Primeira Batalha de Bull Run (Primeiro Manassas), a 21 de julho de 1861, foi a primeira grande batalha da Guerra Civil Americana e um alerta para ambos os lados que, até então, acreditavam que a guerra terminaria rapidamente e que sairiam vitoriosos. Cada um dos lados apontava para batalhas anteriores e mais pequenas para fundamentar a sua pretensão.
O confronto é conhecido como a Primeira Batalha de Bull Run (ou Primeiro Bull Run) e a Primeira Batalha de Manassas (ou Primeiro Manassas) devido à forma como cada lado batizava as batalhas. A União batizava-as com o nome de cursos de água e os Confederados com o de localidades. Bull Run era um afluente; Manassas Junction era uma povoação.
A Batalha do Primeiro Bull Run (Primeiro Manassas) alterou drasticamente a forma como tanto o Norte como o Sul viam a guerra e também a forma como viam a si próprios. Antes da batalha, cada lado confiava nos seus exércitos, mas, depois dela, tornou-se evidente que ambos os exércitos estavam desorganizados, que ambos cometeram erros cruciais e, em simultâneo, que nenhum estava disposto a ceder.
As forças da União acabaram por fugir do campo de batalha no final do dia na sequência de um forte contra-ataque confederado — um acontecimento descrito pelo jornalista inglês William H. Russell no seu artigo de 1861 intitulado Battle of Bull Run (um excerto do qual é publicado hoje como Panic at Bull Run) —, mas, até ao sucesso desse contra-ataque, não era claro para que lado pendia a batalha.
Nenhum dos lados acreditava que o outro demonstrasse tal determinação e nenhum antecipara as perdas. O número de baixas da batalha foi muito superior ao de qualquer confronto anterior — um total de 4.878, sendo 2.896 da União e 1.982 da Confederação.
A batalha convenceu ambos os lados de que a guerra seria um assunto longo e sangrento e, com o tempo, à medida que combates como a Batalha de Antietam e a Batalha de Gettysburg terminaram com números de baixas muito mais elevados, os da Batalha do Primeiro Bull Run (Primeiro Manassas) pareceriam cada vez mais menores.
Os Antecedentes
A Guerra Civil Americana começou com a Batalha de Fort Sumter (12 a 13 de abril de 1861) e os combates que se seguiram tiveram relativamente poucas baixas. A Batalha de Rich Mountain (11 de julho de 1861), por exemplo, teve um número de baixas de 46 da União e entre 170 e 600 dos Confederados.
Estes números baixos e as vitórias da União do Major-General George B. McClellan na Batalha de Philippi ("Corridas de Philippi") e em Rich Mountain encorajaram o Norte a acreditar que a vitória seria alcançada rapidamente e com pouca perda de vidas. O Sul acreditava exatamente no mesmo e pelas mesmas razões, apontando, por exemplo, para a sua vitória na Batalha de Big Bethel (10 de junho de 1861), na qual o número de baixas foi de apenas oito.
Após a vitória confederada na Batalha de Fort Sumter, ambos os lados tinham apelado a voluntários — e esses apelos foram atendidos. O Brigadeiro-General P.G.T. Beauregard, que tinha vencido em Sumter, foi colocado à frente das forças confederadas e o Brigadeiro-General Irvin McDowell, que tinha experiência de campo limitada, foi escolhido para liderar o Exército do Nordeste da Virgínia da União.
McDowell, cujos pontos fortes residiam na administração e não no combate, insistiu para que lhe fosse dado tempo para treinar e disciplinar as suas tropas — a maioria das quais sem qualquer experiência militar —, mas o seu pedido foi recusado pela Administração Lincoln sob a alegação das vitórias da União já mencionadas.
Tornou-se evidente para Abraham Lincoln e para o seu gabinete, bem como para a imprensa do Norte, que um ataque direto à capital confederada em Richmond terminaria a guerra rapidamente — e não era necessária uma força profissionalmente treinada para isso. Além disso, o período de alistamento de muitos dos voluntários do exército terminaria no final de julho e era preciso agir antes que isso acontecesse.
Consequentemente, foi ordenado a McDowell que avançasse contra Richmond o mais rapidamente possível — e fê-lo não só com tropas destreinadas e indisciplinadas, mas também com companhias e unidades com vários tipos de uniformes. Os voluntários da União nada sabiam sobre a guerra e inscreveram-se a contar com uma grande aventura e com o regresso a casa dentro de alguns meses. Vestiam-se como entendiam, comportavam-se como queriam e discutiam habitualmente com os oficiais.
As forças confederadas sob o comando de Beauregard encontravam-se no mesmo estado de desorganização e também careciam de disciplina e treino. Muitos soldados confederados usavam os uniformes azuis que tinham vestido no Exército dos EUA, outros vestiam cinzento, outros vestiam castanho ou qualquer outra cor de roupa que lhes agradasse. As variações nos uniformes, de ambos os lados, resultariam em vários momentos de confusão durante a batalha e um deles viria inclusivamente a resultar num momento crucial perto do fim do dia.
A estrutura de comando também estava confusa e, portanto, embora Beauregard tenha começado o confronto com um plano grandioso para derrotar McDowell, este teria de ser alterado à medida que as falhas de comunicação e os mal-entendidos se tornavam um problema grave ao longo da batalha.
Beauregard começou o dia com uma vantagem significativa: a espiã pró-confederada em Washington, D.C., Rose O’Neal Greenhow, tinha-lhe fornecido os planos de batalha de McDowell. No entanto, mesmo isto pouco podia fazer num exército que carecia de organização e de uma comunicação clara a partir do comando.
Os Antecedentes: 16 a 20 de julho
O Exército Confederado do Potomac, sob o comando de Beauregard, estava acampado em Manassas Junction e o Exército do Shenandoah, sob o comando do Brigadeiro-General Confederado Joseph E. Johnston, encontrava-se no Vale do Shenandoah. McDowell ordenou ao Major-General da União Robert Patterson que enfrentasse Johnston e o impedisse de se juntar a Beauregard. Patterson cumpriu estas ordens, encurralando Johnston em Winchester.
Entretanto, na tarde de 16 de julho, McDowell marchou com o seu enorme exército de 35.000 homens em direção a Centreville, perto de Manassas Junction. A marcha decorreu lentamente porque os soldados não estavam habituados a um avanço militar disciplinado e pareciam encarar a experiência como um passeio durante o qual se podia parar à beira da estrada, apanhar bagas e beber água de um ribeiro. A marcha demorou dois dias a percorrer cerca de 35 milhas.
No dia 16, Greenhow enviou uma mensagem a Beauregard a informar que McDowell estava em movimento e que se devia preparar, o que ele fez. Na manhã de 18 de julho, o General Johnston recebeu ordens para se deslocar para Manassas e apoiar Beauregard. O General J.E.B. Stuart utilizou a sua cavalaria para encobrir a partida de Johnston e Patterson acreditava que Johnston ainda estava encurralado. Na realidade, as tropas de Johnston tinham embarcado em comboios e dirigiam-se para Manassas Junction. Chegaram e estavam posicionadas até 20 de julho.
O plano original de Beauregard consistia numa ofensiva, lançando um ataque contra o flanco esquerdo e a retaguarda de McDowell, rompendo as linhas. O plano de McDowell era quase o mesmo: uma finta na Ponte de Pedra (Stone Bridge) sobre o Bull Run e um ataque total ao flanco esquerdo confederado.
A Primeira Batalha de Bull Run (Primeiro Manassas)
Da Manhã ao Meio-Dia
McDowell foi o primeiro a avançar, fazendo marchar as suas tropas de Centreville em direção à esquerda confederada às 02:30 da manhã. As tropas não estavam habituadas a marchar no escuro — e pouquíssimas sabiam marchar devidamente —, o que provocou um bloqueio atrás da divisão do General Tyler na Warrenton Turnpike. Novos atrasos significaram que o exército da União não estaria posicionado antes das 06:00 da manhã aproximadamente.
Beauregard estava a tomar o pequeno-almoço no seu quartel-general quando a União iniciou o bombardeamento, pouco depois das 05:00 da manhã. Este quartel-general situava-se na casa de Wilmer McLean, e um projétil atravessou o telhado, alertando Beauregard para o facto de McDowell ter iniciado o seu ataque.
Pouco depois, McLean venderia a sua quinta e mudarse-ia para Clover Hill, na Virgínia — mais tarde conhecida como Appomattox Court House —, e a sua segunda casa seria o local onde Robert E. Lee se renderia a Ulysses S. Grant a 9 de abril de 1865. Supõe-se que McLean tenha dito mais tarde: "A guerra começou no meu pátio e terminou na minha sala de estar."
Reconhecendo que o seu plano original era agora impossível, Beauregard ordenou posições defensivas e enviou rapidamente ordens através de estafetas aos seus generais. O investigador T. Harry Williams descreve o que aconteceu a seguir:
Mas, havia um grupo estranho de pessoas no quartel-general [de Beauregard] naquele dia. Para além do seu pessoal não muito competente, muitos soldados rasos e guias civis que estavam presentes foram encarregues de transportar ordens importantes. Aparentemente, não foi mantido nenhum registo dos seus nomes e, após a batalha, curiosamente, desapareceram e nunca mais foram vistos...
(pág. 81)
Beauregard tinha enviado ordens para o Brigadeiro-General Richard S. Ewell liderar o ataque, mas a primeira ordem enviada foi para aguardar até que todas as tropas estivessem posicionadas. Ao General James Longstreet foram enviadas ordens para marchar para sul em direção à posição de Ewell, mas nunca as recebeu. Ewell, nunca tendo recebido a segunda ordem para avançar, permaneceu no mesmo sítio e perdeu a oportunidade de atacar.
Enquanto isso, o grosso da força da União avançava de forma constante sobre as posições confederadas. O Coronel Confederado Nathan "Shanks" Evans, com uma brigada de 1.100 homens, resistiu contra cerca de 20.000 soldados da União sob o comando do Major-General David Hunter, do General Tyler, do Coronel William Tecumseh Sherman e do Coronel Ambrose Burnside.
Evans resistiu até que as suas linhas fossem rompidas por um avanço liderado por Sherman. A linha confederada recuou em desordem em direção a Henry House Hill. McDowell, seguro da vitória, não ordenou que as suas tropas avançassem para explorar a vantagem. Exclamando "O dia é nosso!", ordenou um bombardeamento de artilharia à colina pelas baterias do Capitão Charles Griffin e do Capitão James B. Ricketts.
Enquanto tudo isto acontecia, vários dignitários e cidadãos de Washington, D.C. tinham chegado a Centreville, alguns a pé, outros em carruagens e muitos trazendo piqueniques. Estavam todos lá para testemunhar em primeira mão a grande vitória da União e o fim rápido da guerra.
Do Meio-Dia à Tarde
Em Henry House Hill, as linhas confederadas foram organizadas pelo Coronel F.S. Bartow, pelo Brigadeiro-General Barnard Bee e pelo Coronel Thomas J. Jackson, que liderava uma brigada de virginianos. Jackson, que achava que não havia motivo para temer a morte porque Deus o levaria quando fosse a sua hora, manteve-se calmo no meio da saraivada de tiros e balas de canhão, ordenando às suas tropas que segurassem a linha.
O General Bee, reunindo a sua brigada, apontou para Jackson e exclamou: "Ali está Jackson, de pé como um muro de pedra! Reagrupem-se atrás dos virginianos!" (McPherson, pág. 342). Como McPherson (e outros) assinalaram, Bee poderá ter pretendido usar a frase como um insulto, dado que Jackson não se tinha deslocado para o apoiar mais cedo. Bee foi mortalmente ferido e morreu pouco depois, pelo que não há forma de saber o que quis dizer, mas a frase foi interpretada como um elogio e o coronel virginiano ficou conhecido como "Stonewall Jackson".
McDowell ordenou a Griffin e a Ricketts que movessem as suas armas para mais perto de Henry House Hill. Parte do seu fogo atingiu a casa de Judith Henry, arrancando os pés à viúva de 85 anos Judith Carter Henry, que acabou por morrer devido aos ferimentos, tornando-se a primeira baixa civil da Guerra Civil.
Por volta das 15:00, um grupo de homens com uniformes azuis avançou sobre as baterias de Griffin e Ricketts, que se preparavam para abrir fogo sobre eles. Foram impedidos pelo Major William F. Barry, que alegou tratarem-se de tropas da União. Tratava-se, na realidade, do 33.º da Virgínia, rapidamente apoiado pela cavalaria de J.E.B. Stuart, tendo as peças de artilharia sido capturadas pelos confederados.
Este foi o momento crucial da batalha. Os confederados voltaram as armas contra as tropas da União e, em seguida, Jackson ordenou uma carga de baioneta. Por volta das 16:00, Beauregard ordenou uma carga completa de toda a sua linha, varrendo o campo e fazendo recuar o exército da União numa retirada desordenada.
Da Tarde ao Fim do Dia
As linhas da União tentaram resistir a princípio, mas, por volta das 17:00, as linhas tinham-se rompido por completo e a retirada transformou-se numa debandada. O investigador Alan Taylor comenta:
Esgotados pelo calor de julho e pelo fumo da batalha, os ianque entraram em pânico e fugiram, atirando armas e mochilas para correrem mais depressa. O exército de McDowell dissolveu-se numa multidão aterrorizada em fuga, mas os confederados estavam demasiado desorganizados e exaustos para perseguirem. Em vez disso, saquearam os ianques mortos e feridos.
(pág. 173)
O exército em retirada deparou-se com os cidadãos com as suas carruagens e piqueniques que já seguiam na estrada de regresso a Washington, D.C. Certos de que os confederados vinham no encalço, a debandada transformou-se num pânico generalizado.
William H. Russell, que tinha observado a batalha e foi apanhado na retirada, notou a "conduta vergonhosa" das tropas da União que tentavam subir para carruagens ocupadas ou montar em cavalos já ocupados (Streissguth, pág. 53). A retirada foi alvo de escárnio na imprensa do Sul como "A Grande Debandada" (The Great Skedaddle).
As Consequências
O Presidente confederado Jefferson Davis chegou a Manassas nessa noite, enviou um telegrama alegre para Richmond a anunciar a vitória e perguntou depois a Beauregard e a Johnston porque é que o inimigo não tinha sido perseguido até Washington, D.C. Nenhum dos generais respondeu, mas a verdade é que o exército confederado, no final do dia, estava quase tão desorganizado quanto a União em retirada.
Davis pressionou para que houvesse um avanço ainda essa noite ou até no dia seguinte — mas começou a chover, as estradas transformaram-se em lama e qualquer avanço sobre Washington, D.C. tornou-se impossível.
Enquanto isso, nessa cidade, Lincoln e o seu gabinete tinham aguardado notícias da grande vitória da União e ficaram, portanto, desapontados, para dizer o mínimo, quando chegou a notícia da sua derrota. Os cidadãos, soldados e políticos do Norte ficaram estupefactos com a vitória confederada. Era algo totalmente inconcebível para eles a todos os níveis. Taylor escreve:
A derrota estrondosa da União minou a credibilidade americana no estrangeiro. O editor do London Times troçou dos Estados Unidos, apelidando-os de "uma suposta Potência que mal consegue defender a sua capital contra os seus próprios cidadãos". Irritada com os yankees, uma mulher canadiana exultou quando Manassas "fez com que todos os canadianos os desprezassem e se rissen deles"
(pág. 174).
No Sul, naturalmente, a vitória em Manassas foi recebida com alegria e uma sensação de alívio, na esperança de que agora, tal vez, os yankees os deixassem em paz. Taylor descreve a reação:
Os confederados tornaram-se presunçosos, pois Manassas parecia confirmar a sua superioridade sobre os miseráveis yankees. Um habitante do Alabama escreveu uma nova canção intitulada Run Yank or Die, na qual as tropas da União se desfaziam e fugiam sempre que ouviam o refrão "Hurrah for Slavery". A canção tornou-se um êxito no exército confederado e na frente interna. Um congressista da Geórgia gabou-se de que esta única batalha "garantiu a nossa independência."
(pág. 174).
Conclusão
É claro que isto acabou por não se verificar. A 22 de julho, o Presidente Lincoln assinou um decreto para o alistamento de 500.000 soldados para três anos de serviço. Em seguida, substituiu McDowell por George B. McClellan, o herói do Noroeste da Virgínia, que transformaria os sobreviventes desmoralizados e derrotados de Bull Run, juntamente com os novos recrutas, na força de combate profissional do Exército do Potomac.
No Sul, a jubilação inicial e a esperança de paz deram lugar à constatação de que o Norte tinha perdido apenas uma batalha, e não a guerra. À medida que o número de baixas se tornou mais amplamente conhecido, a esperança precoce de uma vitória fácil dissipou-se. Beauregard tornou-se um herói nacional, tal como já o tinha sido após a sua vitória na Batalha de Fort Sumter, mas foi criticado por Davis e pelos seus apoiantes por não ter perseguido o exército da União e acabado com a guerra em Manassas.
No fim, ambos os lados perceberam que a Batalha do Primeiro Bull Run (Primeiro Manassas) não era o fim de nada. Era apenas o começo de mais batalhas com números de baixas cada vez mais elevados — e a guerra ia durar muito mais tempo do que alguém teria acreditado na manhã de 21 de julho de 1861 em Manassas Junction.
