Masada

Rebecca Denova
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Masada (by Dany Sternfeld, CC BY-NC-ND)
Masada Dany Sternfeld (CC BY-NC-ND)

Masada (Massada) (“fortaleza” em hebraico) é um complexo numa montanha em Israel, no deserto da Judeia, com vista para o Mar Morto. É famosa pela última resistência dos Zelotes (e dos Sicários) na Revolta Judaica contra Roma (66-73 d.C.). Masada é Património Mundial da UNESCO e um dos destinos turísticos mais populares de Israel.

A última ocupação em Masada foi um mosteiro bizantino, e depois o local foi completamente esquecido devido à sua distância e ambiente hostil (especialmente nos meses de verão). Em 1838, o local foi explorado superficialmente pelos arqueólogos americanos Edward Robinson e Eli Smith. Depois, entre 1963 e 1965, Yigael Yadin, que era tanto um comandante militar israelita quanto arqueólogo, organizou as primeiras grandes escavações com voluntários de todo o mundo.

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A fonte para a história de Masada é Flávio Josefo (36-100 d.C.) que escreveu sobre as origens da fortaleza sob os Hasmoneus e as renovações do local sob Herodes, o Grande (37-4 a.C.). Como testemunha ocular dos eventos da Revolta Judaica contra Roma (66-73 d.C.), escreveu A Guerra dos Judeus, com o último capítulo relatando os eventos em Masada em 73-74. Josefo descreveu a decisão do suicídio em massa na fortaleza (960 homens, mulheres e crianças). No entanto, como não foi uma testemunha ocular dos eventos, o debate moderno continua em relação à base histórica da sua história.

Descrição

Na Antiguidade, o único acesso ao CUME era um caminho em forma de serpente no lado da estrutura voltado para o Mar Morto, tornando-o uma fortificação defensável quase perfeita.

Esta área do deserto da Judeia é cheia de colinas e uádis (formados pelas chuvas de inverno) com inúmeras cavernas espalhadas pela área. A fortaleza fica numa estrutura alta semelhante a uma mesa, plana no topo e cercada por ravinas íngremes por todos os lados. Na Antiguidade, o único acesso ao cume era um caminho em forma de serpente no lado da estrutura voltado para o Mar Morto, tornando-o uma fortificação defensável quase perfeita. As chuvas anuais ajudavam a encher as enormes cisternas que eram usadas tanto para armazenar água quanto cereais e outros alimentos. Josefo afirmou que um dos governantes hasmoneus, Alexandre Janneus (103-76 a.C.), fortificou o planalto (embora não haja vestígios evidentes deste período nos dias de hoje). Depois de Herodes ser um Rei Cliente de Roma, renovou a área com quartéis, um arsenal, dois palácios, banhos romanos, uma sinagoga e uma muralha de revestimento em redor da estrutura (37-31 a.C.). Ciente da sua impopularidade entre alguns dos judeus, Herodes pode ter selecionado o local como um possível refúgio em caso de rebelião.

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A Dinastia Herodiana

Em 63 a.C., o general romano Pompeu, o Grande (106-48 a.C.) capturou Jerusalém como parte das suas campanhas no Oriente para estabelecer reis clientes nas provínciass em expansão de Roma. Teve a ajuda do chefe idumeu, Antípatro, e seu filho, Herodes (e assim se iniciou da Dinastia Herodiana, 55 a.C. - 93 d.C.). Após a morte de Herodes, a área foi dividida em tetrarquias, quatro regiões sob seus filhos. A Judeia (o nome romano para o reino do sul de Judá) foi governada pelo filho de Herodes, Arquelau (23 a.C. - 18 d.C.).

O governo de Arquelau foi ineficaz e, em última análise, desastroso, com revoltas eclodindo várias vezes nos festivais de peregrinação em Jerusalém. O governo culminou numa revolta fiscal resultando na crucificação de 2000 judeus. Arquelau teve que responder a Roma pela agitação e foi exilado na Gália. Então, os judeus pediram a Augusto (governou de 27 a.C. - 14 d.C.) para não nomear mais nenhum herodiano, e Augusto fez de Jerusalém e da Judeia uma província senatorial, o que significava que seriam responsáveis pela área os procônsules, os procuradores e as legiões do governador da Síria.

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Carpet Mosaic at Masada
Tapete Mosaico em Masada Dana Murray (CC BY-NC-SA)

Eventualmente muitos fatores contribuíram para a Revolta Judaica contra Roma, não sendo o menor o fato de que, a partir de 6 d.C., os governantes enviados de Roma eram em grande parte corruptos e ineficazes. Neste período, vários líderes judeus foram aclamados como “o Messias” (“o ungido”) pelos seus seguidores. Quando as multidões se tornavam muito grandes ou aconteciam revoltas, Roma enviava os militares para eliminar o líder e tantos seguidores quanto pudessem reunir. Um dos mais famosos governantes romanos foi Pôncio Pilatos (26-36 d.C.), que se destaca grandemente pelo julgamento e crucificação de Jesus de Nazaré nos evangelhos.

A Revolta Judaica

A Grande Revolta começou no ano 66 d.C., após vários protestos contra impostos e ataques a cidadãos romanos. O governador da época, Géssio Floro, saqueou o Templo como retaliação. A revolta foi organizada por uma seita de judeus conhecida como Zelotes, que promovia a ideia de que apenas Deus os deveria governar e idealizava o período da Revolta dos Macabeus (167 a.C.), quando os judeus conseguiram abolir o domínio grego. Dentro do grupo dos Zelotes havia um ramo conhecido como os Sicários (“homens da adaga”), que eram mais extremistas, pois, além de matar romanos, também matavam qualquer judeu que colaborasse com Roma. Várias facções de judeus estabeleceram um governo provisório em Jerusalém, e Josefo recebeu o comando da resistência organizada na Galileia.

O imperador Nero designou Vespasiano e seu filho Tito para sufocar a rebelião. Em 67 d.C., Vespasiano invadiu a Galileia e conquistou a maioria dos redutos rebeldes. Josefo foi capturado no reduto de Jotapata. Aguardando a execução, previu que Vespasiano seria o próximo imperador de Roma. Vespasiano adiou a execução, e eventualmente Josefo se tornou amigo de Tito e inverteu a lealdade, afirmando que Deus estava agora do lado de Roma.

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Roman Emperor Vespasian, Palazzo Massimo
Imperador Romano Vespasiano, Palazzo Massimo Carole Raddato (CC BY-SA)

Enquanto isso, os Zelotes e outras facções atacaram os Saduceus no Templo em Jerusalém, com muitas baixas de ambos os lados. Um líder dos Sicários, Menahem ben Yehuda, tentou tomar a cidade, mas acabou falhando, foi executado, e os seus seguidores foram forçados a sair de Jerusalém. Muitos deles foram morar em Masada, onde continuaram a atacar cidades e vilarejos próximos. No ano de 69, Vespasiano, tendo vencido a batalha da sucessão pela liderança de Roma, regressou, e Tito ficou com o comando da guerra na Judeia. Em 70, Tito sitiou Jerusalém e tomou a cidade com a ajuda de forças rebeldes diminuídas devido a lutas internas entre as facções. Durante o ataque final, o Templo foi queimado e destruído.

O Cerco de Masada

Roma passou os próximos anos eliminando rebeldes judeus em várias cidades e vilarejos da região. No ano de 73, Lucius Flavius Silva (Lúcio Flávio Silva) foi designado com a Legio X Fretensis (Décima Legião do 'Estreito do Mar') para tomar o último reduto dos rebeldes em Masada. Ergueu um acampamentos de cerco e construiu uma muralha de circunvalação ao planalto para eliminar qualquer hipótese de fuga. Utilizando um esporão natural de rocha, construiu uma rampa no lado oeste usando prisioneiros de guerra judeus. A rampa facilitou o trabalho de levar um aríete ao topo, que finalmente abriu uma brecha nas muralhas da fortaleza em abril. Atualmente, são visíveis os restos dos acampamentos romanos e da muralha de circunvalação, assim como partes da rampa.

The Masada Ramp
A Rampa de Masada Dana Murray (CC BY-NC-SA)

É neste ponto que Josefo conta a história do suicídio em massa. Narra os discursos do líder, Eleazar ben Ya'ir, sobre o tema da liberdade e como era melhor morrer do que ser escravo de Roma. Alegadamente, a reserva de comida e suprimentos foi colocado do lado de fora para que Roma pudesse ver que eles poderiam ter resistido ao cerco. Ao lançar sortes, vários homens foram designados para matar os outros homens, mulheres e crianças, colocando os corpos de forma a que os romanos os vissem e depois suicidaram-se. Segundo Josefo, sobreviveram para contar a história apenas uma idosa e algumas crianças que se esconderam numa gruta.

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Josefo e a Arqueologia

Desde as escavações de Yadin, os estudiosos e os arqueólogos debatem continuamente a historicidade da história de Josefo, já que escreveu apenas sobre um palácio; e a arqueologia revela dois. A sua descrição do palácio do norte contém várias imprecisões, e fornece números exagerados para a altura das muralhas e torres. Ao contrário do cerco de Jerusalém, Josefo não foi uma testemunha ocular dos eventos em Masada. É improvável que a idosa e as crianças pudessem lembrar-se dos discursos detalhados de Eleazar. Anteriormente, na sua descrição de uma das batalhas na Galileia, Josefo relatou um suicídio em massa em menor escala em Gamla, onde incluiu discursos que são semelhantes aos de Eleazar. Estes discursos incorporam conceitos greco-romanos de “morte nobre”, além de polêmicas judaicas contra a escravidão sob Roma.

Os escritos de Josefo não são puramente obras históricas; são frequentemente vistos como defesas, perante Roma, da história e dos costumes dos judeus.

Em relação a outros detalhes, deve-se notar que Josefo passou o resto de sua vida em Roma, onde teve acesso a arquivos romanos e talvez a relatórios dos comandantes de campo. No entanto, os escritos de Josefo não são totalmente obras históricas; são muitas vezes entendidos como apologias a Roma sobre a história dos judeus, bem como sobre os costumes judaicos. Ao mesmo tempo, a história da defesa firme em Masada também poderia ser uma forma de bajular Roma; Roma não mereceria elogios por conquistar um inimigo fraco e indefeso. E a história também serviria como uma boa propaganda para deter futuras rebeliões de outros súditos de Roma.

Uma grande discrepância envolve o problema dos corpos mortos. Josefo afirmou que os romanos encontraram 960 pessoas, mas, até agora, foram encontrados apenas 28 corpos. Alguns esqueletos foram encontrados nos restos do palácio do norte, nos banhos, enquanto o resto, homens, mulheres e crianças, foram encontrados numa gruta na ponta sul do promontório. Então, onde estão os outros? Um elemento de punição romana para rebeldes era o conceito de “punição eterna”. Aos rebeldes era negado os rituais funerários para que nunca pudessem atravessar o rio Estige e permanecessem num estado liminar entre a vida e a morte. O exército romano em Masada não se incomodaria em enterrar os mortos; a cremação seria a solução. No entanto, não foi encontrado no local nenhum nível de cinzas para este número de corpos. Por outro lado, os romanos poderiam ter simplesmente atirado os corpos pelas ravinas abaixo, mas, novamente, não se encontrou quaisquer vestígios.

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As escavações de Yadin descobriram vários óstracos, ou fragmentos de cacos com nomes, incluindo o nome de Eleazar ben Ya'ir. Afirmou que estes eram os “lotes” usados para determinar os líderes do suicídio em massa. No entanto, outros estudiosos afirmaram que os óstracos também poderiam ter sido parte de um sistema de vales de ração, na distribuição de alimentos. Houve várias outras temporadas de escavação em Masada, mas a questão crucial da história permanece controversa. Na última escavação e livro sobre Masada (Masada: From Jewish Revolt to Modern Myth, Princeton University Press, 2019) (Masada: Da Revolta Judaica ao Mito Moderno), a renomada arqueóloga Jodi Magness acrescenta os detalhes de como era a vida dos judeus sob os romanos, bem como os prós e contras específicos do debate. A sua decisão final é que, sem mais evidências, a história do suicídio em massa não pode ser verificada de uma forma ou de outra. A questão do que realmente aconteceu em Masada não é algo “que a arqueologia esteja preparada para responder”.

A Ideologia de Masada

Na década de 1930, o arqueólogo israelita Shmarahu Gutman começou a levar jovens israelitas em viagens a Masada. Após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e as revelações do Holocausto, Masada tornou-se um símbolo da ideologia sionista que criticava os judeus europeus por não lutarem durante os programas da “solução final” nazista. O grito de guerra da “liberdade”, supostamente promovido em Masada, bem como um conceito romantizado de heroísmo e nacionalismo, todos contribuíram para a elevação de Masada da Israel contemporânea. Muitas das unidades das forças especiais do exército e da força aérea israelitas participaram de uma cerimônia em Masada: subidas ao amanhecer pelo caminho da serpente levam ao topo, onde são feitos os seus juramentos às forças armadas, com o grito de guerra “Masada nunca mais cairá!”. É possível organizar e realizar na antiga sinagoga de Masada o ritual de um bar-mitzvah (meninos) ou de um bat-mitzvah (meninas), o rito adolescente que confere a idade adulta no Judaísmo.

Roman Camps at Masada
Campos Romanos em Masada Dana Murray (CC BY-NC-SA)

Alguns israelitas, assim como não israelitas, utilizam a metáfora de Masada nas suas críticas à nação e à política israelitas, geralmente descritas como um “complexo de Masada”. Isto pode referir-se a um zelo patriótico extremo pela nação (disposto a morrer por ela) ou a uma referência a algumas políticas israelitas que parecem “suicidas” no que se refere às relações internacionais no Oriente Médio. Em ambos os casos, refere-se ao problema do “tudo ou nada” defendido por alguns partidos políticos em Israel ou nas relações com os palestinos.

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Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Jornalista brasileiro que vive no Rio de Janeiro. Seus principais interesses são a República Romana e os povos da Mesoamérica, entre outros temas.

Sobre o Autor

Rebecca Denova
Rebecca I. Denova, Ph.D. é Professora Emérita de Cristianismo Primitivo no Departamento de Estudos Religiosos da Universidade de Pittsburgh. Ela escreveu recentemente um livro didático, "The Origins of Christianity and the New Testament" [As Origens do Cristianismo e do Novo Testamento], publicado pela Wiley-Blackwell.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Denova, R. (2025, outubro 13). Masada. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-13642/masada/

Estilo Chicago

Denova, Rebecca. "Masada." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, outubro 13, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-13642/masada/.

Estilo MLA

Denova, Rebecca. "Masada." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 13 out 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-13642/masada/.

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