militar.

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Nos séculos III e II a.C., as Guerras Púnicas contra Cartago foram marcadas pela ascensão das célebres legiões. Agora, o exército passou a ser dividido em três divisões distintas, e cada uma dessas era segmentada em centúrias, compostas por aproximadamente uma centena de homens. Ainda assim, as forças militares romanas eram formadas apenas por cidadãos com posses. Cada legião possuía 4.200 infantes e 300 soldados de cavalaria. O primeiro grupo ou divisão, posicionado na vanguarda e mais próximo do inimigo, era composto pelos hastati. Eles eram os mais jovens cidadãos com posses, normalmente no final da adolescência ou começo da vida adulta. Seus números giravam em torno de 1.200. O segundo grupo eram os principes. Um pouco mais velhos, já eram adultos na faixa dos vinte e trinta anos, cujos números também estavam ao redor de 1.200. Na retaguarda vinham os triarii, 600 soldados veteranos que só lutavam em situações extremas.

Todos vestiam capacetes de bronze e peitorais, sendo que os mais ricos portavam também cota de malha. Carregavam, ainda, um escudo semi-cilíndrico. Os hastati e os principes levavam dois dardos, conhecidos como pila. Cada pilum tinha uma haste de 1,2 m (4 pés), com uma espiga de ferro medindo 60 cm (2 pés) e ponta cônica. Seu alcance de lançamento era de pouco mais de 30 m (100 pés). O pilum permaneceria no arsenal do legionário por mais de cinco séculos. Havia ainda os velites, recrutados entre as camadas mais empobrecidas dos cidadãos com posses. Eles atuavam como infantaria ligeira. Carregam um dardo leve e um escudo (normalmente, com formato circular) pouco pesado, já que a utilização de um escudo mais robusto havia se mostrado excessivamente complicada. Alguns portavam capacetes, mas a maioria se cobria com peles de lobo para que fossem mais facilmente identificados por seus oficiais numa batalha.

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Reconstructed Roman Pilum
Pilum Romano Reconstituído Matthias Kabel (CC BY-SA)

Por volta do século III a.C., depois das guerras com Cartago, o exército romano adotou a espada espanhola, conhecida como gladius hispaniensis, a qual substituiu sua antiga arma de estocada. O soldado romano recém-equipado também carregava um pugio (ou adaga), geralmente à direita do quadril, e o gladius à esquerda. Para defesa, usavam armadura de malha ou couraça com tiras de couro; um capacete (existiam vários estilos); e um escudo semicilíndrico de 1,20 m por 0,75 m (4 pés por 2 ½ pés) ou um scutum de madeira compensada coberto com couro de bezerro. Aqueles que eram pobres demais para arcar com uma cota de malha usavam uma placa sobre seus peitos. A cavalaria levava um escudo menor e mais leve.

O Exército Tardo-Republicano

Mudanças substanciais vieram com o consulado de Caio Mário, em 107 a.C. Percebendo a necessidade de mais soldados, ele foi contra a tradição e começou a recrutar os cidadãos romanos mais pobres e sem posses - os capite censi. Durante seu serviço, eles receberiam não somente o soldo, mas também espólios de guerra. Após as Reformas Marianas, a legião se tornou mais permanente, com todo seu equipamento - armas, armaduras e roupas - sendo provido. As distinções de idade e experiência foram abolidas. Todos deveriam ser armados da mesma maneira. Os legionários eram todos da infantaria pesada, equipados com um pilum e um gladius mantido na bainha. O pilum, ou lança de arremesso, cairia em desuso no século III d.C.

Cada legião recebeu um estandarte - uma águia de ouro ou prata - e um número.

Esses novos legionários eram mais bem treinados e melhor disciplinados. As mudanças permitiram que a legião se tornasse mais flexível e, portanto, mais eficaz. Uma alteração peculiar consistia em exigir que os soldados carregassem seus suprimentos nas costas. Eles receberam, então, a alcunha de "mulas de Mário". A unidade básica, chamada de coorte, substituiu o manípulo e era formada por 480 soldados, divididos em seis centúrias de 80 soldados. Cada legião recebeu um estandarte - uma águia de ouro ou prata - e um número.

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Os romanos frequentemente replicavam as armas ofensivas e defensivas de seus inimigos. Foi assim que adotaram equipamentos como a armadura de malha, os arreios de cavalo, as selas com chifres e as armas de cerco, como os aríetes e as torres de cerco. Contatos com os partos e a desastrosa derrota de Crasso em 53 a.C. mostrou aos romanos a utilidade de catafractários fortemente blindados, bem como de arqueiros montados.

Roman Cavalryman Reconstruction
Reconstituição de um Soldado de Cavalaria Romano wikipedia User: Storye book (CC BY)

O soldado romano assistiu a uma sequência de mudanças em sua indumentária: um novo modelo de armadura de malha de ferro e bronze (a lorica hamata), protetores de nuca, capacetes com faceiras, uma espada de corte mais longa (a spatha), além de novos arreios, selas e ferraduras. Soldados de cavalaria desmontados lutavam com uma lança e se defendiam com um escudo plano e oval, feito de madeira e coberto com couro. Além disso, portavam um capacete de ferro com faceiras, uma couraça de malha, sandálias de couro (alguns, inclusive, colocavam esporas nelas), um lenço ao redor do pescoço, para evitar escoriações por atrito, e uma manta de sela, para impedir assaduras no cavalo. Não levavam, entretanto, nenhuma proteção para as pernas e os pés. Posteriormente, muitos soldados de cavalaria carregariam consigo uma lança longa, chamada de contus, além da spatha.

As Reformas de Augusto

Em 31 a.C., posteriormente à Batalha de Áccio, na qual Marco Antônio e Cleópatra foram derrotados, Augusto, cujo reinado se deu entre 27 a.C. e 14 d.C., desmobilizou 32 das 60 legiões, deixando 28 ativas. Dessa forma, 260.000 soldados foram dispensados. No século I, o número de legiões restantes foi reduzido para 25, após a desastrosa Batalha da Floresta de Teutoburgo, no ano 9 d.C. Depois de Armínio se virar contra Roma e derrotar Públio Quintílio Varo, Augusto buscou garantir a lealdade dos soldados exclusivamente para com ele. O exército também passou a contar com recrutas das províncias. Soldados dessas áreas podiam, após determinado tempo de serviço, obter cidadania romana. Um jovem com no mínimo 13 anos podia se alistar como aprendiz e, então, servir por até 36 anos. Ele recebia um soldo fixo, ainda que com deduções referentes à alimentação, aos suprimentos e, quando aplicável, aos cavalos. Ele também podia ser agraciado com incentivos e recompensas na hipótese de um triunfo romano. Quando dispensado, receberia terras.

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Agora, o exército era inteiramente profissional e permanente. Auxiliares passaram a ser integrados às tropas: arqueiros cretenses e sírios; fundeiros baleares e númidas. Apesar de não carregarem nem o comum pilum nem o leve scutum, eles vestiam um capacete, uma camisa de malha e portavam um escudo.

A Evolução da Armadura

Dos dias iniciais da República Romana até o período imperial, as armas padrão dos legionários mudaram. Sua indumentária, entretanto, manteve-se relativamente estável. Todos os cidadãos romanos do sexo masculino vestiam túnicas de manga curta. A túnica de um legionário, entretanto, era maior e mais comprida que a de um civil, sendo cingida na cintura por dois cintos: um sustentava a espada e o outro a adaga. Posteriormente, esses cintos foram substituídos por um só, mais largo, que sustentava ambas as armas. Esse cinto largo, o cingulum militare, era um símbolo importante do status de um legionário. Ele era composto de um a nove tiras, geralmente sendo ornamentado. Eles também usavam uma capa retangular estampada de lã grossa, com um broche para unir as duas partes. Alguns preferiam o sagum (parecido com um poncho). Além disso, calçavam meias, conhecidas como undones, e botas, chamadas de caligae, que eram parecidas com sandálias. Por fim, há evidências de que alguns soldados até mesmo possuíam roupas íntimas - as subigares - e calças de lã.

Bronze caliga from an over life-size statue of a Roman cavalryman
Caliga de Bronze de uma Estátua Equestre Romana de Tamanho Real Carole Raddato (CC BY-NC-SA)

Com o tempo, o equipamento pessoal do legionário se tornou mais capaz de oferecer proteção. Isso era mais evidente pelos seus capacetes. Um modelo inicial era o Montefortino, com faceiras largas e protetores de nuca amplos, fornecendo boa proteção contra golpes na cabeça. O Coolus era similar ao seu predecessor, mas com faceiras ainda mais largas, protetor de nuca e uma aba frontal reforçada, para proteger contra um possível ataque. O capacete imperial gálico possuía um guarda nuca mais amplo e com nervuras, o que lhe garantia mais força. O capacete imperial itálico se diferenciava do gálico, por sua vez, ao apresentar menos ornamentos. Por fim, o modelo Intercisa diferia radicalmente dos demais. Ele apresentava uma calota composta por duas peças separadas unidas por uma crista, além de uma pequena proteção de nuca, sem reforço na parte frontal ou superior. Alguns capacetes eram adornados com penas ou crina de cavalo.

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O legionário romano utilizou, ao longo do tempo, diferentes tipos de couraça: a armadura de malha (lorica hamata), a armadura de escamas (lorica squamata) e a armadura de placas (lorica segmentata). Vestia, por debaixo da armadura, uma vestimenta acolchoada, destinada à proteção, com o nome de thorumachus. Assim como antes, o legionário nunca estava sem seu escudo, o scutum, que era frequentemente adornado com o símbolo e o número da legião a qual ele pertencia. O escudo mudou pouco de meados do período republicano até ao século III d.C., deixando o formato retangular pelo oval. O legionário também carregava uma capa de couro para seu escudo, a qual era retirada quando em batalha ou triunfo. Todos os soldados levavam uma mochila suspendida de um longo bastão, que era carregado sobre seus ombros. A mochila armazenava equipamentos de topografia, uma picareta e paliçadas ou estacas de madeira.

Centurion
Centurião Luc Viatour / www.Lucnix.be (CC BY-NC-SA)

O Exército Romano Tardio

Mudanças profundas aconteceram durante o século IV. Algumas dessas tinham ligação direta com o imperador Constantino I, que reinou entre 306 e 337. Os legionários agora eram ou comitatenses, a reserva estratégica móvel à disposição do imperador, ou limitanei, comandados por um dux, que patrulhavam guarnições na fronteira, raramente lutando longe de uma fortaleza romana. Os comitatenses não se prendiam a nenhuma região específica. Ao invés da Guarda Pretoriana, havia a guarda imperial, ou scholae palatinae, bem como soldados auxiliares, a exemplo das unidades de infantaria chamadas de auxilia palatinae. Ainda existiam unidades de catafractários e arqueiros montados.

No começo do século IV, o novo legionário observou uma pequena mudança em sua vestimenta. Embora usasse pouca armadura corporal, ele ainda portava a spatha, uma variante do pilum chamada de speculum, um escudo oval que trazia, fixados em seu interior, dardos de chumbo (plumbatae ou martiobarbuli) — que frequentemente substituíam o pilum —, possivelmente dardos mais curtos, e utilizava o modelo de capacete Intercisa. Vestia ainda um manto preso por um broche, calças, uma túnica de mangas longas e botas, em vez das antigas caligae.

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Conclusão

Em seu livro O Exército Romano (The Complete Roman Army), o historiador Adrian Goldsworthy disse que "o exército romano desempenhou um papel central na história da cidade, criando e mantendo um império que acabou por subjugar toda a Europa" (7). O exército de Roma, particularmente a legião, evoluiu de uma milícia cidadã para se tornar um adversário temido a todos que ameaçavam suas fronteiras. Ele protegia um império que, segundo alguns, fazia do mar Mediterrâneo pouco mais do que um lago romano. Goldsworthy fala de "mudanças profundas nas instituições militares" (7). Sem dúvidas, o equipamento, armamento e indumentária do legionário evoluíram com o passar dos séculos. Os romanos eram sábios o suficiente para aprender com seus oponentes, adotando formidáveis armas de assalto mais robustas, como a catapulta, as torres de cerco e os arqueiros montados. Ainda que o Império Romano Ocidental tenha caído, "...o Império Romano Oriental, com sua capital em Constantinopla, sobreviveu, preservando muitas das instituições militares de Roma durante a Idade Média" (Goldsworthy, 7).

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Perguntas & Respostas

Quando é que surgiram as afamadas legiões de Roma?

As afamadas legiões de Roma surgiram durante as Guerras Púnicas, nos terceiro e segundo séculos a.C. Cada legião era composta por 4.200 infantes e 300 soldados de cavalaria.

Qual era o nome da espada adotada pelos romanos?

O nome da espada adotada pelos romanos, após as suas guerras com Cartago, ao redor do terceiro século a.C., era 'gladius hispaniensis'. Tratava-se de uma espada espanhola, que substituiu as lâminas romanas anteriores.

Quais os tipos de armaduras que os romanos usavam?

Os romanos usavam três tipos de armadura: a 'lorica hamata' (cota de malha), a 'lorica squamata' (armadura de escamas) e a 'lorica segmentat'a (armadura de placas). Por baixo da armadura, para proteção, o legionário usava uma vestimenta acolchoada, o 'thorumachus'.

Quais eram os dois tipos de legionário sob o imperador Constantino I?

Sob o imperador Constantino I, os dois tipos de legionário eram os 'comitatenses', uma reserva estratégica móvel, e os 'limintanei', que patrulhavam as guarnições da fronteira.

Sobre o Tradutor

Felipe Muniz
Sou brasileiro e estudante de graduação em História, bem como tradutor em formação. Sou fluente em inglês e espanhol, para além do português, minha língua nativa. Tenho um grande interesse em História Militar e Ciência Política.

Sobre o Autor

Donald L. Wasson
Donald ensina História Antiga, Medieval e dos Estados Unidos no Lincoln College (Normal, Illinois) e sempre foi e sempre será um estudante de História, dedicando-se, desde então, a se aprofundar no conhecimento sobre Alexandre, o Grande. É uma pessoa ávida a transmitir conhecimentos aos seus estudantes.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Wasson, D. L. (2026, fevereiro 28). Armas e Armaduras Romanas. (F. Muniz, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1692/armas-e-armaduras-romanas/

Estilo Chicago

Wasson, Donald L.. "Armas e Armaduras Romanas." Traduzido por Felipe Muniz. World History Encyclopedia, fevereiro 28, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1692/armas-e-armaduras-romanas/.

Estilo MLA

Wasson, Donald L.. "Armas e Armaduras Romanas." Traduzido por Felipe Muniz. World History Encyclopedia, 28 fev 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1692/armas-e-armaduras-romanas/.

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