Migração dos Bantos

Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Bantu Farmers (by Amplitude Studios, Copyright)
Agricultores Bantos Amplitude Studios (Copyright)

A migração dos bantos, a partir das suas origens no sul da África Ocidental, foi um movimento populacional gradual que se espalhou pelas partes central, oriental e sul do continente, iniciada em meados do milénio II a.C. e terminando antes de 1500. Os bantos trouxeram novas tecnologias e habilidades, como o cultivo de colheitas de alto rendimento e a arte de trabalhar o ferro, produzindo ferramentas e armas mais eficazes.

Finalmente, os bantos dominaram, com exceção do deserto da África do Sul e da Namíbia, todo o continente africano a sul de uma linha que atravessa do sul da Nigéria ao Quénia. Ao todo, cerca de 500 línguas faladas hoje nesta vasta área são derivadas da língua Protobanta. Embora a maioria dos historiadores concorde sobre a ocorrência geral das migrações banto através de África, ainda debatem: os tempos precisos; as motivações; as rotas, e as consequências.

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Os Bantos

Os bantos eram agricultores que falavam vários dialetos da língua banta, centravam-se na região da savana e da floresta tropical em redor do Rio Níger, no sul da África Ocidental (atuais Nigéria, Camarões e Gabão). Usavam ferramentas de pedra e ferro, cultivavam com sucesso colheitas como milho-miúdo, sorgo, arroz seco, feijão, palmeiras-do-dendê e melões, embora o fizessem a um nível de subsistência, isto é, cultivavam apenas o suficiente para suprir as próprias necessidades. A partir de minério de ferro tinham a tecnologia para o transformar, mas desconhece-se a origem desta tecnologia, exceto que as três possibilidades mais prováveis são de o conhecimento ter sido introduzido: pelos fenícios no norte; pelos egípcios ou cuxitas no leste; ou foi adquirido localmente e de forma independente.

As ferramentas de ferro dos Bantu melhoraram os rendimentos agrícolas e as suas armas de ferro tornaram-nos formidáveis oponentes militares.

As ferramentas de ferro dos povos bantos melhoraram os rendimentos agrícolas e as as armas de ferro tornaram-nos formidáveis oponentes militares. Eram igualmente caçadores, criadores de gado (caprino, ovino e bovino), oleiros, tecelões e comerciantes, trocando bens como sal, cobre e minério de ferro por artigos que necessitavam.

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Migração para Leste e Sul

Durante o milénio II a.C., pequenos grupos populacionais de banto começaram a migrar para a África Central e, em seguida, para a região dos Grandes Lagos, na África Oriental. Este movimento pode ser rastreado pelo estudo da linguística – uma técnica conhecida como léxico estatística – e pela observação da proximidade relativa das línguas locais entre si e da língua falada originalmente pelos povos bantos do delta do Rio Níger: o Protobanta. Ao mesmo tempo, é preciso ser cauteloso com tais estudos, pois a passagem de uma língua pode não refletir necessariamente a migração dos seus falantes. O mesmo pode ser dito sobre as práticas culturais e tecnologias.

The Bantu Migration in Africa
A Migração dos Bantos na África Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

As Causas da Migração Banto

Os historiadores sugerem que a razão para a migração banto pode ser uma ou mais das seguintes:

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  • esgotamento de recursos locais – terras agrícolas, pastagens e florestas;
  • superpopulação;
  • fome;
  • epidemias;
  • aumento da competição por recursos locais;
  • guerra entre tribos rivais ou como consequência de disputas de sucessão;
  • mudança climática que afetou as colheitas;
  • um espírito de aventura.

Foram os povos banto que fundaram os povoados costeiros da África Oriental, que se tornariam, conjuntamente com os comerciantes muçulmanos da Arábia e da Pérsia a partir do século VII, a Costa Suaíli. Do sul da África Ocidental (os Banto Ocidentais) e do Grande Vale do Rift da África Oriental (os Banto Orientais), duas correntes dos povos banto viajaram, então, mais para sul numa segunda vaga de migração que ocorreu durante o milénio I a.C.. Ocorreu, depois, na primeira metade do milénio I d.C, uma terceira vaga de migração à medida que os povos Banto Orientais se deslocavam ainda mais para sul, para o que é hoje o Zimbábue, o Botswana, o Moçambique e o leste da África do Sul.

The Great Enclosure, Great Zimbabwe
O Grande Recinto, Grande Zimbábue Janice Bell (CC BY-SA)

O processo da migração banto tem sido tradicionalmente visto pelos académicos como um movimento gradual de filtração de aldeia em aldeia (e, por vezes, de regresso) através de uma África bastante pouco povoada. No entanto, a História Geral da África (HGA) da UNESCO apresenta uma perspetiva um tanto diferente sobre o processo, pelo menos no que diz respeito à primeira vaga:

A principal expansão dos bantos foi vasta e rápida, e não uma série de fases graduais como alguns argumentaram. Não foi uma questão de vaguear nómada sem propósito, nem de conquista militar organizada. Foi um notável processo de colonização – no verdadeiro sentido da palavra – a abertura de terras essencialmente vazias. (Mokhtar, pág. 320)

Os Banto partilharam os seus conhecimentos de fundição de ferro, olaria e as suas habilidades agrícolas com as tribos indígenas de caçadores-coletores e nómadas que encontraram, muitas das quais acabaram por se fixar em comunidades estáveis de aldeias. Adotaram os dialetos e aspetos da cultura banto, contudo é importante notar, os migrantes também aprenderam com os povos indígenas, especialmente em áreas como o cultivo de algumas culturas de cereais ou técnicas de pesca que tinham sido aperfeiçoadas ao longo de séculos para tirar o melhor proveito das condições ambientais locais específicas. Além disso, muitas práticas culturais – o uso de ferramentas de pedra e obsidiana, para dar apenas um exemplo – muitas vezes continuaram a ser usadas em paralelo com as tecnologias superiores dos povos Banto.

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Efeitos da Migração Banto

Desta forma, podem-se resumir as principais consequências da migração Banto como:

  • a propagação das línguas banta e suas relacionadas;
  • a propagação da tecnologia de fundição e forja do ferro;
  • a propagação das técnicas de olaria;
  • a propagação de ferramentas e técnicas agrícolas;
  • a desflorestação, pois era necessário carvão para fundir o ferro e as ferramentas de metal tornaram a limpeza da floresta mais fácil;
  • a propagação de certas culturas agrícolas para novas áreas, como banana-pão e inhame;
  • um aumento de pessoas a viver em aldeias, o que, por sua vez, criou sociedades regionais mais distintas, formaram-se reinos; e mais desenvolvimentos na tecnologia;
  • o recuo de alguns povos indígenas para áreas mais remotas.

Como os povos que os banto encontraram ainda estavam na Idade da Pedra em termos de armas e tecnologia, os migrantes, armados com ferro e a sua casta guerreira especializada, tiveram pouca dificuldade em impor-se por onde passavam. A sua tecnologia superior também encorajou os povos locais a aceitarem a liderança banto. Alguns grupos resistiram a esta onda de cultura banto, como os 'pigmeus', que recuaram para as profundezas das florestas tropicais da África Central, ou os grupos de caçadores-coletores da savana, os San, que também recuaram para o ambiente inóspito e menos acessível do Deserto do Kalahari.

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Perguntas & Respostas

O que causou a migração dos bantos?

A migração dos bantos foi causada por vários fatores, incluindo a procura por novas terras e recursos, fome, superpopulação, aumento da competição por recursos e alterações climáticas regionais.

O que é a migração banto e por que é importante?

A migração banto foi um grande movimento populacional ao longo do tempo, do sul da África Ocidental para a África Central, Oriental e Austral. O movimento disseminou novas tecnologias, métodos agrícolas e línguas.

Quais foram os efeitos da migração banto?

Os efeitos da migração banto incluíram a disseminação para outras partes da África de novas tecnologias, como ferramentas de ferro, técnicas agrícolas, cerâmica, novos alimentos, língua e um aumento no número de pessoas vivendo juntas em aldeias.

Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Jornalista brasileiro que vive no Rio de Janeiro. Seus principais interesses são a República Romana e os povos da Mesoamérica, entre outros temas.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
Mark é escritor, pesquisador, historiador e editor. Tem grande interesse por arte, arquitetura e por descobrir as ideias compartilhadas por todas as civilizações. Possui mestrado em Filosofia Política e é Diretor Editorial da WHE.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Cartwright, M. (2025, outubro 20). Migração dos Bantos. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-18107/migracao-dos-bantos/

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Cartwright, Mark. "Migração dos Bantos." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, outubro 20, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-18107/migracao-dos-bantos/.

Estilo MLA

Cartwright, Mark. "Migração dos Bantos." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 20 out 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-18107/migracao-dos-bantos/.

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