Os Nórdicos na América: Factos e Ficção

Oxford University Press
por Gordon Campbell / Oxford University Press, traduzido por Filipa Oliveira
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A premissa de que os nórdicos teriam sido os primeiros a descobrir a América emergiu nos finais do século XVIII, precedendo em muito a divulgação das sagas nas quais se baseiam tais alegações. Durante o século XIX, foram detetados indícios da presença de povos nórdicos no que são hoje os Estados Unidos. Estes vestígios (nomeadamente inscrições e objetos de época) manifestaram-se sobretudo em zonas de fixação escandinava, e os proponentes da veracidade destas provas tendiam a ser, eles próprios, descendentes de escandinavos.

Leif Erikson Sighting America
Leif Erikson Avista a América Nasjonalgalleriet Oslo (Public Domain)

A divulgação junto do grande público da hipótese de uma descoberta nórdica da América, prévia a Cristóvão Colombo (1451-1506), ganhou fôlego com a edição da obra de Rasmus Anderson, America not discovered by Columbus (A América Não Descoberta por Colombo), em 1874. O livro reforçou significativamente a contenda histórica de que as incursões nórdicas na Nova Inglaterra ocorreram de forma reiterada entre os séculos X e XIV, sublinhando, simultaneamente, o vínculo ancestral teutónico que unia os nórdicos à elite intelectual da região, a qual Oliver Wendell Holmes designou, numa frase que ficou para a posteridade, como a 'casta brâmane da Nova Inglaterra'.

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A Embarcação Viking

No dia 30 de abril de 1892, a réplica do navio de Gokstad largou de Bergen, alcançando solo americano 22 dias mais tarde.

O ponto alto da teoria da descoberta nórdica verificou-se em 1893, decorridos três anos sobre a descoberta do navio de Gokstad, do século IX, num outeiro funerário junto ao fiorde de Kristiania. Enquanto em 1892 se comemorava o quarto centenário da primeira expedição de Colombo, Chicago acolhia, no ano imediato, a Exposição Universal em sua honra. A participação da Noruega consistiu na recriação do navio de Gokstad; o objetivo era navegar o Atlântico para demonstrar a navegabilidade da embarcação, aportando em New London (Connecticut) e Nova Iorque antes de rumar a Chicago, onde seria integrada na exposição.

A embarcação possuía plena capacidade para tal viagem: pese embora a ausência de bancadas, a sua estrutura era de grande solidez, permitindo a propulsão a remos ou à vela. Os fundos foram obtidos na Noruega e através de escandinavos residentes na América. No dia 30 de abril, o Viking (como se apelidou a réplica) largou de Bergen comandado pelo editor Magnus Andersen, alcançando solo americano ao fim de 22 dias. A receção na América foi calorosa, conquanto pontuada por alguns percalços. A crónica (Vikingefærden, "A Expedição Viking") de Andersen foi editada em norueguês, mas a ausência de uma versão inglesa impediu o seu cruzamento com os testemunhos de americanos que presenciaram os eventos; apesar de não haver motivos para questionar a sua veracidade, o relato espelha um ponto de vista particular.

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Nesta narrativa, Andersen e os seus homens foram alvo de agressões em Brooklyn por parte de partidários de Colombo; a polícia — de matriz católica irlandesa e, por conseguinte, favorável a Colombo — encarou-os como perpetradores e não como vítimas, mantendo-os sob custódia. No trajeto fluvial pelo Canal de Erie rumo aos Grandes Lagos, a guarnição do Viking enfrentou os insultos de grupos pró-Colombo instalados nas pontes e ribas. Anderson interpretou este fenómeno como uma divisão religiosa: o campo católico aclamava Colombo e o protestante os vikings. Tal dicotomia fora já sedimentada na esfera protestante por autoras como Marie Brown, que, em 1887, na sua obra The Icelandic Discoverers of America; or Honour to Whom Honour is Due (Os Descobridores Islandeses da América; ou Honra a Quem Honra é Devida) denunciara a 'descoberta fraudulenta' de Colombo como um estratagema para subjugar os Estados Unidos ao 'mais ignóbil tirano da história, o poderio católico romano'.

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A presença do Viking foi uma anomalia num certame destinado a glorificar Colombo, acabando por funcionar como um elemento disruptivo no seio das celebrações. Anderson e os seus partidários sustentaram convictamente a premissa de que a chegada de Leif Erikson à América antecedera a de Colombo. O facto de o Viking ter navegado o Atlântico pelos seus próprios meios, ao passo que as réplicas dos três navios de Colombo, inaptas para navegar, foram rebocadas a partir do Mosteiro de La Rábida (O mosteiro onde Colombo permaneceu enquanto aguardava o financiamento para a sua viagem), alimentou o discurso da prioridade e superioridade escandinava. É evidente que ambas as narrativas carecem de base factual — Colombo não aportou no atual território norte-americano, tal como não há evidências de que Leif Erikson o tenha feito —, mas ambas desempenharam funções ideológicas. Se Colombo era uma figura central para os católicos de origem italiana e hispânica, os vikings representavam um símbolo de identidade para as elites de Leste e para os imigrantes escandinavos do Midwest.

Gokstad Viking Ship
Barco de Gokstad Karamell (CC BY-SA)

A expedição do Viking legitimou não só a arqueologia especulativa — com a sua paragem em Newport, Connecticut, sede da pretensa 'Torre Viking' local — como também um discurso de natureza identitária. A crítica da época apressou-se a traçar um contraponto entre o brio dos noruegueses, que enfrentaram o Atlântico num barco aberto, e a conduta dos marinheiros espanhóis, descritos como efeminados por declinarem a travessia oceânica nas suas vultuosas embarcações. Os precursores da Nova Inglaterra foram elevados à categoria de destemidos nórdicos proto-protestantes. Esta foi uma apropriação de um mito britânico análogo, exposto de forma memorável por Thomas Carlyle na sua obra On Heroes, Hero-worship and the Heroic in History (Sobre Heróis, Culto dos Heróis e o Heroico na História). O autor descrevia os 'Reis do Mar' setentrionais como possuidores de uma 'bravura selvagem e sanguinolenta' e de uma 'energia ruda e indomável', louvando a audácia com que 'desafiavam o oceano impetuoso e os seus monstros, bem como todos os homens e coisas – progenitores dos nossos Blakes e Nelsons'. A expedição do Viking serviu de catalisador para que os anglo-saxões da Nova Inglaterra e os escandinavos do Médio-Oeste se revissem nesta linhagem nórdica heroica.

O Mito da Descoberta

Por que motivo se coloca a questão sobre a autoria da descoberta da América? Por que se celebra tal acontecimento? E por que se debate, de forma tão acesa, quem terá sido o primeiro a aportar? Além disso, por que é que a presença nórdica na América do Norte assume tal importância? Com efeito, por que motivo perdura entre muitos americanos a crença de que os nórdicos antecederam Colombo nos atuais Estados Unidos (país que Colombo nunca chegou a visitar)? Por que terão os americanos financiado a ereção de estátuas de Leif Erikson na Islândia e na Gronelândia?

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As respostas a estas interrogações radicam nos primórdios da colonização europeia do continente americano e na emergência da Inglaterra — sucedendo à hegemonia espanhola — como o poder colonial mais eficaz. À luz do século XXI, é legítimo indagar o que conferiu aos colonos a convicção de que tinham o direito de conquistar e ocupar o território de outrem, desapossando e marginalizando as populações autóctones que expulsaram, para depois escravizarem povos de um continente distinto. Onde nasce este sentido de superioridade e como terá ele dado lugar a uma historiografia ilegítima, que reivindica a fundação da América por parte dos nórdicos?

Estas interrogações inserem-se no processo pelo qual uma sociedade de colonos, servindo-se de uma elite com poder político, forja uma narrativa histórica que estigmatiza os colonizados como selvagens, excluindo-os do direito à terra. O sistema de hierarquias raciais inerente à colonização despoja os nativos americanos da sua história, ao mesmo tempo que apresenta os povos do Norte da Europa como dotados de uma superioridade racial e cultural, conferindo-lhes uma suposta legitimidade na apropriação dos territórios indígenas.

Leif Erikson
Leif Erikson Thomas Quine (CC BY)

Os povos nórdicos atravessaram o Atlântico Norte, colonizando o arquipélago atlântico, as ilhas Faroé, a Islândia e a Gronelândia, e alcançando as margens da massa continental da América do Norte. Esta progressão para oeste não teve qualquer caráter de inevitabilidade; não houve um desígnio ou força que impelisse os nórdicos para solo americano. A tese de que os nórdicos teriam sido os primeiros europeus a aportar nos atuais Estados Unidos tem-se revelado difícil de corroborar, dada a inexistência de vestígios arqueológicos.

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A premência em manter tal convicção acarretou uma série de repercussões. Leif Erikson, outrora uma figura mítica, viu-se transmutado num vulto histórico factual — o descobridor da América — e diversos monumentos em sua memória foram levantados por iniciativa americana na Islândia (Reiquiavique e Eiríksstaðir), na Gronelândia (Qassiarsuk) e nos Estados Unidos (Boston, Chicago, Duluth, Milwaukee, St. Paul e Seattle). Em Filadélfia, subsiste uma estátua imponente de Thorfinn Karlsefni, embora, à data desta escrita (2019), tenha sido lançada ao rio, presumivelmente por partidários de Colombo em sinal de protesto.

Uma consequência adicional da tese da 'descoberta' nórdica da América reside na exegese tendenciosa de achados ambíguos: o Penique do Maine, a Torre de Newport e os mounds (montículos) do Ohio e do baixo Mississípi, embora sendo objetos genuínos, são convertidos em 'evidências' de um povoamento nórdico. No que concerne aos montículos, a noção de que resultam do engenho viking visa despojar os nativos americanos do seu património, repudiando o vínculo entre estas populações e os monumentos erigidos pelos seus ancestrais.

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Press, G. C. /. O. U. (2026, maio 06). Os Nórdicos na América: Factos e Ficção. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1880/os-nordicos-na-america-factos-e-ficcao/

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Press, Gordon Campbell / Oxford University. "Os Nórdicos na América: Factos e Ficção." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, maio 06, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1880/os-nordicos-na-america-factos-e-ficcao/.

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Press, Gordon Campbell / Oxford University. "Os Nórdicos na América: Factos e Ficção." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 06 mai 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1880/os-nordicos-na-america-factos-e-ficcao/.

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