Catarina de Bragança

A Rainha Portuguesa de Carlos II
James Blake Wiener
por , traduzido por Filipa Oliveira
publicado em
Translations
Versão Áudio Imprimir PDF

Embora o casamento de Catarina de Bragança (1638-1705) com Carlos II da Inglaterra (reinado 1660-1685) tenha sido uma união de grande importância política, a sua vida e influência na Inglaterra da Restauração continuam a ser amplamente ignoradas no mundo anglófono. Na sua última obra, Charles II's Portuguese Queen: The Legacy of Catherine of Braganza (A Rainha Portuguesa de Carlos II: o Legado de Catarina de Bragança), a historiadora Susan Abernethy destaca a realeza, a diplomacia e o patrocínio de Catarina, revelando uma mulher muito mais complexa e influente do que a história há muito reconhece.

Catherine of Braganza
Cartarina de Bragança Unknown Artist after Sir Peter Lely (Public Domain)

James Blake Wiener, da World History Encyclopedia, conversa com Susan Abernethy sobre a vida e o legado de Catarina de Bragança, bem como as novas perspetivas que a investigação traz sobre esta notável rainha, nesta entrevista exclusiva.

Remover publicidades
Publicidade

JBW: Susan, o que despertou inicialmente o seu interesse por Catarina de Bragança? Foi um momento, um documento ou uma curiosidade sobre ela como rainha esquecida?

SA: Há muitos anos, li o romance histórico chamado The Merry Monarch's Wife, de Jean Plaidy (nascida Eleanor Hibbert). Mais tarde, quando comecei o meu blog, The Freelance History Writer, em 2012, o meu plano era ter um artigo sobre cada rainha da Inglaterra. O artigo sobre Catarina provou-me que não havia muitas fontes boas em inglês, e as biografias mais recentes eram de 1905, da escritora americana Lillias Campbell Davidson, e de 1935, de Janet Mackay. Há muitas biografias das amantes de Carlos II, e Catarina tinha sido ofuscada por estas mulheres mais glamorosas. Eu queria colocá-la em destaque e dar-lhe uma atualização muito necessária.

Remover publicidades
Publicidade

JBW: A vida de Catarina une Portugal e Inglaterra, dois mundos muito diferentes no século XVII. Como é que a infância em Portugal moldou a rainha que se tornou na Inglaterra da Restauração?

SA: Catarina cresceu muito protegida. Educada por freiras, pode-se até dizer que viveu uma vida de reclusa. A etiqueta na corte portuguesa era extremamente formal. A mãe pretendia que ela se casasse, se não com o rei da França, pelo menos com o rei da Inglaterra, e queria ter certeza de que Catarina não interferisse na política. A educação foi inadequada, incluindo formação religiosa e bordado. Ela não aprendeu outras línguas além do português e do espanhol, não teve aulas de dança e certamente não recebeu orientação em política ou em como cultivar seguidores.

Remover publicidades
Publicidade
Catarina chegou à decadente corte da Restauração Stuart completamente despreparada, acabando por adoecer e isolar-se.

Assim, Catarina chegou à decadente corte da Restauração Stuart completamente despreparada, acabando por adoecer e isolar-se. Após uma visita da sogra, a rainha viúva Henriqueta Maria (de França), a atitude de Catarina mudou completamente. Ela teve a capacidade de perceber que precisava de se adaptar ao novo ambiente, e acredito que Henriqueta Maria a convenceu a aceitar as infidelidades do marido e a tentar participar das festividades da corte. Carlos contratou um professor de dança, e ela começou a exercer as funções como rainha por meio da promoção artística e cultural.

JBW: Quando começou a pesquisar sobre Catarina, houve algum aspecto da sua história que a surpreendeu ou contradisse-se a imagem que se tem dela na historiografia inglesa?

SA: Sim, com certeza. Parecia-me que as pessoas a viam como alguém chorosa e deprimida o tempo todo e que permanecia em segundo plano na corte. Descobri que era totalmente falso. Ela usava a sua influência de várias maneiras, como promovendo artistas barrocos católicos como Jacob Huysmans e Benedetto Gennari, organizando círculos noturnos onde os cortesãos podiam ir aos seus aposentos para fofocas e entretenimento, usando máscaras, peças de teatro e apresentações musicais, e aprendendo a dançar e a participar dos eventos da corte. Um dos momentos mais surpreendentes foi quando descobri que patrocinou secretamente a abertura de uma escola católica para mulheres sob os auspícios das irmãs Mary Ward, que não viviam em clausura. Ward, que conhecia Henriqueta Maria, queria educar as mulheres com os mesmos métodos dos jesuítas. Os esforços de Ward não foram exatamente sancionados pelo Papa, mas acabou por obter aceitação e abriu várias escolas no continente. Achei isto fascinante. Após a morte do rei Carlos, Catarina alugou uma casa perto da escola em Hammersmith.

Remover publicidades
Publicidade
Queen Catherine of Braganza as Saint Catherine of Alexandria
Rainha Catarina de Bragança como Santa Catarina de Alexandria Jacob Huysmans (Public Domain)

JBW: O catolicismo de Catarina fez dela um alvo na Inglaterra anglicana, mas ela parece ter lidado com essa hostilidade com elegância e dignidade. Como é que a fé influenciou o seu papel e a sua posição política na corte?

SA: Como afirma a sua biógrafa portuguesa, Virginia Rau, a fé de Catarina beirou o misticismo, pelo que era parte integrante da sua personalidade e vida. De acordo com o seu tratado de casamento, Catarina tinha a possibilidade de praticar a sua religião nas suas próprias capelas no Palácio de St. James e na Somerset House, e fê-lo abertamente, embora em certos momentos da sua vida tal fosse difícil. O aspecto mais importante do seu reinado foi a sua capacidade de ser católica sem fazer nenhum esforço evidente para mudar a religião do povo inglês. Como vimos, ela secretamente patrocinou uma escola católica para mulheres e pagou para que sermões católicos fossem impressos e distribuídos. Isso, juntamente com a lealdade e amor pelo marido, permitiu que permanecesse fiel, navegasse pelo complicado clima religioso na Inglaterra e ganhasse a estima do povo inglês. Carlos acabaria por defendê-la quando em 1678, ecolodiu a Conspiração Papista.

JBW: Catarina é frequentemente lembrada como a rainha que "trouxe o chá para a Inglaterra", mas é claro que a sua importância vai muito além disso. Como considera que a sua imagem foi simplificada ou distorcida ao longo do tempo?

Remover publicidades
Publicidade
A história de Catarina ter trazido o chá para a Inglaterra certamente não é verdadeira, pois há evidências da existência do chá no país desde 1620.

SA: Certamente, a sua imagem foi distorcida devido ao interminável carrossel de amantes de Carlos. Estas mulheres eram mais deslumbrantes do que Catarina e tendiam a receber mais comentários e fofocas do que a rainha, forçando-a a ficar em segundo plano. Além de uma política anti-francesa e pró-portuguesa, Catarina tendia a ficar fora da política, onde algumas das amantes, especialmente Louise de Kéroualle, duquesa de Portsmouth, se inseriam na política.

A história de Catarina ter trazido o chá para a Inglaterra certamente não é verdadeira, pois há evidências da existência do chá no país a partir de 1620, bem antes da sua chegada em 1662. A sua influência reside em ter dado destaque ao consumo social do chá durante o seu reinado, juntamente com muitas outras damas aristocráticas da Inglaterra da época. No entanto, ela trouxe vários outros itens, como cadeiras de vime, armários lacados, porcelana e tecidos de algodão, entre outras coisas. John Evelyn comenta sobre os armários lacados quando vê Catarina pela primeira vez em Hampton Court, então estas coisas não eram comuns na Inglaterra em 1662.

O ponto mais importante do seu legado é o porto de Bombaim, na Índia, que foi incluído no seu tratado de casamento. Carlos acabou por arrendar o porto à Companhia Inglesa das Índias Orientais, que utilizou Bombaim como sede para o comércio na Índia e, claro, acabou por assumir o controlo e torná-lo parte do império. Mas a exportação dos muitos artigos acima mencionados permitiu que entrassem na vida quotidiana inglesa, bem como na vida europeia. Considero este o seu legado mais importante, e não tem sido suficientemente enfatizado.

Remover publicidades
Publicidade
East India Company Fort, Bombay
Forte da Companhia das Índias Orientais, Bombaim Unknown Artist (Public Domain)

JBW: O legado de poder e patrocínio de Catarina não se limita apenas à Grã-Bretanha — estende-se igualmente a Portugal. Por que Catarina voltou para Portugal após a morte de Carlos II, e que responsabilidades assumiu na sua terra natal?

SA: Este é um dos acontecimentos mais extraordinários da vida de Catarina. Há apenas alguns casos de rainhas estrangeiras que regressam à sua terra natal e muito poucas que acabaram governando como regentes. Após a morte de Carlos, Catarina permaneceu na Inglaterra por sete anos. Ela dava-se bem com o rei católico Jaime II e a rainha, Maria Beatriz de Modena, que a visitavam regularmente em Somerset House, em Londres.

Durante o reinado de Jaime, Catarina quase partiu para Portugal, mas adoeceu e adiou a viagem. Quando Guilherme de Orange invadiu a Inglaterra e destituiu Jaime do trono, a vida de Catarina tornou-se difícil. Guilherme e Maria eram totalmente protestantes e definitivamente anticatólicos. A rainha Maria II suspeitava que Catarina simpatizava com os jacobitas devido à sua relação próxima com Jaime II e Maria de Modena.

Remover publicidades
Publicidade
William and Mary
Guilherme e Maria R. White (Public Domain)

Este seria o período mais infeliz da vida de Catarina. Ela implorou ao irmão que lhe permitisse regressar a Portugal e teve de contar com Guilherme para lhe fornecer navios para a transportar, bem como ao seu séquitoal e bens pessoais. Por fim, conseguiu tudo o que precisava e atravessou o Canal da Mancha em 1692. A sua viagem até Portugal demorou muitos meses, mas foi calorosamente recebida pelo irmão, o rei Pedro II.

O irmão de Catarina relutava em concretizar qualquer aliança durante a Guerra da Sucessão Espanhola e, a princípio, favorecia a França. Quando Catarina chegou, provavelmente devido à sua influência, convenceu-o a se juntar aos aliados, incluindo a Inglaterra. Portugal serviria como quartel-general para as muitas tropas estrangeiras envolvidas no conflito. Enquanto o rei Pedro II estava fora lutando, designou-a como regente em Portugal, e cumpriu as funções com entusiasmo, apesar de ter de lidar com um conselho de homens que não gostavam de trabalhar com uma mulher.

É evidente que os ingleses ficaram impressionados com o seu desempenho no governo. Pedro regressou da guerra, mas adoeceu e, mais uma vez, Catarina assumiu o cargo de regente, apenas para adoecer no final de dezembro de 1705. Morreu inesperadamente e teve um funeral magnífico.

JBW: Por fim, Susan, no que está a trabalhar neste momento? Há outras mulheres da realeza ou períodos históricos que está ansiosa para explorar em seguida?

Remover publicidades
Publicidade

SA: O meu segundo livro, The Formidable Women Who Shaped Medieval Europe: Power and Patronage at the Burgundian Court (As mulheres Formidáveis que Moldaram a Europa Medieval: Poder e Patrocínio na Corte da Borgonha), foi lançado no Reino Unido no início de novembro e será lançado nos Estados Unidos no final de dezembro. Trata-se de uma coleção de 31 mulheres que tinham laços de sangue, casamento e política com os duques Valois da Borgonha, governantes dos Países Baixos e partes do norte da França e da Alemanha de 1393 até os seus territórios terem sido absorvidos pelo Império Habsburgo no início do século XVI. Acho que a maioria das pessoas não conhece estes duques e o quanto foram influentes, e não o teriam conseguido sem as suas mulheres.

The Formidable Women Who Shaped Medieval Europe
'As Mulheres Formidáveis que Moldaram a Europa Medieval' Susan Abernethy (Copyright)

Atualmente, estou a trabalhar na biografia da cunhada de Catarina de Bragança, Maria Beatriz d'Este de Modena, a única rainha italiana da Inglaterra. Outro projeto que estou pesquisando é sobre as incríveis Mazarinettes, as sobrinhas do cardeal Mazarin, ministro-chefe dos reis Luís XIII e XIV.

JBW: Obrigado por partilhar connosco o seu tempo e paixão, Susan. Desejamos-lhe muitas aventuras felizes na sua investigação.

SA: Muito obrigada, James.

A paixão de Susan pela história remonta há 50 anos e levou-a a estudar para obter um diploma de Bacharel em História na Universidade da Carolina do Norte em Charlotte. Atualmente, é membro da 'Rocky Mountain Medieval and Renaissance Association', da 'Historical Writers Association', da 'Society for Renaissance Studies' e da 'Historical Association.' O seu trabalho está publicado em vários sítios históricos e revistas, além das participações especiais em podcasts históricos. O seu blog, The Freelance History Writer, publicou continuamente mais de 500 artigos desde 2012, com ênfase na história europeia, Tudor, medieval, renascentista, moderna e feminina. Atualmente, está a trabalhar no seu terceiro livro de não ficção.

Remover publicidades
Publicidade

Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Jornalista brasileiro que vive no Rio de Janeiro. Seus principais interesses são a República Romana e os povos da Mesoamérica, entre outros temas.

Sobre o Autor

James Blake Wiener
James Blake Wiener tem um interesse particular em intercâmbios interculturais e em história mundial. Ele é cofundador da World History Encyclopedia e anteriormente foi seu Diretor de Comunicações.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Wiener, J. B. (2025, dezembro 10). Catarina de Bragança: A Rainha Portuguesa de Carlos II. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2834/catarina-de-braganca/

Estilo Chicago

Wiener, James Blake. "Catarina de Bragança: A Rainha Portuguesa de Carlos II." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, dezembro 10, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2834/catarina-de-braganca/.

Estilo MLA

Wiener, James Blake. "Catarina de Bragança: A Rainha Portuguesa de Carlos II." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 10 dez 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2834/catarina-de-braganca/.

Remover publicidades