Mark Twain é o pseudônimo de Samuel Langhorne Clemens (1835-1910), humorista, jornalista, palestrante e romancista norte-americano. A voz de sua geração e um dos mais célebres autores do final do século XIX, ele escreveu algumas das obras literárias mais conhecidas e memoráveis dos Estados Unidos: As Aventuras de Tom Sawyer, A Vida no Mississippi e As Aventuras de Huckleberry Finn.
Por meio dessas e de outras obras, Mark Twain teve um efeito profundo no desenvolvimento da literatura nos Estados Unidos, influenciando vários autores do século XX, como Ernest Hemingway (1899-1961). Com uma carreira que durou mais de quatro décadas, ele moldou a visão do mundo sobre a América. Suas novelas e palestras mostravam um refinado senso de humor, mas o biógrafo do escritor, Albert Bigelow Paine, acreditava que, mais do que um humorista, Twain também era um filósofo, um profeta e um humanista.
Início da Carreira
Samuel Langhorne Clemens nasceu na Flórida, no estado norte-americano do Missouri, em 30 de novembro de 1835. Seu pai, John Marshall Clemens, ainda que educado como advogado, optou por se tornar um comerciante, embora não muito bem-sucedido. Em 1839, quando Twain tinha quatro anos, seu pai mudou-se com a família para Hannibal, Missouri, uma pequena cidade ao longo do Rio Mississippi. Ali, Marshall retomou a prática como advogado e, eventualmente, terminou por ser eleito juiz de paz. Quando morreu, em 1847, deixando a família com dívidas, Twain foi forçado a abandonar a escola; ainda não tinha completado 12 anos. Como seu irmão mais velho, Orion, antes dele, o futuro escritor trabalhou como aprendiz de um impressor local. Quando Orion comprou um pequeno jornal, o Hannibal Journal, Twain juntou-se a ele como tipógrafo. A publicação funcionava no porão da casa da família. Quando Orion se ausentava, Twain escrevia pequenas paródias sobre personagens e condições locais e a circulação do jornal aumentava.
Em 1853, aos 18 anos, Twain saiu de casa, trabalhando como tipógrafo itinerante em St. Louis, Nova York e Filadélfia. Quando retornou do Leste, Orion tinha se mudado com a família para Keokuk, no estado de Iowa. Twain permaneceu em Keokuk com Orion até 1857, quando decidiu viajar para o Brasil e percorrer o Rio Amazonas. Ele iniciou esta longa jornada em Cincinnati, trabalhando como impressor, até a primavera. A bordo do navio Paul Jones, que se dirigia para Nova Orleans, ele encontrou um piloto de barco fluvial chamado Horace Bixby e, após longas conversas, decidiu renunciar à Amazônia e se tornar também um piloto. Dezoito meses depois, foi considerado um dos melhores e mais cuidadosos a atuar no Mississippi, mas, com o início da Guerra Civil Americana, em 1861, os confederados bloquearam o rio, interrompendo todo o tráfego fluvial.
Após um curto período de duas semanas no exército confederado, Twain viajou para o oeste numa diligência, esperando ficar rico com as minas de prata no então território de Nevada. Orion, que fora nomeado pelo governo federal como secretário do governador do território, o acompanhou na viagem. Com pouco sucesso, seja como mineiro ou garimpeiro, Twain usava seu tempo livre para contribuir com artigos curtos para o Territorial Enterprise, um jornal de Virginia City, em Nevada, de propriedade de John Goodman. Nesta época, começou a usar o pseudônimo Mark Twain, um termo fluvial que significava duas braças [antiga medida de comprimento inglesa equivalente a 1,8 metro] de profundidade. Seu novo nome e os artigos humorísticos o tornaram famoso ao longo da Costa do Pacífico. Reconhecendo seu talento, Goodman ofereceu a Twain um emprego como editor do Enterprise, com salário de 25 dólares por semana. Após dois anos em Virgínia City, ele se mudou para São Francisco, onde trabalhou para o Morning Call, enquanto contribuía para o Golden Era e o The Californian.
Obras e Viagens
Após um convite de James Gillis, Twain deixou São Francisco e viajou para um acampamento de mineiros do Condado de Calaveras. Enquanto aprendia a técnica de pocket mining [mineração em pequena escala que empregava explosivos], ele ouvia as histórias dos mineiros em torno da fogueira do acampamento; uma destas histórias tornou-se The Celebrated Jumping Frog of Calaveras County [A Famosa Rã Saltadora do Condado de Calaveras], de 1865. O conto, eventualmente, chegou ao Saturday Press, transformando-se na sua primeira história publicada. Twain passou os quatro anos seguintes viajando e escrevendo. Seu senso de humor e observações sagazes granjearam-lhe a atenção de jornais por todo o país. Ele retornou a São Francisco em março de 1866 e o Sacramento Union o enviou para as Sandwich Islands (Havaí) para escrever uma série de cartas com suas observações.
Após retornar aos Estados Unidos, ele excursionou pela Costa Oeste, proferindo uma série de bem-sucedidas palestas sobre as ilhas. Seu período no Oeste serviu de inspiração para o livro Roughing It (1872). Após seis anos como mineiro, impressor e palestrante, ele se dirigiu ao Leste em busca de maiores desafios. Após sua chegada a Nova York, Twain foi contratado em junho de 1867 por um jornal de San Francisco para escrever uma série de cartas sobre uma viagem de cinco meses para a Terra Santa, a bordo do navio Quaker City, em companhia de turistas americanos. Suas cartas foram publicadas também no New York Tribune e no Alta California. Quando retornou a Nova York, ele reuniu as cartas no livro Innocents Abroad (1869). Tanto Innocents Abroad quando Roughing It tiveram boas vendas.
Casamento e Sucesso Literário
Tudo parecia estar indo bem na vida de Twain, que tinha sucesso financeiro como autor e palestrante. Ele investiu numa editora e numa promissora máquina de escrever, eventualmente assumindo todo o ônus financeiro. Em fevereiro de 1870, casou-se com Olivia Langdon, uma herdeira de minas de carvão de Elmira, no estado de Nova York, e mudou-se para Buffalo, ainda que temporariamente, enquanto trabalhava como editor do Buffalo Express. O casal teve três filhas: Jean, Clara e Suzy. Depois de vender sua parte no Express, em 1871, mudou-se para Hartford, no estado de Connecticut, onde construiu uma casa – costumava passar os verões em Elmira, na Fazenda Quarry.
Em 1872, em colaboração com Charles Dudley Warner, fez sua primeira tentativa de um romance sério com a obra The Gilded Age [A Era Dourada], de 1873. O livro não somente deu nome ao período pós-Guerra Civil de "individualismo e especulação desenfreadas", mas também uma "forma permanente e imaginativa às qualidades mistas do período" - ganância, corrupção política e comercial, bem como opulência e miséria (Mead, 305). Embora tivesse boas vendas, Twain considerou a obra um fracasso. Enquanto morava em Hartford, ele escreveu duas das suas obras mais famosas: As Aventuras de Tom Sawyer e As Aventuras de Huckeberry Finn (1884).
Dificuldades Financeiras e Palestras
No final da década de 1880, com o fracasso de seus investimentos comerciais, Twain começou a sofrer tempos difíceis. As dificuldades financeiras o forçaram a vender sua casa e se mudar para a Inglaterra em 1891. Em 1894, estava falido, mas prometeu pagar suas dívidas. Conforme Robert Mead, na obra Literature of the American Nation [Literatura da Nação Americana], sempre que experimentava problemas financeiros, Twain dedicava-se às palestras. De fato, Mead acredita que alguns dos melhores trabalhos do escritor surgiram enquanto fazia palestras. Após uma bem-sucedida excursão no ano seguinte, ele retornou à Inglaterra livre de dívidas em 1896.
Graças às palestras e romances, ele conquistou uma reputação destacada no exterior, especialmente na Inglaterra, por sua visão americana "desafiadora". Seja dando palestras ou escrevendo, Twain manifestava-se contra o que considerava como uma América corrupta, mas próspera, do período pós-Guerra Civil. Na década de 1890, a tolerância que havia demonstrado em seus livros e palestras foi substituída por ataques ao que ele considerava ser a "loucura da humanidade" (McMichael et al., 222). O romance Pudd 'nhead Wilson (1894) e o conto The Man that Corrupted Hadleyburg (1900) refletem uma visão da humanidade como sendo "gananciosa, estúpida, hipócrita, cruel e predatória" (McMichael et al., 222). A série de crises que experimentou em sua vida, como as mortes da esposa e filha e os fracassos nos investimentos financeiros, pode explicar esta mudança de atitude.
A atitude de Twain e sua negatividade não passaram despercebidas do público leitor. Um dos seus mais amados personagens era Huck Finn, um garoto do interior que fez amizade com um escravo fugitivo, com o qual navegou pelo Mississippi numa jangada. Ainda assim, a despeito de sua popularidade, o livro acabou sendo proibido em várias escolas e bibliotecas públicas nos Estados Unidos. Além da linguagem grosseira empregada na obra, a maioria das críticas decorre da relação estreita e entre Jim, o escravo, e Huck. O Comitê da Biblioteca Pública da cidade de Concord chamou a obra de "lixo" e "adequada para as favelas". Twain não considerou os comentários do Comitê sérios o suficiente para merecerem uma resposta e apenas afirmou que as observações aumentariam as vendas do livro.
Huck Finn permanece despertando polêmicas entre pais, escolas e bibliotecas, mas não foi o único personagem Twain a ser considerado ofensivo. Uma década antes, na obra As Aventuras de Tom Sawyer, o jovem protagonista passou a ser visto por muitos como um péssimo exemplo para os leitores mais jovens, devido à linguagem grosseira e seus baixos padrões morais. O livro recebeu críticas similares às dirigidas a Huckeberry Finn e foi banido por muitas escolas e bibliotecas por seu retrato de estereótipos raciais. Banidos ou não, estes livros continuam a ser apreciados por muitos leitores.
Maturidade
À medida que envelhecia, Twain tornou-se mais e mais crítico da época em que vivia. Esta atitude talvez se deva às mudanças na sociedade americana. Twain havia crescido numa cultura escravocrata, o Sul agrícola, um mundo que detestava. Esta crença aparecia com frequência em seus livros. A industrialização e os avanços tecnológicos haviam alterado a América que ele conhecera quando jovem.
Em sua observação de uma sociedade em constante mudança, Twain perdeu a tolerância com os problemas do país. Esta intolerância fica evidenciada na obra A Connecticut Yankee at King Arthur's Court [Um Ianque na Corte do Rei Arthur], de 1889. Além de um romance cômico, também fazia crítica social. Ainda que o foco primário da obra seja a sociedade inglesa, os Estados Unidos também são seu alvo. No livro, um mecânico de Hartford, Hank Morgan, desperta na Inglaterra do século VI, durante a época do Rei Arthur. Ele começa a introduzir vários dos benefícios do final do século XIX, mas algumas das mudanças são mal recebidas, especialmente pela Igreja medieval. O livro criticava tradições respeitadas da Inglaterra: a monarquia, a nobreza e a Igreja Anglicana. Hank, como principal conselheiro do rei, emite uma proclamação afirmando que, como o rei havia morrido sem herdeiros, um novo governo seria criado e posto em prática. Não haveria mais monarquia, todo o poder político ficaria nas mãos do povo, não existiria mais nobreza, classe privilegiada ou igreja estabelecida. Seria uma sociedade ideal. Ao contrário da sua obra anterior, O Príncipe e o Mendigo (1881), que havia sido elogiada, Um Ianque... não teve boa recepção na Inglaterra.
Em Londres, onde morou por quatro anos com Olivia e Clara, o escritor fazia planos para outro livro. Aguardava a chegada das outras filhas, Suzy e Jean, quando recebeu a notícia de que a primeira havia morrido de meningite. Quando Twain retornou aos Estados Unidos em 1901, foi tratado como um herói conquistador, um homem de letras. Em 1903, Olivia adoeceu e, por questões de saúde, a família se mudou para a Florença, na Itália, onde a esposa do escritor morreu, no ano seguinte. Sua filha Jean morreu em 1909. Após retornar aos Estados Unidos, Twain mudou-se para Redding, no estado de Connecticut, onde permaneceria pelo resto da vida. No dia 21 de abril de 1910, Mark Twain morreu de um ataque cardíaco. Sua autobiografia foi publicada postumamente em 1924.

