Dinastia Qin

Joshua J. Mark
por , traduzido por Felipe Muniz
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Chariot, Terracotta Army (by Dennis Jarvis, CC BY-SA)
Carruagem, Exército de Terracota Dennis Jarvis (CC BY-SA)

A Dinastia Qin (221–206 a.C.) foi a primeira dinastia do período imperial da China, definido como a era de governo centralizado e dinástico no país entre 221 a.C. e 1912 d.C. Ela unificou as entidades políticas anteriormente independentes após o Período dos Estados Combatentes (cerca de 481–221 a.C.), uma época de conflitos quase constantes resultantes do declínio da Dinastia Zhou (1046–256 a.C.).

Foi fundada por Qin Shi Huangdi, que reinou entre 221 e 210 a.C. e compreendeu que a política de governo descentralizado da dinastia Zhou havia contribuído para sua queda; por isso, estabeleceu um Estado centralizado que reduziu o poder da aristocracia, eliminou as fronteiras entre os diferentes domínios e passou a funcionar de acordo com os preceitos da filosofia do Legalismo. A dinastia se originou no Domínio de Qin (pronuncia-se "chin"), o qual deu seu nome à China por ser o domínio mais a oeste e, portanto, aquele com o qual os comerciantes ocidentais mais mantinham contato.

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O início do reinado de Shi Huangdi foi voltado à consolidação do seu próprio poder e à obtenção de apoio das classes subalternas. Isso se deu por meio de iniciativas de construção e da edificação de estradas e canais, as quais facilitaram o comércio e o transporte e geraram empregos. Dentre suas realizações, destacam-se uma versão inicial da Grande Muralha da China, o Grande Canal e seu enorme túmulo guardado pelos guerreiros de terracota.

Simultaneamente, ele trabalhou para desmantelar muitas das realizações culturais dos Zhou, consideradas por ele como causas do enfraquecimento do Estado, enquanto preservava e melhorava qualquer inovação Zhou que dissesse respeito à guerra ou ao seu poder pessoal. Por volta de 213 a.C., sua necessidade de controlar todos os aspectos da vida dos seus súditos e seu temor de rebeliões haviam transformado a China em um Estado policialesco, no qual as liberdades eram severamente limitadas, enquanto a classe camponesa havia sido reduzida à escravidão por conscrição.

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A obsessão de Shi Huangdi com a imortalidade e sua necessidade por controle absoluto desestabilizaram seu governo.

A obsessão de Shi Huangdi com a imortalidade e sua necessidade de controle absoluto desestabilizaram seu governo. Isso, por sua vez, favoreceu a adoção de medidas ainda mais restritivas, à medida que crescia seu temor de rebeliões e de assassinato. Ele morreu em 210 a.C., após beber um elixir de mercúrio, o qual ele acreditava que o faria imortal. Intrigas cortesãs, somadas à ineptitude do governo de seu filho, levaram ao colapso veloz do seu império. O último governante Qin foi assassinado em 206 a.C. Após uma violenta guerra civil pela sucessão, a Dinastia Han (202 a.C - 220 d.C.) foi fundada, que viria a se reapropriar das realizações de dinastias anteriores que haviam sido rejeitadas pelos Qin.

A Ascensão e Queda da Dinastia Zhou

Originalmente, o Domínio de Qin era apenas um dentre muitos territórios subordinados à Dinastia Zhou. Os Zhou haviam deposto a anterior Dinastia Shang (1600-1046 a.C.), alegando que ela tinha se corrompido e, por isso, perdido o Mandato do Céu. Esse era um conceito concebido inicialmente pelos Shang (ainda que tenha alcançado seu desenvolvimento pleno com os Zhou), o qual propunha que um monarca era legitimado pela vontade dos deuses, que firmavam com ele uma espécie de contrato que o obrigava a cuidar de seus súditos e a assegurar sua prosperidade. Considerava-se que o monarca (ou a dinastia) detinha o Mandato do Céu apenas enquanto fosse evidente que suas políticas beneficiavam o país como um todo, e não apenas a si mesmos. Quando se tornava claro que o governo tomava decisões em benefício próprio — o que se evidenciava pela ausência de prosperidade para a população — entendia-se que o governante havia perdido o Mandato do Céu e deveria ser substituído por um novo soberano aprovado pelos deuses.

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Depois de derrubar os Shang, a Dinastia Zhou estabeleceu um Estado descentralizado que operava como uma sociedade feudal. Eles foram tão bem sucedidos nisso que acabaram por expandir grandemente seus territórios - primeiro, por meio da conquista; depois, pela ampliação do tamanho dos domínios independentes que haviam jurado fidelidade ao monarca. Os Zhou melhoraram as inovações culturais dos Shang em áreas como agricultura, escrita, educação, tecnologia, metalurgia, música, equitação e técnicas de construção. Entretanto, a descentralização do governo chinês incentivou os domínios a buscar maior autonomia, o que acabaria por levar ao declínio e à queda da autoridade central.

Map of Western Zhou
Mapa de Zhou Ocidental Philg88 (CC BY-NC-SA)

O período inicial, conhecido como Zhou Ocidental (1046-771 a.C.), terminou com uma invasão de povos considerados bárbaros proveniente do oeste, possivelmente das populações conhecidas como Xirong (ou Rong). O governo Zhou continuou em uma nova era, cujo nome era Zhou Oriental (771-256 a.C.). Sua fase inicial é chamada de Período das Primaveras e Outonos (772-476 a.C.), em referência às crônicas estatais daquele tempo, os Anais das Primaveras e Outonos. Trata-se da era das Cem Escolas de Pensamento, marcada pelo desenvolvimento de escolas filosóficas como o Confucionismo, Taoismo, Legalismo e outras. No entanto, também foi um período de aumento na violência e no caos. À medida que o governo Zhou se enfraquecia, os domínios - agora, todos mais poderosos que os próprios Zhou - buscavam se colocar como merecedores do Mandato do Céu.

Os Estados Combatentes e a Ascensão dos Qin

Os sete domínios em disputa pelo poder eram Chu, Han, Qi, Qin, Wei, Yan e Zhao. Todavia, nenhum deles podia se arrogar à supremacia, já que entendiam que os Zhou ainda detinham o Mandato do Céu, o qual só poderia ser transferido àquele que se mostrasse mais poderoso. Isso tornava a situação difícil, pois todos os contendores utilizavam as mesmas táticas de guerra e se guiavam por regras cavalheirescas idênticas. O famoso A Arte da Guerra, de Sun-Tzu (cerca de 500 a.C.), era uma tentativa de prover um Estado de um manual de instruções para vencer a guerra - mas, ao menos inicialmente, ele não parece ter sido amplamente lido, e os conflitos incessantes prosseguiram.

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No começo, o Domínio de Qin possuía a vantagem da localização e da perícia na equitação. Dizia-se que ele havia sido fundado por Gao Yang (conhecido também como Zhuanxu), um dos legendários Cinco Imperadores pré-dinásticos que teriam governado entre 2852 e 2070 a.C. Seus descendentes, a família Ying, ainda viviam na região. Mais tarde, o oitavo monarca da Dinastia Zhou, o rei Xiao (reinou cerca de 872-866 a.C.), recompensou um rapaz de nome Feizi (✝ 858 a.C.), pertencente à família Ying, com terras no Vale de Qin, após reconhecer sua habilidade na criação de cavalos. Assim, o Domínio de Qin passou a ser associado a cavalos e ao elevado nível de perícia na equitação desenvolvido pelos Zhou. Além disso, os Qin controlavam as terras ocidentais e, possivelmente, tinham algum tipo de vínculo ou aliança com o povo Xirong - exímios cavaleiros e ferozes guerreiros.

Shi Huangdi
Shi Huangdi Dennis Jarvis (CC BY-SA)

Entretanto, nem todas essas vantagens puderam desequilibrar a guerra em favor dos Qin. Essa situação se manteve até que eles passaram a adotar as políticas de um dos seus estadistas, Shang Yang (✝ 338 a.C.), que defendia uma guerra total e a conquista da vitória a todo custo, ignorando as antigas convenções cavalheirescas da guerra. Não se sabe se Shang Yang leu Sun-Tzu, mas suas filosofias certamente se aproximam. As ideias de Yang não chegaram a ser lidas ou foram ignoradas até que o jovem rei Qin, Ying Zheng, as implementou e derrotou os outros seis domínios em rápida sucessão. O primeiro a cair foi Han, em 230 a.C., seguido por Zhao, em 228 a.C., e Wei, em 225 a.C. A seguir, foram subjugados Chu, em 223 a.C., Yan, em 222 a.C., e, finalmente, Qi, em 221 a.C. Depois disso, Ying Zheng se proclamou Shi Huangdi ("primeiro imperador"), estabelecendo, assim, a Dinastia Qin.

Política e Tirania

As medidas iniciais de Shi Huangdi foram voltadas à unificação e à consolidação do poder em um governo central forte. Como comenta o historiador Will Durant:

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[Shi Huangdi] simplificou as cerimônias oficiais, criou uma cunhagem estatal, dividiu a maior parte das propriedades feudais, preparou o terreno para a prosperidade da China ao estabelecer a propriedade camponesa da terra e pavimentou o caminho para a unidade por meio da construção de grandes estradas que partiam em todas as direções de sua capital... Viajando disfarçado e desarmado, ele tomava nota de abusos e desordens, e então emitia ordens indiscutíveis para a correção dos agravos. Ele encorajou a ciência e desencorajou os estudos literários. (696)

Com o objetivo de proteger seu povo contra a invasão dos Xiongnu, povos nômades (nómadas) do norte, ele decretou a construção de uma muralha ao longo das fronteiras do país. As pedras das muralhas que anteriormente separavam os domínios independentes foram usadas para esse propósito, constituindo a primeira versão do que mais tarde seria conhecido como a Grande Muralha da China. Ele ordenou que todos os domínios abrissem mão de suas armas, que foram derretidas e transformadas em obras de arte e estátuas celebratórias do novo Estado. Também foi decretada a construção de canais. Assim como a Grande Muralha, essas obras inicialmente forneceram empregos e resultaram em uma versão embrionária do Grande Canal.

O início do seu reinado parece, à primeira vista, um modelo a ser seguido por qualquer monarca, no que diz respeito à liderança e ao cuidado pelo povo. No entanto, Shi Huangdi interpretava o Mandato do Céu apenas nos termos do seu próprio poder e autoimportância - seus súditos, assim, eram um meio para um fim, e não um fim em si mesmos. Aqueles que trabalharam na muralha, no canal e em outras obras públicas, quando chegaram a ser pagos, rapidamente se tornaram conscritos, levados de suas casas para trabalhar em troca de pouca comida e acomodações comunais.

The Great Wall of China in Snow
A Grande Muralha da China com Neve Steve Webel (CC BY-NC-SA)

A escola filosófica do Legalismo (cuja versão embrionária foi defendida por Shang Yang e posteriormente desenvolvida por Han Feizi, cerca de 280–233 a.C.) orientava a legislação e ditava como as pessoas se vestiam, falavam e interagiam entre si. Ela era pautada na noção de que as pessoas eram motivadas apenas pelo seu interesse próprio e, por isso, as leis precisavam ser rigorosas e estreitamente delimitadas para controlar a população e punir os infratores.

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Sob o governo dos Qin, a vida do povo se tornou dura, cerceada e mais incerta do que durante o Período dos Estados Combatentes. Isso aconteceu porque os oficiais do governo podiam recrutar qualquer um para trabalhar nos projetos do imperador, independente da classe social ou do ofício exercido. Somente os homens do imperador podiam portar armas, então a resistência armada era impossível. Além disso, mesmo que armas estivessem disponíveis, a rede de espiões de Shi Huangdi, sua polícia secreta e informantes revelariam uma conspiração antes que ela pudesse ser posta em ação.

A Queima dos Livros

Havia outros jeitos de resistir à tirania do imperador chinês, todavia. Essa resistência assumiu forma por meio de eruditos confucianos e intelectuais de outras escolas filosóficas, que escreveram tratados e panfletos criticando o regime ao compará-lo com dinastias do passado, especialmente com a glória da fase inicial da Dinastia Zhou. No seu auge, os Zhou operavam segundo a política do fengjian (“instituição”), um sistema feudal de governo descentralizado, com domínios separados — cada qual com interesses próprios, mas leais ao monarca. Esse sistema se organizava ainda segundo uma hierarquia estabelecida que permitia a cada indivíduo reconhecer seu lugar e função na sociedade. Essa política, teriam observado os eruditos, resultou em prosperidade e felicidade para todas as classes sociais. Shi Huangdi, por outro lado, havia confundido a hierarquia ao reduzir o poder da nobreza e ao transformar as outras classes - comerciantes, trabalhadores e camponeses - em escravos, ignorando a determinação do Mandato do Céu de cuidar do seu povo mais do que de si mesmo.

Shi Huangdi suprimiu a liberdade de expressão, fez com que os códigos legais fossem reescritos, queimou livros e executou eruditos.

Em 213 a.C., o primeiro-ministro Li Siu (também chamado de Li Si, cerca de 280-208 a.C.) sugeriu a Shi Huangdi que todas as histórias das dinastias do passado fossem reunidas e destruídas, excetuando disso a história do Domínio de Qin, e que qualquer um que as tentasse esconder ou preservar fosse executado. Quaisquer trabalhos que expressassem conceitos da era das Cem Escolas de Pensamento também deveriam ser destruídos, inclusive os textos educacionais padrão, conhecidos como os Quatro Livros e os Cinco Clássicos da Dinastia Zhou. Qualquer um que falasse sobre esses assuntos - ou qualquer oficial ou funcionário que ouvisse essas conversas e não as denunciasse - deveria ser morto. As únicas exceções dessa política eram os trabalhos sobre medicina, ciências, agricultura, adivinhação e outros assuntos práticos.

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Shi Huangdi aprovou tal plano de imediato. Todas as escolas filosóficas foram consideradas ilegais, com a exceção do Legalismo. Shi Huangdi suprimiu toda a liberdade de expressão, fez com que os códigos legais fossem reescritos para que aderissem mais de perto à sua visão pessoal e, seguindo a sugestão de Li Siu, queimou os livros e executou os eruditos, bem como a qualquer um que se recusasse a abrir mão de seus livros ou os tentasse esconder. Apesar de alguns historiadores contemporâneos defenderem que esses eventos não ocorreram exatamente como foram descritos pelo historiador Sima Qian (145/135-86 a.C.), ninguém ainda foi capaz de negar que eles, de fato, aconteceram.

Declínio e Queda

De 213 a.C. em diante, Shi Huangdi se tornou cada vez mais paranoico e errático. Três tentativas de assassiná-lo aconteceram, aumentando sua ansiedade e encorajando medidas cada vez mais restritivas. Todas as noites, ele trocava o quarto no qual dormia. Além disso, andava sempre armado e aumentou sua equipe de segurança. Seu medo da morte encorajou uma obsessão com a imortalidade. Assim, pediu que funcionários de confiança encontrassem meios para que ele pudesse viver para sempre, e ele mesmo viajou para regiões onde a elaboração de um elixir parecesse promissora. Ao mesmo tempo, dedicou mais recursos aos esforços de construção de seu grandioso mausoléu, que era tão grande quanto uma cidade e possuía seu próprio exército. Dali, Shi Huangdi planejava continuar seu reinado na vida após a morte.

Ele morreu em uma de suas viagens, ao ingerir um elixir de mercúrio. Não se sabe se isso foi uma tentativa de assassinato bem-sucedida ou um suicídio involuntário, mas a morte de Shi Huangdi é tradicionalmente interpretada como um acidente. Em seguida, Li Siu ocultou a morte do imperador, transportando seu corpo de volta à capital em uma caravana de peixes mortos, usada para disfarçar o odor do cadáver, até que pudesse mandar alterar o testamento de Shi Huangdi, que nomeava seu filho mais velho, Fusu (✝ 210 a.C.), como sucessor, substituindo-o pelo filho mais novo, Hu Hai. Fusu tinha uma personalidade forte e impositiva, sendo amigo do general Meng Tian (✝ 210 a.C.). Caso se tornasse imperador, muito provavelmente Li Siu seria substituído. Hu Hai, por outro lado, era uma criança mimada, paparicada pelo seu professor, o chanceler Zhao Gao, e seria fácil de se manipular.

The Terracotta Army, Shaanxi Province
O Exército de Terracota, Província Shaanxi Shawn Kinkade (CC BY-NC-SA)

O plano de Li Siu funcionou. A morte do imperador só foi anunciada depois de Li Siu e Zhao Gao (✝ 207 a.C.) fazerem com que Hu Hai mudasse o testamento, eliminassem Fusu e Meng Tian, e instalassem Hu Hai como imperador, com o nome de Qin Er Shi (reinou 210-207 a.C.). Influentes posições foram asseguradas para Li Siu e Zhao Gao no novo governo. Qin Er Shi se mostrou um monarca fraco. O controle governamental sobre a população progressivamente se afrouxou durante o seu reinado. Ele era famoso pelo seu mau humor, ordenando a morte de qualquer um que lhe trouxesse más notícias. Por isso, um legado duradouro de seu governo é a origem do ditado "Não mate o mensageiro", que faz referência a uma reação negativa ao receber informações indesejadas.

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Posteriormente, Zhao Gao se virou contra Li Siu, acusou-o de traição e fez com que ele fosse executado. Então, forçou Qin Er Shi - que tinha apoiado a execução de Li Siu - a cometer suicídio ou a enfrentar a desonra por seu papel na manipulação do testamento, no assassinato de Fusu e na usurpação do trono. Zhao Gao parece ter ameaçado divulgar todas essas informações.

Depois disso, ele instalou o filho de Fusu, Ziying (✝ 206 a.C.), no trono, acreditando que poderia controlá-lo. Entretanto, Ziying enganou-o, assassinando-o junto de toda a sua família. Ziying não se saiu melhor do que Qin Er Shi na tentativa de restaurar a autoridade Qin. Uma rebelião em grande escala se iniciou em 206 a.C., liderada pelo nobre Xiang Yu de Chu (232-202 a.C.) e pelo plebeu Liu Bang de Han (cerca de 256-195 a.C.). Em 206 a.C., Liu Bang alcançou primeiro a capital Qin de Xianyang e aceitou a rendição de Ziying. Xiang Yu, chegando mais tarde, executou Ziying e sua família, pondo fim à Dinastia Qin.

Conclusão

Depois disso, Xiang Yu e Liu Bang se voltaram um contra o outro. Durante o conflito conhecido como Contenda Chu-Han (206-202 a.C.), os dois implementaram uma política de guerra total, ceifando milhares de vidas. Liu Bang conseguiu ganhar vantagem ao sequestrar a concubina e o grande amor de Xiang Yu, chamada de senhora Yu. Com isso, Liu Bang atraiu os Chu para um confronto desfavorável na Batalha de Gaixia (202 a.C.). A senhora Yu cometeu suicídio. Após enterrá-la, Xiang Yu lutou para abrir caminho, mas foi perseguido e se matou em vez de ser capturado. Em seguida, Liu Bang estabeleceu a Dinastia Han, governando com o nome de imperador Gaozu (reinou 202-195 a.C.).

Ainda que a Dinastia Qin seja frequentemente tratada positivamente, como a primeira entidade política a unificar a China e a dar-lhe o nome pelo qual é conhecida no Ocidente, o reinado de Shi Huangdi, do seu filho e do neto inaptos foi um período sombrio para o povo, que foi empobrecido, brutalizado e levado à força de suas casas para servir o ego do imperador. É um detalhe revelador que a Dinastia Qin tenha sido a mais curta da história da China imperial, durando apenas 15 anos. Isso aconteceu devido à sua brutalidade e à sua flagrante recusa do princípio central do Mandato do Céu: que um monarca cuidasse de seus súditos antes de qualquer consideração pessoal.

Shi Huangdi, em que pese suas decisões iniciais, tomou um rumo que desafiava diretamente o Mandato, epitomizado na queima dos livros do povo e na execução daqueles que buscavam preservar sua herança e a esperança no futuro. Não há como saber quantos textos das Cem Escolas de Pensamento foram queimados. Ainda assim, considerando o grande alcance de Shi Huangdi, através da sua rede de espiões, supõe-se que esse número tenha sido bastante alto, representando uma perda enorme para a história cultural, a filosofia e a literatura chinesas.

A insistência de Shi Huangdi na primazia da Dinastia Qin e no seu próprio governo encorajou tentativas de apagar as conquistas significativas da Dinastia Zhou as quais, por sua vez, representavam o legado dos Shang. Ao tentar desconectar sua dinastia daquelas do passado, o imperador procurou evitar aquilo que via como suas fraquezas e erros, mas acabou rejeitando também suas forças e conquistas. A história da Dinastia Qin deve ser compreendida como um conto de advertência sobre os perigos de negar o passado — em nível pessoal, nacional ou global — na tentativa de criar um presente que, no fim, revela-se insustentável por carecer de fundamentos.

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Sobre o Tradutor

Felipe Muniz
Sou brasileiro e estudante de graduação em História, bem como tradutor em formação. Sou fluente em inglês e espanhol, para além do português, minha língua nativa. Tenho um grande interesse em História Militar e Ciência Política.

Sobre o Autor

Joshua J. Mark
Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Mark, J. J. (2026, fevereiro 07). Dinastia Qin. (F. Muniz, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-11964/dinastia-qin/

Estilo Chicago

Mark, Joshua J.. "Dinastia Qin." Traduzido por Felipe Muniz. World History Encyclopedia, fevereiro 07, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-11964/dinastia-qin/.

Estilo MLA

Mark, Joshua J.. "Dinastia Qin." Traduzido por Felipe Muniz. World History Encyclopedia, 07 fev 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-11964/dinastia-qin/.

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