A Guerra das Rosas: Consequências e Impactos

Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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A Guerra das Rosas (1455-1487) foi um conflito dinástico no qual a nobreza e os monarcas da Inglaterra lutaram intermitentemente pela supremacia durante um período de quatro décadas. Além das consequências óbvias das várias trocas de tronos entre os reis da Casa de Lancaster (Lencastre) e da Casa de York (Iorque), que culminou na fundação da Casa de Tudor; as guerras mataram metade dos senhores das 60 famílias nobres da Inglaterra, estabeleceram um ambiente político muito mais violento e viram primeiro um aumento do poder da nobreza e depois uma reviravolta a favor da Coroa. Por fim, as guerras inspiraram historiadores e escritores para sempre, fossem eles propagandistas Tudor, William Shakespeare ou os criadores de programas de televisão como A Guerra dos Tronos (Game of Thrones).

The Tudor Rose
A Rosa Tudor Smabs Sputzer (CC BY)

Um Conflito Dinástico

A Guerra das Rosas foi uma série de conflitos dinásticos entre a monarquia e a nobreza da Inglaterra na segunda metade do século XV. As "guerras" foram, na verdade, uma série de batalhas intermitentes, muitas vezes em pequena escala, execuções, assassinatos e conspirações fracassadas, à medida que a classe política da Inglaterra se dividia em dois grupos que se formaram em torno de dois ramos dos descendentes de Eduardo III da Inglaterra (reinou 1327-1377): os York e os Lancaster. Embora houvesse várias razões para as guerras terem continuado por mais de quatro décadas, as principais causas para o início do conflito foram o governo incompetente e os episódios de insanidade do rei Henrique VI de Inglaterra (reinou 1422-61 e 1470-71); da ambição de Ricardo, duque de York (1411-1460); seguida pela do seu filho Eduardo (nascido em 1442), que se tornou Eduardo IV da Inglaterra (1461-70 e 1471-83); e depois do irmão de Eduardo, Ricardo, que reinou como Ricardo III da Inglaterra (reinou 1483-85). Houve outras razões pelas quais as guerras continuaram, como a rivalidade incessante pela riqueza entre a nobreza, desacordos sobre as relações com a França, a economia empobrecida e, finalmente, a ambição de Henrique Tudor (nascido em 1457), que finalmente venceu a guerra pelos Lancaster e tornou-se Henrique VII da Inglaterra (reinou 1485-1509).

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As várias consequências das Guerras das Rosas podem ser resumidas da seguinte forma:

  • um aumento do poder dos nobres em relação à Coroa durante as guerras;
  • um aumento no uso da violência e do assassinato como ferramentas políticas;
  • a destruição de metade da nobreza da Inglaterra;
  • a reafirmação da superioridade da Coroa sobre a nobreza pelo vencedor da guerra, Henrique VII;
  • a criação da Casa de Tudor por Henrique VII;
  • uma inspiração contínua para escritores posteriores, como William Shakespeare.

Um Reino Fragmentado

A instabilidade causada pelas Guerras das Rosas permitiu que os nobres tirassem proveito e promovessem a sua própria posição às custas dos outros, isto porque o século XV testemunhou o fenómeno do "feudalismo bastardo", que envolveu a degradação parcial do feudalismo medieval. Os ricos proprietários de terras podiam possuir exércitos privados de servos, acumular riqueza e diminuir o poder da Coroa ao nível local. Os servos, muitas vezes, ostentavam um distintivo para se identificarem como seguidores de um determinado senhor local, estavam sujeitos às suas leis, e eram-lhe leais, invês de o serem ao rei. Os barões mais ricos tornaram-se assim o que alguns historiadores chamaram de "superpoderosos", pois eram capazes de assumir muitas das funções do governo real ao nível local e exercer influência indevida sobre o rei na corte. Alguns barões podiam até nutrir ambições de se tornarem reis, como foi o caso de Ricardo, duque de York. Um barão assim, com um pouco de sangue real através de um parente distante, poderia ser capaz de comandar a lealdade de outros barões que estavam ansiosos por ver uma mudança de regime para obterem mais riqueza e poder para si próprios, especialmente se estivessem em desgraça com o monarca no trono. As Guerras das Rosas perpetuaram esta luta pelo poder, mostrando que quem quer que fosse mesmo que não fosse descendente direto do rei poderia de fato assumir o trono, como foi o caso de Eduardo IV, Ricardo III e Henrique VII.

Wars of the Roses in England, 1455 - 1487
A Guerra das Rosas na Inglaterra, 1455-1487 Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

A Política da Violência

As Guerras das Rosas revelaram uma tendência cada vez maior para recorrer à violência para atingir objetivos políticos. A estratégia de assassinar um rei e até mesmo os seus jovens herdeiros foi iniciada por Henrique Bolingbroke em 1399, quando se tornou Henrique IV de Inglaterra (reinou 1399-1413). O primeiro rei Lancaster usurpou o trono e assassinou o predecessor, Ricardo II da Inglaterra (reinou 1377-1399). Foi possível convencer as pessoas de que o direito divino dos reis poderia ser interpretado não apenas como qualquer rei deveria ser descendente de um rei, mas também que quem tivesse competência para governar e poder militar para mantê-lo era igualmente escolhido por Deus para ocupar o trono da Inglaterra. Na prática, a nova política era "o poder é o direito" e eliminar os rivais era uma manobra aceitável, até mesmo necessária. Uma vez que cruzada a linha, não havia como voltar atrás e as execuções, mesmo de pessoas da realeza, tornaram-se uma característica padrão durante a dinastia governante seguinte, os Tudors.

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As guerras não envolveram táticas de terra arrasada, nenhum exército permaneceu por muito tempo num lugar e muitas áreas do país não foram afetadas.

Nobres e Batalhas

Os historiadores Tudor talvez tenham exagerado a destruição e a perturbação causadas pelas Guerras das Rosas, a fim de mostrar que Henrique Tudor e os seus sucessores foram responsáveis por estabilizar o Estado que estava à deriva, mas certamente houve consequências terríveis para alguns. É verdade que as guerras foram travadas em grande parte entre nobres e os seus exércitos privados, e também foram intermitentes, com menos de 24 meses de combates reais durante todo o período. No entanto, a população local às vezes era arrastada para o conflito, especialmente se os nobres formavam milícias com os trabalhadores das suas propriedades.

Muitas batalhas foram pouco mais do que escaramuças com menos de 100 baixas, mas houve alguns grandes combates em campo aberto, notadamente na sangrenta Batalha de Towton, em março de 1461, a maior e mais longa batalha da história inglesa, na qual forma mortos cerca de 28.000 homens (talvez metade dos envolvidos). No entanto, é difícil de determinar com exactidão o número de vítimas em muitas batalhas, pois não havia registros oficiais, nem listas de convocação ou pagamentos. Houve também campanhas mais amplas, como em Northumberland e no País de Gales na década de 1460, quando a passagem das tropas, sem dúvida, afetou os agricultores locais e a economia, pois os soldados saqueavam impunemente. No entanto, as guerras não envolveram táticas de terra arrasada, nenhum exército permaneceu por muito tempo num lugar e muitas das áreas do país não foram afetadas.

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Edward IV of England & Lancastrian Fugitives at Tewkesbury Abbey
Eduardo IV da Inglaterra e os Fugitivos de Lancaster na Abadia de Tewkesbury Jappalang (Public Domain)

Ao longo das quatro décadas das Guerras das Rosas, a nobreza da Inglaterra foi severamente reduzida por mortes em batalhas, conspirações de assassinato e execuções. Antes do início da guerra, havia cerca de 60 famílias nobres, mas no final, o número caíu para cerca de 30. Além do fato de que muitas escaramuças envolviam exclusivamente nobres, outra razão para o alto número de mortes foi que a estratégia tradicional de capturar prisioneiros nobres e pedir resgate pela sua libertação já não funcionava pois ninguém estava disposto a pagar. De qualquer forma, as guerras eram de natureza dinástica e, portanto, a intenção não era apenas conquistar a coroa, mas destruir completamente a oposição durante o processo e impedir que surgissem conflitos futuros. Por este motivo, não houve tratados ou compromissos durante as guerras: era vencer tudo ou perder tudo.

Henrique VII adquiriu notavelmente as propriedades das famílias partidÁrias da casa de york de Warwick, Clarence e Gloucester.

Enquanto as tropas comuns geralmente podiam regressar às suas vidas quotidianas, os comandantes e cavaleiros do lado perdedor eram frequentemente executados, como testemunham os túmulos com efígies vestidas com armaduras que podem ser encontrados nos cantos escuros de muitas igrejas rurais em toda a Inglaterra. Consequentemente, ao longo de quatro décadas, a nobreza perdeu um rei no campo de batalha e dois por assassinato, foram mortos oito duques e uma série de condes, barões e viscondes perderam a vida. Também não se deve esquecer as mulheres; à medida que os maridos morriam, também morriam as oportunidades das suas mulheres e filhas manterem o estilo de vida anterior, propriedades, perspectivas de casamento ou mesmo liberdade, já que muitas nobres empobreceram ou foram banidas para os conventos. Assim, nos estágios finais das guerras muitos nobres perceberam os riscos envolvidos e tornaram-se muito mais cautelosos ao se envolverem nas disputas dinásticas.

O Ressurgimento da Coroa

No final das guerras, Henrique VII beneficiou da existência de uma nobreza muito reduzida, pois a Coroa enriqueceu com as terras confiscadas ou adquiridas de famílias que pereceram. O rei adquiriu notavelmente as propriedades das famílias partidárias da causa York de Warwick, Clarence e Gloucester. Além disso, Henrique garantiu que apenas a Coroa tivesse autoridade para manter exércitos, limitou o número de servos que um nobre podia empregar e garantiu pessoalmente que as famílias nobres não formassem alianças poderosas por via de casamentos. Ao mesmo tempo, a Coroa enriqueceu cobrando taxas de lealdade e multas aos nobres considerados suspeitos pelas suas inclinações políticas.

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Henry VII of England, National Portrait Gallery
Henrique VII de Inglaterra, National Portrait Gallery National Portrait Gallery (Public Domain)

Apesar do poder da nobreza ter aumentado antes e durante as Guerras das Rosas, no final, a vantagem voltou a pender fortemente a favor do monarca. Henrique beneficiaria ainda mais da estabilidade do reino e do consequente ressurgimento do comércio com a Europa continental. Por fim, talvez seja importante observar que, apesar das mudanças de quem detinha quais títulos e quais propriedades, a propriedade geral da riqueza não mudou no século XV. Sim, houve uma reorganização indigna dos cargos entre a elite, mas ainda assim, o rei, a nobreza e o clero juntos — apenas 3% da população total — continuaram a possuir 95% da riqueza do país.

A Fundação dos Tudors

Henrique VII, descendente de João de Gante, filho de Eduardo III, reuniu as duas casas rivais ao casar-se com Isabel de York, filha de Eduardo IV, em 1486, criando assim a Casa Tudor, e o brasão desta nova dinastia: a Rosa Tudor, que combinava as rosas dos Lancaster e dos York. Henrique ainda tinha de lidar com alguns conspiradores, enfrentando notavelmente um renascimento dos York centrado em torno do pretendente Lambert Simnel, mas foi reprimido na Batalha de Stoke Field, em junho de 1487. Contudo foi o último ato das Guerras das Rosas, mesmo que tenha havido alguns renascimentos menores por parte dos partidários de York ao longo da metade do século seguinte. Henrique conseguiu unir o reino; a marca do seu sucesso foi que seu filho, Henrique VIII da Inglaterra (reinou 1509-1547), tornou-se rei sem qualquer disputa e que os Tudors foram os três monarcas seguintes após ele, num período da história inglesa considerado como a Idade de Ouro. A dinastia Tudor governaria a Inglaterra ininterruptamente até 1603 e testemunharia eventos importantes como a separação da Igreja da Inglaterra de Roma na década de 1530 e a derrota da Armada Espanhola em 1588.

Legado Cultural

As Guerras das Rosas podem não ter parecido uma série coerente de conflitos para quem as viveu, mas certamente capturaram a imaginação de escritores e historiadores posteriores como um período fascinante, embora brutal, da história inglesa. Na verdade, o próprio nome do conflito foi cunhado posteriormente pela primeira vez pelo romancista Sir Walter Scott (1771-1832), ao referir-se aos dois brasões das principais famílias envolvidas (nenhuma das quais eram realmente as favoritas na época). Este rótulo romântico, mas simplista, esconde o facto de que a divisão era muito mais complexa do que apenas a disputa entre duas famílias, uma vez que cada uma delas conquistou aliados entre outras famílias nobres da Inglaterra e algumas chegaram mesmo a mudar de lealdade ao longo do conflito. Toda a questão é tão complexa e os episódios principais são tão desconexos que os historiadores ainda hoje continuam a debater as suas origens precisas: o início, o fim e até mesmo a sua própria existência como um conjunto reconhecível e coerente de eventos históricos.

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Um dos escritores que demonstrou maior interesse pelo período das Guerras das Rosas, e certamente o mais influente na imaginação popular, foi William Shakespeare (1564-1616), que concentrou as suas peças teatrais nos reis desta altura, e aparecem episódios das Guerras das Rosas em obras como Henrique VI ( partes 1-3) e Ricardo III, proporcionando alguns dos personagens mais memoráveis do dramaturgo e falas frequentemente citadas. Ainda hoje, as Guerras das Rosas e a ideia de duas famílias competindo impiedosamente pelo poder continuam a inspirar os escritores, talvez mais notavelmente George R. R. Martin, cujos romances, por sua vez, inspiraram a série televisiva A Guerra dos Tronos.

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Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Jornalista brasileiro que vive no Rio de Janeiro. Seus principais interesses são a República Romana e os povos da Mesoamérica, entre outros temas.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
Mark é escritor, pesquisador, historiador e editor. Tem grande interesse por arte, arquitetura e por descobrir as ideias compartilhadas por todas as civilizações. Possui mestrado em Filosofia Política e é Diretor Editorial da WHE.

Cite Este Artigo

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Cartwright, M. (2025, novembro 28). A Guerra das Rosas: Consequências e Impactos. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1504/a-guerra-das-rosas-consequencias-e-impactos/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "A Guerra das Rosas: Consequências e Impactos." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, novembro 28, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1504/a-guerra-das-rosas-consequencias-e-impactos/.

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Cartwright, Mark. "A Guerra das Rosas: Consequências e Impactos." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 28 nov 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1504/a-guerra-das-rosas-consequencias-e-impactos/.

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