Plano Schlieffen

Plano da Alemanha para Invadir a França na Primeira Guerra Mundial
Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Map of the Schlieffen Plan v. the 1914 Reality (by Simeon Netchev, CC BY-NC-ND)
O Plano Schlieffen Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Elaborado pelo Chefe do Estado-Maior Alemão, General Alfred von Schlieffen (1833-1913), em 1905, o Plano Schlieffen foi um plano secreto de ataque das forças armadas alemãs contra a França, caso os dois países entrassem em guerra. O objetivo era derrotar celeremente a França no Ocidente para evitar ter que enfrentar simultaneamente a Rússia a Leste. O plano exigia que as forças alemãs se deslocassem rapidamente através dos Países Baixos neutros (Países Baixos, Bélgica e Luxemburgo), evitando as principais fortificações francesas na fronteira franco-alemã. A estratégia era atacar as linhas francesas pela retaguarda, capturar Paris e obter uma rendição em seis semanas.

Em termos práticos, em 1914 (quando a Primeira Guerra Mundial começou), o Plano Schlieffen encontrava-se enfraquecido pelo novo chefe do estado-maior, Helmuth Graf von Moltke (1848-1916) que contava com menos tropas disponíveis do que o planeado, lidava com problemas logísticos e a resistência inesperadamente forte do inimigo, o que conduziu ao fracasso do mesmo. O avanço alemão foi primeiro interrompido e depois repelido no "Milagre do Marne" em setembro de 1914, uma situação que levou, em última análise, ao estabelecimento da Frente Ocidental como uma linha relativamente estática de trincheiras defensivas opostas.

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O Plano

No início do século XX, reinava por toda a Europa uma descofiança geral das intenções por parte de cada país. No sistema de Alianças pré-Primeira Guerra Mundial, emergiram dois blocos: a Tríplice Entente da Grã-Bretanha, França e Rússia contra a Tríplice Aliança da Alemanha, Áustria-Hungria e Itália. Caso a guerra irrompesse entre estes dois blocos, os estrategas militares seriam encarregados de formular planos de ataque adequados. Generais russos formularam planos sobre como melhor atacar a Áustria-Hungria, enquanto generais franceses elaboraram planos de ataque de campanha militar contra a Alemanha. O plano mais famoso da história é o plano de ataque da Alemanha à França: o Plano Schlieffen.

Alfred von Schlieffen
Alfred von Schlieffen E. Bieber (Public Domain)

O General Alfred von Schlieffen, Chefe do Estado-Maior Alemão, idealizou um plano sobre como melhor enfrentar o exército francês na fronteira franco-alemã. Concluído em 1905, Schlieffen reformou-se em dezembro desse ano, enfatizando que era improvável que o seu plano fosse bem-sucedido na realidade, já que a Alemanha carecia da mão de obra necessária. O plano envolvia ainda outras suposições. A primeira era que a Alemanha provavelmente se encontraria em guerra com a França e a Rússia ao mesmo tempo. A Grã-Bretanha seria provavelmente aliada da França e da Rússia. Esta suposição foi baseada nas obrigações do tratado entre estes estados na época e foi o que realmente aconteceu. A segunda suposição era o real espaço geográfico que necessitava de ser coberto, e tanto a natureza antiquada do exército russo quanto a sua estrutura de comando significavam que só iria ser capaz de se mobilizar de forma relativamente lenta. Consequentemente, a Frente Oriental da Alemanha exigiria menos tropas para defendê-la nos estágios iniciais de uma guerra pan-europeia. Estimava-se que a Alemanha teria cerca de seis semanas para lidar com a França antes que o exército russo estivesse totalmente mobilizado. Desta forma, inicialmente, a maior parte do exército alemão poderia ser destacada na Frente Ocidental contra a França. Se a Alemanha conseguisse um golpe rápido e decisivo no Ocidente, todo o seu exército poderia ser redirecionado para a Frente Oriental.

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Moltke reduziu a ala direita do ataque num terço, o equivalente a cerca de 1,5 milhão de homens.

A chave do Plano Schlieffen era que as tropas alemãs se movessem através os países neutros dos Países Baixos, do Luxemburgo e da Bélgica, contornando assim as fortificações defensivas da França na fronteira franco-alemã. Os generais alemães estavam convencidos de que os seus camaradas franceses, se tivessem total liberdade de movimento, mobilizariam o exército francês para atacar e recuperar a Alsácia-Lorena. Os generais alemães atrairiam tal ataque lançando um avanço de engodo naquela região, mas retirando-se de imediato. Esta manobra distrairia os franceses enquanto o verdadeiro ataque alemão, composto por 53 divisões, avançaria rapidamente pelos Países Baixos e atacaria o território francês num amplo arco de Rouen a Paris, depois cruzaria os rios Marne e Sena para atacar o exército francês por trás nas áreas de Verdun, Nancy, Epinal e Belfort. Parte deste ambicioso plano era capturar Paris, o que, esperava-se, provocaria a queda do governo francês e a capitulação das forças armadas do país. Assim que os franceses fossem derrotados, as tropas alemãs seriam transportadas por ferrovia para a Frente Oriental para enfrentar o exército da Rússia.

A Realidade

Em 1914, Moltke efectou várias alterações que "certamente enfraqueceram" o Plano Schlieffen (Bruce, pág. 342), pois estava relutante em marchar pelos Países Baixos, e assim a frente de ataque foi estreitada, já que a parte da força invasora passaria pelo Luxemburgo e o grosso pela Bélgica (entre Antuérpia e Liège). Esta decisão atrassou o avanço e dificultou a logística, pois as fronteiras foram atacados por sete exércitos alemães. Schlieffen tinha cuidadosamente calculado que seria necessária uma frente mais ampla para mover efetivamente a mão de obra suficiente para a França na velocidade exigida. Mais significativamente, Moltke reduziu a ala direita do ataque num terço, o equivalente a cerca de 1,5 milhão de homens. Schlieffen tinha sido muito específico de que, para o plano funcionar, a ala direita tinha que ser imensamente forte, já que estava a efectuar o arco mais amplo da frente. Mas Moltke temia perdas territoriais precoces para os franceses na região fronteiriça da Alsácia-Lorena e na Prússia Oriental, caso a Rússia se mobilizasse mais rápido do que o esperado no Leste. Ambas as eventualidades ocorreram. Os 1,5 milhão de soldados retirados do ataque principal de Schlieffen foram enviados para estas duas frentes alternativas. As tropas também foram desviadas do ataque principal de Schlieffen para lidar com as fortalezas mais problemáticas que a invasão encontrou, notavelmente as de Antuérpia. A cautela de Moltke, e o fato de a Rússia se ter mobilizado relativamente rápido, chegando ao território alemão em apenas 15 dias, provariam ser decisivos para o fracasso do Plano Schlieffen.

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Kaiser's Order for Mobilisation in WWI
Ordem de Mobilização do Kaiser na Primeira Guerra Mundial Unknown Photographer (CC BY-NC-SA)

É significativo, talvez, que o próprio Moltke não acreditasse que o Plano Schlieffen pudesse realmente obter uma rápida vitória; tinha dito certa vez ao Kaiser que uma guerra que se aproximava na Europa "não seria resolvida por uma batalha decisiva, mas por uma longa e cansativa luta com um país que não será superado até que toda a sua força nacional seja dobrada" (Strachan, pág. 134). Moltke estava absolutamente certo.

O Plano Schlieffen começou bem e garantiu à Alemanha uma fatia considerável da França.

O ataque alemão no terreno foi precedido por uma onda de atividade diplomática. Foi solicitada permissão para que as forças alemãs passassem pela Bélgica a 2 de agosto; a Bélgica recusou. No mesmo dia, as tropas alemãs cruzaram o Luxemburgo. A Grã-Bretanha esperava permanecer neutra numa guerra continental, mas foi obrigada a defender a neutralidade belga através de um tratado que ambos estados tinham assinado anteriormente. Em todo caso, a Grã-Bretanha não podia ficar parada e ver a França a ser esmagada e uma nova Europa formada totalmente dominada pela Alemanha, a sua maior rival económica e militar na Europa. A Grã-Bretanha informou o governo alemão que uma mobilização através da Bélgica resultaria numa declaração de guerra da Grã-Bretanha à Alemanha. O envolvimento inesperado da Grã-Bretanha (do ponto de vista alemão) significou que agora a guerra não poderia ser curta, já que, mesmo que a França sofresse graves derrotas militares, seria muito improvável que se rendesse, tendo a Grã-Bretanha como aliada. Mesmo assim, a 3 de agosto, as tropas alemãs marcharam pela Bélgica, e a Alemanha declarou formalmente guerra à França (e vice-versa), e a 4 de agosto, a Grã-Bretanha declarou guerra à Alemanha. Enquanto isto, a Rússia e a Áustria-Hungria declararam guerra uma à outra, pois ambas queriam controlar os Bálcãs. A Primeira Guerra Mundial havia começado, e outras nações logo se juntariam, como o Japão e, eventualmente, os Estados Unidos.

O Plano Schlieffen, embora tenha começado bem e garantido à Alemanha uma fatia considerável da França, falhou em última análise no seu objetivo de alcançar uma vitória rápida na Frente Ocidental. As forças alemãs lideradas pelo General Alexander Kluck (1846-1934) passaram por Bruxelas com facilidade suficiente, mas foram detidas por uma inesperada resistência belga no anel de 12 fortes de Liège. Os estrategas alemães estimaram que, com a força de ataque armado com canhões de artilharia Krupp 'Big Bertha' de 42 cm (16,8 polegadas) maciços, seriam necessários apenas dois dias para destruir as defesas de Liège; na verdade, demorou dez dias. Graças à superioridade numérica e de artilharia, as forças alemãs derrotaram a Força Expedicionária Britânica (BEF) em Mons e em Le Cateau, mas estas vitórias foram custosas em termos de tempo, material e baixas. Então, Kluck improvisou no Plano Schlieffen e, em vez de cercar Paris, decidiu perseguir o inimigo em retirada. Perseguindo o Quinto Exército Francês, Kluck expôs o seu flanco direito à guarnição de Paris, um movimento revelado aos Aliados por reconhecimento aéreo. Movendo-se para enfrentar este novo ataque no flanco, Kluck abriu uma lacuna incomumente grande entre o Primeiro e o Segundo Exércitos Alemães, uma lacuna que foi rapidamente explorada tanto pela BEF quanto pelos exércitos franceses liderados pelo General Joseph Joffre (1852-1931). As audaciosas flechas curvas do Plano Schlieffen original haviam se transformado numa confusão de ataques multidirecionais, contra-ataques, manobras de flanqueamento e cercos.

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French WWI Fortifications, Maubeuge
Fortificações Francesas na Primeira Guerra Mundial, Maubeuge Unknown Photographer (CC BY-NC-SA)

Uma Frente Permanente

À medida que o Plano Schlieffen desmoronava, falharam gravemente as comunicações de comando alemãs: as tropas alemãs estavam agora a sofrer de exaustão e suprimentos precários. As forças francesas e britânicas reuniram-se na Batalha do Marne, ou o que ficou conhecido como o "Milagre do Marne", em setembro. O sempre cauteloso Moltke decidiu retirar-se, e a frente foi repelida, estabelecendo-se finalmente ao longo do Rio Aisne. O Plano Schlieffen estava em frangalhos, exposto como uma estimativa excessivamente otimista das reações e capacidades do inimigo no terreno, bem como uma subestimação grosseira das exigências logísticas e de comunicação que um avanço tão grande impunha aos exércitos alemães envolvidos.

No inverno de 1914 e após uma série de manobras de flanqueamento fracassadas (conhecidas como "Corrida para o Mar") conduzidas por ambos os lados, a Frente Ocidental estendia-se de Ypres, perto da costa belga, até à fronteira suíça no sul. Ambos os lados foram obrigados a construir sistemas de trincheiras para proteger melhor as suas tropas do fogo inimigo; seguido de um longo impasse, pois ao longo dos próximos quatros anos nenhum dos lados progrediu contra o outro. Esta era exatamente a situação que os generais alemães temiam com a entrada da Rússia na guerra, e assim, apesar de todo o planeamento, encontravam-se a lutar em duas frentes maciças, uma situação que lhes custou a guerra, e isto, apesar de, após a Revolução Bolchevique em 1917, a Rússia se retirado da Primeira Guerra Mundial.

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Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Jornalista brasileiro que vive no Rio de Janeiro. Seus principais interesses são a República Romana e os povos da Mesoamérica, entre outros temas.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
Mark é escritor, pesquisador, historiador e editor. Tem grande interesse por arte, arquitetura e por descobrir as ideias compartilhadas por todas as civilizações. Possui mestrado em Filosofia Política e é Diretor Editorial da WHE.

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Cartwright, M. (2025, outubro 21). Plano Schlieffen: Plano da Alemanha para Invadir a França na Primeira Guerra Mundial. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-25203/plano-schlieffen/

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Cartwright, Mark. "Plano Schlieffen: Plano da Alemanha para Invadir a França na Primeira Guerra Mundial." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, outubro 21, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-25203/plano-schlieffen/.

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Cartwright, Mark. "Plano Schlieffen: Plano da Alemanha para Invadir a França na Primeira Guerra Mundial." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 21 out 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-25203/plano-schlieffen/.

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