Ayutthaya: a Veneza do Oriente

Kim Martins
por , traduzido por Filipa Oliveira
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A cidade real de Ayutthaya (ah-you-tah-ya) foi um pequeno reino no Sião (atual Tailândia) e uma potência comercial e marítima sem rival entre 1350 e 1767. Ayutthaya tornou-se a segunda capital do Sião em 1438, quando absorveu o reino de Sukhothai, no nordeste da Tailândia.

Ayutthaya fica no vale do rio Chao Phraya e acredita-se que tenha sido fundada devido a um surto de varíola; quando o rei Ramathibodi I (reinou 1351-1369), o primeiro rei de Ayutthaya, transferiu a corte do principado de Lop Buri, no centro-sul do Sião.

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Ayutthaya Historical Park
Parque Histórico de Ayuttaya Ranjithkr (CC BY-NC-SA)

Ele fundou a nova cidade-fortaleza numa ilha circular no rio Chao Phraya, na confluência de três afluentes. A cidade foi chamada de Dvaravati Sri Ayudhya ou, mais comumente, Ayutthaya, um nome que deriva de Ayodhya, no norte da Índia — a cidade do herói Rama no épico hindu Ramayana.

O povo de Ayutthaya auto se referia como Tai e o reino era conhecido como Krung Tai na língua tailandesa. Ayutthaya estabeleceu estreitas relações comerciais com a China, fornecendo produtos exóticos, como aromáticos e ornamentos, e, por sua vez, o reino era um centro de distribuição (entreposto) de sedas e cerâmicas chinesas.

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História

O que resta do antigo reino são as ruínas contidas no Parque Histórico de Ayutthaya, um património mundial da UNESCO.

Portugal foi a primeira nação europeia a estabelecer contacto comercial com Ayutthaya em 1511. A culinária e a língua tailandesas modernas refletem a influência portuguesa (a palavra tailandesa para sabão, sbū̀, por exemplo, vem do português sabão). No século XVII, Ayutthaya era uma forte potência marítima e um centro de diplomacia global. A corte de Versalhes de Luís XIV (reinou 1643-1715) recebeu o ministro das Relações Exteriores de Ayutthaya, Kosa Pan (1633-1699), que foi enviado à França em 1686 para discutir a possibilidade de uma aliança militar e comercial.

Ayutthaya também atraiu alguns estrangeiros notáveis: o aventureiro grego Constantine Phaulkon (1647-1688), que se tornou um conselheiro de confiança de Narai, o Grande, rei de Ayutthaya (reinou 1656-1688); o missionário jesuíta francês Padre Guy Tachard (1651-1712); e o comerciante inglês George White (1648 - cerca de 1707), que foi cofundador da Companhia das Índias Orientais reformada.

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Ayutthaya foi descrita como a Veneza do Oriente pelo explorador português Fernão Mendes Pinto (cerca de 1509-1583), mas o domínio de 417 anos da cidade chegou ao fim em 1767, quando o exército birmanês atacou e destruiu Ayutthaya, incluindo a maior parte dos registos oficiais, arte e literatura. A história da cidade e dos seus 34 reis teve de ser reconstituída a partir dos relatos de visitantes estrangeiros e mapas antigos.

Buddha Image, Ayutthaya
Imagem de Buda, Ayutthaya Kim Martins (CC BY-NC-SA)

O que resta do antigo reino são as ruínas contidas no Parque Histórico de Ayutthaya, com 289 hectares (714 acres), que foi declarado Património Mundial da UNESCO em 1991. Uma visita ao parque lembra o visitante que a arquitetura de estilo tailandês, com os seus templos que parecem bolos cobertos de creme, deve muito ao período Ayutthayan.

Antes da Sua Visita

Se gosta de tirar fotos dignas do Instagram, não há lugar melhor para ir do que o Parque Histórico de Ayutthaya; é repleto de ruínas arqueológicas de templos (wat em tailandês) e mosteiros, altas torres relicárias (prang) e estátuas de Buda em bronze. Poderá até ver a cabeça de uma imagem de Buda presa nas raízes de uma figueira Bodhi coberta de vegetação.

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Map of Ayutthaya Historical Park, Ayutthaya, Thailand.
Mapa do Parque Histórico de Ayuttaya, Ayattaya, Tailandia Heinrich Damm (GNU FDL)

O parque é extenso, por isso é aconselhável visitar primeiro o Museu Chao Sam Phraya, localizado na Rojana Road na ilha, para ter uma noção da história e importância cultural de Ayutthaya. Há várias exposições para ver, como cerâmicas e roupas, e uma espada dourada conhecida como Phra Saeng Khan Chai Sri, que se acredita ter pertencido ao rei Intharacha (reinou 1409-1424). O cabo é feito de cristal de quartzo e a bainha é incrustada com pedras preciosas. Também pode fazer uma visita virtual à antiga Ayutthaya no site do Museu Nacional de Bangcoc ou no Facebook.

É relativamente fácil caminhar ou andar de bicicleta pela cidade antiga devido ao sistema de planeamento em quadrícula de Ayutthaya, desta forma pode passear à vontade e absorver a história, mas a forma mais divertida de se locomover é alugar um tuk tuk (táxi tailandês de três rodas). Se não houver muitos turistas, pode parecer que está caminhando ou andando por uma cidade fantasma. Para informações históricas adicionais pode contratar um guia turístico pessoal.

Quatro Templos Imperdíveis

O Parque Histórico de Ayutthaya fica a 80 quilómetros (49 milhas) a norte da capital, Banguecoque. A maioria das ruínas dos templos está localizada no noroeste da ilha. Como há mais de 60 templos e ruínas para ver, visitaremos apenas quatro dos mais intrigantes ou historicamente significativos: Wat Phra Mahathat, Wat Ratchaburana, Wat Lokayasutharam e Wat Phra Si Sanphet.

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Wat Phra Ram
Wat Phra Ram Kim Martins (CC BY-NC-SA)

Pode visitar este site para pesquisar todos os locais dos templos de Ayutthaya e também descobrir o que foi restaurado.

Wat Phra Mahathat

Wat Phra Mahathat está localizado em frente ao Grande Palácio, a leste, ao lado da ponte Pa Than, e é o primeiro templo que os turistas costumam visitar. É chamado de Mosteiro da Grande Relíquia e foi construído durante o reinado de dois reis: Borommaracha I (reinou 1370-1388) e o rei Ramesuan (reinou 1388-1395).

A atração famosa do local é a cabeça de Buda em arenito que o visitante verá na base de uma figueira.

É um templo importante porque outrora albergou algumas relíquias sagradas de Buda. As Crónicas Reais de Ayutthaya (que são fragmentos sobreviventes da história de Ayutthaya) dizem que o rei Ramesuan teve uma revelação e acreditou que deveria construir um relicário sagrado. O prang central de Wat Phra Mahathat é onde as relíquias sagradas de Buda eram guardadas, juntamente com prata, ouro e pedras preciosas. Acredita-se que o prang tinha originalmente 50 metros (164 pés) de altura e foi construído no estilo Khmer.

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Wat Phra Mahathat era também um mosteiro real e a sede do Patriarca Supremo (o chefe da ordem dos monges budistas). O prang central ruiu durante o reinado do rei Songtham (reinou 1610-1628) e foi restaurado várias vezes, tendo sido adicionados quatro pórticos e a altura foi elevada. Quando Ayutthaya foi saqueada pelos birmaneses em 1767, o wat ficou reduzido a ruínas. Os birmaneses acreditavam que cortar as cabeças das imagens de Buda diminuía o poder do inimigo, e muitas estátuas de Buda em Ayutthaya sofreram o mesmo destino.

Buddha head at Wat Mahathat
A Cabeça do Buda em Wat Mahathat Alex Kovacheva (CC BY-NC-SA)

A atração famosa do local é a cabeça de Buda em arenito que o visitante verá na base de uma figueira. Existem muitas teorias sobre o posicionamento da cabeça de Buda, uma das teoria é que a selva recuperou Ayutthaya, mas, também, há a sugestão de que caçadores de relíquias deixaram cair a cabeça porque era muito pesada para carregar e, por isso, foi abandonada.

Para tirar aquela foto digna do Instagram, precisará de se agachar e certificar-se de que sua cabeça não fique mais alta do que a do Buda. Caso contrário, os tailandeses considerarão isso uma falta de respeito.

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Wat Ratchaburana

Wat Ratchaburana é chamado de Templo da Restauração Real e fica em frente ao Wat Phra Mahathat. Este templo foi construído em 1424, durante o reinado de Borommaracha II (reinou1424-1448), e ficava na margem ocidental do Khlong Pratu Khao Pluak (um canal).

É o templo mais antigo de Ayutthaya e foi construído no local onde os dois irmãos mais velhos do rei foram cremados após uma luta pelo poder entre eles, após a morte do pai, o rei Intharacha, em 1424. Os irmãos lutaram montados em elefantes e o irmão mais novo, Chao Sam Phraya, foi então convidado a assumir o título de rei, tendo depois, construído o templo para guardar as cinzas dos seus irmãos.

Wat Ratchaburana
Wat Ratchaburana Kim Martins (CC BY-NC-SA)

O prang principal do templo, em estilo Khmer, está rodeado por belos chedis ( termo tailandês para estupa) em forma de sino. Pouco se sabia sobre este templo até 1957, quando escavações ilegais entre as ruínas revelaram um cofre cheio de joias de ouro pesando cerca de 100 kg (220 libras). A maior parte do ouro e outros tesouros nunca foram recuperados, tendo sido vendidos a negociantes e colecionadores. Contudo é possível ver alguns dos artefactos recuperados no Museu Chao Sam Phraya.

Havia uma cella ( sala) central dentro do prang principal, que continha uma cripta de dois andares com murais, acessível através de três escadas íngremes. As escadas foram restauradas em 1958 e são estreitas, por isso, se sofrer de claustrofobia, talvez seja melhor não entrar e imaginar como o templo deve ter sido no início do período Ayutthayan.

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Wat Lokayasutharam

A Tailândia é famosa pelas estátuas de Buda cobertas por mantos cor de açafrão, em sinal de respeito. Uma das imagens de Buda mais conhecidas está no Templo do Buda de Esmeralda, nos terrenos do Grande Palácio, em Banguecoque, e, em cada estação, o rei tailandês toca nas roupas do Buda sentado.

Mas o Parque Histórico de Ayutthaya tem algumas imagens magníficas de Buda com significado histórico, e a maior delas está nas ruínas de Wat Lokayasutharam, no noroeste do parque. Conhecida como o Templo do Buda Reclinado, a estátua de tijolo e gesso tem cerca de 42 metros (137 pés) de comprimento e 8 metros (26 pés) de altura e chama-se Phra Buddhasaiyat.

Reclining Buddha, Wat Lokayasutharam
Buda Reclinado, Wat Lokayasutharam Photo Dharma (CC BY-NC-SA)

Desconhece-se a data desta imagem de Buda, contudo o braço vertical que sustenta a cabeça (que repousa sobre uma flor de lótus gigante) é característico do período médio de Ayutthaya (após o século XVI). A imagem estava originalmente alojada num viharn ( salão de assembleias), mas somente existem as 24 colunas octogonais da fundação.

Felizmente, o Buda sobreviveu à destruição em 1767, mas como está ao ar livre, exposto a todas as condições climáticas, a imagem do Buda foi restaurada várias vezes, mais recentemente em 1954 e novamente em 1989. Normalmente, um pano cor de açafrão cobre o Buda e é possível ver tailandeses e visitantes pressionando pequenos quadrados de folha de ouro sobre a imagem. O ouro é uma cor importante no budismo, pois simboliza pureza e iluminação. Ao aplicar pequenos pedaços de folha de ouro, o budista ou visitante também espera obter bom karma ou mérito.

Dirija-se ao Wat Phananchoeng, em Ayutthaya, para ver um enorme Buda dourado que foi construído em 1334 e tem 19 metros de altura.

Wat Phra Si Sanphet

Este templo, que serviu de modelo para o Templo do Buda Esmeralda, foi construído em 149 nos terrenos do antigo palácio real. Era conhecido como o Templo do Rei, uma vez que era utilizado pela família real para cerimónias. Os três chedis principais restaurados contêm as cinzas de três reis de Ayutthaya: o rei Borommatrailokanat (reinou 1448-1488) e os seus dois filhos. O rei Borommatrailokanat foi o primeiro rei tailandês a possuir um raro elefante branco (albino).

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Wat Phra Si Sanphet
Wat Phra Si Sanphet Kim Martins (CC BY-NC-SA)

Em 1499, construiu-se um viharn em Wat Phra Si Sanphet para abrigar um Buda dourado que era coberto com mais de 150 kg (330 libras) de ouro e tinha 16 metros (53 pés) de altura. Quando o templo foi destruído, os birmaneses derreteram o ouro e apenas os três chedis de estilo cingalês permaneceram de pé.

10 Curiosidades

Se decidir explorar Ayutthaya por conta própria, aqui estão dez curiosidades que lhe darão mais conhecimento histórico:

  1. Ayutthaya usava conchas de cauri como moeda.
  2. O sistema sakdi na usado por Ayutthaya atribuía unidades de terra (geralmente campos de arroz) a cada classe social. O tamanho da unidade era decidido pelo rei e determinava a posição dentro de cada classe social. Os escravos, por exemplo, valiam cinco unidades, enquanto o rei valia 100.000 unidades.
  3. Na presença do rei, os phrai luang (servos reais) eram obrigados a dizer que eram pó aos pés de Sua Majestade.
  4. Wat Ayodhya, em Ayutthaya, é um templo ainda hoje usado pelo clero budista.
  5. Depois que os birmaneses partiram, a cidade foi recuperada pela selva, mas no início do século XIX, os caçadores de tesouros estavam ocupados a escavar e desenterrar artefactos valiosos. Ainda hoje, os caçadores de tesouros procuram nas profundezas do rio Chao Phraya, pois era a porta de entrada para Ayutthaya usada por comerciantes portugueses, espanhóis, holandeses e chineses.
  6. O rei Naresuan (reinou 1590-1605) estava a montar um elefante para a batalha quando o elefante tropeçou nas raízes de uma jujubeira (pud sa em tailandês). O rei expressou a sua gratidão ordenando que fossem plantadas árvores de jujuba ao redor do palácio real. Ao passear por Ayutthaya hoje, pode descansar à sombra de centenas de árvores de jujuba.
    Jujube Tree
    Jujubeira Kim Martins (CC BY-NC-SA)
  7. Os portugueses estabeleceram uma colónia no extremo sul de Ayutthaya em 1540, que era o lar de soldados, comerciantes e padres. A população cresceu para cerca de 3.000 habitantes, mas a colónia não foi poupado pelos birmaneses em 1767. As ruínas da vila portuguesa incluem a igreja dominicana, que foi escavada e encontrou 200 esqueletos.
  8. Em 1700, Ayutthaya era uma das maiores cidades do mundo e dizia-se que tinha mais de 1 000 000 de habitantes.
  9. No Wat Lokayasutharam, todos os dedos dos pés do Buda reclinado têm o mesmo comprimento.
  10. Os estrangeiros (farang em tailandês) não podiam viver dentro das muralhas de Ayutthaya.

Como Chegar

Pode fazer uma viagem de um dia a Ayutthaya, mas há tanto para ver que vale a pena ficar uma ou duas noites. Há muitos hotéis e casas de família a uma curta distância do parque histórico. Viaje de Banguecoque de barco, miniautocarro ou carro, mas o comboio é a forma mais pitoresca e relaxante de viajar para Ayutthaya. Os comboios partem regularmente da estação Hualamphong de Banguecoque.

O parque está aberto das 8h às 18h e não há taxa de entrada para o parque em si. Os principais templos cobram uma taxa, e o custo é de cerca de 50 baht tailandeses (1,55 dólares americanos).

A melhor época para visitar é dezembro ou janeiro, quando o calor não é tão intenso. Em qualquer visita, certifique-se de seguir o código de vestimenta apropriado (calças compridas ou saias, ombros cobertos e descalce-se antes de entrar num templo).

Depois de caminhar por horas absorvendo a história, experimente alguns camarões gigantes grelhados no carvão num dos restaurantes de Ayutthaya. Nada melhor.

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Bibliografia

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Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Jornalista brasileiro que vive no Rio de Janeiro. Seus principais interesses são a República Romana e os povos da Mesoamérica, entre outros temas.

Sobre o Autor

Kim Martins
A Kim é uma escritora freelancer sediada na Nova Zelândia. Ela tem uma Licenciatura em História e Mestrado em Ciência do Caos & Complexidade. Os seus interesses especiais são fábulas e mitologia, bem como a exploração do mundo antigo.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Martins, K. (2025, novembro 15). Ayutthaya: a Veneza do Oriente. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1548/ayutthaya-a-veneza-do-oriente/

Estilo Chicago

Martins, Kim. "Ayutthaya: a Veneza do Oriente." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, novembro 15, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1548/ayutthaya-a-veneza-do-oriente/.

Estilo MLA

Martins, Kim. "Ayutthaya: a Veneza do Oriente." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 15 nov 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1548/ayutthaya-a-veneza-do-oriente/.

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