O Reino de Canem foi um império africano localizado no território que corresponde hoje ao Chade, que perdurou do século IX ao século XIV. Com o seu coração no centro do continente africano, nas margens orientais do lago Chade, o império foi formado através da confederação dos povos nómadas e depois governado pela dinastia sefaua. A cidade prosperou graças à sua posição como ponto de trocas comerciais com os povos centro-africanos, o vale do Nilo e os estados norte-africanos do outro lado do deserto Saara. O reino adotou o Islamismo depois de um longo contacto com clérigos e mercadores muçulmano do século XI em diante. Na década de 1390 o rei de Canem foi forçado a fugir dos invasores bulalas e, por isso, esabeleceu um novo Estado no outro lado do lago Chade, que viria a tornar-se o Império de Bornu, às vezes conhecido como o Império de Canem-Bornu, que perdurou até finais do século XIX.
Origens e Formação
O Reino de Canem, localizado a leste do lago Chade na África Central, ganhou o seu nome através das palavras teda e canúri para 'sul' (anem) que se refere à sua posição em relação aos estados do norte, mais conhecidos. Talvez o nome reflita também a tradição oral de que o povo de Canem migrou, outrora, do deserto do Saara depois de uma seca extrema. O processo que viu a formação do Reino de Canem é aqui sumarizado pelo historiador P. Curtin:
Canem passou por um processo de construção de Estado diferente do que aconteceu no Sudão ocidental. O seu núcleo foi uma confederação nómada de povos que falavam diferentes línguas do grupo teda-daza, provavelmente formada no século IX. Confederações nómadas deste tipo são comuns o suficiente na história; o fator incomum foi a longevidade desta em específico. Algum tempo antes do início do século XII torna-se sedentária, com Anjimi como a sua capital permanente. (75)
A primeira menção escrita de Canem data do ano 872, no trabalho do historiador e geógrafo árabe Iacubi (no seu Kitab al-Buldan). Ainda que o estado tivesse sido formado um século antes, as fontes confirmam este processo político ao sermos informados que a população é, à época, ainda composta maioritariamente por nómadas que viviam em cabanas de juncos e que ainda não teriam formado povoamentos permanentes. Também nos é contado que os reis de Canem (aqui e em outras fontes árabes chamadas Zaghawa) exerciam domínio sobre outros reis, provavelmente das tribos que eles haviam conquistado na região norte e este do lago Chade. O historiador árabe Almoalabi, no século X, escreve que o reino agora tem duas cidades e a sua riqueza é evidenciada pelos grandes grupos de gado, ovelhas, camelos e cavalos.
Os Reis de Canem
A partir de cerca de 1075, Canem foi governado pela dinastia sefaua (Sayfawa/Sefuwa) sobre uma população que acabou dominada pelo povo canúri. O rei tinha o título de Maí. Um dos mais notáveis foi o maí Dunama Dibbalemi (reinou cerca de 1221-1259), que expandiu o reino para norte e nordeste, para o deserto, muito graças ao uso da cavalaria. Comandantes militares foram recompensados pelo seu serviço, tornando-se governadores das regiões conquistadas e os casamentos entre as diferentes casas reais foram uma estratégia utilizada e testada pela cimentar novos chefes para o Canem. Tribos subjugadas eram obrigadas a pagar tributo aos reis de Canem, tipicamente na forma de escravos.
No final do século XIII, o reino estava no seu apogeu e controlava até os vitais oásis saarianos da região de Fezã, embora não tenha conseguido manter um território tão cobiçado por mais de meio século. Dibbalemi foi também um dos mais veementes opositores da antiga religião pagã. O rei muçulmano ordenou a destruição de objetos e símbolos associados às velhas crenças e impôs a lei islâmica. No entanto, a autoridade dos reis canemitas pareceu não estar completamente de acordo com a versão islâmica usual, como foi registado pelo autor árabe Iacute, no seu 'Dicionário dos Países' (Kitab Mu'jm al-Buldan), do século XIII:
Eles exaltam o seu rei e veneram-no em vez de Deus. Eles acreditam que ele não se alimenta. Há pessoas que estão encarregues da sua comida secretamente, e levam-na à sua casa. Não se sabe de onde ela vem. Se um dos seus súbditos descobrir os camelos a levar provisões, é morto nesse mesmo instante. Ele bebe na presença dos seus companheiros selecionados... A religião deles é o culto dos seus reis, já que acreditam que eles trazem a vida e a morte, a doença e a saúde.
(citado em Fage, 681)
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Adoção do Islão
Não é claro quando o reino adotou o Islão e em que circunstâncias, exceto é, que provavelmente não foi até inícios do século XIII que se tornou praticado pela vasta maioria da população, já que fontes árabes anteriores a essa época deixam explícito que o reino era ainda pagão. O primeiro rei canemita descrito como sendo muçulmano foi, contudo, muito anterior ao século XIII, Hu (também Hua, reinou 1067-1071) que pode, na verdade, ter sido uma rainha. A partir daí, vários líderes de Canem fizeram peregrinações a sítios sagrados islâmicos no norte de África e na Arábia. Além disso, um rei fundou uma instituição educacional muçulmana (madrasa) em Fostate, no Egito, em 1324.
A explicação mais plausível para os reis terem adotado o islamismo foi que, assim como em outros estados subsaarianos, isto servia a seu favor em relação ao mercadores muçulmanos, permitindo esbanjar maiores riquezas para impressionarem o seu povo e manterem-se no poder. Alternativamente, uma nova dinastia podia ter usado a adoção de uma nova religião como uma maneira de reforçar a sua legitimidade. As datas para a conversão ao Islamismo dos líderes de Canem e o início da dinastia sefaua acabam por coincidir. Certamente houve clérigos muçulmanos que viajavam como missionários - há registos de visitas a Canem a partir do século XI - por isso, a narrativa dos mercadores não oferece todas as razões para a disseminação desta religião. Adicionalmente, os missionários eram bem recebidos, pelo menos de acordo com fontes árabes, e eram-lhes oferecidos habitualmente presentes por ensinar o Alcorão, como camelos, escravos e moedas de ouro e prata. Canem foi invulgar no sentido em que um grande número de pessoas da classe baixa eventualmente adotaram o islamismo como religião, ao mesmo tempo que a elite governante, algo que não é o caso típico nos fenómenos similares pelo mundo.
Um Centro de Comércio
A partir de cerca de 900, o reino estava no fim de uma rota de caravana de camelos que atravessou o deserto do Saara, passando bens comerciais desde a Tripolitânia (atual Líbia) e o Cairo no Norte de África até à África Central. Esta rota transaariana foi uma das mais bem sucedidas, uma vez que era servida pelos oásis frequentes que enfeitavam a região de Fezã. Havia também uma rota para oriente e o vale do Nilo através das salinas de Cauar. Sal, cobre (também usado como moeda), estanho (da Nigéria), algodão, peles, noz-de-cola, marfim, penas de avestruz, camelos, e ouro transitavam pelo reino, assim como escravos eram ativamente tomados de chefaturas vizinhas pelos reis de Canem, ou oferecidos como tributo como já foi mencionado. A elite de Canem gastava a sua riqueza acumulada em luxos importados como roupa bordada, seda, joalharia e armas de ferro. Não apenas bens materiais eram passados por estas rotas, mas também ideias, estando acima de todas, como já vimos, o Islão.
O Império de Bornu
O Império de Bornu foi fundado por um rei exilado de Canem, Omar I, que foi forçado a fugir depois da tomada do seu reino entre 1390 e 1400 pelos bulalas, um grupo misterioso que pode ter sido uma só tribo ou um clã pastoril. Um fator que contribuiu para a derrota contra os bulalas foram as incessantes guerras civis que tomaram conta de Canem graças ao crescimento da família real e a luta pelo direito ao trono.
A dinastia governante de Canem tornou-se, de facto, o governo de Bornu. Contudo a maneira como estes se impuseram sobre os indígenas Saô da costa ocidental do lago Chade é pouco clara. Os Saô eventualmente assimilaram a língua e cultura canúri e esta decisão não deixou de ter vantagens para os reis canemitas, uma vez que a região ocidental do lago Chade era muito mais rica em depósitos de ferro. O Império de Bornu, às vezes referido como Império de Canem-Bornu, tinha a sua capital em Birni Gazargamu e cresceu ao ponto de controlar ambos os lados do lago Chade a partir do século XVI, acabando por recuperar o território perdido de Canem. O império duraria até finais do século XIX, quando foi tomado pelos franceses na sua busca em construir uma linha horizontal em África com as suas colónias.
