'Putsch' da Cervejaria

Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Nazi Paramilitary, Munich, 1923 (by Bundesarchiv, Bild 119-1486, CC BY-SA)
Paramilitar Nazi, Munique, 1923 Bundesarchiv, Bild 119-1486 (CC BY-SA)

O Putsch da Cervejaria ou Putsch de Munique foi uma tentativa fracassada do Partido Nacional-Socialista (Nazi) alemão de tomar o poder, primeiro do governo da Baviera e depois do governo federal alemão, nos dias 8 e 9 de novembro de 1923. O golpe, liderado por Adolf Hitler (1889-1945), fracassou porque outros políticos de direita, a polícia e o exército não lhe deram o seu apoio.

Os Nazis e a Crise de 1923

Hitler tornou-se líder do NSDAP (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei — Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães), sediado em Munique, em 1921, sucedendo a Anton Drexler (1884-1942). O partido não era socialista nem demonstrava qualquer interesse pelos trabalhadores, mas Hitler escolhera o nome para conferir ao seu partido ultranacionalista o apelo mais abrangente possível. Conhecido como o Partido Nazi, era também veementemente antissemita e contra a ordem estabelecida alemã, que via como a raiz de todos os males — desde a assinatura do humilhante Tratado de Versalhes, que encerrou formalmente a Primeira Guerra Mundial (1914-18), até à hiperinflação. A República de Weimar, como a Alemanha era então conhecida, estava assolada por governos de coligação fracos, que lutavam para lidar com uma série de graves desafios do pós-guerra. Em 1923, o Partido Nazi tinha mais de 55.000 membros, embora este número fosse muito inferior ao do Partido Social-Democrata (Sozialdemokratische Partei Deutschlands), por exemplo, que contava com 1,2 milhões de filiados.

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No verão de 1923, o governo alemão encontrava-se no meio de mais uma crise. A França tinha invadido partes do Ruhr, uma zona fortemente industrializada no oeste da Alemanha, a fim de forçar o país a cumprir as suas obrigações de pagamento de reparações de guerra à França. O governo declarou o estado de emergência e o exército recebeu o poder executivo principal. Em Munique, o líder do governo local, Gustav Ritter von Kahr (1862-1934), o chefe do exército local e o chefe da força policial receberam todos poderes extraordinários para lidar com a crise. Todos tinham uma orientação política de direita e Hitler viu nisto uma oportunidade para tomar o poder ou, melhor ainda, para forçar um convite para assumir o poder vindo de políticos e figuras do exército que considerava partilharem as mesmas ideias. Em última análise, Hitler pretendia marchar sobre Berlim, tal como o ditador fascista italiano Benito Mussolini (1883-1945) marchara sobre Roma para tomar o poder em outubro de 1922 (quando o rei italiano se sentiu obrigado a convidá-lo a governar). Primeiro, Hitler trataria de Munique, e a sua principal arma seriam os seus próprios seguidores paramilitares.

Hitler esperava que o General Ludendorff fosse uma figura de proa respeitável para um golpe de Estado liderado pelos nazis.

Os nazis utilizavam um grupo paramilitar, os soldados de assalto da SA (Sturmabteilung), para maltratar frequentemente a oposição política e, de um modo geral, desfilarem ostensivamente para parecerem importantes. A SA, liderada por Ernst Röhm (1887-1934), tornou-se inclusivamente demasiado poderosa para o gosto de Hitler, que decidiu criar a sua própria guarda-costas pessoal chamada Stoßtrupp-Hitler (Tropa de Choque de Hitler). Entre os membros da Stoßtrupp incluíam-se Julius Schreck (1898-1936), Joseph Berchtold (1897-1962), Ulrich Graf (1878-1950), Hermann Göring (1893-1946) e Rudolf Hess (1894-1987). Outros apoiantes fundamentais de Hitler incluíam o General Erich Ludendorff (1865-1937), o veterano da Primeira Guerra Mundial que se encontrava caído em desgraça junto do sistema de Weimar desde o armistício. Hitler esperava que o General Ludendorff fosse uma figura de proa respeitável para um golpe de Estado liderado pelos nazis.

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Nazi Gathering, Bürgerbräukeller
Reunião Nazi, Bürgerbräukelle Bundesarchiv, Bild 146-1978-004-12A / Hoffmann, Heinrich (CC BY-SA)

A Invasão da Cervejaria

Hitler escolheu o seu primeiro ponto de confronto: uma cervejaria em Munique. No dia 8 de novembro de 1923, por volta das 20h30, ele e vários membros da Stoßtrupp-Hitler cercaram a Bürgerbräukeller enquanto, no interior, von Kahr discursava perante uma plateia de importantes funcionários governamentais e empresários. Na verdade, Hitler pensava que von Kahr estava prestes a incitar o seu público e a anunciar uma revolução, ou pelo menos algum tipo de ato de separatismo bávaro em relação ao governo federal. Contudo, von Kahr já tinha abandonado essa ideia por considerá-la demasiado arriscada e com poucas probabilidades de sucesso sem o apoio do exército. Hitler irrompeu pelo salão com os seus homens armados com metralhadoras, disparou a sua pistola contra o teto e depois brandiu a arma contra von Kahr, anunciando audazmente: "A Revolução Nacional começou!" (Stone, pág. 34). Uma testemunha ocular, um historiador chamado Müller, recorda a cena dessa noite:

O senhor von Kahr tinha falado durante meia hora. Depois, houve um movimento à entrada, como se houvesse pessoas a querer entrar à força. Apesar de vários avisos, o distúrbio não acalmou. O senhor von Kahr teve de interromper o discurso... Vi-o [Hitler] surgir entre dois soldados armados, com capacetes de aço, que seguravam pistolas junto às cabeças, apontando para o teto. Viraram-se para a tribuna. Hitler subiu para uma cadeira à minha esquerda... Ato contínuo, Hitler exclamou... "A Revolução Nacional estalou. O salão está cercado"... Os cavalheiros [no palanque] não se mexeram... Ouvi-o [Hitler] falar com os cavalheiros e ouvi as palavras: tudo estaria acabado em dez minutos se os cavalheiros o acompanhassem...

Após von Kahr e Hitler terem desaparecido numa sala dos fundos durante cerca de dez minutos, Hitler regressou ao salão principal. Müller prossegue com o relato:

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[Hitler] dirigiu-se à tribuna e fez um breve discurso. Foi uma obra-prima da retórica. De facto, em poucas frases, transformou totalmente o estado de espírito da assistência. Raramente vi algo assim. (McDonough, págs. 114-5)

Defendants, Beer Hall Putsch Trial
Réus, Julgamento do Putsch da Cervejaria Heinrich Hoffmann (CC BY-SA)

A Marcha pelo Poder

Entretanto, Röhm e a SA tinham ocupado diversos edifícios governamentais em Munique, incluindo o Ministério da Guerra. Hitler conversou em privado com von Kahr e com o seu associado, o Coronel Hans von Seisser, chefe da polícia estatal da Baviera (conforme registado por Müller), mas estes não conseguiram fazer o líder nazi compreender que, sem a cooperação do chefe do exército em Berlim, o General Hans von Seeckt, não poderia haver qualquer golpe. Após fazerem a um Hitler iludido algumas promessas fáceis de colaboração na "revolução" e de discursarem novamente perante a multidão que ainda se encontrava na cervejaria, von Kahr e os outros foram libertados. Seisser e von Kahr trataram imediatamente de mover as engrenagens do poder para garantir que este nazi intruso não chegaria a lado nenhum com o seu golpe.

A polícia manteve-se firme quando instada a afastar-se e a deixar a marcha prosseguir.

Hitler poderá ter percebido que o jogo estava perdido, mas restavam-lhe poucas opções além de seguir em frente se queria manter qualquer vestígio de respeitabilidade perante o seu próprio partido. Hitler chegou mesmo a dizer aos seus seguidores na cervejaria: "Se isto resultar, ótimo. Se não, enforcamo-nos todos" (Range, pág. 386). Ao amanhecer, Hitler, com os seus seguidores e Ludendorff a acompanhá-lo, marchou da cervejaria pelas ruas até ao Ministério da Guerra, a fim de se juntar a Röhm. Foi então que tudo começou realmente a desmoronar-se para os conspiradores.

Quando Hitler e os seus 2.000 marchantes chegaram à praça memorial de Odeonsplatz, depararam-se com 100 polícias armados. Entretanto, o exército tinha cercado o Ministério da Guerra, embora não tivessem sido disparados tiros. A polícia manteve-se firme quando instada a afastar-se e a deixar a marcha prosseguir. Nisto, ecoou um tiro. Disputa-se qual dos lados disparou primeiro, mas o resultado foi a morte de um polícia. A polícia disparou então sobre os marchantes. O homem que estava ao lado de Hitler, com o braço entrelaçado no do líder, foi baleado no peito e, ao cair no chão, deslocou o braço de Hitler. Ulrich Graf lançou-se à frente do seu líder e foi também baleado. Outros que sofreram ferimentos de bala não fatais incluíram Göring e Berchtold. Cinco membros da Stoßtrupp-Hitler e outros onze nazis foram mortos no incidente. Morreram ainda outros dois polícias. O estandarte da Reichskriegsflagge (Bandeira de Guerra Imperial), transportado por Heinrich Himmler (1900-45) durante o Putsch, ficou ensanguentado no incidente e, após ter sido recuperada mais tarde das mãos da polícia, passou a ser tratada como uma espécie de relíquia sagrada pelos fiéis nazis. A bandeira recebeu inclusive um nome especial, a Blutfahne ou "Bandeira de Sangue". Ludendorff continuou a marcha sozinho, mas Hitler e o seu círculo íntimo, percebendo que as forças do Estado já tinham tomado o controlo, fugiram de carro para o que pensavam ser a segurança do campo. O Putsch tinha fracassado espetacularmente.

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Hitler, Beer Hall Putsch Memorial
Hitler, Memorial do Putsch da Cervejaria Bundesarchiv, Bild 183-E12359 (CC BY-SA)

Porque Razão Fracassou o Putsch?

O Putsch da Cervejaria fracassou porque o plano de Hitler era ingénuo e desesperadamente ambicioso. Ele subestimou a força dos seus oponentes e sobrestimou a ambição e a coragem dos seus aliados, que acabaram por não se revelar aliados de todo. Hitler também subestimou gravemente a lealdade do exército ao regime de Weimar, a impopularidade de Ludendorff devido à sua associação com o armistício e a aversão geral aos nazis e aos seus métodos violentos, inclusive entre as alas de direita. Hitler, cujas ideias nesta fase eram ainda uma mistura de políticas de esquerda e de direita, tinha-se isolado de figuras como von Kahr devido a algumas das suas ideias de esquerda e à sua recusa em cooperar com outros grupos paramilitares de direita. De qualquer modo, mesmo que Hitler tivesse obtido o controlo de Munique, atingir o mesmo fim em relação ao governo federal era uma questão bem diferente, uma vez que o chefe do exército, Seeckt, já tinha rejeitado firmemente as aproximações de Hitler para uma colaboração. O frágil governo de Weimar estava, acima de tudo, desesperado por não provocar outra reação violenta da esquerda nem enfrentar uma greve geral dos sindicatos; exatamente o que acontecera noutro golpe de direita fracassado em 1920, dessa vez em Berlim. Em suma, Hitler escolheu o momento errado e os seus potenciais cúmplices foram mal selecionados. Mesmo que o Putsch tivesse sido bem-sucedido, o Partido Nazi não tinha estrutura nem ideias para governar efetivamente a Alemanha, além de introduzir ataques sistemáticos aos seus inimigos e impor a pena de morte para todo o tipo de infrações triviais. Hitler teria de esperar mais uma década para que politicamente tudo estivesse a seu favor.

As Consequências do Putsch

No dia seguinte ao golpe fracassado, Hitler foi preso por traição, juntamente com muitos dos seus associados. Dos principais nazis presentes no Putsch, apenas Hess e Göring escaparam à detenção, tendo fugido separadamente para a Áustria. Hitler foi considerado culpado no seu julgamento em fevereiro de 1924, mas utilizou o processo como uma plataforma para proferir um longo discurso prometendo que acabaria por se tornar o líder da Alemanha. Hitler foi condenado a cinco anos de prisão, mas, na verdade, graças a um juiz simpatizante, esta foi a pena mínima que poderia ter cumprido por um crime tão grave contra o Estado. Hitler foi detido na Prisão de Landsberg juntamente com vários dos seus apoiantes, incluindo figuras como Himmler, Röhm e Hess. A Stoßtrupp-Hitler foi dissolvida, e tanto o Partido Nazi como a SA foram proibidos (embora apenas temporariamente). A SA (sob o novo nome temporário de Frontbann) aumentou o seu número de membros de 2.000, na altura do Putsch, para 30.000 um ano depois. A publicidade do julgamento e as capacidades oratórias de Hitler em tribunal não prejudicaram de todo a popularidade dos nazis.

Hitler passou o seu confinamento, que não foi desconfortável e onde recebia visitas regulares, a escrever uma biografia altamente seletiva que também estabelecia os seus sonhos extravagantes para um futuro Estado germânico que dominaria o mundo. O título era Mein Kampf, que significa "A Minha Luta" (1.ª Ed.ª portuguesa de 1934/Minha Luta - 1.ª Ed.ª no Brasil de 1934). Após ser liberto, em dezembro de 1924 (saiu mais cedo por bom comportamento), Hitler continuou a promover o nacional-socialismo, mas desta vez utilizando apenas meios pacíficos; e em 1925 publica o Mein Kampf.

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Nazi Beer Hall Putsch Medal
Medalha Nazi do Putsch da Cervejaria Robert Prummel (Public Domain)

O Partido Nazi acabou por ser suficientemente bem-sucedido nas eleições de 1932 para que Hitler fosse convidado a tornar-se chanceler da Alemanha. Hitler, receoso do poder crescente de Röhm e da SA, criou um grupo paramilitar rival, a Schutzstaffel ou SS, que lhe era fiel. A liderança da SA foi destruída e Röhm executado na Noite das Facas Longas, no verão de 1934. Na mesma purga, Hitler garantiu que von Kahr pagasse pela sua traição; o conselheiro reformado foi executado pela SS.

A partir de 1933, todos os que tinham participado no Putsch da Cervejaria, que, graças à propaganda persistente, se tornara por esta altura uma proeza lendária na história do nazismo, receberam uma medalha para usarem com orgulho: a Blutorden ou "Ordem do Sangue". Muitos veteranos do Putsch da Cervejaria foram mais tarde recompensados com cargos de poder de eleição: Himmler foi nomeado chefe da SS, em constante crescimento, Göring tornou-se chefe da Gestapo (polícia secreta) e depois da Luftwaffe (Força Aérea Alemã), e Goebbels foi nomeado Ministro da Propaganda. Uma guarda da SS foi permanentemente destacada para a Odeonsplatz durante todo o reinado de Hitler, e o monumento Feldherrnhalle da praça, que incluía os túmulos dos 16 "mártires" da causa, era um ponto constante de peregrinação de simpatizantes nazis. O local era homenageado com uma cerimónia de comemoração nazi em cada dia 9 de novembro, e o próprio dia tornou-se um feriado oficial nazi, no qual Hitler regressava à Bürgerbräukeller para proferir um discurso. A Bandeira de Sangue também não foi esquecida, sendo utilizada para consagrar as bandeiras do Partido Nazi em cerimónias públicas importantes, tais como no Comício de Nuremberga — a massiva reunião nazi realizada anualmente em setembro (exceto num ano) entre 1927 e 1938.

The Rise of Nazi Germany, 1919 - 1939
A Ascensão da Alemanha Nazi, 1919-1939 Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)
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Perguntas & Respostas

O que foi o 'Putsch' da Cervejaria?

O 'Putsch' da Cervejaria foi uma tentativa do líder nazi Adolf Hitler de tomar o poder à força em Munique, em novembro de 1923.

Porque é que o 'Putsch' da Cervejaria fracassou?

A Revolta da Cervejaria fracassou porque Adolf Hitler não conseguiu garantir o apoio da polícia, do exército e dos seus colegas políticos da ala de direita.

Qual foi a principal consequência do 'Putsch' da Cervejaria?

A principal consequência do 'Putsch' da Cervejaria foi a prisão de Adolf Hitler e a proibição do Partido Nazi, o que significou que a sua ascensão ao poder foi interrompida durante uma década.

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Cartwright, M. (2026, maio 17). 'Putsch' da Cervejaria. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-23588/putsch-da-cervejaria/

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Cartwright, Mark. "'Putsch' da Cervejaria." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, maio 17, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-23588/putsch-da-cervejaria/.

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Cartwright, Mark. "'Putsch' da Cervejaria." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 17 mai 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-23588/putsch-da-cervejaria/.

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