Tiye

Joshua J. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Queen Tiye Amulet (by 83d40m, Public Domain)
Amuleto da Rainha Tiye 83d40m (Public Domain)

Tiye (também conhecida como Tiy, 1398-1338 a.C.) foi uma rainha do Egito da XVIII Dinastia, casada com o faraó Amenhotep III, mãe de Akhenaton e avó de Tutankhamon e de Ankhsenamon. Exerceu uma enorme influência nas cortes do marido e do filho, sendo sabido que comunicou diretamente com os soberanos de nações estrangeiras. As cartas de Amarna mostram igualmente que era tida em alta conta por estes soberanos, em especial durante o reinado do filho. Embora professasse a religião politeísta tradicional do Egito, apoiou as reformas monoteístas de Akhenaton, muito provavelmente por ter reconhecido nelas estratagemas políticos fundamentais para reforçar o poder do trono em detrimento do clero de Amon.

Morreu no início dos seus sessenta anos e foi sepultada no Vale dos Reis. A sua múmia foi identificada com segurança como a conhecida «A Senhora Mais Velha» (Elder Lady), tendo sido encontrada na sepultura de Tutankhamon uma mecha do seu cabelo, possivelmente uma recordação guardada pelo jovem rei.

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A Juventude e o Casamento

Segundo alguns especialistas (entre os quais Margaret Bunson), o pai de Tiye era Yuya, um sacerdote provincial de Akhmim, e a mãe era Tjuya, uma serva da rainha-mãe Mutemwiya. Outras fontes, contudo, afirmam que Yuya era Mestre da Cavalaria da corte real e Tjuya uma sacerdotisa. Tiye cresceu no palácio real, embora não fosse ela própria de sangue real. Teria feito parte da vida da corte se a sua mãe tivesse sido serva da rainha, mas parece mais provável que ambos os seus pais gozassem de um estatuto mais elevado.

Tinha um irmão, Anen, que mais tarde assumiu o cargo do pai e se tornou sumo sacerdote do culto de Akhmim, podendo ter tido outro irmão, Ay, que viria mais tarde a governar o Egito (embora tal ponto seja objeto de controvérsia). Há quem afirme que os nomes dos seus pais não são egípcios, tendo sido sugerida a hipótese de serem de origem núbia. Os especialistas que assinalaram o papel invulgar de Tiye nos assuntos de Estado apontam para o costume núbio de governantes femininas. As Candaces da Núbia foram todas governantes fortes, pelo que alguns investigadores especulam que talvez Tiye se tenha sentido livre para exercer o poder da mesma forma que um governante masculino devido à sua educação e herança.

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Tiye governou com a mesma autoridade que um homem e exerceu o seu poder em igual medida com os grandes reis do mundo antigo.

Esta teoria é, contudo, contestada, argumentando-se que as mulheres no antigo Egito gozavam de mais direitos e eram tidas em mais alta consideração do que na maioria das outras culturas da Antiguidade; por conseguinte, não haveria necessidade de procurar na vizinha Núbia a explicação para a conduta de Tiye.

O contra-argumento, no entanto, assenta no facto de esta última objeção não justificar a sonoridade núbia dos nomes dos pais de Tiye. O egiptólogo Zahi Hawass afirma que os nomes não são núbios e que «alguns especialistas especularam que Yuya e Tjuya fossem de origem estrangeira, mas não existem provas sólidas que fundamentem esta teoria» (pág. 28). Contradiz igualmente Bunson ao sustentar que os pais de Tiye estavam ligados ao clero da região egípcia de Akhmim, servindo os deuses Amon, Hathor e Min; Yuya era Mestre da Cavalaria e Tjuya não era uma serva da casa real, mas sim uma sacerdotisa de considerável poder.

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Se Hawass estiver correto, tal explicaria como a rainha Tiye veio a exercer tanto poder — muito mais do que qualquer outra rainha do Egito antes dela (dado que Hatshepsut foi faraó e não rainha consorte, não pode ser considerada nesta equação). A historiadora Margaret Bunson assinala que «Tiye casou provavelmente com Amenhotep quando este era ainda príncipe. Acredita-se que teria apenas 11 ou 12 anos nessa altura» (pág. 265). Quando Amenhotep III ascendeu ao trono, Tiye ascendeu com ele.

A Rainha Tiye

Desde o início do reinado do marido, Tiye constituiu uma força de relevo na corte. Bunson escreve que ela era «inteligente e diligente, a primeira rainha do Egito a ter o seu nome inscrito em atos oficiais, inclusive no anúncio do matrimónio do rei com uma princesa estrangeira» (pág. 265). Hawass concorda, afirmando que «Tiye é figurada em destaque nos monumentos do seu marido e parece ter detido mais poder real do que as rainhas que a precederam. O seu nome é mesmo inscrito num cartucho, à semelhança do do rei» (pág. 28). O reinado de Amenhotep III foi marcado pelo luxo, sendo o Egito a nação mais poderosa e rica da região, se não do mundo; assim, o rei dispunha de liberdade para despender essa riqueza na construção de um grandioso palácio para a sua rainha em Malkata, na margem oposta do rio em frente a Tebas e ao antigo palácio do pai.

Queen Tiye Bust
Busto da Rainha Tiye Miguel Hermoso Cuesta (CC BY-SA)

Tiye e o marido residiam em Malkata, onde a rainha deu à luz seis filhos: dois rapazes, Thutmés e Amenhotep IV; e quatro raparigas, Sitamon, Henuttaneb, Ísis, Nebetah e Baketaten. Thutmés morreu jovem, tendo Amenhotep IV (mais tarde conhecido como Akhenaton) sido declarado herdeiro do trono. As representações da época mostram Tiye com a sua família a desfrutar da vida doméstica, mas a rainha participava com igual empenho nos assuntos de Estado.

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Além dos títulos habituais para uma rainha, tais como Princesa Hereditária, Senhora das Duas Terras, Esposa do Rei ou Grande Esposa Real, Tiye era também conhecida como Senhora do Alto e Baixo Egito e Soberana das Duas Terras. O casal real apresentava uma frente unida na condução da política interna e externa, sendo o reinado de Amenhotep III considerado um ponto alto da história egípcia. Hawass escreve:

Pondo de parte as suas origens não reais em contraste com o seu poder evidente, os especialistas presumiram durante muito tempo que o casamento entre Amenhotep III e Tiye fora uma união por amor. Contudo, os investigadores consideram agora ser possível que os seus pais, Yuya e Tjuya, detivessem na verdade uma influência considerável na administração central sob Thutmés IV, podendo até ter exercido a regência durante a menoridade do jovem rei. O matrimónio poderá assim ter constituído uma bem-sucedida conquista do poder por parte de uma família ambiciosa. A estes foi concedido o privilégio invulgar do sepultamento no Vale dos Reis, onde a sua tumba, parcialmente saqueada mas ainda rica, foi descoberta em 1905.

(pág. 28)

Não há dúvida, contudo, de que o rei e a rainha se amavam e apreciavam a companhia um do outro. São retratados como companheiros constantes e, como assinala Hawass, «o palácio de Malkata tinha um enorme lago artificial associado. Amenhotep III e Tiye faziam passeios de recreio neste lago na sua barca do Aton» (pág. 31) e passeavam igualmente pelos jardins. Cada inscrição, estátua ou carta apresenta o casal como parceiros em pé de igualdade, tanto na vida doméstica como na pública.

A importância de Tiye é evidente no facto de ser representada na estatuária com a mesma altura do seu marido. Anteriormente, na estatuária em díada que representava o faraó e a sua rainha, o rei era consideravelmente mais alto para simbolizar o seu superior poder e prestígio. A partir das inscrições e das cartas encontradas em Amarna, torna-se claro que Tiye era, em todos os aspetos, igual ao seu marido, presidindo a festivais, reunindo-se com dignatários estrangeiros e dirigindo a política interna e externa.

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Bunson escreve que «Tiye era mencionada por vários reis de outras terras na sua correspondência, tendo-se tornado conhecida junto destes nos seus contactos oficiais» (pág. 265). A grande contribuição de Amenhotep III para a cultura egípcia foi a paz e a prosperidade que lhe permitiram erigir os seus grandes monumentos, templos, parques públicos e palácios. Bunson nota que «enquanto Amenhotep se ocupava dos seus próprios assuntos, a rainha Tiye trabalhava incansavelmente com altos funcionários e escribas, supervisionando os aspetos administrativos do império. Estava isenta de ambições pessoais e serviu bem o Egito durante o seu mandato» (pág. 18). O casal real governou o Egito com sucesso durante 38 anos, até à morte de Amenhotep III em 1353 a.C., quando este tinha 54 anos e Tiye 48 anos de idade.

A Mãe do Rei

Tiye assumiu o título de Mãe do Rei após a ascensão ao trono do filho Amenhotep IV. Inicialmente, este governou a partir de Malkata e deu continuidade às políticas do seu pai; contudo, no quinto ano do seu reinado, aboliu a antiga religião do Egito, encerrou os templos e proclamou uma nova ordem assente no culto do único deus verdadeiro, Aton. Mudo o seu nome para Akhenaton e construiu uma nova cidade, dotada de um palácio ainda mais grandioso, em terra virgem no Médio Egito, à qual chamou Akhetaton («o horizonte de Aton»).

Embora não exista qualquer indício de que Tiye tenha alguma vez perfilhado inclinações de natureza monoteísta, parece ter apoiado a rutura radical do seu filho com as políticas religiosas do passado. Os sacerdotes de Amon tinham vindo progressivamente a acumular riqueza e poder ao longo da XVIII Dinastia até que, por altura do reinado de Amenhotep III, a sua influência se rivalizava com a da casa real. Independentemente do que Tiye pudesse pensar em privado sobre o monoteísmo do seu filho, terá certamente aprovado uma medida destinada a reforçar o poder do trono em detrimento do clero.

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Funeral Mask of Queen Tiye
Máscara Funerária da Rainha Tiye Keith Schengili-Roberts (CC BY-SA)

Durante o reinado de Akhenaton, Tiye é figurada no papel de avó, sentada com os príncipes e princesas reais do seu filho e da sua esposa, Nefertiti, embora tenha continuado a desempenhar um papel de relevo na vida política do Egito. O rei de Mitani, Tushratta, mantinha correspondência direta com Tiye, chegando a mencionar assuntos sem qualquer relação com questões de Estado, tais como os momentos aprazíveis que tinham passado juntos por ocasião de visitas. Akhenaton é rotineiramente representado com a sua mãe em cenas domésticas ou em visitas oficiais a Akhetaton, sendo patente o profundo afeto que lhe votava. Até os seus próprios servos a tinham em elevada consideração. É figurada com a sua família desfrutando de um banquete na parede da sepultura do seu mordomo-mor, Huya, onde surge banhada pela luz do deus Aton e rodeada pelos seus netos.

Bunson escreve que as representações de Tiye nesta época «mostram uma mulher enérgica de queixo proeminente, olhos encovados e boca firme» (pág. 265), continuando a ser representada como uma figura de destaque e de estatura real. Acredita-se que o seu exemplo tenha servido de modelo para a sua nora, dado que Nefertiti gozou de um estatuto muito idêntico ao de Tiye, serviu a corte na mesma qualidade e, mais importante, assumiu a gestão dos assuntos de Estado quando o seu marido se encontrava ocupado ou disperso das suas funções.

A Morte e o Legado de Tiye

Não se sabe com exatidão quando Tiye morreu, mas é muito provável que tenha sido por volta do décimo segundo ano do reinado de Akhenaton, no ano de 1338 a.C. As pinturas e inscrições da sepultura de Huya constituem a última menção conhecida à sua pessoa, estando datadas desse mesmo ano. A sua morte é vista por alguns autores como coincidindo com a aparente perda de interesse de Akhenaton pelos assuntos externos, tendo porventura o desgosto pela perda da mãe influenciado o seu recolhimento. Foi igualmente sugerido, contudo, que o rei poderá nunca ter demonstrado interesse pela diplomacia, delegando simplesmente os assuntos de Estado na sua mãe e em Nefertiti.

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Seja como for, o seu reinado sofreu um declínio assinalável após a morte de Tiye, tendo o faraó negligenciado em grande medida a política externa para permanecer no seu palácio em Akhetaton, dedicado à sua nova religião. Esta obsessão por Aton conduziu a um decréscimo do prestígio do Egito e à perda de vários territórios há muito detidos pela coroa — nomeadamente Biblos —, bem como ao fortalecimento dos hititas a norte, uma vez que deixou de existir uma política externa egípcia consistente que contivesse a sua expansão.

Estas circunstâncias levaram os especialistas a especular que, caso Tiye tivesse vivido mais tempo ou exercido uma influência mais direta sobre os interesses religiosos do filho, o Período de Amarna teria sido recordado de forma mais favorável pelas gerações futuras de egípcios. No entanto, tal como os acontecimentos se desenrolaram, Akhenaton viria a ser considerado «o rei herético» e o seu reinado sumariamente apagado da memória histórica.

Após a morte de Akhenaton, o seu filho Tutankhamon assumiu o trono, revogou as reformas religiosas do pai e reinstaurou a antiga religião do Egito. O monoteísmo de Akhenaton era de tal forma detestado pelo povo egípcio que foram tomadas medidas pelos seus sucessores — primeiro Tutankhamon e, no seu encalço, Ay — para sepultar o legado do «rei herético», deixar o seu reinado para trás e conduzir o Egito de regresso ao seu antigo esplendor.

O último rei da XVIII Dinastia, Horemheb, levou estas medidas ainda mais longe e, alegando que os deuses o haviam escolhido para restaurar a glória do Egito, tentou apagar Akhenaton da História. Ordenou a destruição dos templos dedicados a Aton, das estelas e da própria cidade de Akhetaton. A única razão pela qual os especialistas da era moderna possuem conhecimento sobre o Período de Amarna reside no facto de Horemheb ter utilizado as ruínas do reinado de Akhenaton como entulho para o preenchimento de fundações na construção de novos templos consagrados aos antigos deuses do Egito; a partir desses vestígios, foi possível reconstruir o reinado do rei herético. É igualmente por este motivo que a data da morte de Tiye, bem como o seu local de sepultamento inicial, permanecem objeto de debate.

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Tiye parece ter sido sepultada inicialmente na tumba de Akhenaton e, posteriormente, trasladada para a tumba do seu marido, Amenhotep III. Não existe, contudo, um consenso claro sobre esta matéria, uma vez que o argumento a favor do sepultamento na tumba de Amenhotep III assenta exclusivamente na descoberta das suas estatuetas ushebti naquele local, sem que tenham sido encontrados outros vestígios. Além disso, a sua múmia efetiva foi descoberta (pelo arqueólogo Victor Loret em 1898) na tumba de Amenhotep II. A tese de que foi sepultada em primeiro lugar na tumba do seu filho é sustentada por inscrições que, todavia, por se apresentarem pouco claras e frequentemente incompletas, se encontram abertas a interpretação.

A sua múmia foi identificada, num primeiro momento, apenas como «A Senhora Mais Velha» (Elder Lady), tendo sido identificada com certeza pelo seu próprio nome apenas mais tarde, à medida que surgiram mais dados sobre o reinado de Akhenaton. Ficou então demonstrado que, séculos antes do reinado de Cleópatra — amplamente documentado pelos relatos gregos e romanos —, existiu uma rainha do Egito que governou com a mesma autoridade que um homem e exerceu o seu poder em igual medida com os grandes reis do mundo antigo.

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Mark, J. J. (2026, outubro 10). Tiye. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10349/tiye/

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Mark, Joshua J.. "Tiye." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, outubro 10, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10349/tiye/.

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Mark, Joshua J.. "Tiye." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 10 out 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10349/tiye/.

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