Dinastia Yuan

Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Figure of a Mongol, Yuan Dynasty (by Metropolitan Museum of Art, Copyright)
Estatueta de um Mongol, Dinastia Yuan Metropolitan Museum of Art (Copyright)

A Dinastia Yuan foi fundada pelos mongóis e governou a China de 1271 a 1368, sendo o seu primeiro imperador Kublai Khan (reinou de 1260-1294), que, finalmente, derrotou a dinastia Song (reinava na China desde 960). A estabilidade e a paz na China trouxeram uma certa prosperidade económica para alguns, uma vez que Kublai e os seus sucessores promoveram o comércio internacional, o que levou o país agora unificado a abrir-se para o mundo. Embora houvesse paz na parte ocidental do Império Mongol, Kublai efectou duas malsucedidas invasões ao Japão e várias outras noutros locais do Sudeste Asiático. O reinado dos mongóis na China chegou finalmente ao fim devido a uma combinação letal de lutas internas intermináveis entre os seus líderes; um governo inepto e corrupto que gastava e tributava em excesso; inundações, e fomes. As revoltas camponesas continuaram ao longo do século XIV até que uma delas, liderada pela Rebelião dos Turbantes Vermelhos, derrubou a dinastia Yuan e instaurou um novo regime, a dinastia Ming (1368-1644).

Kublai Khan e os Song

Em 1268, Kublai Khan concentrou-se em finalmente derrubar a dinastia Song e estabelecer-se, tal como todos os líderes nómadas antes dele sonhavam, como imperador da China. Os mongóis já tinham feito vários ataques ao território Song, principalmente durante os reinados de Gengis Khan (igualmente conhecido por Gêngis Khan) (reinou 1206-1227) em 1212-1215 e de Mongke Khan (reinou 1251-1259) em 1257-1260. Equipada com um exército de mais de 1 000 000 de homens, uma grande frota naval e uma riqueza imensa, a China da Dinastia Song provaria ser um adversário obstinado para a máquina militar mongol, de outra forma invencível. O sucesso da guerra mongol por todo o território asiático baseava-se na rápida investida de cavalaria, mas os Song contrariaram esta táctica, adotando deliberadamente uma estratégia de guerra mais estática e construindo grandes fortificações em cidades importantes e travessias de rios. Por esta razão, Kublai demoraria onze longos anos para eliminar os seus alvos um por um e finalmente subjugar os Song.

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Em 1279 foi a primeira vez que a China foi unificada desde o século IX.

Os mongóis foram ajudados por muitos generais Song que desertaram ou renderam os seus exércitos, e pelo facto da corte imperial estar assolada por lutas internas entre os conselheiros do imperador infantil. Por fim, a 28 de março de 1276, a imperatriz viúva e o seu jovem filho, o imperador Gongzong (reinou 1274-5), renderam-se juntamente com a sua capital Lin'an. A família real Song foi levada prisioneira para a nova capital de Kublai, em Pequim (Daidu). Os grupos leais lutaram por mais três anos, instalando mais dois jovens imperadores no processo (Duanzong e Dibing), mas os mongóis varreram tudo o que se atravessava à sua frente. Finalmente, a 19 de março de 1279, vecenram uma grande batalha naval em Yaishan (perto da atual Macau); a conquista mongol da China estava completa. Era a primeira vez que o país era unificado desde o século IX, mas isto não era de grande consolo para os inúmeros que pereceram, foram roubados e deslocados por toda a China.

Map of Yuan Dynasty China
Mapa da Dinastia Yuan, China Arab Hafez (Public Domain)

Estabelecimento do Governo

Tornando-se imperador da China, Kublai auto-denominou-se de Reinado Shizu e, em 1271, à sua nova dinastia o nome «Yuan», que significa «origem» ou «centro, eixo principal». A data de início da dinastia Yuan é variadamente situada em 1260 (campanha de Mongke), 1271 (primeiro uso oficial do título da dinastia «Yuan»), 1276 (morte do último imperador Song e queda da capital Song) ou 1279 (extinção final da resistência Song).

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Kublai assegurou que os mongóis sempre tivessem vantagem na China, classificando-os oficialmente como superiores em posição social aos chineses.

A partir de Kublai, os governantes mongóis fizeram algumas ténues tentativas de agradar aos novos súbditos chineses, adotando tradições como vestes imperiais, viagens em liteiras e cercando-se de conselheiros confucionistas. Porém, o poder real permaneceu nas mãos dos mongóis, já que os cargos administrativos-chave nas 12 recém-criadas províncias semi-autónomas, nas quais a China e o norte da Coreia (anexada em 1270) estavam agora divididas, foram em grande parte para os mongóis, especialmente para os membros da numerosa guarda imperial mongol. Os seis ministérios tradicionais chineses, em vigor desde a dinastia Tang (618-907), continuaram como antes, mas havia também instituições mongóis, como o Shumi Yuan ou Ministério da Guerra.

Kublai aboliu os exames da função pública, que teriam favorecido os funcionários chineses com a sua educação confucionista (tendo sido restabelecidos em 1313, contudo os mongóis ainda eram beneficiados). Embora muitos funcionários chineses continuassem a trabalhar como antes, estavam sujeitos a inspeções aleatórias e secretas por censores de confiança dos mongóis. O funcionário regional mongol conhecido como jarquchi era nomeado para os territórios chineses, e estes e representantes dos vários clãs mongóis formavam um governo local para cada província. A força policial mongol, a tutqaul, garantia que as estradas eram mantidas livres de bandidos, e frequentemente os asiáticos ocidentais, particularmente os muçulmanos, recebiam funções na área financeira do governo, como ministros das finanças e inspetores fiscais.

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Uma Nova Ordem Social

Kublai garantiu que os mongóis tivessem sempre em vantagem na China, classificando-os oficialmente como superiores em posição social aos chineses. As quatro posições oficiais da dinastia Yuan, baseadas na lealdade percebida aos governantes Yuan, eram:

  • Mongóis;
  • Semu - pessoas da Ásia Central e/ou falantes de línguas turcas;
  • Hanren - chineses do norte, tibetanos, kitanos, jurchen e outros;
  • Nanren - chineses do sul formalmente governados pelos Song.

Ser membro de uma das quatro classes acima tinha repercussões no estatuto fiscal, no tratamento que recebia do sistema judicial e na sua elegibilidade para cargos na administração estatal (havia uma quota máxima de 25% para os chineses do sul, por exemplo). As diferenças de tratamento incluíam o facto dos chineses do norte serem tributados por família, enquanto os chineses do sul pagavam de acordo com a área de terra que possuíam. As punições eram marcadamente diferentes, como por exemplo: um mongol considerado culpado de homicídio teria apenas de pagar uma multa, enquanto que um chinês do sul condenado por um mero furto era multado e depois tatuado como criminoso. O novo código legal introduzido em 1270, no entanto, tinha apenas 135 crimes capitais, metade dos que constavam do código usado pelos Song.

Ink Painting of Groom & Horse
Gravura de Tratador e Cavalo Metropolitan Museum of Art (Copyright)

Outras medidas de segregação incluíam a proibição dos chineses de adotar nomes mongóis, usar roupas mongóis ou aprender a língua mongol; bem como eram desencorajados os casamentos mistos. No entanto, em vez de ser uma política motivada exclusivamente por questões raciais, Kublai e os seus sucessores estavam mais preocupados em controlar os súbditos, facilitando a identificação de quem era quem e garantindo que não houvesse rebeliões; os chineses estavam proibidos de ter armas e reunir-se em público, por exemplo.

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Pelo menos as religiões tradicionais foram autorizadas a continuar, desde que não ameaçassem o Estado, embora o budismo fosse geralmente preferido ao confucionismo tradicional chinês. Embora o próprio Kublai se tenha convertido ao budismo tibetano (lamaísta), continuou a preferência dos mongóis pelo xamanismo. Além disso, apesar da discriminação óbvia, os sulistas mantiveram a sua cultura chinesa clássica muito viva por meio de reuniões privadas e das artes, muitas vezes produzindo pinturas, poesia e peças de teatro que transmitiam protestos sutis contra o regime Yuan. Esta última forma de arte, que incluía teatro de marionetas e atores ao vivo, prosperou sob o Yuan devido ao seu apelo visual e histórias marcantes; os mongóis, incapazes de falar chinês, tinham pouco tempo para prosa e poesia.

Política Externa e Comércio

Kublai Khan estava particularmente interessado em restabelecer o sistema tributário chinês, que tinha sido negligenciado durante a última parte do reinado da dinastia Song. O sistema obrigava os estados a pagar tributos simbólicos e materiais à posição dominante da China como centro do mundo conhecido, o «Império do Meio». Não só era um meio de legitimar ainda mais a posição como imperador chinês, como também podia trazer bens materiais úteis e ajudar a expandir o comércio internacional. Havia também a questão dos governantes mongóis legitimarem a sua posição através da conquista e da distribuição dos espólios aos seus partidários para garantir a lealdade e a continuidade do serviço. Deste modo, Kublai embarcou numa série de campanhas para trazer os vizinhos da China de volta à sua antiga posição de subserviência ao imperador.

Mongol Empire Under Kublai Khan
Império Mongol sob Kublai Khan Arienne King (CC BY-NC-SA)

O Japão foi invadido duas vezes (1274 e 1281), mas em ambas as ocasiões a resistência firme e as tempestades fortuitas, os kamikaze ou «ventos divinos», forçaram a retirada. Tal como o Japão, o Sudeste Asiático foi atacado em várias campanhas terrestres e navais, mas também se revelou um prémio difícil de alcançar, com invasões ao Vietname (1281 e 1286), à Birmânia (1277 e 1287) e a Java (1292) a alcançarem apenas um sucesso limitado, mas pelo menos a obterem tributos regulares do reino pagão da Birmânia e dos reinos Champa e Dai Viet do Vietname. Parecia que a condução da guerra naval no exterior e o clima desconhecido do Sudeste Asiático eram obstáculos intransponíveis para a expansão Yuan. Porém, Kublai nunca desistiu do Japão, e continuou a enviar missões diplomáticas malsucedidas para persuadir o país a aderir ao sistema tributário chinês.

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Noutras partes da Ásia, a oeste, havia uma paz relativa, a chamada Pax Mongolica, embora no início da década de 1290, tenha havido uma grande rebelião no Tibete e os outros descendentes de Genghis Khan, especialmente os Ogedeids, continuassem a atacar as fronteiras ocidentais da China. No entanto, os mongóis como grupo étnico, ao forjarem um império do Mar Negro à península coreana (mesmo que agora dividido em grandes canatos governados pelos descendentes de Genghis Khan), conseguiram expôr a China a um mundo mais amplo. Isto foi especialmente verdadeiro em relação ao oeste, com contatos através da Pérsia e, graças a missionários, embaixadores e viajantes como Marco Polo (1254-1324), à Europa. Entre 1275 e 1292, Marco Polo trabalhou para Kublai Khan, aparentemente na qualidade de embaixador/repórter itinerante nas partes mais remotas do Império Mongol. Ao regressar a casa, Marco Polo escreveu sobre as suas experiências no livro As Viagens de Marco Polo publicado pela primeira vez em 1298, cuja descrições estão entre as nossas melhores fontes sobre a dinastia Yuan e o imperador, em particular.

Com benefícios mais concretos para os mongóis e chineses do que a fama mundial, a dinastia Yuan também promoveu o comércio internacional; os artesãos e artesãos receberam um estatuto mais elevado do que anteriormente e isenções fiscais; e os comerciantes, não sendo produtores, mas «trocadores», tinham sido discriminados sob a dinastia Song, beneficiavam, agora, de medidas fiscais mais favoráveis, empréstimos de baixo custo e o fim das regulamentações sumptuárias. Os comerciantes foram incentivados a usar papel-moeda (as trocas de moeda tinham melhor regulamentação), a usar mais estradas, bem como os canais (incluindo o Grande Canal que ligava o sul e o norte da China) recorrendo ao uso de navios oceânicos para auxiliar o transporte das mercadorias. O efeito destas políticas foi criar um incremento no artesanato e no comércio, especialmente da seda e da porcelana fina, sendo o último produto, agora, supervisionado por uma agência governamental específica, abrindo caminho para que os ceramistas Ming posteriores ganhassem a fama mundial por conta própria. O comércio também trouxe uma maior troca de ideias e tecnologias, como o conhecimento persa de observações astronómicas, mapas, tecelagem de têxteis de luxo e irrigação, que chegaram à China, e armas de pólvora, impressão, bússola marítima e papel-moeda, que enviados para o Ocidente. O Islão também se espalhou mais para o leste, à medida que os comerciantes cruzavam a Ásia.

Yuan Dynasty Bank Note & Plate
Nota de Banco e Placa da Dinastia Yuan PHGCOM (CC BY-SA)

Um Longo Declínio

Kublai foi sucedido pelo seu neto Temur Oljeitu como Cã e imperador da China (reinou 1295-1307) que, dando continuidade às mesmas instituições e mantendo muitos dos funcionários nomeados pelo seu avô, desfrutou de um reinado pacífico e bem-sucedido. Seguiu-se então uma longa linha de governantes de curto reinado que lutaram para equilibrar os tradicionalistas pró-chineses e pró-mongóis rivais que dividiam o governo em todos os níveis. Esta rivalidade, por vezes, degenerava em violência, com um imperador a ser assassinado e outro a ser deposto na sequência de um golpe de Estado. Além disso, muitos chineses do sul, especialmente a classe intelectual, agarravam-se às suas tradições, alguns recusando-se mesmo a reconhecer a própria existência dos senhores mongóis e retirando-se para se dedicarem às artes.

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Colapso e Dinastia Ming

Em meados do século XIV, os governantes Yuan foram assolados por uma combinação devastadora de invernos excepcionalmente frios, de fomes, de pragas e de inundações do rio Amarelo, que se combinaram para provocar hiper-inflação quando o governo tentou resolver os problemas das infraestruturas danificadas imprimindo demasiado papel-moeda. Seguiu-se o banditismo generalizado e as revoltas por parte de camponeses sobrecarregados com os impostos. Pior ainda, algumas das elites locais e administradores provinciais no sul da China estavam a conspirar com bandidos, contrabandistas e até líderes religiosos para obter o controlo de cidades inteiras. A China Yuan estava a desintegrar-se por dentro.

Os governantes Yuan não se ajudaram a si próprios ao disputarem o poder, criarem uma burocracia exagerada e a desperdiçarem receitas e os recursos terrestres com o favorecimento de alguns príncipes e generais. Mais importante ainda, não conseguiram reprimir as inúmeras rebeliões, incluindo a perpetrada por um grupo conhecido como Rebelião dos Turbantes Vermelhos, um desdobramento do Movimento Budista da Lótus Branca, liderado por um camponês chamado Zhu Yuanzhang (1328-1398), que substituíu o objetivo político tradicional do Turbante Vermelho de restaurar a antiga dinastia Song pelas suas próprias ambições pessoais de governar e obteve um apoio mais lato ao abandonar as políticas anti-confucionistas que tinham alienado as classes educadas chinesas. Sozinho entre os muitos líderes rebeldes da época, Zhu compreendeu que, para estabelecer um governo estável, precisava de administradores e não apenas de guerreiros que procuravam saques.

O primeiro grande golpe de Zhu Yuanzhang foi a captura de Nanjing em 1356; os sucessos continuaram, e derrotou os seus dois principais líderes rebeldes rivais e os seus exércitos, primeiro Chen Youliang na batalha do Lago Poyang (1363) e depois Zhang Shicheng em 1367. Zhu tornou-se o líder mais poderoso da China e, após conquistar Pequim, o último imperador Yuan de uma China unificada, Toghon Temur (reinou 1333-1368), fugiu para a Mongólia e para a antiga capital Karakorum, agora praticamente abandonada. Os Yuan continuariam, assim, a governar na Mongólia sob o novo nome de Dinastia Yuan do Norte (1368-1635). Entretanto, Zhu autoproclamou-se governante da China em janeiro de 1368, assumindo o nome de reinado de Imperador Hongwu (que significa «abundantemente conjugal») e fundou a dinastia Ming (que significa «brilhante» ou «luz»).

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Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Jornalista brasileiro que vive no Rio de Janeiro. Seus principais interesses são a República Romana e os povos da Mesoamérica, entre outros temas.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
Mark é escritor, pesquisador, historiador e editor. Tem grande interesse por arte, arquitetura e por descobrir as ideias compartilhadas por todas as civilizações. Possui mestrado em Filosofia Política e é Diretor Editorial da WHE.

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Estilo APA

Cartwright, M. (2025, novembro 19). Dinastia Yuan. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17802/dinastia-yuan/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "Dinastia Yuan." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, novembro 19, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17802/dinastia-yuan/.

Estilo MLA

Cartwright, Mark. "Dinastia Yuan." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 19 nov 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17802/dinastia-yuan/.

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