Robert Boyle

Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Robert Boyle by Kerseboom (by Johann Kerseboom, Public Domain)
Robert Boyle por Kerseboom Johann Kerseboom (Public Domain)

Robert Boyle (1627-1691) foi um químico, físico e filósofo experimental anglo-irlandês. Boyle foi um autor prolífico, realizou experiências significativas com bombas de ar e apresentou o primeiro teste de tornassol. Membro fundador da Royal Society, Boyle deixou em testamento fundos para uma série de palestras de longa duração, as «Boyle Lectures», que tinham como objetivo demonstrar que a fé cristã e a ciência não eram incompatíveis.

A Infância

Robert Boyle nasceu a 25 de janeiro de 1627 na Irlanda. O seu pai era Richard Boyle (1566-1643), um proprietário de terras inglês que mais tarde se tornou Conde de Cork. Robert recebeu uma educação particular e, posteriormente, frequentou o Eton College, mas, o que era invulgar para uma figura de proa da Revolução Científica, não estudou na universidade. A formação de Boyle foi completada com uma grande viagem pela Europa entre 1639 e 1642, durante a qual recebeu aulas particulares acompanhado por um tutor. A partir de 1644, Robert viveu numa mansão em Stalbridge, Dorset, no sul de Inglaterra, cujas despesas eram suportadas pelo pai. Em meados da década de 1650, mudou-se para Oxford. Em 1668, Boyle mudou-se novamente, desta vez para Pall Mall, em Londres, onde partilhou uma casa com a sua querida irmã Katherine.

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A Abordagem à Ciência

Livre para dedicar-se a qualquer interesse que lhe agradasse e com abundantes recursos familiares para gastar em experiências e equipamento dispendiosos, Robert interessava-se sobretudo pela filosofia natural e pela realização de experiências práticas que ajudassem a explicar como funciona o mundo à nossa volta. Para esse fim, Boyle contratou Robert Hooke (1635-1703), que atuou como seu assistente de laboratório no laboratório construído propositadamente por Boyle, repleto de aparelhos e dispositivos científicos bizarros e de vanguarda. Outro dos jovens assistentes de laboratório de Boyle que alcançou grande destaque foi Francis Hauksbee (1660-1713), autor de várias descobertas relacionadas com a eletricidade. Um terceiro assistente importante, na verdade o diretor de experiências de Boyle, foi o francês Denis Papin (1647-1713).

Boyle era também um escritor prolífico e, como tinha fundos, podia dar-se ao luxo de publicar a maioria dos seus livros em latim, o que fez com que a sua reputação se espalhasse facilmente por outros países. Os livros de Boyle sobre matemática, religião e medicina eram populares, a tal ponto que se tornou uma vítima frequente de plágio.

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Acima de tudo, para Boyle, as experiências práticas superavam os sistemas de pensamento.

Nas suas obras, fica claro que Boyle se opunha a qualquer tipo de «-ismo». Não concordava totalmente com os filósofos mecanicistas que defendiam que tudo tem uma causa material, ou seja, que todos os fenómenos naturais devem ser reduzidos ao movimento e à matéria. Também não aderiu ao cartesianismo, ao aristotelismo ou ao paracelsianismo, que eram os métodos mais populares para compreender o mundo à nossa volta naquela época. Em vez de seguir um método de investigação abrangente, Boyle preferia abordar problemas individuais pela observação e experiência química mais pertinentes à tarefa em questão. Neste sentido, Boyle concordava com a abordagem defendida por Francis Bacon (1561-1626). Acima de tudo, para Boyle, as experiências práticas superavam os sistemas de pensamento.

Robert Boyle
Robert Boyle Science Museum, London (CC BY-NC-SA)

Um sistema de pensamento que realmente atraía Boyle era a teologia cristã. Cristão devoto, Boyle não via qualquer conflito entre os esforços da ciência (ou o que, naquela época, seria mais corretamente designado por filosofia natural) e a sua fé. Boyle escreveu sobre este assunto no ano anterior à sua morte, no seu livro The Christian Virtuoso (O Virtuoso Cristão - 1690). Quando não estava a fazer experiências, Boyle dedicava muito tempo e dinheiro à evangelização. Financiou traduções do Novo Testamento para línguas como o irlandês, o lituano, o malaio e o turco. Escreveu extensivamente sobre teologia e apoiou financeiramente o trabalho missionário.

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As Experiências com Bombas de Ar

Uma área de experimentação que parecia fascinar particularmente Boyle era a utilização de bombas de ar. Este era ainda um dispositivo experimental em si mesmo, mas, felizmente para Boyle, tinha no seu assistente Robert Hooke um dos maiores especialistas na utilização do dispositivo. A bomba de Boyle, na verdade construída por Hooke, era única, uma vez que incluía um recipiente no qual as amostras (vivas ou não) podiam ser submetidas a variações na pressão atmosférica. O instrumento é aqui descrito por L. Jardine:

A bomba concluída consistia num grande recipiente de vidro (com cerca de trinta quartos de volume) com uma abertura de quatro polegadas na parte superior, através da qual se podiam inserir os aparelhos experimentais. Um cilindro de latão com válvulas fresadas, no qual era possível fazer um êmbolo subir e descer rodando uma manivela ligada a uma catraca dentada, estava montado numa estrutura de madeira por baixo do recipiente. Uma torneira de fecho foi inserida na parte inferior do recipiente e uma válvula na parte superior do cilindro.

(pág. 54)

Boyle's Air Pump
Bomba de Ar de Boyle Unknown Artist (Public Domain)

Boyle publicou os resultados das suas experiências com a bomba de ar no seu livro de 1660 , intitulado New Experiments Physico-Mechanical Touching the Spring of the Air, and Its Effects (Novas Experiências Físico-Mecânicas Sobre a Mola do Ar e os Seus Efeitos). Na verdade, o livro foi escrito pelo seu assistente Papin, que foi nomeado membro da Royal Society em 1680 pelo seu próprio trabalho nesta área, incluindo a invenção da panela de pressão.

Boyle formulou um princípio que ficou conhecido como «Lei de Boyle». Esta lei estabelece que a pressão exercida por uma determinada quantidade de ar varia inversamente proporcionalmente ao seu volume (desde que as temperaturas sejam constantes). Na verdade, Boyle foi apenas o primeiro a demonstrar a lei, uma vez que esta já tinha sido proposta por dois pensadores anteriores: Richard Towneley (1629-1707) e Henry Power (1623-1668). Boyle e os seus assistentes conseguiram demonstrar como poderia existir um vácuo, que durante algum tempo foi designado por «vácuo Boylianum». Nem todos concordavam que Boyle tivesse criado um vácuo na sua cúpula de vidro utilizando uma bomba de ar, nem mesmo que tal coisa pudesse existir; Thomas Hobbes (1588-1679) foi o opositor mais veemente do trabalho de Boyle com vácuos.

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Robert Boyle foi um dos membros fundadores da Royal Society, em Londres.

Foi também Boyle quem deu o nome de «barómetro» ao novo dispositivo utilizado para medir a pressão atmosférica (embora o dispositivo em si tenha sido inventado por Evangelista Torricelli, 1608-1647). O trabalho de Boyle sobre a pressão atmosférica, especialmente a sua lei e as experiências com manómetros e pistões, viria a servir de inspiração aos criadores da máquina a vapor que, literal e figurativamente, impulsionou a Revolução Industrial.

A Alquimia e Química

Boyle era um grande defensor da nova ciência da química e estava empenhado em restaurar a sua reputação, que tinha sido prejudicada pela sua associação à alquimia. Boyle publicou uma extensa visão geral e defesa da química na sua longa obra O Químico Cético: ou Dúvidas e Paradoxos Químico-Físicos (The Skeptical Chymist), publicada em 1661. Embora fosse altamente crítico em relação a alguns alquimistas e charlatões da química, Boyle não se opunha a este antigo campo de estudo, acreditando que as experiências químicas em busca de uma forma de transformar metais comuns em ouro, utilizando um dispositivo catalisador chamado «pedra filosofal», tinham frequentemente valor por si mesmas como exercícios de química investigativa. De facto, Boyle utilizou as suas ligações políticas para revogar uma lei na Inglaterra que proibia a produção alquímica de prata ou ouro (embora ninguém tivesse jamais encontrado um método bem-sucedido para alcançar qualquer um deles).

The Alchemist by Wright
O Alquimista, por Wright Joseph Wright (Public Domain)

O próprio Boyle chegou a praticar alquimia utilizando mercúrio (escreveu um tratado sobre estas experiências) e parece ter estado genuinamente convencido de que a transmutação de metais era possível (em ambos os sentidos: de metais comuns em ouro e de ouro em metais comuns); descreve mesmo como a pedra filosofal, caso fosse encontrada, poderia ser utilizada para atrair anjos e espíritos (outra crença milenar dos alquimistas). Boyle opunha-se, no entanto, totalmente ao secretismo dos alquimistas, que se correspondiam entre si em código e não partilhavam as suas descobertas químicas com mais ninguém. Esta era uma diferença crucial em relação ao novo método científico, que dava prioridade à partilha clara de informação e à submissão dessa informação a análises críticas e testes comparativos.

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É surpreendente que uma mente como a de Boyle estivesse tão disposta a acreditar na transmutação de materiais, mesmo que mantivesse a ciência e a alquimia como atividades totalmente separadas. Boyle queria tanto acreditar na alquimia que se tornou um alvo fácil para vigaristas sem escrúpulos. Um tal Georges Pierre des Clozets, um alquimista fraudulento que alegava representar uma sociedade secreta liderada pelo Patriarca de Antioquia, conseguiu enganar Boyle e extorquir-lhe grandes somas de dinheiro para investimento em experiências duvidosas. Boyle também enviou presentes extravagantes a Georges para o patriarca inexistente, tais como um globo, um telescópio, um relógio e uma luxuosa edição encadernada do Novo Testamento. Nenhum desses presentes conseguiu garantir a Boyle a entrada na sociedade secreta. Quando as experiências nunca apresentaram quaisquer resultados, Boyle foi enganado com histórias fantasiosas, como a de que o castelo dos alquimistas tinha sido destruído por inimigos da sua sociedade secreta e que toda a investigação muito promissora se tinha perdido.

Tal como aconteceu com outras figuras da Revolução Científica, as opiniões de Boyle sobre a alquimia e a ciência propriamente dita têm inquietado alguns historiadores, que têm tido dificuldade em conciliar estas abordagens aparentemente opostas à descoberta de novos conhecimentos. É certamente digno de nota que os executores testamentários de Boyle tenham destruído grande parte da sua biblioteca sobre alquimia, para não manchar a sua reputação como cientista — uma forma de encobrimento a que também foi submetida a obra de Isaac Newton (1642-1727) após a sua morte.

Boyle's Notebook
Caderno de Notas de Robert Boyle Royal Society, London (Public Domain)

Boyle continuou a ser um cientista respeitado durante a sua vida e foi, consequentemente, um dos membros fundadores da Royal Society, em Londres, em 1662, uma organização criada para melhor partilhar e promover o conhecimento, particularmente nos campos da matemática e da física. Boyle integrou o conselho da sociedade, mas recusou uma oferta para assumir a presidência em 1680. Boyle fez inúmeras contribuições para a revista não oficial da Royal Society, a Philosophical Transactions (Transações Filosóficas da Royal Society). O objetivo da Royal Society era aumentar o conhecimento sobre a natureza, mas homens como Boyle (e Bacon antes dele) pretendiam subjugar a natureza à inteligência dos cientistas, o que ele descreveu como tornar a natureza «útil aos seus fins específicos, quer se tratasse de saúde, de riqueza ou de prazer sensual» (Henry, pág. 107). Por outras palavras, Boyle pretendia obter benefícios práticos do seu investimento em experiências.

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As Outras Inovações de Boyle

Outra obra de Boyle dedicada à química foi Experiments and Considerations Touching Colours (Experiências e Considerações Sobre as Cores), de 1664, que, entre os seus muitos outros pontos de interesse, apresentou ao leitor um protótipo do teste do tornassol — ou seja, o teste para determinar se uma substância é ácida, alcalina ou neutra. O teste de Boyle observava mudanças de cor quando uma amostra específica era mergulhada no que ele chamava de «xarope de violetas» sobre papel branco.

Embora fosse sobretudo um cientista prático, Boyle formulou uma teoria famosa, a dos corpúsculos, tal como aqui resumida pelo historiador W. E. Burns:

A teoria «corpuscular» da matéria de Boyle tinha raízes tanto no atomismo como na alquimia. Defendia que minúsculas partículas de matéria se uniam para formar corpúsculos, os blocos de construção básicos das substâncias materiais, e explicava as propriedades da matéria pela natureza e estrutura desses corpúsculos.

(pág. 40)

Essencialmente, para Boyle, qualquer coisa podia ser criada através do rearranjo destes corpúsculos — que se uniam devido à sua forma específica (e não devido à sua estrutura atómica, que na altura ainda era desconhecida) — e talvez seja por isso que ele ainda aderiu à crença antiquada de que o ouro podia ser produzido a partir de algum outro material. A alquimia tentava apenas acelerar o que a própria natureza já era capaz de fazer, e o ouro era, para Boyle, a mais pura de todas as substâncias corpusculares. Boyle e Newton eram amigos íntimos, e as suas ideias sobre os corpúsculos parecem ter influenciado Newton (outro aficionado por alquimia e experiências envolvendo mercúrio) na sua teoria de que a luz é composta por diferentes elementos, ou seja, vários tipos distintos de luz colorida que se unem como um todo para criar algo novo: a luz branca.

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Robert Boyle Portrait
Retrato de Robert Boyle Wellcome Images (CC BY)

Reunindo todas estas ideias, os estudos combinados de Boyle sobre pressões atmosféricas, química e corpúsculos levaram-no a descrever, certa vez, o corpo humano como um «motor hidráulico-pneumático» (Moran, pág. 161). Isto não significava que Deus não estivesse envolvido, pois Boyle acreditava que o corpo humano, embora fosse um mecanismo sofisticado, ainda necessitava de algum poder e sabedoria divinos para o pôr em funcionamento, mantê-lo e permitir-lhe perseguir determinados fins. Este poder e sabedoria divinos eram, para Boyle, o Deus cristão e, fundamentalmente, o propósito último de Deus para a humanidade e para o universo nunca poderá ser conhecido.

A Morte e o Legado

Robert Boyle, após uma vida marcada por problemas de saúde, faleceu na véspera de Ano Novo de 1691, em Londres. Nunca se casou nem teve filhos. No seu testamento, deixou uma generosa dotação para uma série de palestras a realizar anualmente em Londres. O objetivo das Palestras de Boyle era defender o cristianismo contra qualquer pessoa que fosse ateia, menosprezasse o poder divino de Deus ou pertencesse a outras religiões, como o judaísmo e o islamismo. Nesse período, muitos cristãos estavam preocupados com um aparente aumento do ateísmo, um fenómeno que poderia ser agravado por cientistas sem escrúpulos e infiéis. Os cristãos, e particularmente Boyle, desejavam fazer algo a este respeito, defendendo a fé cristã e demonstrando, através da ciência, as maravilhas da obra de Deus (como eles diziam), tais como as fontes inexplicáveis de energia, como a gravidade e os planetas em movimento observados através de um telescópio, e os intrincados detalhes anatómicos dos insetos observados através de um microscópio. No que diz respeito às Conferências de Boyle, havia também a condição de que os oradores não mencionassem as diferenças entre os cristãos. Realizadas desde 1692, as conferências e a sua subsequente publicação em forma de livro foram muito populares. As conferências decorreram, embora não todos os anos, ao longo dos séculos XVIII e XIX, antes de serem interrompidas no início do século XX e, posteriormente, retomadas a partir de 2004.

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Perguntas & Respostas

Por que é que Robert Boyle é famoso?

Robert Boyle é famoso como uma figura central da Revolução Científica, tendo sido pioneiro na lei da pressão do ar, no teste do tornassol e na Royal Society.

O que é que Robert Boyle descobriu?

Robert Boyle descobriu que a pressão exercida por uma determinada quantidade de ar varia inversamente proporcional ao seu volume. Esta descoberta é hoje conhecida como Lei de Boyle.

Robert Boyle era um alquimista ou um químico?

Robert Boyle era simultaneamente alquimista e químico. Acreditava na utilização de qualquer método experimental para alcançar novos conhecimentos. Boyle mantinha a ciência e a alquimia separadas, mas continuava convencido de que era possível transformar metais comuns em ouro.

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Cartwright, M. (2026, outubro 05). Robert Boyle. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-22281/robert-boyle/

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Cartwright, Mark. "Robert Boyle." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, outubro 05, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-22281/robert-boyle/.

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Cartwright, Mark. "Robert Boyle." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 05 out 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-22281/robert-boyle/.

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