Para os incas, os tecidos finamente trabalhados e altamente decorativos tornaram-se símbolos tanto de riqueza como de estatuto; o tecido fino podia ser utilizado tanto como imposto como moeda, e os melhores têxteis tornaram-se nas posses mais cobiçadas de todas, ainda mais preciosas do que o ouro ou a prata. Os tecelões incas eram tecnicamente os mais qualificados que as Américas tinham visto e, com até 120 tramas por centímetro, os melhores tecidos eram considerados os presentes mais preciosos de todos. Por conseguinte, quando os espanhóis chegaram no início do século XVI, foram os têxteis, e não os bens metálicos, que foram oferecidos como boas-vindas a estes visitantes de outro mundo.
Embora sobrevivam muito poucos exemplares de têxteis incas do coração do império, e sabendo-se também que muitos tecidos foram queimados para evitar que caíssem nas mãos dos espanhóis, possuímos, graças à aridão do ambiente andino, muitos exemplares têxteis provenientes das terras altas e de locais de sepultamento nas montanhas. Além disso, os cronistas espanhóis fizeram frequentemente desenhos de padrões têxteis e de vestuário, permitindo-nos ficar com uma imagem razoável das variedades que estavam em uso.
Os Tecelões
Parece que tanto os homens como as mulheres criavam têxteis, mas esperava-se que as mulheres de todas as classes dominassem a arte. O equipamento principal era o tear de cintura para peças mais pequenas e, para peças maiores (como tapetes e cobertas), o tear horizontal de um único liço ou o tear vertical de quatro varas. A fiação era feita com um fuso de queda, tipicamente de cerâmica ou madeira. Os têxteis incas eram fabricados com algodão (especialmente na costa e nas terras baixas orientais) ou lã de lama, alpaca e vicunha (mais comum nas terras altas), que pode ser excecionalmente fina. Os bens feitos com a lã supermacia de vicunha eram restritos, e apenas o governante inca podia possuir rebanhos de vicunhas. Também se fabricavam têxteis mais grosseiros utilizando fibras de agave (maguey).
As Tecelãs e as Oficinas
As melhores tecelãs (aclla) de todo o império eram relocalizadas à força para a capital, Cuzco, para trabalharem no Acllawasi ou «Casa das Mulheres Escolhidas». Aqui funcionavam também oficinas patrocinadas pelo Estado, com trabalhadores subsidiados, que produziam vestuário para a nobreza e para o exército. Foi nestes locais que os tecidos mais finos foram fabricados por especialistas do sexo masculino conhecidos como qumpicamayocs ou «guardiães do tecido fino». Os incas tinham três categorias de tecido: o mais grosseiro era o chusi (utilizado principalmente para cobertores); ligeiramente menos grosseiro e o mais comum era o awasca, destinado ao uso diário e aos militares, sendo raramente decorativo; e o tecido mais fino era o qompi. Este último dividia-se em mais duas categorias — uma qualidade para tributo e outra para funções reais e religiosas. Muitos túmulos continham não só têxteis, mas também cestos de costura oblongos que guardavam as ferramentas necessárias para a tecelagem (fusos, bobinas, novelos de linha, bem como alfinetes e agulhas de metal), indicando que a tecelagem era um ofício muito estimado.
As Cores e os Significados
As principais cores utilizadas nos têxteis incas eram o preto, o branco, o verde, o amarelo, o laranja, o púrpura e o encarnado. O azul está raramente presente nos têxteis incas. Estas cores provinham de corantes naturais extraídos de plantas, minerais, insetos e moluscos. Centenas de tonalidades adicionais eram obtidas através da mistura da paleta de pigmentos base. As cores também tinham associações específicas; por exemplo, o encarnado equivalia à conquista, ao poder governativo e ao sangue. Isto via-se com maior clareza na Mascaypacha, a insígnia do Estado inca, onde cada fio da respetiva borla encarnada simbolizava um povo conquistado. O verde representava as florestas tropicais, os povos que nelas habitavam, os antecessores, a chuva e o consequente crescimento agrícola, a coca e o tabaco. O preto significava a criação e a morte, enquanto o amarelo podia sinalizar o milho ou o ouro. O púrpura, tal como no arco-íris, era considerado a primeira cor e estava associado a Mama Oclla, a mãe fundadora da raça inca. Por fim, os estrangeiros em Cuzco só podiam vestir roupas pretas.
Os Padrões e os Desenhos
Para além da utilização de fios tingidos para tecer padrões, outras técnicas incluíam o bordado, a tapeçaria, a sobreposição de diferentes camadas de tecido e a pintura — seja à mão ou com o auxílio de carimbos de madeira. Os incas privilegiavam os desenhos geométricos abstratos, especialmente os motivos em tabuleiro de xadrez, que repetiam padrões (tocapus) ao longo da superfície do tecido. Determinados padrões podiam também funcionar como ideogramas, possuindo assim um significado específico, embora esta questão continue a ser debatida pelos especialistas. Os temas não geométricos, frequentemente representados de forma abstrata, incluíam felinos (sobretudo jaguares e pumas), lamas, serpentes, aves, criaturas marinhas e plantas. As roupas tinham padrões simples, habitualmente com desenhos quadrados na cintura, franjas e um triângulo a marcar a zona do pescoço. Um desses exemplos era a túnica militar padrão, que consistia num padrão de tabuleiro de xadrez preto e branco com um triângulo vermelho invertido no decote.
Os padrões podiam ser específicos de grupos familiares (ayllu) e uma das razões para a repetição de desenhos devia-se ao facto de os têxteis serem frequentemente produzidos para o Estado como forma de imposto, podendo assim representar comunidades específicas e o seu património cultural. Tal como as moedas e os selos atuais refletem a história de uma nação, também os têxteis andinos ofereciam motivos reconhecíveis que representavam quer as comunidades específicas que os fabricavam, quer os desenhos impostos pela classe governante inca que os encomendava. Ao mesmo tempo, tal como os incas impuseram um domínio político sobre os seus súbditos conquistados, na arte impuseram formas e padrões incas padronizados, embora permitissem que as tradições locais mantivessem as suas cores e motivos preferidos. É igualmente de notar que, tal como na decoração da cerâmica, os têxteis incas não incluíam representações de si próprios, dos seus rituais ou de imagens andinas comuns como monstros e figuras meio-humanas, meio-animais, que podem ser encontradas noutras formas de arte.
Podiam ser acrescentadas decorações adicionais às peças sob a forma de borlas, brocados, penas e contas de metal precioso ou concha. Podiam também ser tecidos fios de metal precioso diretamente no tecido. Como as penas provinham habitualmente de aves tropicais raras e de condores, estas vestimentas estavam reservadas à família real e à nobreza.
As Funções
As roupas dos incas eram de estilo simples, sendo a maioria feita de algodão ou lã. O traje masculino típico consistia numa tanga e numa túnica simples (unqo) feita a partir de uma única folha de tecido dobrada ao meio e cosida nas laterais, com aberturas para os braços e o pescoço. No inverno, usava-se por cima um manto ou poncho. As mulheres vestiam habitualmente um único pedaço de tecido grande enrolado à volta do corpo, preso ao ombro e mantido no lugar com um cinto ou faixa à cintura conhecida como chumpi. Por cima deste, podia usar-se um manto, igualmente preso à frente. Ambos os sexos usavam chapéus de tecido ou bandas para a cabeça. Este chapelaria podia indicar grupos de clãs ou estatuto social, tanto através do seu design como com a adição de penas e decorações de metal precioso.
O vestuário era um enorme símbolo de estatuto na sociedade inca e um indicador facilmente reconhecível da riqueza e da posição social de uma pessoa. Os governantes e a nobreza eram também sepultados envolvidos em múltiplas camadas de têxteis finos. Tal era o valor atribuído aos tecidos finos que os incas exigiam frequentemente a sua produção como tributo ou imposto (mit'a — trabalho prestado ao Estado) aos povos conquistados. Para o efeito, eram fornecidas anualmente quantidades específicas de lã ou algodão aos tecelões súbditos para que pudessem produzir uma quantidade calculada de têxteis. Os têxteis cuja produção exigia mais trabalho eram considerados os mais valiosos. De facto, os têxteis eram tão valorizados que funcionavam, na prática, como moeda; por exemplo, o Estado pagava a unidades de soldados e àqueles que tinham prestado um serviço com tecido.
Outros bens fabricados a partir de têxteis incluíam sacos, destinados ao armazenamento de, por exemplo, folhas de coca. Estes eram frequentemente decorados com a adição de borlas. Também se faziam de têxteis esteiras para dormir, cobertores, sacos de estopa, alforges, a parte superior de sapatos e tapeçarias de parede. Pequenas bonecas de figuras votivas eram igualmente vestidas com têxteis e deixadas em câmaras funerárias. Além disso, os têxteis eram oferecidos como presentes em rituais sociais importantes, tais como casamentos, nascimentos e ritos de passagem, podendo ser queimados como oferendas votivas aos deuses. Por fim, importa referir o quipu inca, o complexo dispositivo de registo em cordas onde nós e cores eram utilizados para registar bens e mensagens específicos.
