Frodi

Irina-Maria Manea
por , traduzido por Vitor Cavalcanti
publicado em
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Frotho (by Petter Lorens Hoffbro, Public Domain)
Frotho Petter Lorens Hoffbro (Public Domain)

Frodi (Fróði em islandês antigo) é o nome de lendários reis dinamarqueses na mitologia nórdica. Há toda uma gama de reis possuindo o mesmo nome, apontando para tradições fascinantes tanto nas narrativas islandesas antigas quanto nas germânicas continentais. Frodi se faz presente em Skáldskaparmál de Snorri Sturluson, na Saga dos Inglingos, Gesta Danorum (Feitos dos Dinamarqueses), de Saxo Grammaticus, e entre outras fontes.

A Era de Ouro de Frodi na Skáldskaparmál

Em sua Skáldskaparmál, parte da Edda em Prosa, o chefe e autor islandês do século XIII, Snorri Sturluson, explica as origens de tantas metáforas complexas ou kenningar. Ele menciona que um dos termos para ouro é a "farinha de Frodi" (Fróði no islandês antigo), em outro lugar: "a refeição de Frodi"; e prossegue explicando a origem dessa metáfora, onde ele fantasiosamente conecta Odin à história da Dinamarca e, em parte, à da Suécia. Nestas condições, na narrativa de Snorri, Skjöld, um filho de Odin e fundador da dinastia, teve um filho, Fridleif, que por sua vez tem um filho chamado Frodi. Cronologicamente, isso teria acontecido durante o governo do imperador romano Augusto (reinou 27 a.C. - 14 d.C.) e sua Pax Romana. Há alguns elementos históricos para isso, tais como o comércio entre os romanos e os proto-dinamarqueses, com membros da aristocracia forjando seu prestígio através do contato com o Império Romano, mas certamente não existia uma grande terra unificada.

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Snorri conta como os pré-cristãos atribuíram a paz que reinava em todos os territórios do norte na época a Frodi.

Ele tenta traçar um paralelo com Jesus Cristo no que ele conta a seguir, e também tenta provar o quão ingênuos eram os pré-cristãos ao atribuírem a paz que reinava em todos os territórios do norte na época a Frodi. Temos aqui um fragmento do mito de uma era de ouro, sem assassinatos nem roubos. Frodi se encontra com o Rei Fjölnir da Suécia e compra duas escravas. Ao mesmo tempo, são descobertas duas gigantescas mós capazes de moer qualquer coisa. Frodi, então, ordena que as escravas moam ouro e prosperidade, mas concede-lhes pausas curtas demais, que não excedem o tempo de uma canção. Este é, precisamente, o motivo pelo qual o poema que elas cantam foi intitulado Grottasöngr, em referência ao nome do moinho mágico. As donzelas lamentam a incapacidade do rei de prever as consequências de seus atos, pois o que elas, na verdade, estavam moendo era um exército contra Frodi. Um rei do mar chamado Mysing ataca, saqueia e mata Frodi. Mysing ordena-os a moer sal, o que fazem até os navios afundarem, pois a água do mar entra no moinho e se transforma em sal.

Snorri provavelmente conseguiu esses detalhes muito precisos do Grottasöngr da Edda Poética, o qual ele cita após recontar essa história. No poema, é revelado que as garotas são descendentes de gigantes da montanha e que foram elas que moldaram a mó de pedra. Frodi, contudo, permanece ignorante da linhagem delas e, deste modo, acaba perdendo seu trono em Hleidra (Lejre). Então, historicamente, pode ter havido uma referência aos primeiros líderes aqui; Lejre (também conhecido como Fredshøj ou Túmulo da Paz) possuía assentamentos que remontam a 500. Datados de cerca de 650 d.C., os restos mortais de um túmulo principesco foram escavados junto ao rio, num monte tumular chamado Grydehøj. O homem e seus bens funerários foram cremados, mas uma profusão de bronze e ouro derretidos, assim como os animais sacrificados, testemunham sua riqueza. Snorri, contudo, interpreta isso a partir de uma perspectiva temporal e mítica cristã. Muito provavelmente, foi de uma saga dos Escildingos ​​que Snorri adotou essa noção, conforme sugere uma paráfrase do século XVII.

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A Paz de Frodi na Saga dos Inglingos

Este não é o único Frodi que conhecemos. Na Saga dos Inglingos (a primeira saga do ciclo Heimskringla, a história dos reis da Noruega), Snorri conecta a Paz de Frodi ao deus Freyr, interpretado aqui como o rei da Suécia sucedendo a Njörd (Njörðr), sucessor do próprio Odin, com Freyr e Njörd sendo membros da família de deuses Vanir em fontes islandesas antigas, divindades ligadas à fertilidade. Ocasionalmente, ele volta para considerar esses deuses como divindades reais e não apenas como pessoas que se tornaram divinas. Por exemplo, quando afirma que, em tempos de prosperidade, os suecos agradeciam a Freyr e quanto mais abastadas as pessoas se tornavam, mais elas o adoravam em comparação a outros deuses. Isso se dá no capítulo 10, onde Snorri parece confundir Freyr e Frodi, pois, embora fale da Paz de Frodi, insiste que os suíones a atribuem a Freyr, também chamado Yngvi, e seus descendentes, os famosos Inglingos.

Freyr
Freyr Jacques Reich (Public Domain)

Após sua morte, ele foi secretamente carregado para a sua tumba e, por três anos, foi dito às pessoas que ele ainda estava vivo, derramando ouro, prata e cobre pelas janelas de seu monte. Mesmo depois que descobriram a verdade, a prosperidade continuaria enquanto elas ofertassem sacrifícios a ele. No capítulo 11, entretanto, Snorri coloca Frodi em Lejre (Hleidra), chamando-o de paz-Frodi, enquanto Fjölnir, filho de Freyr, reside em Uppsala. De acordo com um poeta nomeado Thjodolf de Hvinir, que também escreveu um poema para o rei Rögnvald de Vestfold traçando sua linhagem até os Inglingos (Ynglingatal), Frodi montou um enorme tonel de hidromel em seu salão e Fjölnir, ao visitá-lo, ficou tão bêbado que caiu dentro e se afogou. Isso revela que era muito importante para os reis ter seu poder legitimado pela associação com esses clãs lendários.

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É muito provável que Freyr e Frodi tenham sido baseados em uma divindade local dividida em várias versões.

Existem também menções mais obscuras de um Frodi, filho de Danr, ou filho de Harald Cabelo Belo, mas, no geral, é muito provável que esses dois personagens, Freyr e Frodi, tenham sido baseados em uma divindade local dividida em várias versões que, em seguida, foi transformada em personagens históricos lendários. Isso encontra alguma justificativa no poema Skírnismál, onde Freyr em pessoa é chamado "fróði", significando "o sábio" ou "o próspero", e também no manuscrito Flateyjarbók, onde os suecos atribuíram uma era dourada a Freyr e os dinamarqueses a Frodi.

Gesta Danorum

Outra fonte mencionando Frodi é um poema escáldico do século X, escrito por Einarr Skálaglamm em honra ao Haakon Jarl, declarando que nenhum outro governante trouxe tanta prosperidade e paz quanto Frodi. Também encontramos vestígios desta tradição na Gesta Danorum do século XII, de Saxo Grammaticus – vários reis, na verdade – aumentando a confusão. Na contagem de Saxo Grammaticus, Frotho I sucede seu pai, Hadingus, um dos primeiros reis lendários da Dinamarca, fortalece o erário e mata um dragão, bem como realiza campanhas no Báltico ou expedições contra os frísios, os escoceses e contra os ingleses.

Houve uma tentativa de identificá-lo com um homônimo líder viking do século IX que se estabeleceu em Dublin (Ellis Davidson, 37). Contudo, a evidência é inconsistente. Provavelmente, estamos lidando com um líder dinamarquês esquecido que pode, de fato, ter viajado até a Rússia e, talvez, tenha erguido fortalezas no topo das colinas às margens do Duína Ocidental. Outros elementos da narrativa podem ter sido influenciados por temas germânicos mais gerais, com a matança de dragões desempenhando um papel importante tanto na Saga dos Volsungos quanto na Saga de Ragnar Lodbrok.

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Saxo's Gesta Danorum
A Gesta Danorum de Saxo Wikimedia Commons (Public Domain)

Frotho III é o que mais se assemelha à Saga dos Inglingos. Frodi, filho de Fridleif, é bastante conhecido por sua capacidade de legislar. Após derrotar seus inimigos, a paz passa a reinar em seu reino, e Saxo menciona o mesmo exemplo de boa governança, o rei deixando à mostra uma argola de braço de ouro que ninguém se atreve a roubar. Sua fama e autoridade coincidem com a vida de Cristo, mas ela termina quando uma mulher incita seu filho a roubar a pulseira. Tentando se esconder de sua ira, ela se transforma em uma vaca-marinha e o ataca brutalmente. Por medo e revolta, os dinamarqueses esconderam o corpo de Frodi em uma carroça e o carregaram por até três anos - isso lembra um pouco de Nerthus, mencionada por Tácito em Germania - durante os quais a prosperidade continuou. O mesmo evento acontece na Saga dos Inglingos. Então, a partir dessas fontes, pode-se inferir que Frodi, definitivamente, tinha algo a ver com um culto à fertilidade, um remanescente do culto aos deuses Vanir, historicizados por autores cristãos posteriores.

Saxo tentou evocar um passado glorioso para a Dinamarca ao, livremente, misturar histórias de várias fontes.

O livro V de Saxo, o mais extenso, aliás, lida apenas com esse personagem em particular, onde se descreve como ele estabeleceu um império verdadeiramente nórdico, inspirando-se nas tradições islandesas para construir a personagem. Ele não começa sua carreira heroicamente, no entanto, é enganado pelos filhos de Vestmar, que transformam a corte em um centro de corrupção. Eventualmente, ele se estabelece como rei - novamente um tópos de tradição heroica - no entanto, a maneira como ele obtém sucesso torna sua história única. Ele é resgatado da morte ao mar por um jovem norueguês chamado Erik, que se torna seu seguidor e o auxilia em suas façanhas - uma ideia muito provavelmente inspirada na parceria entre Valdemar I e Absalão, patrono de Saxo (Ellis Davidson, 114), refletindo as conquistas da política dinamarquesa no Oriente durante o século XII. Saxo tentou evocar um passado glorioso para a Dinamarca ao, livremente, misturar histórias de várias fontes de modo que Frodi (Frotho) emergiu como esse líder semi-lendário extraordinário, que derrotou uma invasão eslava, dispersou um exército de hunos, se envolveu nas disputas de poder suecas, invadiu a Noruega, reuniu navios para conquistar a Grã-Bretanha e escapou de um salão em chamas, apenas para citar algumas de suas muitas façanhas vikings.

Essa versão de Frodi também foi interpretada como um exemplo do motivo do "rei do verão" relacionado aos mitos dos Vanir. O nome do "rei do verão" está ligado à sua função. Ele lidera uma expedição militar para uma terra mais fria, onde encontra um "rei do inverno" e, em seguida, o casamento com a filha deste ocorre. Porém, o relacionamento é tenso e o rei estival morre devido a uma maldição; sua morte é símbolo tanto da esterilidade quanto da prosperidade. O Frotho de Saxo reúne algumas dessas características: a sua busca por Hanunda, filha do rei dos hunos, e por Alvilda, filha do rei norueguês Gøtarus; a instigação por parte de uma feiticeira; a punição de seu filho por roubar a argola de braço de ouro do pilar — ato que simbolizava o império da lei — e, por fim, a sua morte, após a qual seus súditos carregam seu corpo em uma carroça para, eventualmente, sepultá-lo à margem de um rio. O nome de seu filho, Fridlevus, "remanescente de paz", indica uma continuação da paz de Frodi.

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De Frodi a Frodo

A versão latinizada do nome foi utilizada por Tolkien em O Senhor dos Anéis. Mas o quanto Frodo tem em comum com uma série de reis lendários chamados Frodi? Poderíamos encontrar uma conexão na própria etimologia: sabedoria pela experiência. Ao longo de toda a sua jornada, Frodo adquire a capacidade de lutar contra o mal, mesmo sendo tentado por ele. A história pode ser interpretada como uma restauração da paz e da prosperidade na Terra-Média, porém o aspecto cristão não deve ser também negligenciado. Se considerarmos o sofrimento e a tragédia de Frodo em seu papel como o portador do anel, isso pode servir de analogia para o ato de Jesus Cristo carregando os pecados da humanidade. Sua jornada à Montanha da Perdição e a subsequente destruição do anel e de Sauron podem ter menos em comum com a tradição nórdica e mais com o Cristo carregando a cruz até o Calvário.

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Perguntas & Respostas

Quem é Frodi na mitologia nórdica?

Frodi é o nome de vários reis lendários dinamarqueses.

O que é a Paz de Frodi?

A Paz de Frodi é um período lendário de paz e prosperidade na mitologia nórdica.

Bibliografia

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Manea, I. (2026, maio 05). Frodi. (V. Cavalcanti, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-23218/frodi/

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Manea, Irina-Maria. "Frodi." Traduzido por Vitor Cavalcanti. World History Encyclopedia, maio 05, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-23218/frodi/.

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Manea, Irina-Maria. "Frodi." Traduzido por Vitor Cavalcanti. World History Encyclopedia, 05 mai 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-23218/frodi/.

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