Crises Marroquinas

Imperialismo Alemão vs. Imperialismo Francês
Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
publicado em
Translations
Versão Áudio Imprimir PDF
Kaiser in North Africa Cartoon (by Hassmann, Carl, Public Domain)
O Kaiser no Norte de África - Caricatura Hassmann, Carl (Public Domain)

As Crises Marroquinas foram dois incidentes internacionais, o primeiro em 1905-1906 e o segundo em 1911, quando a Alemanha Imperial, ansiosa por expandir o império, ameaçou a presença da França em Marrocos. A posição da França foi apoiada pela Grã-Bretanha e pela Rússia, o que obrigou a Alemanha a recuar por duas vezes. Embora não tenham sido um fator direto para a guerra, as Crises Marroquinas certamente causaram um fortalecimento das alianças e azedaram a atmosfera de desconfiança internacional prevalente na Europa, uma desconfiança que foi, em si mesma, uma das principais causas da Primeira Guerra Mundial, à medida que a Europa se dividia em dois grupos de alianças opostos.

A Weltpolitik do Kaiser

O Kaiser Guilherme II (1859-1941) ascendeu ao poder como imperador da Alemanha em 1888 (reinou até 1918), e devido à crescente exigência económica alemã, pressionou por uma maior expansão territorial e militar de forma a garantir os recursos naturais; a nova política foi designada de "Política Mundial" ou Weltpolitik. O chanceler de Guilherme II, Bernhard von Bülow (1849-1929), e o ministro naval, Almirante Alfred von Tirpitz (1849-1930), estavam em total consonância com esta política, que tinha ainda a vantagem de distrair a população dos problemas internos, como o enfraquecimento do poder dos proprietários de terras prussianos dos Junker no processo contínuo de industrialização e democratização. O apoio popular à política foi incitado por uma imprensa jingoísta (nacionalista extremista). Contudo, a política da Weltpolitik apenas piorou as periclitantes relações internacionais. Como afirma o historiador F. McDonough: "A política gerou uma grande tensão, realizou muito pouco e azedou as relações internacionais" (pág. 9). Como o historiador D. Khan acrescenta: "A partir da década de 1890, a Alemanha imperial era uma potência fundamentalmente insatisfeita, ansiosa para romper com o status quo e alcançar os objetivos expansionistas, por intimidação, se possível, por guerra, se necessário" (pág. 209). Em suma, a Alemanha era agora amplamente vista como o inimigo número um quando se tratava da paz mundial. De forma a neutralizar o crescente poder alemão, os países começaram a formar alianças.

Remover publicidades
Publicidade

Em 1904, a Grã-Bretanha e a França assinaram a Entente Cordiale, que acabou com os conflitos de interesse em África e na Ásia, mas não previa assistência mútua em caso de guerra na Europa. No mesmo ano, a França acordou a divisão de Marrocos com a Espanha. A Grã-Bretanha concordou em não interferir com a contrapartida de liberdade de movimentos para controlar o Egito. O problema agora era a França conseguir defender os seus territórios no Norte de África. Em declínio há muito tempo, nos primeiros anos do século XX, a França era "uma potência naval de segunda classe" (Bruce, pág. 139). A marinha da Alemanha, graças a uma corrida ao armamento implacável com a Grã-Bretanha, estava numa situação completamente oposta.

O Kaiser estava determinado a testar a força da Entente Cordiale.

A Alemanha estava apreensiva com o desenvolvimento da Entente Cordiale, já que os laços diplomáticos da França (estabelecidos em 1894) com a Rússia significariam, na prática, que três estados poderosos poderiam aliar-se contra a Alemanha. De fato, e apesar da falta de provas, o Kaiser estava convencido de que a Entente Cordiale continha uma cláusula secreta que prometia ajuda militar mútua na Europa. O Kaiser estava determinado a testar a força da Entente Cordiale, e o lugar ideal para fazê-lo parecia ser no Norte de África.

Remover publicidades
Publicidade
European Division of Africa Cartoon
Desenho da Divisão Europeia da África Unknown Artist (Public Domain)

A Primeira Crise Marroquina

Apesar de tudo, e pressionando a Weltpolitik, o Kaiser estava determinado a estabelecer uma presença alemã no Norte de África, uma área anteriormente sob o controlo do decadente Império Otomano, mas agora dividida em áreas aparentemente disponíveis para qualquer potência europeia com os meios militares para assegurar uma reivindicação. O Império Alemão era um assunto insignificante em comparação com os grandes impérios da Grã-Bretanha e da França. O Kaiser certamente não queria assistir a um expandionismo francês, especialmente com os seus interesses ultramarinos e protestou contra a situação em Marrocos. Guilherme tomou medidas diretas e pessoais, navegando para Tânger em março de 1905, onde desfilou pelas ruas do porto em 31 de março e declarou com confiança que Marrocos era um estado livre e independente. A Alemanha desejava ter idêntico acesso comercial com as outras potências europeias e prometeu que apoiaria a independência marroquina. O engodo funcionou parcialmente, já que foi convocada uma conferência para decidir a questão.

Após as duas Crises Marroquinas, a Europa esperava a Iminente guerra.

Na longa Conferência de Algeciras, realizada na cidade espanhola com o mesmo nome, de janeiro a abril de 1906, tanto a Grã-Bretanha quanto a Rússia apoiaram a posição da França. A conferência decidiu que a França e a Espanha fariam o policiamento de um Marrocos independente, mas outras nações, incluindo a Alemanha, teriam o direito de acesso a certas atividades económicas, como bancárias e de posse de terras. A França controlaria o banco central de Marrocos. O acordo foi assinado por uma longa lista de nações, incluindo as Grandes Potências da França, Espanha, Alemanha, Estados Unidos, Rússia, Áustria-Hungria e Itália. Por fim, Marrocos assinou o acordo, que pelo menos lhe garantiu uma independência um tanto limitada sob o governo, como antes, do seu sultão Abdelaziz (reinou 1894-1908). O acordo foi endossado novamente em 1909 com a assinatura de outro acordo franco-alemão.

Remover publicidades
Publicidade

A crise havia passado, mas deixou certas questões sem resposta, particularmente na Alemanha. A poderosa facção militar e política alemã, que queria a expansão imperial mesmo que tal significasse guerra, sentiu que tinha perdido uma oportunidade de conquistar uma nova colónia em África. Na realidade, a Alemanha saiu da Primeira Crise Marroquina com muito pouco. Toda a aventura foi "um erro de cálculo muito mau" (Winter, pág. 28). Mais significativa, talvez, tenha sido a reação internacional: a Grã-Bretanha e a França, inseguras se a Alemanha estava realmente preparada para ir à guerra por questões coloniais tão pequenas, decidiram que, em qualquer caso, seria mais prudente elaborar uma parceria mais forte contra futuras agressões alemãs.

Kaiser Wilhelm II Parades in Tangier
Kaiser Guilherme II Desfila em Tânger Unknown Photographer (Public Domain)

Dois Blocos de Alianças

O receio ancestral da Alemanha de ser cercada por estados inimigos tornou-se uma realidade diplomática em 1907: assinou-se a Convenção Anglo-Russa, o que aliviou as tensões sobre reivindicações rivais ao Afeganistão, Tibete e Pérsia (atual Irão), e a Grã-Bretanha, a França e a Rússiae uniram-se no bloco de alianças, a Tríplice Entente. Doravante, estes países e os estados que mais tarde se lhes juntaram eram frequentemente chamados de Aliados. Do outro lado, a Alemanha, a Áustria-Hungria e a Itália que tinham formado uma aliança em 1882, foi designada de Tríplice Aliança. O sistema de alianças pré-Primeira Guerra Mundial dos dois blocos opostos estava agora em vigor, e a Alemanha estava preparada para testar a sua força ao causar outro incidente internacional no Norte da África.

A Segunda Crise Marroquina

Em 1911, a marinha alemã estava ainda mais poderosa do que durante a primeira crise. A corrida ao armamento pré-Primeira Guerra Mundial entre a Grã-Bretanha e a Alemanha havia evoluído para os navios de guerra 'dreadnought' desde 1908. A Grã-Bretanha não se podia dar ao luxo de recuar perante a Alemanha, que agora possuía uma marinha capaz de ameaçar o Império Britânico em qualquer lugar do mundo. A Alemanha também estava fortemente industrializada e possuía a economia de crescimento mais rápida da Europa. Um ponto distinto que constrangia a liderança alemã era a falta de colónias significativas para corresponder ao poder económico da nação.

Remover publicidades
Publicidade
Gunboat Panther
Cruzador (Canhoneira) Panther Unknown Photographer (Public Domain)

Em 1911, Marrocos, uma vez mais, foi as paragonas internacionais. Em maio, uma rebelião em Fez obrigou o sultão a pedir ajuda à França. O governo francês respondeu enviando 20.000 soldados. O Kaiser Guilherme considerou esta ajuda como uma invasão francesa disfarçada e, a 1 de julho, enviou o cruzador (canhoneiro) Panther para Marrocos de forma a proteger os interesses alemães no território. Estes eventos ficaram conhecidos como a Segunda Crise de Marrocos ou a Crise de Agadir, em homenagem ao porto marroquino homónimo. Uma onda de atividade diplomática irrompeu no centro do palco, enquanto nos bastidores, os participantes se preparavam para a guerra. As tensões foram finalmente resolvidas após várias reuniões, que terminaram numa convenção em 4 de novembro.

O apoio da Grã-Bretanha e da Espanha à França nas negociações significou o recuo da Alemanha, mas, pelo menos, ganhou um pedaço do Congo Francês como compensação. A França recebeu o direito de estabelecer Marrocos como um protetorado. Outra consequência desta segunda crise foi que a Itália, após a vitória na Guerra Ítalo-Turca (1911-1912), se sentiu forte o suficiente para assumir com sucesso o controlo da Líbia aos Otomanos. Um resultado muito mais significativo da Segunda Crise Marroquina foi que muitas potências europeias agora suspeitavam que a Alemanha estava determinada a causar uma guerra mais cedo ou mais tarde. O Kaiser havia recuado duas vezes; parecia improvável que, no caso de uma terceira crise internacional, a Alemanha recuasse novamente. Como o historiador H. Strachan observa sucintamente: "A Europa esperava a guerra" (pág. 266).

Preparação para a Guerra

Nos bastidores, a Alemanha estava, de fato, a preparar-se secretamente para a guerra. O chefe do estado-maior alemão Helmuth von Moltke (1848-1916), em agosto de 1911, no meio da Segunda Crise Marroquina, Moltke escreveu à mulher:

Remover publicidades
Publicidade

Estou a começar a ficar farto e cansado deste infeliz caso marroquino... Se escaparmos novamente deste caso com o rabo entre as pernas e se não pudermos nos obrigar a apresentar uma reivindicação determinada que estejamos preparados para forçar com a espada, eu desespero do futuro do Império Alemão. (Winter, pág. 31)

Gunboat Panther
Cruzador (Canhoneira) Panther Unknown Photographer (Public Domain)

Moltke reviu o Plano Schlieffen, o plano secreto de ataque da Alemanha à França, elaborado em 1905. Os outros generais nos outros países também preparavam planos de ataque aos seus vizinhos, notavelmente na França e na Rússia. Os almirantes da Marinha Real Britânica também não estavam ociosos e, já em 1908, tinham preparado um estudo de viabilidade de como poderia ser perpetrado um bloqueio total à Alemanha. Com certeza, em 1912, a Grã-Bretanha e a França tinham fortalecido a aliança com a primeira, prometendo a formação de uma força expedicionária de 150.000 homens a ser enviada para a França, se necessário. A Grã-Bretanha, a França e a Rússia também assinaram acordos navais entre si. Desta forma, a Alemanha enfrentava a possibilidade muito real de lutar em duas frentes (leste e oeste) se uma guerra na Europa irrompesse entre os dois principais blocos de alianças.

Acabou por serem os eventos nos Bálcãs e não no Norte de África que desencadeariam a Primeira Guerra Mundial. No verão de 1914 em Sarajevo, o assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando (1863-1914), herdeiro do trono dos Habsburgos que governava a Áustria-Hungria, pôs em movimento uma série de movimentos diplomáticos que terminaram com todas as principais potências da Europa declarando guerra umas às outras em meados de agosto de 1914.

Remover publicidades
Publicidade

Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Jornalista brasileiro que vive no Rio de Janeiro. Seus principais interesses são a República Romana e os povos da Mesoamérica, entre outros temas.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
Mark é escritor, pesquisador, historiador e editor. Tem grande interesse por arte, arquitetura e por descobrir as ideias compartilhadas por todas as civilizações. Possui mestrado em Filosofia Política e é Diretor Editorial da WHE.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Cartwright, M. (2025, novembro 01). Crises Marroquinas: Imperialismo Alemão vs. Imperialismo Francês. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-25231/crises-marroquinas/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "Crises Marroquinas: Imperialismo Alemão vs. Imperialismo Francês." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, novembro 01, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-25231/crises-marroquinas/.

Estilo MLA

Cartwright, Mark. "Crises Marroquinas: Imperialismo Alemão vs. Imperialismo Francês." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 01 nov 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-25231/crises-marroquinas/.

Remover publicidades