As Crises Marroquinas foram dois incidentes internacionais, o primeiro em 1905-1906 e o segundo em 1911, quando a Alemanha Imperial, ansiosa por expandir o império, ameaçou a presença da França em Marrocos. A posição da França foi apoiada pela Grã-Bretanha e pela Rússia, o que obrigou a Alemanha a recuar por duas vezes. Embora não tenham sido um fator direto para a guerra, as Crises Marroquinas certamente causaram um fortalecimento das alianças e azedaram a atmosfera de desconfiança internacional prevalente na Europa, uma desconfiança que foi, em si mesma, uma das principais causas da Primeira Guerra Mundial, à medida que a Europa se dividia em dois grupos de alianças opostos.
A Weltpolitik do Kaiser
O Kaiser Guilherme II (1859-1941) ascendeu ao poder como imperador da Alemanha em 1888 (reinou até 1918), e devido à crescente exigência económica alemã, pressionou por uma maior expansão territorial e militar de forma a garantir os recursos naturais; a nova política foi designada de "Política Mundial" ou Weltpolitik. O chanceler de Guilherme II, Bernhard von Bülow (1849-1929), e o ministro naval, Almirante Alfred von Tirpitz (1849-1930), estavam em total consonância com esta política, que tinha ainda a vantagem de distrair a população dos problemas internos, como o enfraquecimento do poder dos proprietários de terras prussianos dos Junker no processo contínuo de industrialização e democratização. O apoio popular à política foi incitado por uma imprensa jingoísta (nacionalista extremista). Contudo, a política da Weltpolitik apenas piorou as periclitantes relações internacionais. Como afirma o historiador F. McDonough: "A política gerou uma grande tensão, realizou muito pouco e azedou as relações internacionais" (pág. 9). Como o historiador D. Khan acrescenta: "A partir da década de 1890, a Alemanha imperial era uma potência fundamentalmente insatisfeita, ansiosa para romper com o status quo e alcançar os objetivos expansionistas, por intimidação, se possível, por guerra, se necessário" (pág. 209). Em suma, a Alemanha era agora amplamente vista como o inimigo número um quando se tratava da paz mundial. De forma a neutralizar o crescente poder alemão, os países começaram a formar alianças.
Em 1904, a Grã-Bretanha e a França assinaram a Entente Cordiale, que acabou com os conflitos de interesse em África e na Ásia, mas não previa assistência mútua em caso de guerra na Europa. No mesmo ano, a França acordou a divisão de Marrocos com a Espanha. A Grã-Bretanha concordou em não interferir com a contrapartida de liberdade de movimentos para controlar o Egito. O problema agora era a França conseguir defender os seus territórios no Norte de África. Em declínio há muito tempo, nos primeiros anos do século XX, a França era "uma potência naval de segunda classe" (Bruce, pág. 139). A marinha da Alemanha, graças a uma corrida ao armamento implacável com a Grã-Bretanha, estava numa situação completamente oposta.
A Alemanha estava apreensiva com o desenvolvimento da Entente Cordiale, já que os laços diplomáticos da França (estabelecidos em 1894) com a Rússia significariam, na prática, que três estados poderosos poderiam aliar-se contra a Alemanha. De fato, e apesar da falta de provas, o Kaiser estava convencido de que a Entente Cordiale continha uma cláusula secreta que prometia ajuda militar mútua na Europa. O Kaiser estava determinado a testar a força da Entente Cordiale, e o lugar ideal para fazê-lo parecia ser no Norte de África.
A Primeira Crise Marroquina
Apesar de tudo, e pressionando a Weltpolitik, o Kaiser estava determinado a estabelecer uma presença alemã no Norte de África, uma área anteriormente sob o controlo do decadente Império Otomano, mas agora dividida em áreas aparentemente disponíveis para qualquer potência europeia com os meios militares para assegurar uma reivindicação. O Império Alemão era um assunto insignificante em comparação com os grandes impérios da Grã-Bretanha e da França. O Kaiser certamente não queria assistir a um expandionismo francês, especialmente com os seus interesses ultramarinos e protestou contra a situação em Marrocos. Guilherme tomou medidas diretas e pessoais, navegando para Tânger em março de 1905, onde desfilou pelas ruas do porto em 31 de março e declarou com confiança que Marrocos era um estado livre e independente. A Alemanha desejava ter idêntico acesso comercial com as outras potências europeias e prometeu que apoiaria a independência marroquina. O engodo funcionou parcialmente, já que foi convocada uma conferência para decidir a questão.
Na longa Conferência de Algeciras, realizada na cidade espanhola com o mesmo nome, de janeiro a abril de 1906, tanto a Grã-Bretanha quanto a Rússia apoiaram a posição da França. A conferência decidiu que a França e a Espanha fariam o policiamento de um Marrocos independente, mas outras nações, incluindo a Alemanha, teriam o direito de acesso a certas atividades económicas, como bancárias e de posse de terras. A França controlaria o banco central de Marrocos. O acordo foi assinado por uma longa lista de nações, incluindo as Grandes Potências da França, Espanha, Alemanha, Estados Unidos, Rússia, Áustria-Hungria e Itália. Por fim, Marrocos assinou o acordo, que pelo menos lhe garantiu uma independência um tanto limitada sob o governo, como antes, do seu sultão Abdelaziz (reinou 1894-1908). O acordo foi endossado novamente em 1909 com a assinatura de outro acordo franco-alemão.
A crise havia passado, mas deixou certas questões sem resposta, particularmente na Alemanha. A poderosa facção militar e política alemã, que queria a expansão imperial mesmo que tal significasse guerra, sentiu que tinha perdido uma oportunidade de conquistar uma nova colónia em África. Na realidade, a Alemanha saiu da Primeira Crise Marroquina com muito pouco. Toda a aventura foi "um erro de cálculo muito mau" (Winter, pág. 28). Mais significativa, talvez, tenha sido a reação internacional: a Grã-Bretanha e a França, inseguras se a Alemanha estava realmente preparada para ir à guerra por questões coloniais tão pequenas, decidiram que, em qualquer caso, seria mais prudente elaborar uma parceria mais forte contra futuras agressões alemãs.
Dois Blocos de Alianças
O receio ancestral da Alemanha de ser cercada por estados inimigos tornou-se uma realidade diplomática em 1907: assinou-se a Convenção Anglo-Russa, o que aliviou as tensões sobre reivindicações rivais ao Afeganistão, Tibete e Pérsia (atual Irão), e a Grã-Bretanha, a França e a Rússiae uniram-se no bloco de alianças, a Tríplice Entente. Doravante, estes países e os estados que mais tarde se lhes juntaram eram frequentemente chamados de Aliados. Do outro lado, a Alemanha, a Áustria-Hungria e a Itália que tinham formado uma aliança em 1882, foi designada de Tríplice Aliança. O sistema de alianças pré-Primeira Guerra Mundial dos dois blocos opostos estava agora em vigor, e a Alemanha estava preparada para testar a sua força ao causar outro incidente internacional no Norte da África.
A Segunda Crise Marroquina
Em 1911, a marinha alemã estava ainda mais poderosa do que durante a primeira crise. A corrida ao armamento pré-Primeira Guerra Mundial entre a Grã-Bretanha e a Alemanha havia evoluído para os navios de guerra 'dreadnought' desde 1908. A Grã-Bretanha não se podia dar ao luxo de recuar perante a Alemanha, que agora possuía uma marinha capaz de ameaçar o Império Britânico em qualquer lugar do mundo. A Alemanha também estava fortemente industrializada e possuía a economia de crescimento mais rápida da Europa. Um ponto distinto que constrangia a liderança alemã era a falta de colónias significativas para corresponder ao poder económico da nação.
Em 1911, Marrocos, uma vez mais, foi as paragonas internacionais. Em maio, uma rebelião em Fez obrigou o sultão a pedir ajuda à França. O governo francês respondeu enviando 20.000 soldados. O Kaiser Guilherme considerou esta ajuda como uma invasão francesa disfarçada e, a 1 de julho, enviou o cruzador (canhoneiro) Panther para Marrocos de forma a proteger os interesses alemães no território. Estes eventos ficaram conhecidos como a Segunda Crise de Marrocos ou a Crise de Agadir, em homenagem ao porto marroquino homónimo. Uma onda de atividade diplomática irrompeu no centro do palco, enquanto nos bastidores, os participantes se preparavam para a guerra. As tensões foram finalmente resolvidas após várias reuniões, que terminaram numa convenção em 4 de novembro.
O apoio da Grã-Bretanha e da Espanha à França nas negociações significou o recuo da Alemanha, mas, pelo menos, ganhou um pedaço do Congo Francês como compensação. A França recebeu o direito de estabelecer Marrocos como um protetorado. Outra consequência desta segunda crise foi que a Itália, após a vitória na Guerra Ítalo-Turca (1911-1912), se sentiu forte o suficiente para assumir com sucesso o controlo da Líbia aos Otomanos. Um resultado muito mais significativo da Segunda Crise Marroquina foi que muitas potências europeias agora suspeitavam que a Alemanha estava determinada a causar uma guerra mais cedo ou mais tarde. O Kaiser havia recuado duas vezes; parecia improvável que, no caso de uma terceira crise internacional, a Alemanha recuasse novamente. Como o historiador H. Strachan observa sucintamente: "A Europa esperava a guerra" (pág. 266).
Preparação para a Guerra
Nos bastidores, a Alemanha estava, de fato, a preparar-se secretamente para a guerra. O chefe do estado-maior alemão Helmuth von Moltke (1848-1916), em agosto de 1911, no meio da Segunda Crise Marroquina, Moltke escreveu à mulher:
Estou a começar a ficar farto e cansado deste infeliz caso marroquino... Se escaparmos novamente deste caso com o rabo entre as pernas e se não pudermos nos obrigar a apresentar uma reivindicação determinada que estejamos preparados para forçar com a espada, eu desespero do futuro do Império Alemão. (Winter, pág. 31)
Moltke reviu o Plano Schlieffen, o plano secreto de ataque da Alemanha à França, elaborado em 1905. Os outros generais nos outros países também preparavam planos de ataque aos seus vizinhos, notavelmente na França e na Rússia. Os almirantes da Marinha Real Britânica também não estavam ociosos e, já em 1908, tinham preparado um estudo de viabilidade de como poderia ser perpetrado um bloqueio total à Alemanha. Com certeza, em 1912, a Grã-Bretanha e a França tinham fortalecido a aliança com a primeira, prometendo a formação de uma força expedicionária de 150.000 homens a ser enviada para a França, se necessário. A Grã-Bretanha, a França e a Rússia também assinaram acordos navais entre si. Desta forma, a Alemanha enfrentava a possibilidade muito real de lutar em duas frentes (leste e oeste) se uma guerra na Europa irrompesse entre os dois principais blocos de alianças.
Acabou por serem os eventos nos Bálcãs e não no Norte de África que desencadeariam a Primeira Guerra Mundial. No verão de 1914 em Sarajevo, o assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando (1863-1914), herdeiro do trono dos Habsburgos que governava a Áustria-Hungria, pôs em movimento uma série de movimentos diplomáticos que terminaram com todas as principais potências da Europa declarando guerra umas às outras em meados de agosto de 1914.
