Os flamengos contam-se entre os grupos de imigrantes mais influentes e, talvez, mais subestimados de quantos moldaram a história da Escócia medieval e do dealbar da Idade Moderna. Ao longo de vários séculos, aportaram à Escócia como soldados e colonos, mercadores e artífices, diplomatas e fundadores de dinastias. Diversas das mais proeminentes linhagens escocesas — como os Fleming, Murray, Sutherland, Lindsay e Douglas, a título de exemplo — reivindicam raízes na elite flamenga, ao passo que inúmeras outras famílias podem traçar a sua ascendência até flamengos que chegaram como artesãos, mercenários ou émigrés (emigrados) sob perseguição religiosa.
Nesta entrevista, James Blake Wiener conversa com o Dr. Alexander Fleming e o Professor Roger Mason, autores da obra Scotland and the Flemish People (A Escócia e o Povo Flamengo), com o intuito de aprofundar o conhecimento sobre as múltiplas vias através das quais os flamengos moldaram a história medieval e moderna da Escócia.
JBW: Como e por que razão os flamengos medievais e a sua relação com a Escócia despertaram o vosso interesse?
AF e RM: Tinha sido realizada pouca investigação sobre a relação entre a Flandres e a Escócia. Os estudos publicados datavam de há vários anos (das décadas de 1930 e 1980) e alguns académicos questionavam a sua metodologia e conclusões. Além disso, os presentes manuais de História da Escócia fazem escassas referências à influência flamenga no período medieval, suspeitando-se que o papel destes imigrantes tivesse sido subestimado. Por conseguinte, sentimos que era imperativo rever as evidências relativas à relação entre a Flandres e a Escócia.
JBW: Quais foram os principais factores que levaram os flamengos a migrar para a Escócia na Idade Média e no início da era moderna? Há algum factor que se destaque mais do que os outros?
AF e RM: Em 1066, cavaleiros flamengos participaram na invasão da Grã-Bretanha, tendo sido inicialmente recompensados com terras em Inglaterra. Ao ascender ao trono em 1124, David I da Escócia atraiu vários flamengos estabelecidos em Inglaterra para o auxiliarem na transformação económica e social do país. A partir do século XII, a Escócia beneficiou da migração e da colonização de artífices e agricultores flamengos, bem como de guerreiros e mercadores de elite. O florescente comércio de lã com a Flandres atraiu à Escócia comerciantes e outros especialistas ligados à ovinocultura.
No século XVI, a reacção espanhola à Reforma Protestante na Europa Continental conduziu à perseguição dos protestantes nos Países Baixos. Muitos deles, incluindo alguns oriundos da Flandres, procuraram refúgio em Inglaterra, sendo que outros poderão ter-se estabelecido na Escócia. Esta terá sido, muito provavelmente, uma fonte de migrantes bastante menos expressiva do que as duas anteriormente mencionadas, as quais foram impulsionadas fundamentalmente por factores económicos — a busca de terras, no caso dos primeiros cavaleiros, e as oportunidades de negócio, no caso dos mercadores e artífices.
JBW: Suspeito que muitos leitores tendam a associar os flamengos ao seu papel dominante nos domínios económico, social e cultural da Europa do final da Idade Média — durante a era do Estado Borguinhão — e, mais tarde, ao período em que Antuérpia emergiu como a capital das finanças europeias, no dealbar do século XVI. Por que razão é que é se desconhece o seu impacto na Escócia e noutras paragens? Suspeito que os próprios flamengos saibam também relativamente pouco sobre o seu papel na génese da história escocesa.
AF e RM: Como mencionado anteriormente, grande parte da literatura existente sobre o envolvimento flamengo na Escócia é bastante datada e, de qualquer modo, de difícil acesso ao grande público. Além disso, até à data, não existia uma história abrangente e acessível sobre o tema. Deixando este aspeto de parte, a nossa investigação revelou que a influência flamenga se estendeu por um período bastante dilatado — talvez na ordem dos 600 anos — pelo que, embora tenham tido um impacto significativo, cujos elementos ainda hoje são visíveis, este não era facilmente discernível no quotidiano imediato. Os migrantes flamengos eram extremamente adaptáveis e integraram-se rapidamente na sociedade escocesa, num processo de «escocização» (Scotticisation), como o designamos na nossa obra. Este processo tendeu, igualmente, a ocultar a influência flamenga na Escócia.
JBW: Li anteriormente que foram os imigrantes flamengos ou holandeses quem introduziu o golfe na Escócia, mas desconhecia que os flamengos tivessem deixado a sua marca no ordenamento urbano medieval e do início da Idade Moderna. Poderia elucidar-nos sobre os seus contributos neste domínio?
AF e RM: A melhor forma de responder a essa questão é através da citação de exemplos específicos. Um imigrante flamengo notável foi Mainard, o Flamengo, que foi trazido para a Escócia por David I em meados do século XII. Inicialmente estabelecido em Berwick-upon-Tweed, Mainard foi o responsável pelo ordenamento da cidade. Posteriormente, foi transferido para St. Andrews, um antigo sítio religioso na costa de Fife que emergia então como a capital eclesiástica do país. Mainard ficou incumbido do desenvolvimento e da implementação do planeamento de ordenamento de St. Andrews. Este traçado em forma de cunha, que se estende de este para oeste, tornou-se a característica distintiva da cidade e permanece inalterado até aos dias de hoje.
A nossa obra aborda igualmente a influência da arquitetura flamenga em diversas igrejas escocesas. Além disso, em certas regiões da Escócia, e de forma mais notável em várias aldeias de Fife, situadas nas margens do Estuário do Forth (Firth of Forth), a arquitetura civil apresenta traços flamengos e holandeses perfeitamente distintos. Tais características manifestam-se no uso de frontões em degrau e em coberturas de telha de barro em tons de vermelho e cinza.
JBW: Houve algum período de discriminação generalizada contra os flamengos na Escócia? Ou os escoceses viam os flamengos como migrantes desejáveis devido à sua habilidade artesanal e capital?
AF e RM: Esta é uma questão de difícil resposta. Alguns dos primeiros flamengos atraídos para a Escócia por David I poderão ter sido utilizados na pacificação de certas regiões do país, presumindo-se que a sua presença possa não ter sido inteiramente do agrado dos habitantes locais. Todavia, as evidências disponíveis sugerem que os flamengos foram, em geral, bem recebidos, não havendo indícios de que tenham sido alvo de discriminação.
Os mercadores e artífices flamengos gozavam de um enorme prestígio junto dos escoceses. Os primeiros contribuíram para estimular o comércio lanífero entre a Escócia e a Flandres, o que gerou benefícios económicos significativos. Os artífices, nomeadamente os tecelões, eram altamente respeitados e, no final do século XVI, o governo escocês chegou inclusive a oferecer incentivos para atrair tecelões flamengos para a Escócia, com o intuito de prestarem o que hoje designaríamos por «assistência técnica». Aqueles que optaram por permanecer no país integraram-se na sociedade escocesa sem qualquer indício de discriminação.
JBW: Os escoceses também não formaram comunidades de émigré na Flandres e na Holanda? Especialmente após o casamento de Jaime II da Escócia e Maria de Guelders, imagino que tenha havido um grande aumento no tráfego entre a Escócia e a Flandres.
AF e RM: Considerando que grande parte das exportações de lã escocesa transitava pelo porto de Bruges, na Flandres, não surpreende que tenha surgido nessa cidade uma comunidade de escoceses que facilitava as trocas comerciais. Existem evidências de que esta comunidade possuía inclusivamente o seu próprio local de culto. É uma feliz coincidência que o livro-razão de Andrew Halyburton, um mercador escocês do final do século XV, tenha sobrevivido até aos nossos dias. Estabelecido principalmente em Middelburg, Halyburton mantinha vastos contactos em Bruges e Antuérpia, actuando como agente da elite escocesa na aquisição e fornecimento dos famosos bens de luxo da Flandres. Halyburton casou-se com Cornelia Bening, filha do artista e iluminador luso-flamengo Alexander Bening, que mantinha estreitos laços familiares e profissionais com Hugo van der Goes e a comunidade artística de Bruges-Gante. O célebre Retábulo da Trindade de Van der Goes (atualmente na Galeria Nacional da Escócia) foi precisamente o resultado destas interligações.
JBW: Embora possa ser um exagero afirmar que até um terço da população escocesa actual possui ascendência flamenga, é indubitavelmente verdade que os contributos destes migrantes para a Escócia, entre a Idade Média e o dealbar da Idade Moderna, são profundos. Nas vossas próprias palavras, portanto, por que razão é tão importante reconhecermos o seu impacto e o seu legado?
AF ou RM: Sem dúvida, existe um número significativo de escoceses cujas famílias têm as suas raízes na Flandres medieval. Muitos desconhecem este facto, pelo que um dos objetivos do projeto Scotland and the Flemish People (A Escócia e o Povo Flamengo), e da obra homónima, consistia precisamente em sensibilizar a população em geral para este tema. É imperativo que reconheçamos o impacto e o legado dos flamengos na Escócia, dado que estes não têm sido devidamente valorizados na historiografia escocesa existente.
Na nossa obra, procurámos suprir essa lacuna. Os flamengos que aportaram à Escócia entre os séculos XII e XVI deixaram marcas indeléveis na paisagem, na língua e na cultura escocesas, bem como na sua identidade social e política. Era fundamental que, pela primeira vez, os factos relativos à secular relação entre a Flandres e a Escócia fossem examinados, ponderados e apresentados de forma acessível, tanto aos historiadores como ao grande público.
JBW: Muito obrigado por conversarem connosco sobre um assunto tão intrigante. Desejo-vos muitas aventuras felizes nas vossas pesquisas.
Alexander Fleming é um economista que ocupou cargos no Banco da Inglaterra, na Universidade de St. Andrews e no Banco Mundial. Recebeu um LLD honorário da Universidade de St. Andrews em 1999.
Roger Mason é professor emérito de História Escocesa na Universidade de St. Andrews. Publicou diversos trabalhos na área do pensamento político e da cultura escocesa do final da Idade Média e início da Era Moderna.

