Batalha de Bosworth

Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
publicado em
Translations
Versão Áudio Imprimir PDF
Richard III & Henry VII, Stained Glass Window (by John Taylor, CC BY)
Ricardo III e Henrique VII, vitral John Taylor (CC BY)

Na Batalha de Bosworth (também conhecida como Bosworth Field), em Leicestershire, a 22 de agosto de 1485, o rei da Casa de York (Iorque), Ricardo III da Inglaterra (reinou 1483-1485), enfrentou um exército invasor liderado por Henrique Tudor, a figura de proa da Casa de Lancaster (Lencastre). Este seria um confronto decisivo na longa disputa dinástica conhecida na história como a Guerra das Rosas (1455-1487). Henrique saiu vitorioso, em grande parte porque alguns dos aliados de Ricardo mudaram de lado ou permaneceram inativos durante a batalha. O rei foi derrubado do cavalo e massacrado enquanto fazia uma última tentativa de derrotar pessoalmente o adversário direto pelo trono. O vitorioso Henrique Tudor tornou-se rei Henrique VII da Inglaterra (reinou 1485-1509). A Batalha de Bosworth costumava ser considerada o fim da Idade Média na Inglaterra, mas, mesmo que os historiadores modernos tremam diante de pontos de corte tão pitorescos e arbitrários, a batalha continua a ser um evento crucial na história inglesa. Bosworth tem cativado a imaginação popular desde então, em grande parte graças à peça teatral Ricardo III, de William Shakespeare, que imortalizou aquele dia de agosto em que o caiu o último rei inglês a ser morto num campo de batalha.

As Guerras das Rosas

Quando inesperadamente a 9 de abril de 148 o Rei Eduardo IV da Inglaterra (reinou 1461-1470 e 1471-1483) morre, o seu filho mais novo, com 12 anos, tornou-se rei Eduardo V da Inglaterra (reinou de abril a junho de 1483) e, tinha um regente, o tio Ricardo, duque de Gloucester. O duque, que recebeu o título de Lorde Alto Protetor do Reino, prendeu Eduardo e o irmão mais novo, Ricardo, na Torre de Londres, tendo ficado conhecidos como os "Príncipes na Torre". Os príncipes nunca mais foram vistos e o duque Ricardo autoproclamou-se rei em julho de 1483. O rei foi amplamente acusado de ter matado os sobrinhos no ato mais desprezível das Guerras das Rosas, mesmo que as causas exatas das suas mortes ainda permaneçam um mistério.

Remover publicidades
Publicidade
A notícia da morte do herdeiro de Ricardo em 1484 impulsionou a causa de lancaster. Agora era uma questão de derrubar Ricardo e o trono poderia ser deles.

Até mesmo os apoiantes da causa de York ficaram chocados com esta reviravolta, e o velho inimigo, os da casua de Lancaster, não tinha desaparecido por completo, que ansiosos por reivindicar o trono, eram agora liderados pela sua maior esperança, o exilado Henrique Tudor, Conde de Richmond (nascido em 1457). Henrique era, através da linha ilegítima de Beaufort, descendente de João de Gante, filho de Eduardo III da Inglaterra (reinou 1327-1377). Não era uma ligação real muito forte, mas era o melhor que os Lancaster podiam apresentar após anos de purgas pelo rei Eduardo IV da Casa de York. Aproveitando-se do descontentamento na corte em relação a Ricardo, Henrique reuniu um apoio impressionante: os Woodvilles (família da rainha de Eduardo IV, Isabel Woodville); nobres insatisfeitos com a distribuição de propriedades ou favores por Ricardo; e Carlos VIII da França (reinou 1483-1498), ansioso por causar qualquer perturbação que limitasse o poder da Inglaterra no exterior, particularmente na Bretanha. Depois do fracasso duma invasão devido ao mau planeamento em novembro de 1483, a notícia da morte do filho e herdeiro de Ricardo, Eduardo, em abril de 1484, impulsionou a causa de Lancaster. Agora era uma questão de derrubar Ricardo, e o trono poderia ser deles.

Richard III of England, National Portrait Gallery
Ricardo III da Inglaterra, National Portrait Gallery National Portrait Gallery (CC BY-NC-ND)

Os Exércitos Opostos

A 1 de agosto de 1485, a Guerra das Rosas atingiu o seu ponto culminante quando Henrique Tudor partiu da Bretanha e desembarcou com um exército de mercenários franceses em Milford Haven, no sul do País de Gales, uma força que talvez não ultrapassasse 2.000-3.000 homens e incluía apenas cerca de 400-500 ingleses. Na semana seguinte, o exército de Henrique cresceu em número, enquanto marchava pelo País de Gales ao longo do rio Severn, até Shrewsbury, Coventry e, finalmente, na área em redor de Leicester. O barão galês Rhys ap Thomas recebeu a oferta do cargo de tenente do País de Gales se Henrique vencesse, como resultado o exército rebelde teve o incremento de mais 800 homens. Outros 500 soldados vieram com William ap Gruffudd pelo norte do País de Gales e mais 500 com Gilbert Talbot, tio do conde de Shrewsbury. Agora, com um exército de talvez 5.000 homens, Henrique tinha pelo menos uma oportunidade de derrubar o rei e aumentar o seu exército se conseguisse persuadir alguns dos homens de Ricardo a desertar antes ou durante a batalha que se aproximava.

Remover publicidades
Publicidade
Ricardo talvez preferisse enfrentar Henrique o mais rápido possível, antes que ele tivesse a oportunidade de aumentar o número do seu exército com ainda mais desertores da Coroa.

Outra fraqueza do exército de Henrique, além da inferioridade numérica, era o fato de que muitos dos combatentes eram camponeses recrutados com pouca experiência em batalhas. Também não estavam particularmente bem equipados e, portanto, eram na sua maioria arqueiros ou lanceiros. Ainda assim, Henrique contava com mercenários experientes da França e da Escócia, armados com escudos, espadas e piques, além de unidades de cavaleiros medievais, a cavalaria pesada. Em termos de comando, Henrique era um mero novato, mas podia contar com a experiência do seu tio Jasper Tudor, conde de Pembroke, John de Vere, conde de Oxford, e o líder dos mercenários franceses, Philibert de Chandée.

Ao saber da invasão, Ricardo deixou o Castelo de Nottingham e reuniu os seus partidários. O exército do rei era composto por uma mistura de tropas semelhante às de Henrique, mas com equipamentos ligeiramente melhores e certamente mais cavalaria. Outra vantagem era que Ricardo tinha algumas peças de artilharia pesada, enquanto Henrique tinha apenas alguns canhões de campo leves. Infelizmente, como o rei não tinha certeza onde poderia ocorrer a invasão de Henrique Tudor, colocou os nobres e as tropas leais por toda a Inglaterra, o que significava que não poderia comandar um exército tão grande quanto gostaria em Bosworth. Também se pode ter dado o caso de Ricardo preferir enfrentar Henrique o mais rápido possível, antes que tivesse a oportunidade de aumentar o seu número com ainda mais desertores da Coroa.

Remover publicidades
Publicidade
Henry VII of England, National Portrait Gallery
Henrique VII de Inglaterra, National Portrait Gallery National Portrait Gallery (Public Domain)

Embora comandasse uma força total superior de entre 8.000 a 12.000 homens, Ricardo seria, como Henrique esperava, abandonado no último momento por alguns dos seus principais aliados. Entre os mais pouco confiáveis estava Sir William Stanley, cujo sobrinho, Lord Strange, era refém de Ricardo precisamente para garantir a lealdade. Stanley comandava 3.000 homens em Bosworth e, portanto, o seu apoio seria vital para quem quer que ele o concedesse. Outro aliado duvidoso do Rei era Henry Percy, conde de Northumberland, que se recusaria até mesmo a comprometer as suas tropas até ter uma ideia clara de qual deles sairia vitorioso na batalha que decidiria o destino do reino. Ricardo provavelmente estava ciente da traição que pairava no ar e de que agora os seus atos sombrios do passado voltariam para assombrá-lo. Shakespeare, então, talvez não esteja longe da verdade, pelo menos em espírito, em sua famosa cena teatral de Ricardo III , quando, na noite anterior à batalha, o rei perturbado recebe a visita dos fantasmas de todos os nobres que supostamente assassinou. Talvez a consciência de Ricardo realmente brincasse com os seus nervos na véspera de Bosworth:

Minha consciência tem mil línguas diferentes,

E cada língua traz uma história diferente,

E cada história me condena como um vilão...

Não há criatura que me ame;

E se eu morrer, nenhuma alma terá piedade de mim.

(Ricardo III, Ato 5, Cena 3)

Apesar da mão duvidosa que o destino lhe deu nesse dia, o rei tinha um trunfo a jogar: ele mesmo. Ricardo era um experiente comandante de campo, tendo lutado com desenvoltura ao lado do irmão Eduardo nas batalhas de Barnet e Tewkesbury em 1471. Em 1482, Ricardo também liderou um exército na Escócia, ocupou Edimburgo por um tempo e reconquistou o controlo de Berwick para a Coroa Inglesa. Era um rei mais do que capaz de defender o trono no campo de batalha, e até mesmo Shakespeare faz Ricardo animar-se um pouco na manhã da batalha: "Consciência é apenas uma palavra que os covardes usam... Os nossos braços fortes são a nossa consciência, as nossas espadas são a nossa lei" (Idem). De fato, de acordo com uma testemunha ocular anónima, registrada numa carta de 1486, o rei estava determinado a resolver a questão naquele dia. Afirmou: "Deus me livre de ceder um passo. Hoje morrerei como rei ou vencerei" (citado em Turvey, pág. 134).

Battle Lines, Battle of Bosworth
Linhas de Batalha, Batalha de Bosworth Jappalang (CC BY-SA)

Linhas de Batalha

As forças de Henrique enfrentaram o exército do rei em Market Bosworth, uma pequena aldeia perto de Leicester, a 22 de agosto de 1485. O exército do rei, que havia chegado primeiro, formou-se no topo da colina Ambian, com o próprio Ricardo no comando, usando a coroa de batalha e as armas reais. O local dominava todo o campo de batalha e tinha a vantagem adicional do pântano proteger o flanco do rei. Sem relatos de testemunhas oculares e apenas relatos posteriores conflitantes, desconhcece-se os detalhes exatos da batalha que durou três horas.

Remover publicidades
Publicidade

As forças de Henrique podem ter atacado primeiro e, em seguida, as linhas de frente de Ricardo desceram a colina para enfrentar o que parecia ser um exército inimigo menor do que realmente era. As tropas de Henrique mantiveram as posições, mas reorganizaram-se em forma de cunha, repelindo o primeiro ataque de Ricardo. O rei, que permaneceu em Ambian Hill, percebeu então que Henrique estava na retaguarda das linhas, com apenas um pequeno número de tropas perto de si. Decidindo que a maneira mais rápida de acabar a batalha era dirigir-se diratamente contra Henrique e derrubá-lo, Ricardo desceu a colina com a sua cavalaria pesada. Ele pode ter sido forçado a este ato imprudente pela recusa do conde de Northumberland em mobilizar as suas próprias forças da retaguarda para a ação central. O traiçoeiro Northumberland, como se viu, permaneceria inativo durante todo o tempo.

A Morte Gloriosa de Ricardo

O rei lutou bravamente e talvez um pouco tolamente nos seus esforços para matar Henrique Tudor com a sua própria espada. Ricardo, embora tenha conseguido derrubar o porta-estandarte de Henrique, teve seu cavalo cortado debaixo dele - daí a famosa frase de Shakespeare: "Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!" (Ato 5, Cena IV). O rei foi morto quando Sir William Stanley finalmente decidiu a quem apoiar e dirigiu a sua força de 500 cavaleiros para cercar ainda mais Ricardo, isolando-o das suas próprias tropas. O rei recebeu múltiplos ferimentos, mas acabou sendo derrubado por um piqueiro galês, um tal Rhys ap Maredudd, de acordo com um cronista. Ricardo foi o primeiro rei inglês a ser morto em batalha desde Harold Godwinson (Haroldo II da Inglaterra) (reinou de janeiro a outubro de 1066) na Batalha de Hastings em 1066, e o último monarca inglês a cair no campo de batalha. Quando o rei caiu, os apoinates de York fugiram do local, tendo sofrido pesadas baixas, entre as quais estava o duque de Norfolk. Henrique venceu a batalha e, como Ricardo não tinha herdeiro, também o reino.

Consequências

O corpo do rei morto foi pendurado nas costas de uma mula e exibido, nu, exceto por um pedaço de mortalha, na Igreja de Santa Maria em Newarke, perto do campo de batalha, e depois enterrado na Abadia de Greyfriars, em Leicester. Em 2012, arqueólogos em Leicester escavaram o local onde acreditavam que estavam enterradas as ruínas da Abadia de Greyfriars. Escavando o que era, na superfície, um parque de estacionamento, revelaram um esqueleto masculino, com muitas marcas de ferimentos de espada ou adaga e, o mais intrigante, que sofria de curvatura da coluna vertebral, uma das supostas doenças de Ricardo. Os pesquisadores da Universidade de Leicester realizaram testes de ADN e confirmaram que, com uma probabilidade de 99,9%, era o esqueleto de Ricardo III. Os restos mortais foram finalmente enterrados novamente num túmulo construído para tal na Catedral de Leicester.

Remover publicidades
Publicidade
Skeleton of Richard III of England
Esqueleto de Ricardo III da Inglaterra R.Buckley et al (CC BY)

No século XV, segundo a lenda, o vitorioso Henrique Tudor recebeu a coroa de Ricardo, encontrada por Stanley debaixo de um espinheiro em Bosworth Field. O novo rei foi coroado Henrique VII de Inglaterra (reinou 1485-1509) a 30 de outubro de 1485. Os seguidores leais foram recompensados, como Stanley, que foi nomeado conde de Derby, condestável da Inglaterra, e autorizado a ficar com as ricas cortinas da tenda de Ricardo em Bosworth. Em contrapartida, figuras como o conde de Northumberland tiveram o que mereciam, pois Henrique prendeu-os, provavelmente por considerá-los indignos de confiança. A ex-rainha Isabel Woodville (cerca de 1437-1464) da Casa de York, por outro lado, recebeu uma aposentadoria honrosa na Abadia de Bermondsey, nos arredores de Londres. Quando Henrique se casou com Isabel de York, filha de Eduardo IV, em 1486, as duas casas rivais finalmente se uniram e uma nova foi criada: os Tudors. Henrique ainda teve que enfrentar alguns desafios, notadamente um renascimento de Yorks centrado em torno do pretendente Lambert Simnel, mas foi reprimido na Batalha de Stoke Field, em junho de 148. As Guerras das Rosas finalmente terminaram, com metade dos barões ingleses mortos no processo, mas a Inglaterra finalmente se uniu ao deixar a Idade Média e entrar na era moderna.

Remover publicidades
Publicidade

Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Jornalista brasileiro que vive no Rio de Janeiro. Seus principais interesses são a República Romana e os povos da Mesoamérica, entre outros temas.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
Mark é escritor, pesquisador, historiador e editor. Tem grande interesse por arte, arquitetura e por descobrir as ideias compartilhadas por todas as civilizações. Possui mestrado em Filosofia Política e é Diretor Editorial da WHE.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Cartwright, M. (2025, novembro 27). Batalha de Bosworth. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-18794/batalha-de-bosworth/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "Batalha de Bosworth." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, novembro 27, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-18794/batalha-de-bosworth/.

Estilo MLA

Cartwright, Mark. "Batalha de Bosworth." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 27 nov 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-18794/batalha-de-bosworth/.

Remover publicidades