Ulrico Zuínglio (1484-1531) escreveu Os 67 Artigos (Die 67 Artikel Zwinglis) em 1523 como um acto de confissão de fé a serem apresentados na Primeira Disputa em Zurique onde defendeu as suas crenças contra as acusações de heresia feitas pela Igreja Católica, sendo citados em conjunto com as 95 Teses [ou Disputação do Doutor Martinho Lutero sobre o Poder e Eficácia das IndulgênciasI, original: Disputatio pro declaratione virtutis indulgentiarum)] de Martinho Lutero como parte dos documentos mais importantes do início da Reforma Protestante.
Martinho Lutero (1483-1546) publicou as 95 Teses a 31 de outubro de 1517 e, apesar de mais tarde, Zuínglio ter declarado não as ter lido quando iniciou o seu movimento de Reforma em 1519, existem muitos pontos em comum, e por tal, os estudiosos dos dias de hoje acreditam que o primeiro documento influenciou o segundo. É o caso do estudioso Diarmaid MacCulloch que cita o historiador Euan Cameron:
Se Zuínglio realmente desenvolveu a mensagem sobre a "reforma" da salvação pelo perdão gratuito, apreendida pela fé, de forma distinta, simultaneamente mas inteiramente independente de Lutero, foi a coincidência mais impressionante do século XVI. (pág. 138).
Embora a visão geral de Zuínglio possa ter sido influenciada pela de Lutero, Os 67 Artigos diferem significativamente das 95 Teses. O trabalho de Lutero cinzia-se na política de venda de indulgências – documentos emitidos pela Igreja para diminuir o tempo no purgatório – enquanto que Os 67 Artigos de Zuínglio abordam uma série de questões que considerava como evidências de uma Igreja corrupta e caída. Defendia um retorno à simplicidade do Cristianismo primitivo retratado no livro bíblico de "Atos dos Apóstolos" e, como Lutero, denunciou quaisquer tradições ou políticas que não estivessem claramente estabelecidas nas escrituras.
Quando em 1529, os dois homens se encontraram no Colóquio de Marburgo, Lutero destratou Zuínglio, e por tal, compreensivelmente, Zwinglio minimizou a influência de Lutero no seu próprio trabalho. Mesmo assim, se as 95 Teses influenciaram de alguma forma Os 67 Artigos, tal não diminui o seu poder ou a visão, tendo sido a base para a Reforma Suíça.
A Reforma de Zuínglio e a Primeira Disputa
Zuínglio foi primeiramente influenciado pelo teólogo, erudito e sacerdote humanista Erasmo de Roterdão (1466-1536), que conheceu em 1514 e encontraram-se novamente em 1516. Pensa-se que até poderá ter contribuído para a tradução das escrituras de Erasmo, que nunca se juntou ao movimento da Reforma, mas defendeu mudanças na política e prática da Igreja a partir de dentro. Zuínglio já era um defensor da Reforma em 1518 e, quando foi nomeado sacerdote do povo na Grossmünster (Grande Catedral), em Zurique, em 1519, aboliu imediatamente a liturgia da Igreja e lia o Evangelho Segundo S. Mateus diretamente para a congregação.
Em 1522, tinha já publicado vários sermões, criticando a política da igreja, e atacou a tradição do jejum durante a Quaresma após um evento conhecido como o Episódio da Salsicha, quando o impressor Christoph Froschauer serviu salsichas aos seus convidados durante a Quaresma, desafiando a proibição da Igreja de comer carne. Zuínglio afirmou que não havia justificação bíblica para o jejum, ou mesmo para a Quaresma, e, alegando que a Bíblia era a única fonte autorizada da verdade espiritual, acusou a Igreja de ensinamentos falsos e práticas corruptas que apenas enriqueciam e fortaleciam o clero e não representavam a mensagem ou o ministério de Jesus Cristo.
Algumas das suas críticas baseando-se em que não havia nenhum apoio bíblico para:
- O cargo do Papa;
- A missa ou a presença de Cristo na Eucaristia;
- A intercessão ou veneração dos santos;
- A Quaresma, proibição do consumo de carne ou outros alimentos;
- O celibato clerical;
- A excomunhão;
- O purgatório;
- O sacerdócio.
A Igreja, naturalmente, reagiu a estas acusações, mas, tendo aprendido com os erros cometidos com Lutero – onde quanto mais eles tentavam suprimir as suas opiniões, mais popular ele se tornava – o Papa apenas orientou o Concelho da cidade de Zurique a demitir Zuínglio da sua posição e a expulsá-lo silenciosamente. Contudo, o Concelho da cidade apoiou-o, e, em vez disso, em janeiro de 1523, convocou uma reunião (conhecida como a Primeira Disputa) entre representantes da Igreja e Zuínglio para discutir o assunto.
O emissário católico, Johannes Fabri, preparou-se para uma disputa privada, mas Zuínglio, compreendendo a sua popularidade em Zurique, preparou-se para um debate público e elaborou Os 67 Artigos com base nos seus sermões e escritos. Mais de 600 pessoas apareceram para ouvir o debate, e como Fabri estava proibido de discutir questões teológicas diante dos leigos, tudo o que pode fazer foi insistir no reconhecimento da Igreja como a única autoridade em assuntos espirituais, sem apresentar razões e sem responder às acusações de Zuínglio. Este, por outro lado, apresentou Os 67 Artigos abordando as críticas acima, bem como outras, e, como era um orador eloquente e articulado, venceu facilmente a disputa. O Concelho da cidade de Zurique decretou que deveria continuar a pregar de acordo com as escrituras, e a Reforma foi estabelecida na cidade.
O Texto d'Os 67 Artigos
O texto infra d'Os 67 Artigos é extraído de Obras Selecionadas de Huldrych Zwinglio, traduzidas por Samuel Macauley Jackson, 1901, e do artigo Os Sessenta e Sete Artigos de Zwinglio por Dan Graves do Christian History Institute. Para maior clareza modificou-se alguma pontuação, e o texto é sem comentários.
Os artigos e opiniões infra, eu, Ulrich Zuínglio , confesso ter pregado na digna cidade de Zurique com base nas Escrituras que são chamadas de inspiradas por Deus, e ofereço-me para proteger e prevalecer com os referidos artigos, e onde eu não tiver compreendido corretamente as referidas Escrituras, permitirei que me ensinem melhor, mas apenas a partir das referidas Escrituras.
I. Todos os que dizem que o Evangelho só é válido com a confirmação da Igreja erram e difamam a Deus.
II. A essência e a substância do Evangelho é que o nosso Senhor Jesus Cristo, o verdadeiro Filho de Deus, deu-nos a conhecer a vontade do Pai Celestial, e com a sua inocência libertou-nos da morte e reconciliou-nos com Deus.
III. Por isso, Cristo é o único caminho para a salvação para todos os que já viveram, vivem e viverão.
IV. Quem procura ou aponta outra porta erra, é um assassino de almas e um ladrão.
V. Por isso, todos os que consideram outros ensinamentos equivalentes a ou maiores do que o Evangelho desconhecem o que é o Evangelho.
VI. Pois Jesus Cristo é o guia e o líder, prometido por Deus a todos os seres humanos, cuja promessa foi cumprida.
VII. Ele é a salvação eterna e a cabeça de todos os crentes, que são o Seu corpo, pois o seu próprio corpo está morto; e nada pode fazer sem Ele.
VIII. Assim se segue antes de tudo, que todos os que habitam na cabeça são parte e filhos de Deus, e que é a Igreja ou comunhão dos santos, a noiva de Cristo, a Ecclesia catholica.
IX. Assim como os membros do corpo não podem fazer nada sem o controlo da cabeça, ninguém no corpo de Cristo pode fazer o mínimo sem a sua cabeça, Cristo.
X. Da mesma forma que um louco age sem a cabeça e cujo membros tentam fazer algo, rompendo, ferindo, ferindo-se a si mesmo; assim, quando os membros de Cristo empreender algo sem a cabeça, oh Cristo, são loucos ferindo-se e sobrecarregando-se com leis insensatas.
XI. Por isso, vemos nas ordenanças clericais (assim chamadas), no seu esplendor, riquezas, classes, títulos, e leis a causa de toda a loucura, pois eles também não concordam com a cabeça.
XII. Ainda se enfurecem - não por conta da cabeça (pois almeja surgir novamente pela graça de Deus), mas porque não permite que continuem a se enfurecer e são compelidos a ouvi-la.
XIII. Onde se ouve a Cabeça, aprende-se clara e abertamente a vontade de Deus, e o ser é atraído pelo seu Espírito e transformado n’Ele.
XIV. Portanto, todo o povo cristão usará a melhor diligência para que o Evangelho de Cristo seja uniformemente pregado por todo o lado.
XV. Pois na fé repousa a nossa salvação, e na incredulidade a nossa condenação; pois toda a verdade está clara n’Ele.
XVI. No Evangelho aprende-se que as doutrinas e decretos humanos não contribuem para a salvação.
XVII. Cristo é o único sumo sacerdote eterno, portanto aqueles que se têm desgiando sumos sacerdotes opõm-se à honra e ao poder de Cristo; sim, explusem-nos.
XVIII. Cristo, havendo-se sacrificado uma vez, representa para a eternidade certo e válido sacrifício pelos pecados de todos os fiéis, do que resulta que a missa não é um sacrifício, mas é uma lembrança do sacrifício e garantia da salvação que Cristo nos deu.
XIX. Que Cristo é o único mediador entre nós e Deus.
XX. Deus deseja dar-nos todas as coisas em nome de Cristo, pelo que fora desta vida não necessitamos de mediador exceto Ele.
XXI. Quando oramos uns pelos outros na Terra, fazemos de tal maneira que acreditamos que todas as coisas são-nos dadas unicamente por Cristo.
XXII. Cristo é a nossa justiça, por isso as nossas obras são boas na medida em que são de Cristo, mas quando nossas não são nem certas nem boas.
XXIII. Cristo despreza as posses e a pompa deste mundo, e aqueles que atraem riqueza para si mesmos em Seu nome difamam-no terrivelmente quando fazem d’Ele um pretexto para a sua avareza e obstinação.
XXIV. Nenhum cristão é obrigado a fazer ritos que Deus não decretou, por isso podem-se comer todos os alimentos durante todo o ano, desde que se aprenda que o decreto sobre o queijo e manteiga é uma fraude Romana.
XXV. O tempo e o lugar estão sob a autoridade dos cristão, e de homem com eles, por isso, aqueles que fixam tempo e lugar privam os cristãos da sua liberdade.
XXVI. Deus está especialmente descontente com a hipocrisia; por isso tudo o que é aparência esterna é uma grande hipocrisia e devassidão. Incluem-se os capuzes, as insígnias, as placas etc.
XXVII. Todos os cristãos são irmãos de Cristo e uns dos outros, ninguém deverá criar um pai na terra. Sob esta condenação caem ordens, seitas, irmandades etc.
XXVIII. Tudo o que Deus tem permitido ou não proibiu é justo, portanto, o casamento é permitido a todos os seres humanos.
XXIX. Todos os clérigos pecam quando não se casam, depois de terem consciência que Deus não os capacitou para permanecerem castos.
XXX. Aqueles que prometem castidade [fora do matrimónio] carregam de forma tola ou infantil muito sobre si mesmos, pelo que se aprende que aqueles que fazem tais votos erram pela piedade.
XXXI. Somente a Igreja pode excomungar, isto é: toda a congregação de fiéis e o seu pastor.
XXXII. Só o que oferece ofensa pública pode ser excomungado.
XXXIII. Propriedade injustamente adquirida não será dada a templos, mosteiros, catedrais, cleros ou freiras, mas sim aos necessitados, se não puder ser devolvida ao proprietário legal.
XXXIV. Na doutrina de Cristo não há justificação para a Pompa do (assim chamado) poder espiritual.
XXXV. Mas os leigos têm poder e confirmação da Escritura e da doutrina de Cristo.
XXXVI. Tudo o que estado eclasiático reivindica ter poder e proteção, cabe aos leigos decidir se desejam ser cristãos.
XXXVII. Além disso, todos os cristãos lhe devem obediência, sem exceção.
XXXVIII. Na medida em que não ordenam algo contrário a Deus.
XXXIX. Por isso, todas as leis devem estar em harmonia com a vontade divina, de modo a proteger os oprimidos, mesmo que não se queixem.
XL. Só podem condenar à morte com justiça, também, e apenas, aqueles que cometem ofensa pública (se Deus não está ofendido que seja ordenada outra pena).
XLI. Se dão bons conselhos e ajudam a quem devem prestar contas a Deus, estes (os que receberam o conselho e a ajuda) devem àqueles (os que prestaram a ajuda) assistência corporal.
XLII. Mas se forem infiéis e transgridam as leis de Cristo, podem ser depostos, em nome de Deus.
XLIII. Em suma, os que reinam com Deus são mais estáveis; porém piores e mais instáveis são os que governam de acordo com sua própria vontade.
XLIV. Verdadeiros oradores invocam Deus em espírito e em verdade, sem grandes alarido perante os homens.
XLV. Os hipócritas trabalham apenas para poderem ser vistos pelos homens, recebendo a recompensa nesta vida.
XLVI. Assim, o pregar e o clamor, sem verdadeira devoção, só por recompensa procura ou fama diante dos homens ou lucro.
XLVII. A morte corporal deve ser sofrida antes de ofender ou escandalizar um Cristão.
XLVIII. Quem quer que, através de estupidez ou ignorância, for ofendido sem causa, não se deve abater ou enfraquecer, mas permanecer forte, para que não consider pecado o que não é pecado.
XLIX. Que eu saiba, é maior ofensa conceder que os sacerdotes contratem prostitutas do que se casem. Que vergonha!
L. Deus somente redime pecados através de Jesus Cristo, Seu Filho e nosso único Senhor.
LI. Quem atribui tal a seres diminui da honra de Deus e concede-lhes o que é de Deus; isso é a idolatria verdadeira.
LII. Consequentemente, a confissão que é feita ao sacerdote ou vizinho não será declarada para ser uma remissão de pecado, mas somente uma procura por conselho.
LIII. Obras de penitência impostas por conselhos humanos (exceto a excomunhão) não expiam pecados; são impostas como uma ameaça.
LIV. Cristo padeceu toda a nossa dor e trabalho. Portanto, aquele que se atribui ao trabalho de penitência, o que pertence a Cristo, erra e calunia a Deus.
LV. Quem quer que perdoe pecados por dinheiro é companheiro de Simão e de Balaão, o real mensageiro do mal personificado.
LVII. As verdadeiras Escrituras Divinas desconhecem o purgatório depois desta vida.
LVIII. Somente Deus pode julgar os mortos.
LIX. Só o que Deus fez saber, deve ser sabido.
LX. Que se clame sinceramente a misericórdia de Deus para com os mortos eu não condeno, mas determinar prazos (sete anos por um pecado mortal), e mentir por lucro é diabólico.
LXI. As Escrituras nada referem sobre a atual forma de consagração dos sacerdotes.
LXII. Somente os que proclamam a palavra de Deus podem ser reconhecidos como sacerdotes.
LXIII. Ordenam que honra lhes seja tida, a fim de provê-los com comida para o corpo.
LXIV. A todos aqueles que reconhecem os seus erros, não será permitido sofrer, mas sim morrer em paz, e por tal, organizar de forma cristã, o seu legado para a Igreja.
LXV. Àqueles que não desejam confessar, Deus cuidará. Por isso, não será usada força física, a menos que o seu comportamento tenha sido tão criminoso que não seja possível fazê-lo sem aquela.
LXVI. Todos os altos clérigos devem aquietar e unanimimamete erguer a cruz de Cristo, e não o dinheiro – cofres, ou perecerão, porque eu vós digo o machado está levantado contra a árvore.
LXVII. Quem desejar conversar comigo sobre juros, dízimos, crianças não batizadas ou confirmação, eu estou disposto a responder.
Ninguém aqui empreenda discussões com sofismas ou com insensatez humana, mas venha às Escrituras e as aceite como juízas (pois as Escrituras exalam o Espírito de Deus), para que a verdade seja encontrada, ou, se já encontrada, como eu almejo, seja retida. Amém.
Assim possa Deus reinar.
