Entrevista: 'Living in Silverado: Secret Jews in the Silver Mining Towns of Colonial Mexico'

James Blake Wiener
por , traduzido por Filipa Oliveira
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O Professor Emérito David Gitlitz figura como um dos mais proeminentes especialistas mundiais nas interações entre judeus e católicos na Península Ibérica e nas Américas. Se, enquanto estudante em Oberlin e Harvard, se sentiu inicialmente atraído pela literatura do Século de Ouro espanhol, o interesse de Gitlitz viria mais tarde a recair sobre a história e a cultura do judaísmo em Espanha e na América Latina. Desde então, tem escrito extensivamente sobre os judeus ibéricos, os conversos e a temática da peregrinação. A sua obra Secrecy and Deceit: The Religion of the Crypto-Jews — fruto de prolongadas estadias nos arquivos da Inquisição em Madrid e na Cidade do México — foi galardoada em 1996 pelo Jewish Book Council com o National Jewish Book Award em Estudos Sefarditas. A mais recente publicação de Gitlitz, Living in Silverado: Secret Jews in the Silver Mining towns of Colonial Mexico (tradução de edição brasileira: Viver em Silverado: Judeus Secretos nas Cidades Mineiras de Prata do México Colonial), reconstitui as vidas e fortunas singulares de migrantes judeus que trabalharam nas cidades mineiras de prata do México colonial durante o século XVI. A partir da sua residência numa aldeia no estado mexicano de Oaxaca, David Gitlitz conversou com James Blake Wiener sobre estes judeus que encontraram aventura e sortes diversas na Nova Espanha.

Abandoned Hacienda, Taxco
Taxco, Fazenda Abandonada Octavio Alonso Maya Castro (CC BY)

JBW: O que despertou o seu interesse pelos judeus secretos do México?

DG: Muitos estudiosos, incluindo eu, têm-se fascinado pelos conversos espanhóis e Cristãos-Novos ou convertidos portugueses que chegaram às Américas no século XVI. De certa forma, estas pessoas eram duplamente imigrantes. Antes de 1492, podiam viver abertamente na Península Ibérica como judeus. Depois, aqueles que optaram por não aceitar a expulsão viram-se na condição de imigrantes, enquanto cristãos nominais, num mundo ibérico integralmente católico. Para poderem sobreviver tiveram de aprender e mimetizar os seus costumes.

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O Novo Mundo oferecia aos imigrantes oportunidades económicas extraordinárias, mas a troco de um enorme risco e do custo de continuarem a ter de manter a sua religião em segredo.

Mais tarde, muitas vezes devido à pressão da Inquisição, alguns conversos decidiram deixar Espanha e Portugal. Aqueles para quem o sentido de identidade judaica era proeminente imigraram frequentemente para refúgios seguros na Europa, onde ainda podiam praticar o judaísmo de forma mais ou menos aberta. Alguns foram para as Américas, apesar de estas ainda serem dominadas pela Igreja Católica. O Novo Mundo era exótico e oferecia aos imigrantes oportunidades económicas extraordinárias, mas com grande risco e ao custo de terem de continuar a manter as suas crenças e práticas religiosas rigorosamente em segredo.

JBW: Que tipo de judaísmo é que estes imigrantes de Portugal e Espanha trouxeram consigo para o México colonial?

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DG: Alguns conversos que ainda se identificavam como judeus tinham recebido instrução no judaísmo por parte de pais ou avós que tinham crescido num mundo ibérico anterior a 1492, ainda rico em Judaica: sinagogas, mikvaot, livros, entre outros elementos. Outros tinham aprendido apenas os fragmentos da tradição judaica que podiam ser transmitidos oralmente. Alguns raros imigrantes chegaram ao México após uma estada numa cidade europeia como Ferrara, em Itália, que ainda possuía uma comunidade judaica aberta e funcional. E existiam ainda aqueles conversos que desejavam genuinamente ser católicos. Por outras palavras, traziam consigo conhecimentos diversos, práticas distintas e graus de empenho variáveis — tudo isto moldado e estruturado por uma ou duas gerações de imersão num meio católico.

JBW: Como é que mantiveram a identidade judaica?

DG: Das mais variadas formas e bastante complexas; mas, em resumo, convivendo com os seus correligionários na Cidade do México partilhando oralmente os fragmentos de conhecimento que tinham trazido consigo; bem como lendo material cristão que apresentava histórias da Bíblia Hebraica.

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Torah
Torá Horsch, Willy (CC BY-SA)

JBW: Está a dizer que, apesar de a Inquisição mexicana se ter destacado na descoberta de «judaizantes», a comunidade de conversos na Cidade do México se tornou tão grande que os membros podiam reunir-se para o Sabbath e encontrar cônjuges dentro da comunidade?

DG: Exatamente. Nas últimas décadas do século XVI, pode ter havido cerca de 200 conversos judaizantes ativos na Cidade do México. Eles constituíam uma massa crítica — um grande minyan informal ou grupo de oração público — cuja força centrípeta ajudou a manter alguma coesão em questões de crença, prática e costumes comunitários. Embora fossem muito diferentes como indivíduos, os padrões das suas histórias de vida tendem a ser bastante semelhantes. Exceto no caso dos mineiros.

JBW: Fale-nos desses conversos que migraram para centros mineiros como Taxco, Pachuca e Tlalpujahua. Eles foram motivados pela aventura, pela oportunidade ou pelo medo da Inquisição?

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DG: Não foi por temerem a Inquisição mais do que todos os outros. Foi porque viviam de forma diferente, vidas que tinham resultados a longo prazo diferentes. Os homens que se dirigiram para as montanhas e para os acampamentos mineiros da fronteira tendiam a ser extremamente ambiciosos; sonhadores, arriscados, apostadores; homens que não se deixavam facilmente dobrar pela pressão da comunidade; pessoas para quem o fascínio da prata era uma droga. Nem todos eram mineiros com picareta e pá; alguns eram refinadores, fornecedores de equipamento e financiadores. Todos eles eram intervenientes na indústria que sustentava a prosperidade do México colonial.

JBW: Em que medida as suas vidas diferiam das dos habitantes da capital?

Ao contrário dos citadinos, quase nenhum dos mineiros conversos judaizantes transmitiu o seu sentido de identidade judaica aos filhos.

DG: Por um lado, o judaísmo não costumava ser a variável mais importante nas suas vidas. Muitos apenas esporadicamenteobservavam o Sabbath e as festas. Não eram escrupulosos quanto ao que comiam. Trabalhavam quase exclusivamente com cristãos, o que influenciava as suas redes de amigos e associados. Muitas vezes, eram marginais em relação ao minyan informal da capital. Alguns deles, como Tomás de Fonseca em Tlalpujahua, mantinham a sua judaicidade sendo leitores vorazes. Outros, se tivessem um companheiro converso na viagem de ida e volta à sua aldeia, discutiam temas judaicos pelo caminho. Na aldeia, podiam receber um visitante ocasional e, quando estavam na capital, procuravam os seus conhecidos conversos, ficando frequentemente hospedados com eles. Quanto à sua vida sexual, a maioria teve relações amorosas pelo caminho e a maioria teve vários filhos com mulheres indígenas ou mestiças. Quando se casavam, muitas vezes não era com mulheres conversas. Talvez a descoberta mais interessante do meu estudo tenha sido que, ao contrário dos habitantes da cidade, quase nenhum dos conversos judaizantes deste grupo transmitiu o seu sentido de identidade judaica aos filhos.

JBW: Por que escolheu explorar as histórias pessoais destes mineiros conversos em Living in Silverado?

DG: As pessoas tendem a pensar nos conversos em termos de generalizações. Mas estas pessoas eram, antes de mais nada, indivíduos — personagens pitorescas e peculiares, solitários, excêntricos, heróis, malandros e, todos eles, à sua maneira, judeus. Qualquer uma das suas biografias pede para ser transformada num filme.

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Veja o primeiro a chegar, Gabriel de Castellanos, que veio para o México em 1534. Para conseguir a permissão do Conselho das Índias para embarcar, teve de jurar que ele e a mulher que o acompanhava eram casados, o que era verdade, embora não um com o outro. Também tiveram de jurar que não tinham avós judeus ou muçulmanos: possivelmente verdade para ela, uma mentira descarada para ele. Ele era viúvo, e as três crianças que o acompanhavam eram dele, não dela; a criança que ela ainda carregava era apenas talvez dele. Gabriel sabia latim, espanhol, português e um pouco de hebraico. Na Cidade do México, abriu uma escola primária. Assim que ganhou algum dinheiro, abandonou a «mulher» e os filhos e comprou uma mina de prata e um escravo negro para o ajudar a explorá-la. Quandotal fracassou, alistou-se para combater os índios Chichimecas.

Outro, o pouco praticante Antonio Díaz de Cáceres, um antigo capitão de mar e traficante de escravos, comprou uma hacienda mineira em Taxco. Quando os inquisidores bateram à sua porta, ele fugiu pelas traseiras, galopou até Acapulco, comprou metade de um navio e navegou para Manila e depois para a China. Também houve um naufrágio na sua história. Por fim, foi trazido de volta acorrentado da Índia para o México!

Hacienda Chorrillo, Taxco
Hacienda del Chorrillo, Taxco Alejandro Linares Garcia (CC BY-SA)

Ou considere o fervorosamente praticante Manuel de Lucena, proprietário de uma loja de artigos diversos em Pachuca, que comprava e vendia prata em bruto. Nos seus aposentos ao lado, onde por vezes recebia judaizantes visitantes, entretinha a sua jovem mulher tocando o clavicórdio. A sua loja vendia produtos secos, material de mineração, cordas de guitarra e despertadores.

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Estes são apenas três exemplos de muitas figuras interessantes.

JBW: Que lições podemos tirar das experiências dos conversos nas cidades mineiras coloniais mexicanas?

DG: Deixando de lado o facto de que, graças à Inquisição, quase todos tiveram um fim infeliz, se por «nós» nos referimos ao povo judeu, a lição pode ser que a probabilidade de transmissão da identidade judaica através das gerações está relacionada com a participação habitual em atividades de grupo que fomentam essa identificação; por outras palavras, ao ser membro, de alguma forma, daquele grande minyan informal. Se o 'nós' se referir às pessoas em geral, a lição de Living in Silverado poderá ser a de que são infinitas as formas de viver vidas interessantes, aventureiras e plenas.

O Doutor David M. Gitlitz é escritor, antigo reitor e, atualmente, Professor Emérito de Estudos Hispânicos na Universidade de Rhode Island. É licenciado pelo Oberlin College e doutorado pela Universidade de Harvard. Divide o seu tempo pela investigação em três grandes áreas: o Século de Ouro da literatura espanhola, a história judaico-espanhola e as culturas das peregrinações. É autor ou coautor de diversos livros sobre literatura hispânica, história sefardita e peregrinação, incluindo Secrecy And Deceit: The Religion of the Crypto-Jews, A Drizzle Of Honey: The Lives and Recipes of Spain’s Secret Jews (An Inquisition Cook-book) e Pilgrimage, from the Ganges to Graceland. O seu último título é Living in Silverado: Secret Jews in the Mining Towns of Colonial Mexico, que lança luz sobre a presença dos convertidos nas minas coloniais mexicanas e foi finalista do Prémio Nacional do Livro Judaico em 2019. Gitlitz está atualmente reformado e vive em Oaxaca, no México.

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Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Tradutora e autora, o gosto pelas letras é infindável – da sua concepção ao jogo de palavras, da sonoridade às inumeráveis possibilidades de expressão.

Sobre o Autor

James Blake Wiener
James Blake Wiener tem um interesse particular em intercâmbios interculturais e em história mundial. Ele é cofundador da World History Encyclopedia e anteriormente era o Diretor de Comunicações.

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Wiener, J. B. (2026, abril 02). Entrevista: 'Living in Silverado: Secret Jews in the Silver Mining Towns of Colonial Mexico'. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1821/entrevista-living-in-silverado-secret-jews-in-the/

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Wiener, James Blake. "Entrevista: 'Living in Silverado: Secret Jews in the Silver Mining Towns of Colonial Mexico'." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, abril 02, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1821/entrevista-living-in-silverado-secret-jews-in-the/.

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Wiener, James Blake. "Entrevista: 'Living in Silverado: Secret Jews in the Silver Mining Towns of Colonial Mexico'." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 02 abr 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1821/entrevista-living-in-silverado-secret-jews-in-the/.

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