Batalha de Rorke's Drift

A Heróica Resistência da Guerra Anglo-Zulu
Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Logo após a famosa vitória sobre os britânicos na Batalha de Isandlwana, a 22 de janeiro de 1879, cerca de 4.000 guerreiros Zulu avançaram pela fronteira entre a Zululândia e o Natal. Este exército Zulu dirigiu-se a Rorke's Drift, a cerca de 19 km (12 milhas) de distância, onde havia uma missão, 140 soldados do 24.º Regimento de Warwickshire e as tropas aliadas. A batalha do cerco durou 12 horas, mas os defensores resistiram — um feito tanto mais notável dado que um número considerável de homens já se encontrava inválido antes mesmo de o combate começar. Foram atribuídas onze medalhas da Cruz da Vitória pela defesa bem-sucedida de Rorke's Drift.

Defense of Rorke's Drift
A Defesa de Rorke's Drift Alphonse de Neuville (Public Domain)

As Causas da Guerra Anglo-Zulu

A Grã-Bretanha controlava a Colónia do Cabo na África Austral, que era estrategicamente importante dado o Cabo da Boa Esperança ser um ponto de paragem para os navios que ligavam a Índia e o Extremo Oriente à Europa. Ao longo da década de 1830, quando os britânicos proibiram a escravatura e o crescimento populacional exerceu demasiada pressão sobre a terra e os recursos, cerca de 14.000 Bóeres (colonos brancos de ascendência holandesa ou francesa) migraram para norte. Os Bóeres combateram tanto os povos Ndebele como os Zulu para criarem dois novos territórios para si: o Transval e o Estado Livre de Orange. Em 1854, os britânicos reconheceram estas duas repúblicas bóeres em troca do reconhecimento, por parte destas, de que estavam, teoricamente, sob soberania britânica. Outra colónia britânica era o Natal, situada ao longo da costa do Oceano Índico e criada em 1843.

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Este canto, outrora bastante pobre do Império Britânico, tornou-se subitamente um dos mais ricos quando foram descobertos diamantes em Griqualândia no final da década de 1860, que foi transformada em colónia da coroa em 1871. Os britânicos, particularmente o novo Secretário das Colónias, Sir Michael Hicks Beach, estavam empenhados em unificar as colónias britânicas com as duas repúblicas bóeres numa espécie de federação. Entretanto, certos grupos africanos faziam a sua última tentativa desesperada para se livrarem dos colonos. Uma derrota dos Bóeres perante um ataque dos Pedi deu aos britânicos a desculpa para anexarem o Transval em janeiro de 1877 e, seguidamente, afirmarem que apenas uma presença militar britânica garantiria a segurança. Os britânicos continuavam determinados a criar a sua federação da África Austral, mas restava um obstáculo sério a norte de Natal: o Reino Zulu.

Os britânicos estavam preocupados com a existência de um Estado bem organizado, com 40.000 guerreiros, tão perto das suas fronteiras.

O povo Zulu era originalmente um clã do povo Nguni que tinha migrado para a África Austral no século XVI. Por volta da década de 1820, os Zulus tinham construído um império baseado numa cultura marcial. Desde 1872 que o rei dos Zulus era o Chefe Cetshwayo kaMpande. Os britânicos estavam receosos pela existência de um Estado bem organizado, com 40.000 guerreiros, tão perto das suas fronteiras, mas os Zulus não tinham, de facto, mostrado sinais de hostilidade para com os seus vizinhos europeus. Tanto Sir Bartle Frere, governador da Colónia do Cabo, como Theophilus Shepstone, uma figura-chave no governo de Natal, estavam empenhados em manter o Transval, e o reino Zulu fronteiriço era visto como uma ameaça a este objetivo. Além disso, os Zulus possuíam excelentes pastagens para o gado e, se fossem conquistados, tal proporcionaria um novo fornecimento de mão-de-obra para os caminhos-de-ferro e minas da região. Foram enviados para Londres relatórios falsos, que exageravam a ameaça dos Zulu aos interesses britânicos, pelo que foi dado "luz verde" para mais uma guerra colonial. Em dezembro de 1878, foi enviado um ultimato a Cetshwayo — essencialmente uma exigência de renúncia à soberania —, que o rei Zulu compreensivelmente recusou.

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Last Stand of the 24th, Isandlwana
A Última Resistência do 24.º Regimento, Isandlwana C.E. Fripp (Public Domain)

O Desastre de Isandlwana

O Tenente-General Frederic Thesiger, mais conhecido como Lord Chelmsford (1827-1905), foi nomeado para liderar a expedição britânica ao Reino Zulu. A 11 de janeiro, os invasores atravessaram a fronteira Zulu em três pontos distintos e dirigiram-se para território desconhecido. O primeiro erro de Chelmsford foi dividir a sua força em colunas independentes. A 22 de janeiro, Cetshwayo ordenou aos seus guerreiros Zulu que comunicassem o ataque ao acampamento da coluna de invasão central, uma vez que esta parecia ser a mais ameaçadora. Era a coluna liderada pessoalmente por Chelmsford.

Mais de 25.000 guerreiros Zulu atacaram e destruíram o acampamento britânico no sopé da montanha de Isandlwana. "Dos 1.700 homens que se encontravam no acampamento na manhã do dia 22, apenas 60 brancos e 400 negros sobreviveram" (Knight, pág. 54). Chelmsford, que tinha saído em reconhecimento à procura do inimigo, regressou ao seu acampamento devastado ao anoitecer. Os Zulus tinham partido, mas no horizonte, em direção à missão de Rorke's Drift, a cerca de 16 km (milhas) de distância, via-se o brilho das chamas. A missão, situada num ponto de travessia do Rio Buffalo, tinha claramente sido atacada.

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A Missão

O ataque a Rorke's Drift ocorreu contra as ordens de Cetshwayo, porque implicava atravessar a fronteira para o Natal britânico. No entanto, com o sangue na guelra após Isandlwana, cerca de 4.000 guerreiros Zulu dirigiram-se diretamente para a missão. Estes três regimentos Zulu não tinham estado diretamente envolvidos no ataque ao acampamento de Isandlwana, mas tinham perseguido e cercado os homens que fugiam do acampamento. Alguns dos fugitivos tinham conseguido chegar a Rorke's Drift, avisando os homens ali presentes sobre o desastre ocorrido horas antes e sobre a forte probabilidade de um ataque Zulu à missão.

John Chard
John Chard Lock & Whitfield (Public Domain)

A defesa de Rorke's Drift estava nas mãos da Companhia B do 2.º Batalhão do 24.º Regimento. O comando cabia ao Tenente John Chard, da 5.ª Companhia de Engenharia do Corpo de Engenheiros Reais, que tinha antiguidade sobre o Tenente Gonville Bromhead, do 2.º Batalhão do 24.º Regimento de Warwickshire. A força incluía 81 soldados da Infantaria do Exército Britânico e tropas nativas de Natal. Chard decidiu ficar e defender a missão. Como salientou o Comissário-Adjunto James Dalton, do Departamento de Intendência e Transporte, a transferência dos feridos do hospital para as carroças criaria uma coluna lenta, que os Zulus acabariam certamente por alcançar em campo aberto.

Vaga após vaga os Zulus investiram contra os muros defensivos onde estes eram mais baixos.

Os homens, que tiveram cerca de uma hora antes da chegada dos Zulus, fortificaram a missão o melhor que puderam. O armazém e o edifício do hospital foram convertidos em redutos, com frestas de tiro abertas nas paredes. Foram erguidos muros defensivos improvisados ligando os edifícios, utilizando o que estivesse disponível, principalmente sacos de milho (mealie), caixas de carne em conserva e grandes caixas de bolachas, das quais existia felizmente abundância, após a utilização de Rorke's Drift como acampamento para a coluna de Chelmsford na noite anterior à sua entrada na Zululândia. Foi ainda construído um reduto perto do armazém, para o caso de os muros exteriores serem rompidos.

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Quando os primeiros Zulus foram avistados no horizonte, Otto Witt, o missionário sueco a quem pertencia a missão, partiu para se juntar à família na sua quinta. Um grupo de tropas montadas nativas africanas e o Contingente Nativo de Natal também abandonaram a missão. Os restantes homens posicionaram-se atrás das suas defesas e esperaram para ver o que aconteceria a seguir.

Zulu Warriors & Kraal
Guerreiros Zulu e o Kraal Unknown Photographer (Public Domain)

A principal arma do guerreiro Zulu era a zagaia, uma lança que possuía uma lâmina longa e fina. O cabo curto da zagaia tornava-a ideal como arma de estocada. Os guerreiros transportavam também duas ou três lanças leves de arremesso e, por vezes, uma moca leve. A proteção era garantida por um escudo alto de couro de vaca endurecido. Alguns Zulus possuíam espingardas europeias antiquadas e até espingardas modernas Martini-Henry, mas a sua perícia ao utilizá-las era muito inferior à do soldado britânico comum, devidamente treinado, que conseguia não só disparar com precisão, mas fazê-lo em fileiras, de modo que, enquanto uma linha recarregava, a outra disparava, mantendo assim um fogo de salva contínuo e devastador sobre o inimigo.

O Ataque Zulu

À tarde, por volta das 16h00, os Zulus lançaram o seu ataque, concentrando-se em duas frentes: uma no lado norte da estação e a outra no lado ocidental do edifício do hospital. Os Zulus que possuíam espingardas ocuparam posições elevadas nas encostas da colina próxima, Oskaberg. Vaga após vaga os Zulus investiram contra os muros defensivos onde estes eram mais baixos. O general Zulu, o Príncipe Dabulamanzi kaMpande, meio-irmão de Cetshwayo, lutou para incutir disciplina, uma vez que os seus homens, por terem ficado de fora do ataque principal em Isandlwana, estavam desesperados por conquistar glória para si próprios. Por este motivo, Dabulamanzi foi incapaz de criar uma reserva ou sequer de limitar os ataques. No entanto, a coragem e o elevado número de atacantes Zulu começaram a desgastar os defensores. Mesmo a pontaria medíocre dos atiradores em Oskaberg acabou por conseguir infligir algumas baixas aos britânicos.

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Pelas 18h00, Chard foi obrigado a ordenar a retirada dos seus homens do muro exterior, junto ao hospital, e a criar uma linha defensiva mais curta atrás de um muro recém-erguido. O edifício do hospital foi também abandonado à medida que os Zulus o tomavam sala após sala. Soldados e pacientes, abrindo buracos através de sucessivas paredes interiores, ajudaram-se mutuamente a sair do edifício e a atravessar o pátio para a maior segurança dos muros altos erguidos em volta do armazém. Os Zulus atearam fogo ao telhado de colmo do hospital, mas foram repelidos pelo fogo concentrado vindo do armazém. Os feridos britânicos ajudaram a distribuir munições pelos homens que disparavam dos muros.

À medida que os ataques continuavam, Chard mandou construir um reduto ainda mais pequeno dentro do já existente. O Sargento-de-Bandeira Bourne descreve a coragem dos Zulus que se lançavam contra as defesas perante o fogo de espingarda: "[Os Zulus] demonstram o seu destemor e o seu desprezo pelas fardas vermelhas e pelo reduzido número de homens… [eles] tentavam saltar o parapeito e, por vezes, agarravam as nossas baionetas, apenas para serem abatidos a tiro." (James, pág. 257).

The Defence of Rorke's Drift
A Defesa de Rorke's Drift Elizabeth Thompson (Public Domain)

Os britânicos resistiram aos ataques repetidos até à meia-noite, altura em que os Zulus, eles próprios com uma necessidade desesperada de descanso, começaram a reduzir a frequência das nvestidas. A maioria dos atacantes não comia nem descansava desde a manhã do dia anterior. Havia também o problema de que o simples acesso aos muros era seriamente dificultado pelo número de cadáveres no campo de batalha. Nas horas seguintes, ocorreram ataques esporádicos e o fogo vindo da encosta nunca cessou, especialmente agora que os defensores estavam retroiluminados pelo edifício do hospital em chamas. Por fim, por volta das 04h00 da madrugada, os atacantes retiraram-se. Os defensores não estavam convencidos de que este fosse o fim da batalha, uma suspeita confirmada quando o exército Zulu reapareceu nas encostas de Oskaberg por volta das 07h00 da manhã. No entanto, para imenso alívio de todos, tratava-se apenas de uma manobra, à medida que se dirigiam para leste e de regresso à Zululândia, atravessando o Rio Buffalo.

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O assalto durou 12 horas. Morreram cerca de 500 Zulus na tentativa fracassada de tomar a missão, e talvez outros 500 tenham ficado feridos. Entre os defensores, apenas 17 homens foram mortos, mas quase todos os sobreviventes estavam feridos de uma forma ou de outra. Quando a coluna em retirada de Chelmsford chegou a Rorke's Drift, mais tarde naquela manhã, os escombros dos edifícios da missão ainda fumegavam. No limite, a sobrevivência dos defensores de Rorke's Drift demonstrou a combinação vantajosa de espingardas e defesas amuralhadas que tinha faltado tão drasticamente em Isandlwana. Foram atribuídas onze Cruzes de Vitória (a mais alta condecoração militar britânica) aos defensores de Rorke's Drift, incluindo a Chard e Bromhead. Adicionalmente, foram concedidas cinco Medalhas de Conduta Distinta.

O Rescaldo

Na realidade, as batalhas de Isandlwana e Rorke's Drift foram apenas os prelúdios de uma guerra maior que os Zulus não poderiam vencer, confrontados como estavam com um inimigo tecnologicamente superior. As perdas Zulus em Isandlwana e Rorke's Drift eram insustentáveis. Como o próprio Cetshwayo afirmou: "Uma zagaia foi enterrada no ventre da nação Zulu" (McBride, pág. 22). Os britânicos regressaram em força à Zululândia e, desta vez, trouxeram as suas metralhadoras. O grosso do exército Zulu foi destruído na Batalha de Ulundi, a 4 de julho de 1879. A 31 de agosto, Cetshwayo foi capturado e enviado para o exílio. O Reino Zulu foi então dividido em 13 senhorios. A Zululândia tornou-se uma colónia da coroa em 1887 e foi absorvida pelo Natal em 1897.

O descalabro em Isandlwana foi vingado, mas depois esquecido. Em contraste, o episódio em Rorke's Drift, uma mera nota de rodapé na Guerra Anglo-Zulu, tem gozado de uma fama duradoura na cultura britânica, em grande parte graças ao filme Zulu de 1964, que conta a sua história dramática com razoável precisão. Naturalmente, as culturas também preferem recordar as suas vitórias em vez das suas derrotas.

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Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Tradutora e autora, o gosto pelas letras é infindável – da sua concepção ao jogo de palavras, da sonoridade às inumeráveis possibilidades de expressão.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
Mark é Diretor Editorial da WHE e possui mestrado em Filosofia Política pela Universidade de York. Ele é pesquisador em tempo integral, escritor, historiador e editor. Tem grande interesse por arte, arquitetura e por descobrir as ideias compartilhadas por todas as civilizações.

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Estilo APA

Cartwright, M. (2026, março 13). Batalha de Rorke's Drift: A Heróica Resistência da Guerra Anglo-Zulu. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2910/batalha-de-rorkes-drift/

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Cartwright, Mark. "Batalha de Rorke's Drift: A Heróica Resistência da Guerra Anglo-Zulu." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, março 13, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2910/batalha-de-rorkes-drift/.

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Cartwright, Mark. "Batalha de Rorke's Drift: A Heróica Resistência da Guerra Anglo-Zulu." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 13 mar 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2910/batalha-de-rorkes-drift/.

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