A dinastia Song (também conhecida como Sung) governou a China desde o ano de 960 a 1279, com o reinado dividido em dois períodos: a Dinastia Song do Norte (960-1125) e a Dinastia Song do Sul (1125-1279). A Dinastia Song do Norte governou uma China amplamente unificada a partir da capital Kaifeng, mas quando a parte norte do estado foi invadida pelo estado Jin no primeiro quartel do século XII, Song mudou a capital para Hangzhou, no sul. Apesar da relativa modernização da China e da grande riqueza económica durante este período, a corte Song estava tão atormentada por facções políticas e conservadorismo que o estado não conseguiu resistir ao desafio da invasão mongol e entrou em colapso no ano 1279, sendo substituído pela dinastia Yuan.
A Fundação
O caos e o vazio político causados pelo colapso da dinastia Tang (618-907) levaram à divisão da China em cinco dinastias e dez reinos, mas um senhor da guerra, como já tinha acontecido tantas vezes antes, aceitou o desafio e reuniu pelo menos alguns dos vários estados, restaurando uma aparência de China unificada. A dinastia Song foi, assim, fundada pelo general Zhao Kuangyin (927-976) da dinastia Zhou Posterior, que foi endossado como imperador pelo exército no ano de 960. O título de reinado seria Taizu ("Grande Progenitor"). Para garantir que nenhum general rival se tornasse poderoso demais e ganhasse o apoio necessário para tomar o trono, o imperador introduziu um sistema de rotatividade para os líderes do exército e eliminou toda a oposição. Além disso, garantiu que o serviço público passasse a ter um estatuto mais elevado do que o exército, actuando como órgão supervisor.
O imperador Taizu de Song foi sucedido pelo irmão mais novo, o imperador Taizong ("Grande Ancestral"), que reinou de 976 a 997. A estabilidade proporcionada pelos longos reinados dos dois primeiros imperadores (pelo menos em comparação com os séculos anteriores caóticos) deu à dinastia Song o início necessário para se tornar uma das mais bem-sucedidas da história da China.
A Consolidação e o Governo
Taizu pode ter conquistado grande parte da China central, mas nem ele nem os seus sucessores conseguiram conquistar a dinastia Khitan Liao, no norte, que ainda controlava a área defensiva vital da Grande Muralha da China. De facto, os cavaleiros Khitan eram tão superiores que invadiram a China Song à vontade, e os imperadores Song foram obrigados a pagar-lhes um tributo anual em prata e seda. Eles também reconheceram o governante Khitan como um imperador por direito próprio. Uma situação semelhante surgiu com o estado Tangut Xia, a noroeste. Após uma derrota em 1044, também lhes foi pago um tributo, para que os imperadores Song pudessem manter uma fronteira pacífica e se concentrar em consolidar o domínio sobre a China central e administrar os 100 milhões de súditos. Os pagamentos de tributos eram enormes, mas menores do que os custos de uma guerra ou da manutenção de uma presença militar constante na região. Além disso, como o comércio prosperava entre oes estados, grande parte do valor do tributo, de qualquer forma, voltava para a China como pagamento pelas exportações chinesas.
Embora os Song tenham conseguido governar uma China unificada após um período significativo de divisão, o reinado foi assolado por problemas decorrentes de um novo clima político e intelectual que questionava a autoridade imperial e procurava explicar onde tinha errado nos últimos anos da dinastia Tang. Um sintoma deste novo pensamento foi o renascimento dos ideais do confucionismo, o neoconfucionismo, como passou a ser chamado, que enfatizava o aprimoramento do 'eu' dentro de uma estrutura metafísica mais racional. A nova abordagem do confucionismo, com o acréscimo metafísico, permitiu agora uma reversão da proeminência que os Tang deram ao budismo, visto por muitos intelectuais como uma religião não chinesa.
Os conflitos entre ideais políticos e religiosos na corte frequentemente levavam a facções prejudiciais e exílios, contudo o verdadeiro problema, é claro, nunca foi realmente abordado: a enorme desigualdade de riqueza que assolava a China há séculos. Uma tentativa de reforma foi as Novas Políticas do chanceler Wang Anshi (1021-1086), que queria aliviar o fardo dos elementos mais pobres da sociedade: promoveu reformas como a substituição do serviço de trabalho disruptivo por um imposto em espécie; a oferta de empréstimos a juros baixos; e a realização de novos levantamentos de terras que procuravam atribuir de forma mais justa as obrigações fiscais. No entanto, as reformas encontraram oposição quase total por parte dos administradores locais, cujo interesse era o status quo e a rede bem estabelecida de amigos e pagamentos. A realidade prática era que, embora mais pessoas do que nunca tivessem a oportunidade de ingressar na classe dos burocratas-eruditos que governavam o Estado chinês em nível nacional e local, e mesmo que a aristocracia inferior tivesse ampliado significativamente a sua base, a grande maioria da população durante a dinastia Song continuava, como sempre, sendo composta por agricultores sobrecarregados de trabalho e de impostos.
A Economia
Se a política Song era um pouco problemática para os imperadores, pelo menos a economia estava em expansão. Kaifeng, que já fora capital em dinastias anteriores, era uma das grandes metrópoles do mundo sob o domínio Song. Com uma população de cerca de um milhão de habitantes, a cidade beneficiava da industrialização e era bem abastecida pelas minas próximas que produziam carvão e ferro. Um importante centro comercial, Kaifeng era especialmente famosa por suas indústrias de impressão, papel, têxtil e porcelana, cujos produtos eram exportados pela Rota da Seda e pelo Oceano Índico, juntamente com o chá, a seda, o arroz e o cobre. As importações incluíam cavalos, camelos, ovelhas, tecidos de algodão, marfim, pedras preciosas e especiarias.
Em geral, a agricultura tornou-se muito mais eficiente, e os agricultores passaram a produzir mais do que o necessário para as suas próprias necessidades. As cidades ficaram mais densamente povoadas, os mercados prosperaram e os agricultores rurais começaram a cultivar produtos que sabiam que teriam preços altos, como o açúcar, as laranjas, o algodão, a seda e o chá. Foram construídos milhares de embarcações para transportar todos estes produtos por canais e mar até onde havia procura, e, assim, uma outra indústria se tornou uma história de sucesso. As empresas tornaram-se maiores e mais sofisticadas, com diferentes níveis de gestão e propriedade; desenvolveram-se guildas, grossistas, parcerias e sociedades anónimas à medida que a economia chinesa começou lentamente a assumir uma aparência mais semelhante ao modelo industrial actual.
A Artes e as Ciências
A China sob o domínio da dinastia Song tornou-se uma nação mais modernizada e industrializada graças às inovações em maquinaria, agricultura e processos de fabrico. Invenções significativas ou melhorias em ideias existentes incluíram embarcações com rodas de pás, pólvora, papel-moeda, bússola fixa, leme de popa, comportas em canais e a imprensa de tipos móveis. Foram produzidas armaduras de ferro e espadas de aço de alta qualidade em série, possibilitado pelos foles movidos a água que criavam fornos superaquecidos.
A literatura floresceu durante a dinastia Song. Lie Jie escreveu um famoso tratado sobre arquitetura, Yingzao fashi (1103), foram escritas enciclopédias, bem como obras históricas famosas como Zizhi tongjian (Espelho Abrangente para Auxiliar o Governo), de Sima Guang, publicado em 1084, que cobriu a história chinesa de 403 a.C. a 959 d.C. O período viu a publicação de muitas obras de poesia. Um dos poetas mais famosos é Su Dongpo (1037-1101), que escreveu, como muitos dos seus contemporâneos, sobre o amor, a solidão e a tristeza. As mulheres do período Song podem ter tido uma vida menos favorável do que as suas antecessoras, e práticas como o enfaixamento dos pés, em particular, tornaram-se mais comuns, mas uma poetisa de renome foi Li Qingzhao, que descreveu o exílio da sua família em 1127 e sua tristeza pela morte prematura do marido.
As artes visuais, em geral, floresceram, impulsionadas por uma crescente procura da classe média cada vez mais rica. A porcelana fina e o teatro eram populares entre a nova elite urbana. As pinturas de paisagens procuravam um maior realismo, sendo uma das mais famosas Viajando entre Montes e Rios, uma tapeçaria de seda de 2 x 1 metro de Fan Kuan (cerca de 990-1030). Igualmente muito popular entre os artistas da dinastia Song foi a pintura de flores e vida selvagem, especialmente de pássaros. Tal foi o desenvolvimento da apreciação pela arte que muitas das obras dos artistas mais célebres foram copiadas de forma engenhosa, e estas falsificações, às vezes completas com o selo em relevo do artista famoso, continuam a enganar os antiquários até hoje.
A Ameaças Territoriais
No início do século XII, a posição da China como senhora da Ásia Oriental voltava a ser crescentemente ameaçada por ataques, a norte, por parte dos estados Liao e Xia. Ainda mais perigosos eram os Jurchen, tribos do nordeste da China, ancestrais dos manchus, falavam a língua tungúsica e tinham declarado o seu próprio estado, o Jin, em 1115. Os Song aproveitaram as ambições territoriais e os dois estados uniram forças para derrotar os Liao. Infelizmente, apesar de terem alcançado o objectivo, os Song ficaram expostos pela sua própria fraqueza militar. Assim, em 1125, o estado Jin atacou partes do norte da China que nem mesmo o grande general Tong Guan (1054-1126) conseguiu deter. O imperador Huizong (reinou 1100-1126) foi capturado junto com milhares de outras pessoas e, além da perda de uma enorme faixa de território, os Song foram obrigados a pagar aos Jurchen um resgate enorme para evitar mais perdas de vidas.
A derrota obrigou a corte Song a se mudar para o Vale do Yangtze, e acabaram por estabelecer uma nova capital em 1138, em Hangzhou (também conhecida como Linan), na província de Zhejiang. Este foi o início da dinastia Song do Sul. A redução das terras dos Song não prejudicou a economia em expansão, pois, felizmente, os grandes portos comerciais da nova capital, Quanzhou e Fuzhou, ficavam todos no sul e continuaram a prosperar como cidades multinacionais, onde se estabeleceram permanentemente um número significativo de imigrantes muçulmanos e hindus. O sul também era muito mais fértil e continuava a produzir excedentes a cada colheita.
Em 1127, o exército Song nomeou um dos filhos sobreviventes de Huizong como imperador, que assumiu o título de Gaozong (reinou 1127-1162). Após algumas tentativas sem entusiasmo, quaisquer planos para recuperar as terras perdidas do estado Jin foram oficialmente abandonados e em 1141 assinou-se um tratado de paz. Felizmente para o imperador Song, ainda controlava a parte mais rica do antigo estado e cerca de 60% da população. Hangzhou prosperou: famosa pelos seus canais e jardins pitorescos, era um próspero centro comercial produtor de seda e navios, com uma população de mais de um milhão de habitantes. As derrotas militares também fizeram com que os governantes e intelectuais Song repensassem a estratégia e se esforçassem mais para ajudar todos os níveis da sociedade. Na capital, os pobres recebiam doações e assistência médica gratuitas, por exemplo.
A Invasão Mongol
Justamente quando os Song se acostumavam ao seu novo estado após a tremenda agitação causada pelos Jurchen, surgiu uma ameaça ainda maior, e mais uma vez, vinda do norte. As tribos nómadas mongóis reuniram-se sob a liderança de Gengis Khan (ou Gêngis Khan, reinou 1206-1227), atacaram e saquearam repetidamente os estados de Xia e Jin nas três primeiras décadas do século XIII. Os Song pensaram que seriam os próximos e, por isso, prepararam os exércitos, em grande parte financiados pela riqueza confiscada da aristocracia rural — uma política que não contribuiu em nada para a unidade interna. No entanto, houve uma trégua, pois os mongóis estavam ocupados expandindo o seu império para a Ásia Ocidental.
Foi somente em 1268 que o líder mongol Kublai Khan (reinou 1260-1294) voltou as suas atenções para as terras ao sul do rio Yangtze. Primeiro, a cidade estrategicamente importante de Xiangyang foi sitiada e caiu em 1273 graças à persistência dos mongóis e as suas catapultas superiores. Os invasores cruzaram o Yangtze em 1275 e mostraram-se imparáveis. Com muitos generais Song desertando ou rendendo os seus exércitos, uma corte assolada por disputas internas entre os conselheiros do imperador infantil e o massacre implacável de toda a cidade de Changzhou, o fim da dinastia Song estava definitivamente próximo. A imperatriz viúva e o seu jovem filho, o imperador Gongzong (reinou 1274-5), renderam-se e foram levados como prisioneiros para a cidade de Pequim, no norte. Alguns grupos de leais continuaram a lutar por mais três anos, instalando mais dois jovens imperadores no processo (Duanzong e Dibing), mas os mongóis varreram tudo à sua frente, estabelecendo a dinastia Yuan (1271-1368) na China e, em seguida, avançaram para o Vietname. O estado Song apesar de ser rico o suficiente, pagou caro pela sua falta de unidade política, investimento militar e inovação em armas, tornou-se parte do vasto império mongol, que agora cobria um quinto do globo.
