Samuel Adams (1722–1803) foi um proeminente líder patriota da Revolução Americana (1765–1789) e um dos Pais Fundadores dos Estados Unidos. Ele foi um dos maiores opositores da 'tributação sem representação', membro fundador dos Filhos da Liberdade, signatário da Declaração da Independência e o quarto governador de Massachusetts (entre 1793–1797).
Adams, que sempre vivera em Boston, Massachusetts, fracassara em todas as carreiras que havia tentado até a Revolução. Com a crise da Lei do Selo, de 1765, ele ganhou relevância política ao escrever artigos antibritânicos para jornais da colônia. Com uma prosa “simples, pura e harmônica”, ele rapidamente se destacou como um dos mais influentes líderes patriotas nas colônias da Nova Inglaterra (Schiff, 72). Ele trabalhou incansavelmente na defesa dos direitos coloniais, mantendo a chama revolucionária viva mesmo quando outros não conseguiram. Como um defensor precoce da independência, ele ajudou a unificar as Treze Colônias ao estabelecer um sistema de correspondência em 1772, ocupou uma posição de liderança no Boston Tea Party e ajudou a redigir os Artigos da Confederação e a Constituição de Massachusetts.
O uso de propaganda e a sua associação aos Filhos da Liberdade o tornaram uma figura controversa. Seus críticos o acusavam de usar manifestações violentas como método para alcançar seus objetivos; seu rival Thomas Hutchinson, por exemplo, o chamava de “Machiavelli do caos”, (Schiff, 7). Outros contemporâneos, porém, elogiavam seu zelo e astúcia política; Thomas Jefferson referia-se a ele como “o verdadeiro Homem da Revolução” (Boatner, 8). De qualquer forma, Adams era firme em seus princípios, decorrente de sua formação calvinista, que o levou a abrir mão de ganhos financeiros em nome da virtude. Sua aura pairava no período revolucionário, e ele teve uma posição importante, estimulando seus companheiros americanos no caminho da nacionalidade.
Início da vida
Samuel Adams nasceu no dia 27 de setembro de 1722, em Boston, a maior cidade da colônia britânica da Baía de Massachusetts. Ele foi um dos doze filhos de Samuel Adams Sr. e Mary Fifield Adams, dos quais somente três viveram além da infância. Samuel Adams Sr. desempenhou várias funções: foi diácono na Old South Congregational Church, político — servindo em uma organização política não oficial chamada Boston Caucus — e dirigiu uma maltaria, que por gerações pertencera à sua família, fornecendo a maior parte do malte utilizado para a fabricação de cerveja em Boston. Os Adams não eram necessariamente ricos, mas possuíam uma propriedade de tamanho considerável e uma casa modesta na atual Purchase Street, em Boston.
O jovem Samuel Adams frequentou a Boston Latin School antes de ingressar no Harvard College, em 1736, aos treze anos. Ele se formou quatro anos mais tarde, após uma carreira acadêmica sem destaque. O evento mais notável da sua formação foi ter sido multado pela escola por "beber licores proibidos" (Middlekauff, 165). Após a graduação, ele tentou seguir diversas carreiras, fracassando em todas elas. Primeiro, foi aprendiz de um comerciante, mas foi enviado de volta para casa por demonstrar pouca aptidão para o comércio. Na sequência, pegou um empréstimo de £1.000 com seu pai para iniciar seu próprio negócio, mas desistiu após perder o dinheiro. Ele chegou a flertar com a ideia de se tornar um ministro, mas rapidamente desistiu da ideia. No fim, encontrou estabilidade na maltaria e chegou a se tornar sócio no negócio da família.
Land Bank
Enquanto o filho lutava para encontrar seu lugar no mundo, o pai tentava aliviar as dificuldades financeiras da comunidade. Em 1739, a escassez de moeda metálica em circulação em Massachusetts levou o diácono Adams e outros membros do Boston Caucus a fundarem o Land Bank, que emitia papel-moeda para quem hipotecasse sua propriedade como garantia. Se, por um lado, o Land Bank era bem recebido pelos agricultores pobres, que viram seu poder de compra aumentar significativamente, por outro, foi alvo de críticas pela elite colonial, que acreditava que o banco geraria inflação. A aristocracia se queixou ao parlamento, que ordenou o fechamento do Land Bank em 1741. Assim, o diácono Adams, juntamente com seus sócios, foi considerado responsável pelos papeis-moeda que já estavam em circulação e foi condenado a reembolsá-los, mergulhando o diácono em dívidas terríveis.
Em 1748, Samuel Adams, após herdar tanto a propriedade quanto as dívidas de seu pai, contestou imediatamente o débito, argumentando que seu pai havia sido mais responsabilizado do que seus sócios. A legislatura de Massachusetts ignorou os apelos e autorizou que os credores de Adams tomassem a propriedade para saldar as dívidas. Adams se opôs, argumentando que o governo não tinha o direito de tomar sua propriedade, especialmente porque seu valor era maior do que a suposta dívida. Ele continuou apresentando petições à corte enquanto expulsava o xerife e os potenciais compradores da sua propriedade. Adams conseguiu arrastar o processo por tempo suficiente para que seus credores perdessem o interesse e desistissem de suas reivindicações. O incidente desiludiu Adams em relação ao governo, pois ele acreditava que o parlamento havia se excedido ao fechar o Land Bank, e que o governo colonial de Massachusetts havia violado seus direitos ao tentar tomar a sua propriedade.
Casamentos
Em 1756, Adams foi eleito para o cargo de coletor de impostos, no qual também não obteve sucesso. Ele muitas vezes deixava de cobrar os impostos e, se por um lado, isso o tornava popular entre os contribuintes da cidade, por outro, ele era pessoalmente responsabilizado pelas perdas. Em 1765, sua dívida de £8,000 em impostos atrasados foi perdoada em razão da sua popularidade política. Apesar da sua contínua má condição financeira, ele conseguiu se casar em outubro de 1749 com Elizabeth Checkley, filha de um pastor. O casamento foi feliz, e Samuel chegou a escrever que Elizabeth era "uma amiga sincera e uma esposa fiel" (Schiff, 53). O casal teve seis filhos, mas somente dois chegaram à idade adulta: Samuel (nascido em 1751) e Hannah (nascida em 1756). Em 1757, Elizabeth faleceu ao dar à luz a um bebê natimorto. Após um luto de 7 anos — longo e incomum para a época — Adams casou-se novamente em 1764 com Elizabeth Wells, união que durou até a sua morte, sem que tivessem filhos.
Oposição ao parlamento
Na mesma época do segundo casamento de Adams, o parlamento decidiu impor vários impostos diretos sobre as Treze Colônias, para pagar os débitos do Império Britânico acumulados durante a Guerra dos Sete Anos (1756-1763). Entre eles, estavam a Lei do açúcar (1764), que taxava o comércio de melaço, e a escandalosa Lei do selo (1765), que impunha tributos sobre todos os documentos em papel, incluindo jornais, contratos, calendários e até cartas de baralho. Os colonos foram surpreendidos por esses impostos repentinos pois, até então, o parlamento havia aplicado a política informal de negligência salutar, que permitia às colônias governarem-se e autotributarem. Ao impor impostos diretos, o parlamento reafirmava sua autoridade sobre as colônias.
Como súditos do rei inglês, os colonos consideravam-se britânicos e, portanto, sujeitos ao então chamado 'direitos dos ingleses'. As garantias legais em documentos como a Declaração de Direitos Inglesa, de 1689, assim como as cartas coloniais, incluíam tanto o direito a um governo representativo quanto à autotributação. Uma vez que nenhum colono americano era representado no parlamento, muitos questionaram se a tentativa do parlamento de taxá-los violava esses direitos. Adams, por exemplo, dizia que sim. Provavelmente com a lembrança do fiasco do Land Bank, ele escreveu, em 1764, que 'taxação sem representação' não era apenas inconstitucional, mas também perigosa para as liberdades americanas:
Se o nosso comércio pode ser tributado, por que não as nossas propriedades? Por que não a nossa produção e tudo aquilo que possuímos ou utilizamos? Entendemos que isso aniquila nosso direito constitucional de governar e taxar a nós mesmos — isso atinge nossos privilégios britânicos, que nunca perdemos e que compartilhamos com os nossos colegas súditos nativos da Inglaterra: se qualquer tipo de imposto for aplicado sem representação onde ele é aplicado, não seríamos reduzidos de súditos livres a meros escravos tributários?
(Cushing, 5)
O argumento bombástico e elegante de Adams atingiu o alvo. Escrevendo sob os pseudônimos de 'Vindex' e 'Candidus', ele publicou ensaios semelhantes em jornais coloniais, como Boston Gazette, e logo ficou conhecido entre os Whigs — ou Patriotas — que se opunham aos impostos do Parlamento. Em 1765, sua influência ficava atrás somente de James Otis Jr., advogado e membro de uma proeminente família política. Otis e Adams começaram a trabalhar em conjunto, criticando as políticas britânicas e ridicularizando os oficiais reais — especialmente o tenente-governador de Massachusetts, Thomas Hutchinson, de quem ambos tinham rancor (Adams, em particular, o responsabilizava pelo fechamento do Land Bank). A retórica deles contribuiu para posicionar Hutchinson como o culpado pelos problemas da colônia, levando uma multidão a invadir sua casa durante os tumultos da Lei do Selo, de agosto de 1765. Embora Adams não tenha participado dos tumultos, algumas pessoas o acusaram de instigá-los, citando sua proximidade com os Nove Leais, um grupo de militantes políticos que organizou os tumultos. Os Noves Leais foram os precursores dos Filhos da Liberdade, dos quais Adams era uma das lideranças.
O parlamento revogou a Lei do Selo logo após os tumultos, mas endureceu sua posição ao implementar a Lei Townshend (1767-68). Adams, por sua vez, intensificou seus ataques às autoridades do parlamento e aos oficiais reais. Em 1768, ele e Otis redigiram a Carta Circular de Massachusetts, que convocava todas as colônias a uma oposição coordenada aos impostos; esta foi uma etapa importante da unificação das colônias. Ele também liderou um boicote às importações britânicas e instigou os comerciantes de Massachusetts a assinarem um acordo de não importação. Aqueles que não assinaram foram classificados como inimigos da liberdade, submetidos às críticas e intimidações dos truculentos Filhos da Liberdade e outros patriotas. Ao mesmo tempo, Adams recrutou John Hancock, o comerciante mais rico de Boston, para a causa patriota. Embora Adams fosse frequentemente acusado de manipular Hancock assim como "o diabo seduziu Eva" (Unger, 88), na verdade, a relação entre eles era de reciprocidade: o popular Hancock servia como porta-voz de Adams, que, por sua vez, retribuía minando os impostos que atrapalhavam os negócios do comerciante.
Escalada
Em 1768, os soldados britânicos foram enviados a Boston para reprimir as manifestações, fornecendo uma ótima propaganda para Adams. Ele escreveu artigos para o Boston Gazette, descrevendo os soldados como brutos que estavam ali para oprimir os bons bostonianos e violar suas mulheres. A presença militar britânica tornou a atmosfera ainda mais tensa, culminando na morte de cinco americanos no Massacre de Boston em 5 de março de 1770. Adams rapidamente afirmou que Boston havia sido vítima de um ataque cruel, e se juntou aos líderes da cidade exigindo a expulsão das tropas britânicas. Simultaneamente, ele percebeu que, para manter a credibilidade da causa patriota, os soldados que realizaram o massacre mereciam um julgamento justo. Por essa razão, Adams recomendou que Josiah Quincy e seu primo de segundo grau, John Adams, representassem os soldados no julgamento — dos quais todos, exceto dois, foram absolvidos.
Após o massacre e a revogação da maior parte das Leis Townshend, parecia, para grande parte dos americanos, que a guerra havia acabado. A maioria dos líderes patriotas saiu da política, pois acreditavam que tudo voltaria ao normal. Samuel Adams foi um dos poucos que mantiveram a chama revolucionária acesa nessa época, que ficou conhecida como 'período silencioso', e acabou ofuscando Otis e outros patriotas com seu radicalismo. Ele chegou à conclusão de que a independência era necessária antes de todos os outros e, por essa razão, começou a trabalhar para unir as colônias. Em 1772, junto com Arthur Lee, da Virgínia, criou um comitê de correspondência intercolonial para auxiliar as colônias na resistência. Adams trabalhou incansavelmente para manter viva a questão da taxação, levando o exasperado governador Hutchinson a perguntar "se há um agitador maior [do que Adams] em todo o domínio real" (Boatner, 9).
Então, em maio de 1773, o parlamento aprovou a Lei do Chá com o objetivo de resgatar a British East India Company — que enfrentava problemas financeiros — por meio da garantia da venda de chá nas colônias. No entanto, havia um claro problema: todo chá vendido pela empresa incluía um imposto do parlamento. Adams rapidamente inflamou o debate, apontando que ao comprarem chá da East India Company, os colonos estariam, implicitamente, concordando que o parlamento tinha o direito de taxá-los. Ele foi bem-sucedido ao convencer vários colonos de que a Lei do Chá era uma armadilha secreta do parlamento para escravizá-los. Por isso, quando três navios que transportavam o chá da East India Company chegaram ao porto de Boston, os Filhos da Liberdade se recusaram a descarregá-los. De acordo com a lei britânica, se um navio não fosse descarregado em 20 dias, a carga poderia ser apreendida pelos funcionários aduaneiros e leiloadas.
Em 29 de novembro de 1773, Adams reuniu milhares de bostonianos na Old South Meeting House, onde foi aprovado um acordo que forçava os navios a navegar sem descarregar sua carga. O governador Hutchinson, no entanto, contra-atacou impedindo que os navios deixassem o porto sem descarregar o chá e pagar os impostos. Em 16 de dezembro, na noite anterior ao prazo, Adams promoveu outra reunião, em que descobriu que Hutchinson tinha, mais uma vez, impedido os navios de zarparem. Adams então anunciou que eles haviam feito "todo o possível para salvar a nação" (Schiff, 240). Com essas palavras, entre 30 e 130 homens saíram da reunião silenciosamente, disfarçados de Mohawk (nativos americanos), embarcaram nos navios e jogaram 342 caixas de chá no porto de Boston. Adams costuma receber o crédito por ter dado o sinal que começou o Boston Tea Party, embora esse crédito seja questionado.
Fundador
Em resposta ao Boston Tea Party, o parlamento decretou as Leis Intoleráveis, que fecharam o porto de Boston e suspenderam o governo representativo em Massachusetts. Em setembro de 1774, os delegados coloniais se encontraram no Primeiro Congresso Continental na Filadélfia, onde foi decidido que as milícias da Nova Inglaterra ficariam de prontidão para um potencial conflito com as tropas britânicas. Adams, seu primo John e John Hancock eram delegados no Congresso, o que levou o governador militar britânico de Massachusetts, Thomas Gage, a considerá-los inimigos da autoridade real. Temendo a prisão, Adams e Hancock se esconderam na casa de infância de Hancock, na cidade de Lexington. Eles ainda estavam lá quando, nas primeiras horas de 19 de abril de 1775, foram acordados por Paul Revere, que os avisou que aproximadamente 700 soldados britânicos estavam a caminho de Lexington possivelmente para prendê-los. Adams e Hancock deixaram a cidade poucas horas antes do início das Batalhas de Lexington e Concord, que iniciaram a Guerra da Revolução Americana (1775-1783)
Adams e Hancock foram para a Filadélfia, onde passaram a fazer parte do Segundo Congresso Continental, que funcionou como um governo provisório das colônias rebeldes. Ao lado de John Adams, Patrick Henry e família Lee, da Virgínia, Samuel Adams liderou a ala radical do Congresso e contribuiu para impulsionar a independência. Após a petição Ramo de Oliveira do Congresso ser rejeitada pelo rei e a ideia de independência ser popularizada por Thomas Paine, a aliança Adams-Lee ganhou apoio. Por fim, o Congresso votou pela independência em julho de 1776, e Samuel Adams se tornou um dos 56 homens que assinaram a Declaração da Independência. Ele também ajudou a redigir os Artigos da Confederação, que serviram como uma constituição dos Estados Unidos na época.
Enquanto Samuel Adams servia no Congresso, sua popularidade começou a diminuir. Ele começou a se desentender com Hancock, cujo estilo de vida não correspondia à ideia de revolucionário virtuoso de Adams. Quando Hancock se aposentou do Congresso em 1777, Adams foi contra homenageá-lo por seu serviço. Embora fosse cético em relação ao exército, Adams atuou no conselho de guerra e defendeu que o Congresso pagasse bônus aos soldados para incentivá-los a se alistarem novamente. Em 1779, ele ajudou a redigir a Constituição de Massachusetts e renunciou ao Congresso em 1781, pouco antes da vitória final americana em Yorktown.
Políticas do pós guerra
Adams voltou para Massachusetts, onde ainda era influente. Ele se opôs a permitir o retorno dos Patriotas ao estado, temendo que a presença deles pudesse enfraquecer a ainda frágil república. Em 1786, agricultores do oeste de Massachusetts começaram uma revolta armada contra os impostos, que ficou conhecida como a Rebelião de Shays. Adams não só condenou a revolta como defendeu o enforcamento de seus líderes, pois acreditava que qualquer um que se rebelasse contra as leis de uma república — instituída pela vontade do povo — deveria ser executado. Hancock, que servia como governador, discordou e perdoou os rebeldes.
Embora inicialmente Adams fosse contra a Constituição dos EUA, ele mudou de ideia e foi importante para a sua ratificação em Massachusetts, em 1788. Ele se reconciliou com Hancock e serviu como seu vice-governador em 1789. Quando Hancock faleceu, em 1793, Adams se tornou governador e foi eleito para um mandato completo no ano seguinte. Nessa época, ele começou a sofrer com problemas de saúde; já não escrevia mais devido a tremores nas mãos e se recusou a concorrer para mais um mandato em 1797. Embora ele apoiasse as políticas de Thomas Jefferson e do partido Democrata-Republicano, ele se afastou dos holofotes políticos. Em 2 de outubro de 1803, Samuel Adams morreu aos 81 anos. Os jornais de Boston o homenagearam, chamando-o de "Pai da Revolução Americana" (Schiff, 325).

