A Guerra das Rosas (1455-1487) foi uma série de conflitos dinásticos entre a monarquia e a nobreza da Inglaterra. A "guerra" foi uma sequência de batalhas, frequentemente de menor escala, execuções, assassinatos e tramas malfadadas que dividiram a classe política da Inglaterra em dois grupos formados ao redor de dois troncos de descendentes de Eduardo III da Inglaterra (rei de 1327 a 1377): os Iorques e os Lencastres. Apesar de que tenham havido diversas razões pelas quais a guerra continuou por mais de quatro décadas, a principal causa para o surto inicial foi o reinado incompetente de Henrique VI da Inglaterra (rei de 1422-61 e 1470-71) e a ambição de Ricardo, Duque de Iorque (nascido em 1411), a qual foi sucedida pela de seu filho, Eduardo (nascido em 1442). Isso está imerso num emaranhado de motivos adicionais, como, por exemplo, a rivalidade pela fortuna entre a nobreza, os desacordos quanto às relações com a França, a economia empobrecida, os alegados crimes de Ricardo, Duque de Gloucester (nascido em 1452), e, finalmente, a ambição de Henrique Tudor (nascido em 1457) quanto a se tornar rei.
Antes de Qualquer Outro Nome, Uma Rosa
O nome popular para os conflitos dinásticos do século XV na Inglaterra, a "Guerra das Rosas", foi cunhado primeiramente pelo romancista Sir Walter Scott (1771-1832) a partir dos últimos emblemas que envolveram as duas principais famílias (nenhum deles era, na época, uma das marcas distintivas prediletas): uma rosa branca para Iorque e uma vermelha, para Lencastre. A divisão, de fato, foi um pouco mais complexa que, meramente, estas duas famílias, as quais, cada uma, colheram aliados entre as outras famílias nobres da Inglaterra, donde se criaram dois amplos grupos: os Lencastrianos e os Iorquistas. Aliados de cada lado foram também passíveis de mudar sua lealdade ao longo do conflito a depender de favores, mortes e oportunidades.
A guerra não foi um conflito contínuo. Antes, mais exatamente, foi uma série de batalhas, escaramuças, uns poucos cercos menores e diversas lutas dinásticas que continuaram intermitentemente por mais de quatro décadas. De fato, tão fragmentadas eram as peças que é difícil de se imaginar os participantes tendo sempre um conceito de que eles lutaram numa sequência coerente de eventos históricos que nós, hoje, cuidadosamente rotulamos com uma flor.
O FATO PRECEDENTE DE QUE ROUBAR O TRONO DA INGLATERRA ATRAVÉS DE GUERRA E ASSASSINATO FOI UMA ESTRATÉGIA ACEITÁVEL PARA UM FUTURO REI.
A natureza exata do conflito pode ser difícil de se categorizar, mas o prêmio da competição era evidente a todos: o direito indisputado de governar a Inglaterra. Após o reinado do rei Lencastre Henrique VI da Inglaterra e os dos reis Iorquistas Eduardo IV da Inglaterra (rei de 1461-70 e 1471-83) e Ricardo III da Inglaterra (rei de 1483 a 1485), a guerra foi finalmente vencida pelo Lencastriano Henrique Tudor, o qual tornou-se Henrique VII da Inglaterra (rei de 1485 a 1509). Este, então, reuniu as duas casas rivais ao casar-se com Isabel de Iorque, filha de Eduardo IV, em 1486, criando a nova casa de Tudor. As marcas de seu sucesso são que seu filho, Henrique VIII da Inglaterra (rei de 1509 a 1547), tornou-se rei sem quaisquer altercações e que os Tudors forneceram os próximos três monarcas que o sucederam, num período da história inglesa considerado como a Era de Ouro.
Um Resumo das Causas
As múltiplas causas iniciais da Guerra das Rosas e as razões pelas quais ela se prolongou podem ser brevemente resumidas como:
- a tendência crescente de se matarem reis e seus jovens herdeiros, uma estratégia inaugurada por Henrique Bolingbroke em 1399;
- a incapacidade de governar de Henrique VI da Inglaterra, bem como sua doença;
- o descontentamento do povo para com o governo de Henrique VI em nível local e a derrocada econômica do período;
- desacordos entre a nobreza sobre como conduzir a guerra com a França;
- o fenômeno do "feudalismo bastardo", onde ricos proprietários de terras estavam aptos a adquirir exércitos particulares de serviçais, acumular riquezas e reduzir o poder da Coroa num nível local;
- na ausência de campanhas contra a França, os nobres com exercítos particulares podiam ganhar alguma vantagem sobre seus rivais e acertar velhas contas na Inglaterra;
- a ambição de Ricardo, Duque de Iorque, de se tornar rei;
- a ambição de Eduardo de Iorque de vingar seu pai e se tornar rei;
- a ambição de Ricardo, Duque de Gloucester e o assassinato de seus sobrinhos;
- a ambição de Henrique Tudor de restaurar a linhagem Lencastriana de monarcas.
Poder é Direito
Uma das primeiras causas da Guerra das Rosas foi o fato precedente de que roubar o trono da Inglaterra através de guerra e assassinato era uma estratégia aceitável a um futuro rei. Henrique IV da Inglaterra (anteriormente conhecido como Henrique Bolingbroke, rei de 1399 a 1413), o primeiro rei Lencastre, fez justamente isso: usurpou o trono e assassinou seu predecessor, Ricardo II da Inglaterra (rei de 1377 a 1399). Os reis imaginavam que haviam nascido para o papel de governar, escolhidos por Deus para tal. Eles não consideravam roubar isso no campo de batalha. Certamente, há alguns soluços dinásticos no caminho, mas desde Guilherme, o Conquistador (rei de 1066 a 1087), em 1066, não havia tido qualquer rei que ganhasse o trono ao assassinar o monarca incumbente. Uma vez cruzada esta linha por Henrique IV, todos os seus sucessores ficaram de olhos abertos para que o mesmo destino não caísse sobre eles. Com efeito, o trono agora pertencia àquele que possuísse o exército mais forte e maior apoio dos barões.
Além dessas intrigas no topo da pirâmide do poder, o século XV viu a ascensão daquilo que os historiadores têm chamado de "feudalismo bastardo". Este fenômeno, a degradação parcial do feudalismo medieval, permitiu que detentores de propriedade chamassem seus serviçais, os quais algumas vezes podiam ser contabilizados em centenas, para servi-los em qualquer exercício que lhes fosse proveitoso, incluindo o serviço militar. Tais serviçais frequentemente usavam um emblema, como, por exemplo, um javali, um cisne ou uma flor para se identificarem como servos de um senhor em específico. Consequentemente, os barões locais se tornaram muito poderosos e sua palavra, com frequência, foi feita lei. Assim, as lealdades foram transferidas da Coroa para o barão local. Além disso, estes barões poderiam enriquecer-se em extremo ao passo que o rei, diametralmente, poderia empobrecer, visto que eles detinham receitas locais as quais o monarca não podia taxar sem a permissão do Parlamento. Daí, com efeito, os barões mais poderosos, aos quais historiadores têm, por vezes, definido como "sobrepoderosos", estavam em condições de assumir muitas das funções do governo real, além de serem capazes de enfraquecer o papel e o poder do rei. Ainda, alguns barões podiam considerar-se dignos de se tornarem o próximo rei. Tal ambição lhes poderia ser alcançável através da formação de uma aliança com barões de mentalidade semelhante, que estavam desejosos de seguir alguém com um vestígio de sangue real em suas veias. Em suma, para os ambiciosos e implacáveis, a janela da oportunidade estava escancarada na Inglaterra do século XV.
Henrique VI se envolveu desatinadamente em disputas que ocorriam entre os nobres, e isso levou apenas a lealdades ainda mais polarizadas.
A Fraqueza de Henrique VI
Outro precoce problema que podemos rastrear até às origens da Guerra das Rosas é a morte prematura de Henrique V da Inglaterra (rei de 1413 a 1422). Quando morreu doente em 1422, ele deixou seu filho ainda jovem como herdeiro, Henrique VI, que, na época, não contava com mais de um ano de idade. Isso significou uma Inglaterra governada por um conselho moderador e dois regentes, indicados por Henrique V, para governar os territórios de Inglaterra e de França respectivamente: Humphrey, Duque de Gloucester (1390 a 1447), e João, Duque de Bedford (1389-1435). Ambos eram tios do pequenino Rei Henrique, e além deles, uma terceira figura importante neste período foi o tio-avô do monarca, Henrique Beaufort, Bispo de Winchester. Tal situação de poder dividido foi propícia à exploração por parte de qualquer barão ansioso para promover sua própria posição à custa de alguns rivais.
O rei, ainda quando chegava à idade adulta, mostrou-se empolgado para agradar, mas foi facilmente demovido por quem quer que tenha lhe puxado a orelha. Henrique se envolveu desatinadamente em disputas que ocorriam entre os nobres, e isso levou apenas a lealdades ainda mais polarizadas. Ademais, os barões ingleses discordavam entre si sobre a política na França, já que a Guerra dos Cem Anos (1337-1453) chegava em seus estágios finais. Alguns preferiam a abordagem direta que Henrique V tomou ao defrontar-se com a França em grandes batalhas chamativas, outros hesitavam em face do alto custo de tal estratégia, e outros ainda desejavam uma trégua completa. Outra consequência da falta de atividade militar em território francês foi que os barões ingleses puderam usar seus exércitos particulares - frequentemente compostos da mílicia alocada em suas propriedades - para perseguir seus próprios interesses internos, ao invés de irem aos terrenos no exterior da Coroa.
Em 1445, o casamento de Henrique com Margarida de Anjou (morta em 1482), sobrinha de Carlos VII, foi outra causa de descontentamento. Alguns barões com fome de guerra pensaram nisso como uma rendição, enquanto outros lamentaram a falta de uma paz duradoura advinda da união. A Rainha Margarida imaginava ter uma influência indubitável sobre o rei, e Henrique parecia totalmente desinteressado em guerra. Este, ademais, alienou alguns barões através do apoio de figuras impopulares na corte, dentre os quais se destaca Guilherme de la Pole, o Conde de Suffolk. A rebelião de 1450, liderada por Jack Cade, só trouxe mais atenção ao desgoverno de Henrique dentro e fora da Inglaterra: protestos de plebeus contra os altos impostos, corrupção perceptível na corte, uma ausência de justiça em nível local e a derrocada econômica que, para piorar, viu uma redução no comércio em virtude da Guerra dos Cem Anos com a França. Os plebeus podem não ter tido uma influência direta no governo, mas a discórdia talvez tenha dado àqueles nobres descontentes o ímpeto para derrubar o regime com outra desculpa além do mero desejo de ampliar seus interesses.
Quando Henrique VI teve seu primeiro episódio de insanidade em 1453, esses poderosos barões que o rodeavam viram uma oportunidade de elevar suas próprias posições na corte, chegando, talvez, à tomada do trono em si. A doença de Henrique pode ter sido herdada de seu avô materno, Carlos VI da França (rei de 1442 a 1461), e o mesmo fator que subjugou a mente de Henrique pode ter sido a razão da derrota inglesa na Guerra dos Cem Anos. O resultado deste fiasco foi que a Coroa Inglesa perdeu todo o seu território na França, com exceção de Calais. Henrique ficou tão doente que não pôde se mover, falar ou reconhecer alguém. Nessa situação, o reino precisava de um regente e, em 1454, o homem escolhido foi Ricardo, Duque de Iorque, o que - talvez - era, então, o mais poderoso e talentoso dos barões ingleses.
O Grande Pretendente: Ricardo, Duque de Iorque
Ricardo, Duque de Iorque, era agora o Protetor do Reino, mas ele queria mais. O Duque desejava ser nomeado como herdeiro de Henrique VI (na época, este não tinha filhos). Ricardo possuia algum valor de linhagem por ser bisneto de Eduardo III da Inglaterra e sobrinho do Conde de March, o qual declarara que ele era o legítimo herdeiro de Ricardo II da Inglaterra (1377 - 1399). Ele também era visto como um representante da reforma, um homem capaz de consertar o governo corrupto de Henrique VI e restaurar a enfraquecida economia da Inglaterra, bem como os sucessos militares. Ricardo, ainda, tinha o suporte de famílias poderosas, como, por exemplo, os Nevilles de Middleham, que buscaram aliados com a família Percy e outros por seus próprios esforços.
O problema era que a esposa de Henrique, a Rainha Margarida, odiava Ricardo. Havia também um candidato rival igualmente desejoso de se tornar o próximo rei: o Duque de Somerset, que também era um descendente de Eduardo III, mas por meio do filho deste, João de Gante, pai de Henrique IV da Inglaterra (rei de 1399 a 1413), primeiro governante da Casa de Lencastre. Os dois se tornaram grandes rivais, e sua batalha em Saint Albans, no dia 22 de maio de 1455, a qual Ricardo venceu, foi a primeira da Guerra das Rosas.
Quando Ricardo, Duque de Iorque, morreu na batalha de Wakefield em 30 de dezembro de 1460, contra um exército leal a Henrique VI, parecia que a Guerra das Rosas acabaria. No entanto, o filho do Duque de Iorque, Eduardo, bancado pelo poderoso e imensamente rico Ricardo Neville, Conde de Warwick (1428-1471), foi indicado como um substituto para seu pai e o Rei Henrique. Quando Eduardo venceu a sangrenta batalha de Towton em março de 1461, a maior e mais longa em toda a história inglesa, isso, de fato, se tornou evidente. Henrique VI foi deposto, enquanto Eduardo de Iorque tornou-se Eduardo IV, o primeiro rei Iorquista.
Tronos Musicais: Eduardo IV
O reinado de Eduardo IV foi brevemente interrompido quando seu antigo aliado, o Conde de Warwick, se voltou contra ele e, justificando sua reputação de "fazedor de reis", reinstalou Henrique VI em 1470. Eduardo, no ano seguinte, tomou de volta o seu trono no campo de batalha e assassinou Henrique na Torre de Londres. O Conde de Warwick e o único filho do rei assassinado foram mortos em batalha, e a Rainha Margarida, aprisionada. Parecia que os Iorquistas haviam vencido a Guerra das Rosas, e Eduardo consolidou sua vitória ao expurgar os poderosos Lencastrianos remanescentes, além de qualquer outro que lhe fosse desleal. Eduardo matou seu próprio irmão, Jorge, Duque de Clarence, por acreditar que este era culpado de traição (1449-1478). Seu reino foi maioritariamente pacífico, com uma estabilidade muito oportuna e ausência de campanhas dispendiosas na França, o que significou, também, uma recuperação na economia.
Ricardo III: Assassino Mais Cruel
Ricardo, Duque de Gloucester (nascido em 1452) era o irmão mais novo de Eduardo IV. Ele ajudara o rei em diversas batalhas significativas contra os Lencastrianos, mas, tal como seu pai homônimo, ambicionava o maior de todos os prêmios. Ricardo não estava convencido de que a paz com a França seria a melhor estratégia política e, talvez, discordasse de seu irmão quanto ao tratamento que este dava a Jorge, Duque de Clarence. Outra razão para a divisão no interior dos arraiais Iorquistas foi a esposa de Eduardo, Isabel Woodville (1437-1492), a qual era vista como insidiosa para com Jorge e culpada de favorecer seus parentes consanguíneos acima de todos os outros.
A oportunidade de Ricardo veio quando Eduardo morreu inesperadamente, vítima, talvez, de um derrame, em 1483. O rei foi sucedido pelo seu filho, Eduardo (nascido em 1470), o qual, contudo, era, na época, um rapaz da idade de 12 anos. Novamente, os barões pairavam ao redor de um monarca que ainda estava na menoridade, enquanto competiam pela supremacia. O jovem Eduardo V da Inglaterra reinaria apenas de abril a junho, e ele nunca chegou a ter uma coroação. Ele e seu irmão mais novo, Ricardo (nascido em 1473) , foram aprisionados na Torre de Londres, onde ficaram conhecidos como os "Príncipes da Torre". Não foi um conluio Lencastriano que os pôs lá, mas, antes, seu próprio tio, o Duque de Gloucester. Ricardo havia sido nomeado por Eduardo IV como Protetor do Reino, porém, quando os príncipes desapareceram, difundiu-se amplamente a ideia de que ele havia os matado - uma acusação geral que foi adotada pelos posteriores historiadores dos Tudors e William Shakespeare (1564-1616). Em 1483, o Duque fez de si mesmo rei, Ricardo III, mas ao tomar o trono através de um crime tão horrível, ele só trouxe problemas para si, uma vez que mesmo os pró-Iorquistas ficaram alarmados com o ato. Os Lencastrianos, agora liderados por Henrique Tudor, encontravam-se severamente enfraquecidos, mas ainda eram uma ameaça, e viram, então, sua chance de tomar de volta a coroa.
As Rosas Unidas: Henrique Tudor
Henrique Tudor possuía algum sangue real em suas veias através da linhagem ilegítima de Beaufort, da qual descendia de João de Gante, um dos filhos de Eduardo III (rei de 1327 a 1377). Não era um grande vínculo real, apesar da legitimação da linhagem de Beaufort em 1407, mas, para os Lencastrianos, era o melhor que eles poderiam esperar após Henrique VI não ter deixado um só herdeiro que houvesse sobrevivido. Henrique Tudor aliou-se com os alienados Woodvilles, que eram senhores poderosos, e dentre os quais se destacava o Duque de Buckingham, o qual não estava satisfeito com a distribuição de propriedades feita por Ricardo - não havia ninguém mais ansioso para ver o rei receber sua justa paga. Outro importante aliado foi o novo rei além do Canal, Carlos VIII da França (rei de 1483 a 1498).
O ano de 1484, então, viu a morte de Eduardo, filho e herdeiro de Ricardo III, e uma vez mais os Lencastrianos perceberam um bruxulear de oportunidade. Em agosto de 1485, Henrique Tudor aportou com um exército de mercenários franceses em Milford Haven, na região de Gales do Sul, e marchou contra o exército de Ricardo, que estava no Campo de Bosworth, em Leicestershire, no dia 22 de agosto de 1485. Ricardo foi abandonado por alguns de seus principais aliados e acabou morto, quando fez, ele mesmo, uma carga imprudente contra Henrique Tudor. O novo rei foi coroado sob o nome de Henrique VII da Inglaterra (rei de 1485 a 1509) em 30 de outubro de 1485, e apesar de ainda terem existido alguns desafios menores, a dinastia Tudor governou a Inglaterra ininterruptamente até 1603.
