Escândalo das Anáguas

Harrison W. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Peggy Eaton and the Petticoat Affair (by Unknown Artist, Public Domain)
Peggy Eaton e o Escândalo das Anáguas Unknown Artist (Public Domain)

O Escândalo das Anáguas, igualmente designado como o Caso Eaton ou o Caso Petticoat, constituiu num escândalo político que abalou os alicerces de Washington, D.C., entre 1829 e 1831, durante os anos inaugurais da presidência de Andrew Jackson. Tendo como epicentro os rumores de promiscuidade sexual de Peggy Eaton, mulher do Secretário da Guerra dos Estados Unidos, o episódio logrou cindir o gabinete de Jackson e reorganizar a cúpula do então emergente Partido Democrata.

Os Antecedentes

Pouco depois de conquistar a presidência na eleição de 1828, o General Andrew Jackson dedicou-se à constituição do seu gabinete. À exceção de Martin Van Buren — um proeminente político de Nova Iorque selecionado para Secretário de Estado — o conselho de ministros do presidente era composto por figuras de pouca nobilitadade e escolhidas mormente pela sua lealdade inequívoca a Jackson ou pelo seu desdém por Henry Clay, o principal rival político do presidente. A mais consequente destas nomeações viria a ser a de John Henry Eaton para Secretário da Guerra. Antigo senador pelo Tennessee, Eaton era um fiel devoto de Jackson de longa data, tendo-se tornado um dos seus raros amigos íntimos. O par conhecera-se na milícia do Tennessee durante a Guerra de 1812, tendo Eaton servido sob as ordens de Jackson na célebre Batalha de Nova Orleães (8 de janeiro de 1815). Em 1817, Eaton concluíra a primeira biografia de Jackson, na qual enaltecia a carreira do general e defendia algumas das suas ações mais polémicas. Escusado será dizer que Eaton era alguém em quem Jackson sentia poder confiar — e para Jackson, um estranho aos círculos de Washington que acreditava piamente que a capital federal estava eivada de corrupção, tal confiança era, deveras, uma mercadoria rara.

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Com a visão de Jackson de uma presidência forte a enfrentar ameaças de todos os quadrantes, torna-se percetível a razão pela qual ele tanto prezava a lealdade no seu conselho de ministros.

A conclusão do novo presidente de que Washington era corrupta não surgira do nada. Apesar de ter vencido o voto popular na eleição presidencial anterior, em 1824, Jackson perdera a disputa para John Quincy Adams, que lograra obter mais votos eleitorais quando a decisão final foi entregue à Câmara dos Representantes. Um Jackson amargurado atribuiu este desfecho ao estatuto de Adams como um elemento intrínseco ao sistema de Washington, uma noção que pareceu ser corroborada quando Adams nomeou Henry Clay como seu Secretário de Estado — Jackson e os seus seguidores acreditavam que Adams e Clay haviam selado um «acordo corrupto», mediante o qual Clay recebera o Departamento de Estado em troca do seu apoio a Adams. Quatro anos volvidos, Jackson concorreu novamente contra Adams numa eleição presidencial que se tornou vitriólica e pessoal. Os partidários de Adams chegaram ao extremo de caluniar o matrimónio de Jackson, alegando que a sua mulher, Rachel Donelson Jackson, não se divorciara legalmente do seu primeiro cônjuge quando o casal começara a coabitar como marido e mulher. Profundamente perturbada por estas acusações de bigamia, Rachel sucumbiu a um ataque cardíaco pouco depois da vitória do marido, em dezembro de 1828 — uma perda que Jackson imputou aos seus adversários políticos.

Para agravar a conjuntura, Jackson enfrentava igualmente a dissidência do seu próprio Vice-Presidente, John C. Calhoun. Enquanto Jackson era um fervoroso unionista que procurava expandir o poder da presidência, Calhoun era um dos principais defensores dos direitos dos estados, tendo começado recentemente a advogar o direito à anulação — isto é, a faculdade de um estado «anular» uma lei federal que considerasse injusta. Com a economia do Sul asfixiada pela impopular Pauta Aduaneira de 1828 — conhecida como a «Pauta das Abominações» — e com a questão premente da escravatura a tornar-se um problema regional cada vez mais acentuado, estados como a Carolina do Sul, terra natal de Calhoun, procuravam ripostar contra o governo federal através da anulação, um passo que muitos encaravam como o prelúdio da secessão.

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Andrew Jackson
Andrew Jackson Ralph Eleaser Whiteside Earl (Public Domain)

Finalmente, Jackson encontrou oposição na figura do Segundo Banco dos Estados Unidos, uma instituição em ascensão que poderia, porventura, rivalizar com o governo federal enquanto centro de poder. Com a visão de Jackson de uma presidência forte a enfrentar ameaças de todos os quadrantes — elementos do sistema de Washington «corruptos», defensores dos direitos dos estados e da anulação, e banqueiros poderosos — torna-se percetível a razão pela qual ele tanto prezava a lealdade no seu conselho de ministros. Mal sabia ele que os membros do seu gabinete veriam, em breve, a sua lealdade testada num escândalo que moldaria o desenvolvimento do emergente Partido Democrata. Tudo começaria com o Secretário da Guerra, John Henry Eaton — ou, mais especificamente, com a sua mulher.

Peggy Eaton

Era inegável que Margaret «Peggy» O'Neill era uma mulher de rara beleza. Um contemporâneo descreveu-a de uma forma que parecia invocar a imagem da própria Vénus:

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A sua silhueta, de estatura média, esguia e delicada, possuía proporções perfeitas… a sua pele… de um branco alvo, matizado de rubor… o seu cabelo escuro, de grande abundância, agrupava-se em caracóis em torno da sua fronte larga e expressiva. O seu nariz perfeito, de proporções quase helénicas, e a boca finamente esculpida, com um queixo firme e arredondado, completavam um perfil de contornos impecáveis.

(citado em Meacham, pág. 67)

Filha de um estalajadeiro, Peggy fora sempre alvo da atenção masculina. Rememorando a sua juventude na velhice, recordaria que tivera «as atenções de homens, jovens e velhos», desde o tempo em que «ainda usava calçolas e brincava com arcos» (Idem). Em 1816, com apenas 17 anos, Peggy O'Neill contraiu matrimónio com John B. Timberlake, um comissário de bordo (oficial pagador) da Marinha dos Estados Unidos, de 39 anos. Dois anos após o enlace, os Timberlake travaram amizade com John Eaton que, aos 28 anos, acabara de ser eleito para o Senado. Eaton usou a sua influência no Senado para ajudar a liquidar as dívidas de Timberlake e para assegurar que este fosse destacado para a Esquadra do Mediterrâneo da Marinha.

Este ato de clientelismo, de acordo com os rumores que circulariam mais tarde, seria na verdade um pretexto para afastar Timberlake de cena enquanto Eaton e Peggy iniciavam um caso de amor apaixonado. Em abril de 1828, Timberlake faleceu no mar — os detratores de Eaton alegariam posteriormente que este cortara a própria garganta ao tomar conhecimento da infidelidade da esposa, embora os examinadores médicos tenham concluído que ele morrera, de facto, de pneumonia. Fosse como fosse, John Eaton contraiu núpcias com a viúva Peggy Timberlake no dia de Ano Novo de 1829, o que causou estranheza, dado que as viúvas observavam, habitualmente, períodos de luto mais prolongados antes de voltarem a casar. Andrew Jackson, contudo, considerou que nada havia de errado com o matrimónio; na verdade, ele encorajara-o, dizendo ao seu amigo que «se ama a mulher, e se ela o aceitar, case com ela sem hesitar» (Ibid., pág. 68).

John Henry Eaton
John Henry Eaton James Barton Longacre (Public Domain)

Agora, na qualidade de mulher casada com um secretário de gabinete, Peggy Eaton via-se a transitar nos círculos mais elevados da sociedade de Washington. Contudo, infelizmente, a sua reputação pouco lisonjeira precedia-a. Além dos rumores sórdidos que circulavam sobre o seu falecido marido e o seu célere novo matrimónio, era conhecida por ter sido uma espécie de coquette. Embora a própria Sra. Eaton não negasse ter tido a sua quota-parte de amantes — «Não pretendo ser uma santa», escreveria ela, «nem reivindico ser, de forma alguma, um modelo de mulher» — as histórias contadas a seu respeito eram certamente caluniosas e feriam as sensibilidades da época. Numa narrativa memorável, contava-se que a Sra. Eaton passara por um homem num corredor sem o cumprimentar, por se ter esquecido de que ambos já haviam partilhado o leito. Não facilitava o facto de Peggy Eaton poder ser impetuosa e pouco diplomática na conversação, discorrendo frequentemente sobre assuntos que eram considerados impróprios para o sexo feminino, como a política.

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As Mulheres de Washington

Cientes das suas próprias reputações, as restantes damas de Washington procuraram distanciar-se da escandalosa esposa de John Eaton. No baile de inauguração de Jackson, recusaram-se sequer a dirigir-lhe a palavra. Poucos dias depois, a Sra. Eaton fez uma visita de cortesia a Floride Calhoun, mulher do vice-presidente. Embora a Sra. Calhoun a tenha recebido, recusou-se a retribuir a cortesia visitando os Eaton, como ditaria o protocolo. Em vez disso, os Calhoun fizeram as malas e partiram de Washington rumo à Carolina do Sul pouco tempo depois, deixando muitos a sussurrar que Peggy Eaton fora deliberadamente afrontada por uma das mais proeminentes damas da nação. Este gesto encorajou várias outras mulheres de relevo a ostracizarem igualmente os Eaton. Entre as envolvidas nesta fação anti-Eaton incluíam-se as mulheres da maioria dos outros membros do gabinete de Jackson, bem como Emily Donelson, sobrinha do próprio Jackson, que desempenhava as funções de Primeira-Dama.

Para um leitor moderno, a decisão das mulheres de Washington de ostracizarem Peggy Eaton pode parecer contrária aos princípios feministas. Afinal, estavam a rejeitar uma mulher com base no seu historial de inclinações sexuais. Contudo, como explica o historiador Daniel Walker Howe, estas mulheres acreditavam estar a defender «os interesses e a honra da metade feminina da humanidade». De acordo com Howe:

Acreditavam que nenhuma mulher responsável deveria conceder favores sexuais a um homem sem a garantia de amparo que o matrimónio conferia. Consideravam que uma mulher que quebrasse fileiras nesta questão constituía uma ameaça para todas as mulheres, pois encorajava os homens a avanços indesejados. Por conseguinte, tal mulher deveria ser severamente condenada, mesmo que isso implicasse a aplicação de um duplo padrão de moralidade, mais rigoroso para as mulheres do que para os homens… as mulheres que tiveram a coragem de… [fazer] frente a Andrew Jackson e [arriscar] as carreiras dos seus maridos, insistiram que a política de conveniência não deveria sobrepor-se aos princípios morais.

(pág. 338)

Ao tomar conhecimento da rejeição das mulheres aos Eaton, o Presidente Jackson ficou furioso por diversos motivos. Num plano pessoal, ele estava marcado pelos ataques caluniosos que os seus inimigos tinham desferido contra o seu próprio matrimónio — os quais continuava a acreditar terem causado a morte da sua amada Rachel. Este facto, por si só, poderia ter sido suficiente para o levar a tomar o partido de John Eaton que, afinal, fora sempre um amigo bom e leal. Contudo, mais importante ainda, a questão estava a semear a discórdia no seio do conselho de ministros, algo que uma figura controladora como Jackson não poderia tolerar. Se não conseguia compelir os membros do seu próprio gabinete a fazerem as pazes uns com os outros, como poderia ele esperar fazer frente a Henry Clay, aos bancos ou a estados insubordinados como a Carolina do Sul? Jackson ordenou reiteradamente aos seus ministros que instassem as suas mulheres a moderarem-se e as forçassem a reconciliarem-se com os Eaton. Quando tal não sucedeu, ele começou a suspeitar que influências externas — Clay, porventura, ou mesmo o Vice-Presidente Calhoun — estariam a fomentar deliberadamente a ruptura no seu gabinete.

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O presidente asseverou aos seus secretários que os rumores em torno de Peggy Eaton eram falsos e deveriam ser dissipados.

A 29 de setembro de 1829, Jackson convocou uma reunião de gabinete na qual esperava resolver a questão de uma vez por todas. O presidente asseverou aos seus secretários que os rumores em torno de Peggy Eaton eram falsos e deveriam ser dissipados. Quando Jackson enfrentou resistência neste ponto, perdeu a compostura e vociferou que Peggy Eaton era «tão casta como uma virgem!» (Meacham, pág. 115). Como seria de prever, finda a reunião, ninguém havia mudado de opinião. Nos meses vindouros, o Caso Eaton tornar-se-ia uma dor de cabeça maior e consumiria mais tempo a Jackson do que qualquer outra questão. Numa ocasião, Emily Donelson, grávida e à beira do desfalecimento, protagonizou uma cena ao rejeitar Peggy Eaton quando esta acorreu a ajudá-la — o ódio de Donelson pelos Eaton levaria Jackson, eventualmente, a mandá-la de volta para o Tennessee, substituindo-a como anfitriã da Casa Branca pela sua nora, Sarah Yorke Jackson. Noutra instância, John Eaton procurou desagravar a honra da sua mulher desafiando dois dos seus detratores, o Secretário do Tesouro e o pastor da igreja Presbiteriana de Washington, para duelos (ambos recusaram). Entretanto, o rumor sobre o caso começara a propagar-se, com a antiga Primeira-Dama Louisa Adams a observar que as alegações contra Peggy «são tão públicas que os meus criados as contam à mesa do chá» (Idem). Se Jackson pretendia restaurar a paz no seu gabinete, algo teria de ser feito, e com celeridade.

O Pequeno Mágico

Enquanto a maioria dos secretários do gabinete de Jackson fora empurrada para o campo anti-Eaton pelas suas respetivas mulheres, o Secretário de Estado Martin Van Buren — um viúvo — não possuía tal condicionamento. Van Buren era um homem astuto que parecia deleitar-se com o jogo da política pelo prazer intrínseco da manobra; apelidado de «Raposa de Kinderhook» ou «O Pequeno Mágico», ele fora o mentor da máquina política que catapultara Jackson para a Casa Branca. Naquele momento, Van Buren rivalizava com o Vice-Presidente Calhoun para assegurar o lugar de sucessor de Jackson na presidência. Ele divisou no Caso Eaton uma oportunidade para elevar o seu próprio prestígio aos olhos do presidente e, simultaneamente, diminuir o de Calhoun que, através das ações da sua mulher, já se encontrava associado à fação anti-Eaton. Assim, notando o apoio de Jackson aos Eaton, Van Buren manifestou igualmente o seu respaldo aos mesmos. Foi uma decisão de grandes consequências; James Parton, escrevendo na década de 1860, afirmaria categoricamente que «a história política dos Estados Unidos dos últimos trinta anos data do momento em que a mão suave do Sr. Van Buren tocou na aldrava da porta da Sra. Eaton» (citado em Howe, pág. 339).

Martin Van Buren, 1830
Martin Van Buren, 1830 Francis Alexander (Public Domain)

Ao longo de 1830, Van Buren insinuou-se progressivamente na confiança do presidente, demonstrando o seu apoio ao Sr. e à Sra. Eaton. Todavia, simultaneamente, a «Raposa de Kinderhook» sabia que o escândalo não findaria enquanto Eaton permanecesse no conselho de ministros. Assim, na primavera de 1831, concebeu um plano que revelou cautelosamente a Jackson durante um dos seus habituais passeios a cavalo fora da cidade. O plano era simples: cada secretário de gabinete renunciaria voluntariamente ao cargo, permitindo ao presidente reconstruir o seu executivo do zero e pôr fim ao impasse que bloqueava a sua administração. Embora Jackson se tenha mostrado inicialmente cauteloso, acabou por dar o seu consentimento à ideia, visto ser uma das únicas formas de encerrar o escândalo salvaguardando as aparências. Van Buren tomou a dianteira e foi o primeiro a demitir-se, confiante de que o seu sacrifício não ficaria sem recompensa. Seguiu-se Eaton — apesar dos protestos de Peggy para que ele se mantivesse firme, John Eaton foi persuadido por Van Buren a procurar um cargo eletivo no Tennessee e a deixar para trás as preocupações do gabinete. Os restantes secretários foram igualmente compelidos a renunciar, com a única exceção de William Barry, o Diretor-Geral dos Correios; ostensivamente, tal deveu-se ao facto de o Diretor-Geral não fazer parte, tecnicamente, do gabinete presidencial, mas, na realidade, foi a recompensa de Barry por ter mantido a sua mulher na linha.

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A 20 de abril de 1831, Washington Globe, o jornal porta-voz da administração Jackson anunciou as renúncias. A notícia propagou-se pela nação como um rasto de pólvora; para muitos fora de Washington, foi o primeiro indício de que sequer existira um escândalo. Mesmo na época, era evidente que Van Buren estivera por trás da purga do gabinete, com um jornal a escrever: «Bem pode o Sr. Van Buren ser chamado "O Grande Mágico", pois ele ergue a sua varinha e todo o Gabinete desaparece» (citado em Howe, pág. 339). Mas, naturalmente, as renúncias eram apenas a primeira parte do plano de Van Buren; para se elevar, ele teria, seguidamente, de derrubar Calhoun. Encontraria a sua oportunidade quando, na reorganização do gabinete e do pessoal, William Lewis se tornou o secretário privado predileto de Jackson. Lewis, por coincidência, era também um confidente de Van Buren e não teve escrúpulos em mostrar ao presidente cartas que revelavam que Calhoun criticara a conduta de Jackson durante a sua invasão da Flórida em 1817. Para Jackson, que já imputava o Caso Eaton a Calhoun e à sua mulher Floride, isto foi prova suficiente de que o seu vice-presidente estava contra ele. «Acabo de ver neste momento», declarou Jackson, «[aquilo que] prova que Calhoun é um vilão» (Idem, pág. 341).

Conclusão

Tivesse o «Escândalo das Anáguas» sido meramente um escândalo sexual na Casa Branca, teria sido uma anedota histórica interessante, embora de pouca importância. Contudo, o caso teve consequências que moldariam a história política dos Estados Unidos nas décadas seguintes. Mais importante ainda, consolidou a posição de Martin Van Buren no seio do favoritismo de Jackson, ao mesmo tempo que diminuía a de Calhoun. Por esta altura, Jackson escreveu:

Conheço agora tanto Van Buren como Calhoun. Do primeiro, sei ser um republicano puro que labutou com o propósito único de promover os melhores interesses do seu país; enquanto o outro, movido apenas pela ambição egoísta, empregou secretamente todo o seu talento na intriga e na dissimulação para os destruir e para desonrar a minha administração. A conspiração foi desmascarada.

(Ibid.)

Devido a isto, Van Buren tornou-se o herdeiro aparente de Jackson. Com efeito, Van Buren substituiu Calhoun como vice-presidente durante o segundo mandato de Jackson e acabaria por ascender à própria presidência em 1837. Calhoun, entretanto, continuaria a sua luta pelos direitos dos estados fora da administração e confrontar-se-ia com o governo federal na Crise da Anulação de 1832-33. Contudo, embora a reestruturação das dinâmicas de poder no seio do Partido Democrata de Jackson continue a ser o desfecho mais visível do «Escândalo das Anáguas», Howe assevera que houve consequências mais subtis:

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[O caso] ocorreu numa época em que o comportamento sexual submetia-se a um reexame por padrões que hoje denominamos "vitorianos", os quais colocavam uma tónica acrescida no controlo dos impulsos e numa rigorosa responsabilidade pessoal. Jackson não desafiou diretamente a moralidade sexual convencional; ele apresentou-se como um defensor da pureza feminina. Todavia, a sua posição em prol de Margaret Eaton… tendeu a alinhar o Partido Democrata com aqueles (maioritariamente homens) que resistiam às exigências formuladas no século XIX (maioritariamente por mulheres) por um código de moralidade sexual mais estrito… [isto] poderá explicar por que razão a oposição a Jackson, nos anos vindouros, pôde contar com mais apoio de grupos femininos do que os Democratas.

(pág. 342)

A importância do «Escândalo das Anáguas» residiu, por conseguinte, no facto de ter conferido a Jackson um maior controlo sobre o seu conselho de ministros, de ter reorganizado a liderança do Partido Democrata e de ter posto à prova a moralidade sexual e o papel da mulher na sociedade, numa era que se tornava progressivamente «vitoriana» nos seus padrões morais. Este permanece um capítulo pitoresco na história política dos Estados Unidos.

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Perguntas & Respostas

O que foi o Escândalo das Anáguas?

Escândalo das Anáguas, igualmente designado como o Caso Eaton ou o Caso Petticoat, foi um escândalo político que ocorreu em Washington, D.C., entre 1829 e 1831, no qual as mulheres de Washington se recusaram a conviver com Peggy Eaton, mulher do secretário da Guerra, devido ao seu passado sexual. O escândalo dividiu o gabinete de Andrew Jackson e levou a uma remodelação da liderança.

Por que é que Andrew Jackson apoiou Peggy Eaton?

Andrew Jackson apoiou Peggy Eaton durante o «Escândalo das Anáguas», porque a situação dela lhe fazia lembrar as calúnias lançadas contra a sua própria esposa, Rachel, e porque considerava a situação um teste à lealdade dos membros do seu próprio gabinete.

Como terminou o Escândalo das Anáguas?

O Escândalo das Anáguas chegou ao fim quando Martin Van Buren, secretário de Estado, convenceu todos os membros do gabinete do presidente Jackson a demitirem-se. Isto reforçou a reputação de Van Buren aos olhos de Jackson e levou à sua nomeação para a vice-presidência e, por fim, à própria presidência.

Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Tradutora e autora, o gosto pelas letras é infindável – da sua concepção ao jogo de palavras, da sonoridade às inumeráveis possibilidades de expressão.

Sobre o Autor

Harrison W. Mark
Harrison Mark é pesquisador e escritor para a World History Encyclopedia. Ele é graduado pela SUNY Oswego, onde estudou História e Ciência Política.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Mark, H. W. (2026, abril 16). Escândalo das Anáguas. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-24170/escandalo-das-anaguas/

Estilo Chicago

Mark, Harrison W.. "Escândalo das Anáguas." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, abril 16, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-24170/escandalo-das-anaguas/.

Estilo MLA

Mark, Harrison W.. "Escândalo das Anáguas." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 16 abr 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-24170/escandalo-das-anaguas/.

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