Zaqueu foi um cobrador de impostos na cidade de Jericó durante o ministério de Jesus de Nazaré (nos anos 20-30 d.C.). Em grego 'Zaqueu' significa "puro" ou "inocente". A história de Zaqueu tornou-se uma popular doutrinação no Cristianismo primitivo: exemplificava a ideia de que um pecador (mesmo um cobrador de impostos) poderia converter-se (arrepender-se) e mudar de vida através da pregação de Jesus.
A sua elevação ao céu é tida como uma das poucas passíveis de ser comprovada, juntamente com a do "ladrão" na cruz ao lado de Jesus. Mais tarde, a lenda cristã alegou que foi o primeiro Bispo de Cesareia (Constituições Apostólicas 7:46; ou Constituições dos Santos Apóstolos - Latim: Constitutiones Apostolorum), e santificado tanto pelas tradições Ortodoxa Oriental quanto Ocidental.
Nos Evangelhos
A história de Zaqueu é contada nos evangelhos:
1†Tendo entrado em Jericó, Jesus atravessou a cidade. 2Vivia ali um homen rico, chamado Zaqueu, que era chefe dos publicanos. 3Procurava ver Jesus e não podia por causa da multidão, por ser de pequena estatura. 4Correndo à frente, subiu a um sicómoro para O ver, porque Ele devia parra por ali. 5Quando chegou àquele local, Jesus levantou os olhos e disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, pois eu tenho de ficar em tua casa». 6Ele desceu imediatamente e recebeu-O cheio de alegria. 7Ao verem aquilo, murmuravam todos entre si, dizendo que tinha ido hospedar-Se em casa de um pecador. 8Zaqueu de pé, disse ao Senhor: «Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, devolver-lhe-ei quatro vezes mais». 9Jesus disse-lhe: «Veio hoje a salvação a esta casa, por este ser também filho de Abraão; 10†pois o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido». (Lucas 19:1-10 - Costa, A. (†) et al.. Bíblia Sagrada. 11.ª Ed. Lx: Dif Bíblica (MC), 1984, pág. 1391).
Esta descrição de Zaqueu como um filho de Abraão é uma referência à inclusão precoce dos Gentios (não-judeus) no movimento cristão. O nome Abraão significava "pai das nações", e neste caso, também dos não-judeus; e para argumentar que Deus sempre pretendeu incluir os Gentios na salvação, Paulo usou constantemente Abraão como referência.
Os Cobradores de Impostos no Império Romano
No império romano adotou-se o método de cobrança de impostos pela emissão de contratos públicos através dos aediles (magistrados) e do Senado Romano. Potenciais contratados submetiam as propostas, demonstrando quanto poderiam arrecadar nas regiões das províncias. O nome dos contratados foi traduzido como "publicanos" na King James Bible (Bíblia do Rei Jaime, bem como na Bíblia em português). Naquela época, assim como agora, os cobradores de impostos eram impopulares, e como não recebiam um salário governamental eram sempre vistos como usurpadores monetários, o que seria a sua forma de ressacimento.
Jericó, onde ocorre a história de Zaqueu, era famosa por produzir bálsamo (às vezes traduzido como "especiarias"), uma resina perfumada usada nos rituais de coroação de reis e óleos usados por sacerdotes (Êxodo 25:6). Ao visitar o Rei Salomão, relatou-se que a Rainha de Sabá lhe trouxe uma abundância destes óleos como presente (1 Reis 10:10). O produto e a área foram mencionados pelo geógrafo Estrabão (63 a.C. a 24 d.C.) e pelo naturalista, Plínio, o Velho (24-79 d.C.). Como clientes de Roma, os cobradores de impostos eram particularmente odiados na Judeia do século I, nas décadas que antecederam a eventual Grande Revolta Judaica de 66.
No século I, os comuns podiam identificar-se com as consistentes visões negativas dos cobradores de impostos. Segundo Jesus em Mateus 18:17, "Se ele se recusar a ouvi-las, comunica-o à Igreja; e se ele se recusar a atender à própria Igreja seja para ti como um pagão ou um publicano."( Costa, A. (†) et al.. Bíblia Sagrada. 11.ª Ed. Lx: Dif Bíblica (MC), 1984, pág. 1314). Em Lucas 3:12-13, entre as multidões que vinham a João Batista, “12Vieram, também, alguns publicanos, para serem baptizados e disseram-Lhe: «Mestre, que havemos de fazer?» 13†Respondeu-lhes: «Nada exijais além do que vos foi estabelecido». (Idem, pág. 1364-1365).
Em relação às questões religiosas, os estudiosos reconstroem as visões dos Fariseus que eram notáveis pelas suas interpretações mais literais da lei judaica. Como clientes de Roma, os cobradores de impostos reuniriam-se socialmente para refeições com seus senhores romanos. Os Fariseus muito provavelmente presumiam que os cobradores de impostos judeus violariam as leis dietéticas judaicas. A implicação tácita da história de Zaqueu é o choque de que Jesus elevaria um pecador.
A Vocação de Mateus
O escritor do evangelho que ficou conhecido como Mateus era um cobrador de impostos: "9†Partindo Jesus dali, viu um homem chamado Mateus, sentado ao telónio, e disse-lhe: «Segue-me»! E ele levantou-se e segui-O” (Mateus 9:9, Ibid. pág 1300). No entanto, de forma problemática, tanto Marcos quanto Lucas afirmam que o seu nome era Levi (como o filho de Alfeu em Lucas). Os Padres da Igreja do século II que eventualmente nomearam os evangelhos, ao lereme sta nomeação tomaram-na como nota da sua identidade, e assim se tornou o Evangelho Segundo S. Mateus.
No século II, o filósofo cristão, Clemente de Alexandria (150-215) associou Mateus, o cobrador de impostos, com a eleição de um homem chamado Matias que substituiu Judas (‘Livro os Atos dos Apóstolos’ 2), mas a maioria dos historiadores do Novo Testamento considera o último indivíduo como um outro seguidor. Lucas alegou que Matias estava com Jesus desde o início do ministério.
Cobradores de Impostos e Pecadores
Em Marcos, Mateus e Lucas, os cobradores de impostos são consistentemente associados com os pecadores, e frequentemente associados às refeições:
10Encontrando-se Jesus à mesa na Sua casa, numerosos publicanos e pecadores vieram e sentaram-se com Ele e Seus discípulos.
11†Os fariseus, vendo isto, diziam aos discípulos: «Como é que o vosso Mestre come com os publicanos e os pecadores?» 12Jesus ouviu-os e respondeu-lhes: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes.13*Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício [parafraseando Oséias 6:6]. “Porque não vim chamar os justo, mas os pecadores”. (Mateus 9:10-13, Ibid.).
'Pecadores' era um termo genérico para todos os que violavam a moral e os mandamentos de Moisés. No contexto social das refeições no mundo antigo, a alegação de que Jesus comia com estes pecadores significava compartilhar o seu espaço de refeições. Numa das famosas críticas de Mateus contra os Fariseus, Jesus afirmou que as prostitutas entrarão no céu antes dos Fariseus. Portanto, pecadores nesta acusação, ligados aos cobradores de impostos, sempre foram entendidos como significando mulheres imorais. No Mediterrâneo antigo era comum a prostituição, e na Judeia eram conhecidas por atenderem tanto clientes Gentios, como Romanos. A alegação é tirada da imagem cultural geral de que quaisquer mulheres presentes numa refeição com homens seriam ou escravas (cuja moralidade era assumida como deficiente) ou prostitutas.
Os cobradores de impostos também eram o contraponto na polémica contra os Fariseus. Temos a parábola de Lucas sobre o Fariseu e o cobrador de impostos:
9*Disse também a seguinte parábola a respeito de alguns que confiavam muito em si mesmos, tendo-se por justos e desprezando os demais. 10Dois homens subiram ao Templo para orar: Um fariseu e o outro publicano. 11O fariseu de pé, orava assim: ´Ó Deus, dou-Te graças por não ser como o resto dos homens, que são ladrões, injustos, adúlteros, nem como este publicano. 12Jejuo duas vezes por semana, pago o dízimo de tudo quanto possuo´. 13O publicano, mantendo-se à distância, nem sequer ousava levantar os olhos ao céu; mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pedacor´.14*†Eu vos digo: Este voltou justificado para sua casa e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado». (Lucas 18:9-14, Ibid. pág. 1390)
Zaqueu nas Tradições Oriental e Ocidental
Nas tradições Ortodoxas Orientais, a história de Zaqueu é lida no último domingo antes da Quaresma (conhecido como Domingo de Zaqueu). Foi selecionada por causa da humildade de Zaqueu ao descer da árvore e o seu subsequente arrependimento pelos seus pecados.
Nas tradições Cristãs Ocidentais, dado o seu nome significar "puro", é frequentemente relacionado ao Sermão da Montanha de Mateus: "†Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus" (5:8, Ibid., pág. 1292). Zaqueu é frequentemente contrastado com a história do jovem rico em Mateus 19:16-30, Marcos 10:17-31, Lucas 18:18-30: Ele perguntou a Jesus: "«Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna»?" (Lucas 18:19, Idib., pág. 1390) Depois de relatar que sempre seguiu a Lei de Moisés, “... Jesus disse-lhe: «Ainda te resta uma coisa: Vende tudo quanto tens distriui o dinheiro pelos pobres e terás um tesouro nos Céus. Depois, vem e segue-Me». (ibid., 18:22). Ao ouvir isto, entristeceu pois era muito rico.
Em 1166, em Rocamadour, na região de Dordogne, na França, foi descoberto um túmulo antigo contendo um corpo, apelidado pelos locais de Amator ("amante" ou "amigo"), e mais tarde foi identificado como Zaqueu com o detalhe adicional de que era casado com Santa Verónica. Ambos foram perseguidos e expulsos da Palestina, refugiaram-se na França, e após a morte de Verónica, Zaqueu tornou-se um eremita e fundou uma capela dedicada a Maria em Rocamadour.

