Sófocles

Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Sophocles (by Mark Cartwright, CC BY-NC-SA)
Sófocles Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

Sófocles de Colono (cerca de 496 – cerca de 406 a.C.) foi um dos mais famosos e celebrados autores de tragédias da Grécia Antiga. Do seu vasto legado, as obras que subsistiram até à atualidade (redigidas ao longo do século V a.C.) compreendem clássicos fundamentais como Édipo Rei, Antígona e As Traquínias.

Tal como sucede com outras peças gregas, a obra de Sófocles não é apenas um registo do teatro grego, mas oferece também uma visão inestimável de muitos dos aspetos políticos e sociais da Grécia Antiga, desde as relações familiares aos pormenores da religião grega. Além disso, as inovações de Sófocles na encenação teatral lançariam os alicerces de toda a representação dramática ocidental futura, e as suas peças continuam a ser levadas à cena, ainda hoje, em teatros por todo o mundo.

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Os três grandes tragediógrafos gregos foram Ésquilo (cerca de 525 – cerca de 456 a.C.), Eurípides (cerca de 484 – 407 a.C.) e Sófocles. As suas obras eram habitualmente estreadas em grupos de três (não necessariamente trilogias) em festivais religiosos, tais como as competições de Dioniso Eleutério, com destaque para as Grandes Dionisíacas de Atenas. As peças eram frequentemente representadas de novo em teatros de menor dimensão por toda a Grécia, e as melhores eram inclusivamente distribuídas em formato escrito para leitura pública, conservadas como documentos oficiais do Estado para a posteridade e estudadas como parte do currículo padrão da educação grega.

Vida

Sófocles teve uma carreira excepcionalmente longa. A sua primeira participação numa competição foi em 468 a.C. e a última (enquanto ainda vivo) foi em 406 a.C., quando tinha 90 anos. Claramente um grande admirador dos seus colegas dramaturgos, Sófocles chegou mesmo a vestir de luto os actores e o coro da sua última peça, de modo a assinalar a morte de Eurípides, em 407 a.C. Sófocles venceu pelo menos 20 competições em festivais, incluindo 18 na Dionísia da Cidade. Também ficou em segundo lugar muitas vezes e nunca teve a ignomínia de ser votado em terceiro e último lugar nas competições. Sófocles foi, portanto, pelo menos em termos de vitórias, o mais bem-sucedido dos três grandes tragediógrafos.

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Extremamente popular na sua época, Sófocles foi um dos grandes tragediógrafos gregos e um dramaturgo inovador.

Quando criança, Sófocles foi o dançarino principal nas festividades para celebrar a vitória sobre os persas em 479 a.C. No início de carreira, Sófocles chegou a actuar nas suas peças, mas devido à sua voz fraca, remeteu-se ao papel de escritor. O dramaturgo, sem dúvida com base na sua experiência prática como actor, parece ter tido um ator principal favorito, chamado Tlepólemo. Quanto ao carácter de Sófocles, temos indícios deixados por Aristófanes, o grande autor da Comédia Grega, que descreve o seu contemporâneo como alguém 'sociável' e 'tranquilo'.

Fora da vida teatral, Sófocles foi também um membro ativo da polis ateniense. Exerceu o cargo de tesoureiro do Estado (hellenotamiai) entre 443 e 442 a.C. e foi general (ao lado de Péricles), tendo participado na repressão da revolta de Samos em cerca de 441 a.C. Em 413 a.C., integrou o conselho dos dez homens (os probouloi), convocado para lidar com a crise da falhada expedição siciliana de Atenas contra Siracusa. Já numa fase tardia da sua vida, o dramaturgo envolveu-se numa batalha judicial com o seu filho, que alegava que o pai estava senil, procurando assim obter a sua herança e o controlo das propriedades da família. Sabemos que Sófocles era um indivíduo piedoso e, na verdade, um sacerdote do culto ao herói Halon. Após a sua morte, foi homenageado com um culto quando foi renomeado Dexion.

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A tragédia Édipo Rei apresenta o famoso rei Édipo, que se apaixonou pela sua mãe.

Abordagem e Inovação

Extremamente popular no seu tempo, Sófocles foi também um dramaturgo inovador, pois introduziu um terceiro ator no formato da tragédia e foi o primeiro a utilizar cenários pintados (para sugerir um ambiente rural, por exemplo), chegando por vezes a mudá-los durante a peça. O uso de três actores (interpretando múltiplas personagens e usando máscaras) foi um avanço crucial, pois permitiu enredos muito mais sofisticados. Sófocles situa-se, portanto, entre o predecessor Ésquilo e o sucessor Eurípides. Sófocles estava mais interessado na ação realista do que os seus antecessores, mas manteve o coro (um grupo de até 15 actores que cantavam em vez de declamar as suas falas) como um elemento do elenco mais participativo do que os seus sucessores. Para Sófocles, o coro tornou-se tanto um protagonista como um comentador dos eventos da peça, criando uma relação mais próxima com o público.

Greek Tragedy Mask
Máscara de uma Tragédia Grega Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

Sófocles foi também um exímio utilizador da metáfora teatral, como, por exemplo, a cegueira nas peças de Édipo e a bestialidade em As Traquínias, e a sua obra, em geral, procurava provocar e inquietar o público, retirando-o da aceitação passiva do que é ou não 'normal', forçando-o, através das personagens, a enfrentar escolhas difíceis ou mesmo impossíveis. Outras técnicas que utilizou para transmitir significado e ênfase foram as entradas e saídas dramáticas dos actores e o uso recorrente de adereços significativos, tais como a urna em Electra e a espada em Ájax. Por fim, observamos uma maior inovação na própria linguagem utilizada por Sófocles. Uma linguagem rica e altamente formalizada, mas dotada de uma flexibilidade conferida pelo encadeamento de frases e pela inclusão de segmentos de fala mais 'natural'; o uso invulgar de pausas permite que Sófocles alcance um ritmo, uma fluidez e uma tensão dramática superiores aos dos seus contemporâneos.

As peças de Sófocles, tal como as dos seus contemporâneos, inspiraram-se nos contos clássicos da mitologia grega. Esta era a convenção da tragédia (tragōida), e a familiaridade do público com a história e com o cenário permitia ao autor focar-se em elementos específicos e interpretá-los de uma forma inovadora. Muitas vezes, Sófocles não se preocupa tanto com o que aconteceu (o público já o sabia), mas sim com o como os eventos ocorreram. Outra característica típica é o facto de, entre as personagens principais, existir habitualmente uma figura heróica com capacidades excepcionais, cuja excessiva autoconfiança e orgulho garantem um desfecho trágico.

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Uma das suas obras mais célebres é Antígona, na qual a protagonista paga o preço supremo por enterrar o seu irmão Polinice, contra a vontade do rei Creonte de Tebas. Trata-se de uma situação clássica de tragédia: o direito político de negar ritos fúnebres ao traidor Polinice é contrastado com o direito moral de uma irmã que procura dar descanso ao seu irmão. Um tema recorrente na obra de Sófocles é o do embate entre dois direitos e o facto de as personagens estarem equivocadas na sua interpretação dos acontecimentos. Só quando a tragédia se consuma , quando, na verdade, já é demasiado tarde, é que as personagens reconhecem a verdade.

Theatre of Segesta
Teatro de Segesta Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

Obras de Sófocles

Sabemos que Sófocles escreveu cerca de 120 peças, contudo, somente fragmentos chegaram até aos dias de hoje. Sobreviveu uma parte considerável do drama satírico Os Investigadores, mas, em muitos casos, apenas alguns versos resistiram à passagem inexorável do tempo. As sete tragédias completas de Sófocles que subsistiram são:

  • Antígona ( cerca de 442 a.C.), sobre uma mulher dividida entre o dever público e o privado.
  • Édipo Rei ( 429 - 420 a.C.), sobre o famoso rei que amava a mãe um pouco demais.
  • Filoctetes (409 a.C.), sobre a forma de como Odisseu convence o herói a se juntar à Guerra de Tróia.
  • Édipo em Colono (401 a.C.), a parte final da trilogia sobre Édipo.
  • Ajax (data desconhecida), sobre o herói da Guerra de Tróia e o seu orgulho ferido.
  • Electra (data desconhecida) sobre dois irmãos que se vingam pelo assassinato do pai.
  • As Traquínias (data desconhecida), sobre a esposa de Hércules e a sua tentativa falhada de recuperar o afecto do marido.

Infra está uma seleção de trechos da obra de Sófocles:

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Criando o cenário trágico:

Coro

Estarei iludido, ou ouço agora mesmo um lamento erguer-se da casa? Que digo eu? Alguém solta um grito, não contido, mas de amargura, e há um novo infortúnio na mansão. Reparai como, tristemente e com o olhar nublado, a anciã se aproxima para algo nos dizer.
(863-870, As Traquínias)

Como é difícil controlar a paixão e, se não for controlada, pode levar à tragédia:

Quem quer que se oponha a Eros como um pugilista é um insensato; pois ele governa-me.
(440-441, As Traquínias)

Que, independentemente do que aconteça, muitas vezes só nos podemos culpar a nós próprios;

Coro
És tu, cujo destino é penoso, quem escolheu isto; esta fortuna não te foi imposta por ninguém mais poderoso; pois, quando era possível demonstrares bom senso, escolheste aceitar o pior destino, em vez do melhor.
(1095-1100, Filoctetes)

Um conto preventivo e a moral da história:

Coro
A prudência é, de longe, a parte principal da felicidade; e não devemos ser ímpios para com os deuses. As palavras arrogantes dos soberbos são sempre punidas com grandes golpes e, na velhice, ensinam-lhes a sabedoria.
(1348-1353, versos finais de Antígona)

Que, em última análise, devemos aceitar o nosso destino:

Coro
Vinde, cessai vossos lamentos e não os desperteis mais! Pois, de todas as formas, essas coisas permanecem inalteráveis.
(1777-1779, versos finais de Édipo em Colono)

Conclusão

Deste modo, Sófocles não nos legou apenas várias obras-primas da literatura; através das suas inovações, ajudou, igualmente, a estabelecer a fórmula padrão da Tragédia Grega que, a par da Comédia Grega, viria a definir os alicerces de todo o teatro ocidental durante milénios. Ademais, a obra de Sófocles extrapolou as fronteiras do teatro, suscitando discussões e reações noutros campos, nomeadamente na psicologia e no trabalho de Sigmund Freud, o que constitui, talvez, um testemunho da profundidade e das dificuldades de interpretação nas peças deste grande mestre grego.

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Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Tradutora e autora, o gosto pelas letras é infindável – da sua concepção ao jogo de palavras, da sonoridade às inumeráveis possibilidades de expressão.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
Mark é Diretor Editorial da WHE e possui mestrado em Filosofia Política pela Universidade de York. Ele é pesquisador em tempo integral, escritor, historiador e editor. Tem grande interesse por arte, arquitetura e por descobrir as ideias compartilhadas por todas as civilizações.

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Cartwright, M. (2026, março 11). Sófocles. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10183/sofocles/

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Cartwright, Mark. "Sófocles." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, março 11, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10183/sofocles/.

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Cartwright, Mark. "Sófocles." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 11 mar 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10183/sofocles/.

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