Papiro Egípcio

Joshua J. Mark
por , traduzido por Nazareth Accioli Lobato
publicado em
Translations
Versão Áudio Imprimir PDF
Papyrus (by Andy Polaine, CC BY-NC-SA)
Papiro Andy Polaine (CC BY-NC-SA)

O papiro é uma planta (cyperus papyrus), que antigamente crescia em grande quantidade, principalmente nas regiões selvagens do Delta egípcio e em outros locais no Vale do Rio Nilo. Hoje em dia, no entanto, vem a ser uma planta bastante rara. Os botões do papiro brotavam de uma raiz horizontal, que crescia na água doce rasa e na lama muito alagada do Delta. Seus caules atingiam a altura de cinco metros, e terminavam em pequenas flores marrons, que geralmente produziam frutos. Essas plantas, no início, faziam parte somente da vegetação natural da região. No entanto, quando as pessoas descobriram seus fins utilitários, passaram a ser cultivadas e gerenciadas em fazendas, onde eram colhidas em grande quantidade e tinham seu estoque esvaziado. Atualmente o papiro ainda é encontrado no Egito, porém em quantidade bastante reduzida.

O papiro do Egito está mais intimamente associado à escrita – de fato, a palavra inglesa paper vem da palavra papyrus –, mas os egípcios encontraram diversos usos para a planta, além de sua utilização como superfície para documentos e textos. O papiro era usado como fonte de alimentação e para fazer cordas, sandálias, caixas, cestos, esteiras, persianas para janelas, brinquedos - como bonecos -, amuletos para prevenir doenças da garganta, e até mesmo para fabricar pequenos barcos de pesca. Também desempenhou seu papel na devoção religiosa, pois com frequência era amarrado para formar o símbolo da ankh, ofertada aos deuses como um presente. O papiro também serviu como símbolo político através de seu uso no Sma-Tawy, símbolo da união entre o Alto e o Baixo Egito, formado por um ramo de papiro (associado ao Delta do Baixo Egito) amarrado a um lótus (símbolo do Alto Egito).

Remover publicidades
Publicidade
ALÉM DA ESCRITA, O PAPIRO ERA USADO COMO FONTE DE ALIMENTAÇÃO E PARA FAZER CORDAS, SANDÁLIAS, PERSIANAS PARA JANELAS, BRINQUEDOS - COMO BONECOS -, AMULETOS PARA PREVENIR DOENÇAS DA GARGANTA, E ATÉ MESMO PARA FABRICAR PEQUENOS BARCOS DE PESCA.

A planta também pode ser vista gravada na pedra de templos e monumentos simbolizando a vida e a eternidade, pois a vida após a morte egípcia, conhecida como Campo de Juncos, era considerada como um reflexo da abundância do papiro existente no fértil Vale do Rio Nilo, localizado abaixo. O nome ‘Campo de Juncos’ realmente se refere aos juncos da planta do papiro. Porém, ao mesmo tempo, o bosque cerrado de papiro representava o desconhecido e as forças do caos. Com frequência os reis são representados caçando nos campos de papiro do Delta, para simbolizar a imposição da ordem sobre o caos.

A natureza sombria e misteriosa dos campos de papiro foi frequentemente utilizada como tema para a mitologia. Os campos de papiro estão presentes em vários mitos importantes, dos quais o mais notável é aquele de Osíris e Ísis após o assassinato de Osíris pelo seu irmão, Set, quando Ísis esconde o filho, Hórus, nos pântanos do Delta. Os juncos de papiro, no caso, escondem mãe e filho das intenções de Set de assassinar o sobrinho Hórus, e mais uma vez simbolizam a ordem prevalecendo sobre a desordem, e a luz sobre a escuridão.

Remover publicidades
Publicidade

Nome e Preparo

Papiro é o nome grego para a planta, e pode derivar da palavra egípcia papuro (também pa-per-aa) significando ‘o real’ ou ‘aquele do faraó’, pois o controle sobre o preparo do papiro pertencia ao governo central, que era o proprietário das terras, e que, posteriormente, fiscalizava as fazendas onde as plantas eram cultivadas. Os antigos egípcios chamavam a planta de djet, tjufi ou wadj, formas do conceito de frescor. Além disso, wadj também denota suculência, crescimento, verdor. Quando o papiro era cortado, colhido e preparado em rolos passava a ser chamado djema, que pode significar ‘limpo’ ou ‘aberto’, em alusão à nova superfície para escrita.

Nebamun Hunting in the Marshes
Nebamun caçando nos pântanos Trustees of the British Museum (Copyright)

O papiro já era colhido no Egito desde o início do período Pré-Dinástico (c. 6000 - c. 3150 a.C.), e continuou a sê-lo ao longo de toda a sua história até a dinastia Ptolomaica (323 - 30 a.C.), e durante o Egito romano (30 a.C. - c. 640 d.C.). As plantas eram colhidas do pântano por trabalhadores rurais, que cortavam suas bases com lâminas afiadas, juntavam os caules num feixe e carregavam até algum veículo, no qual eram transportados para um centro de preparo. A historiadora Margaret Bunson descreve o processo pelo qual as plantas eram transformadas em folhas para o trabalho:

Remover publicidades
Publicidade

O caule do papiro era cortado em tiras finas, colocadas lado a lado de modo perpendicular. Uma solução de resina da planta era aplicada, e uma segunda camada de papiro era colocada, horizontalmente. As duas camadas eram então prensadas e deixadas para secar. Rolos imensos de papiro podiam ser produzidos juntando as folhas individuais... Os lados do papiro onde as fibras corriam horizontalmente constituem a frente, e onde as fibras correm verticalmente, o verso. A frente era preferida, mas o verso também era usado para documentos, permitindo que dois textos separados fossem incluídos num único papiro. (201)

A egiptóloga Rosalie David complementa a descrição, detalhando as etapas desse processo de transformação das plantas em folhas:

Na primeira etapa, o caule da planta era cortado em fatias, e a medula era recortada e batida com um martelo, para produzir pequenos pedaços. Estes eram arrumados lado a lado e transversalmente, em duas camadas, e depois batidos para criar as folhas. Depois as folhas individuais eram coladas juntas e da mesma forma, de modo a criar um rolo padrão de vinte páginas; às vezes, se necessário, os rolos eram presos juntos para fornecer uma superfície ainda maior para a escrita. Após secar ao sol, a folha inteira era dobrada, com as fibras horizontais no lado interno. Essa era a ‘frente’, que deveria ser escrita em primeiro lugar. (200)

As folhas, já unidas em rolos, eram então transportadas aos templos, aos edifícios governamentais, ao mercado, ou exportadas comercialmente. Embora o papiro esteja mais associado à escrita em geral, na realidade era utilizado, na maioria das vezes, apenas para textos religiosos e governamentais, pois seu custo de fabricação era bastante elevado. Além de ser caro, o trabalho manual nos campos e pântanos também exigia trabalhadores experientes quanto ao uso dos métodos adequados para bater e preparar a planta, sem destruí-la. Todos os papiros sobreviventes são oriundos de templos, escritórios governamentais ou coleções particulares de indivíduos ricos ou, pelo menos, em boa situação financeira. Os trabalhos escritos aparecem, geralmente, em pedaços de madeira, pedra ou óstraco (fragmentos de vasos de argila). A imagem do escriba egípcio curvado sobre seu rolo de papiro está correta, mas antes de colocar suas mãos nesse rolo ele deveria, literalmente, gastar anos praticando a escrita em fragmentos de louça, blocos de pedra e pedaços de madeira.

Usos e Exemplos

Os escribas do antigo Egito passavam anos aprendendo seu ofício, e mesmo pertencendo a famílias ricas não lhes era permitido desperdiçar material valioso em suas lições. David observa que “os materiais de escrita mais comuns e baratos eram os óstracos e os pedaços de madeira. Estes eram muitas vezes usados por alunos em suas cartas e exercícios” (200). A prática num rolo de papiro era permitida somente quando já dominavam os elementos básicos da escrita. David também observa como os exercícios encontrados nos óstracos estão, às vezes, duplicados em papiro, e muitas vezes fornecem palavras ou frases perdidas para obras que estão incompletas em algum dos dois materiais.

Remover publicidades
Publicidade

Enquanto material de escrita, o papiro era usado em hinos, textos religiosos, advertências espirituais, cartas, documentos oficiais, declarações públicas, poemas de amor, textos médicos, manuais científicos ou técnicos, registros de conservação, tratados mágicos e literatura. Os rolos sobreviventes podem conter de fragmentos a uma única página, ou até mesmo o famoso Papiro Ebers, que possui 110 páginas distribuídas num rolo com 20 metros de comprimento. O Papiro Ebers é um texto médico que tem sido frequentemente citado como evidência da inter-relação entre medicina e magia no antigo Egito. Juntamente com outros rolos de papiro - tais como o Papiro Kahun Ginecológico, o Papiro Médico Londres e o Papiro Edwin Smith, para mencionar apenas alguns -, essas obras confirmam o vasto conhecimento médico e a habilidade dos antigos egípcios, e comprovam como cuidavam de grandes e pequenos ferimentos, doenças diversas, e condições sérias como câncer e doença cardíaca. Casos de ansiedade, depressão e trauma também são tratados nos textos médicos do Egito, além de assuntos como aborto, controle da natalidade, cãibras menstruais e infertilidade.

Edwin Smith Papyrus
Papiro de Edwin Smith Jeff Dahl (Public Domain)

O papiro também era usado, é claro, para textos literários. O termo ‘literatura’ costuma ser aplicado a uma ampla variedade de obras egípcias antigas, tais como textos médicos, proclamações e decretos reais, cartas, autobiografias e biografias, textos religiosos e outros, além de obras da imaginação. Uma grande quantidade dessas obras eram gravadas em túmulos, em paredes de templos ou em estelas e obeliscos, enquanto as que se encaixavam na definição comum de ‘literatura’ eram escritas em papiro. Algumas entre as mais bem conhecidas são O Conto do Marujo Naufragado, O Relato de Wenamun e O Conto de Sinuhe, mas existem muitas outras.

Os antigos escribas egípcios escreviam com tinta preta e vermelha. A vermelha era usada para os nomes de demônios ou espíritos malignos, para realçar o início de um novo parágrafo, para enfatizar uma palavra ou trecho e, em alguns casos, para pontuação. Os escribas levavam consigo um estojo de madeira, que continha pedaços de pigmento preto e vermelho e um frasco com água, usada para diluir e misturar o pigmento e produzir a tinta. A pena era, inicialmente, uma cana delgada com ponta macia, mas no terceiro século a.C. foi substituída pelo estilete, uma cana mais resistente e com ponta muito afiada. Um escriba podia começar um trabalho na frente do rolo de papiro, escrever até completá-lo e, depois, virá-lo para continuar o texto no verso. Em alguns casos, um rolo de papiro no qual apenas a frente havia sido usada podia ser aproveitado por outro escriba e usado para outro trabalho, que poderia ser tanto complementar quanto completamente diferente.

Remover publicidades
Publicidade
Egyptian Scribe's Palette
Paleta de escriba egípcio Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

No entanto, como foi observado, o papiro não era usado unicamente para a escrita. A planta podia ser assada e ingerida, e Heródoto relata que a raiz do papiro constituía o principal item da dieta egípcia. Ela era cortada e preparada em uma variedade de pratos, da mesma forma como, posteriormente, a batata viria a ser em outras culturas. O papiro não apenas servia como fonte de alimento, como também se prestava para uma incrível e ampla variedade de usos. Os mais antigos barcos egípcios eram fabricados tecendo caules de papiro muito unidos, que eram amarrados com corda, também feita de papiro. Essa técnica criou um barco leve e impermeável, que podia ser facilmente carregado pelos caçadores ou pescadores. O barco de papiro está retratado em inúmeras pinturas de túmulos e templos, e possui um formato nitidamente diferente, mais linear do que os barcos de madeira posteriores fabricados com o mesmo design. O papiro continuou a ser um elemento significativo do barco egípcio, mesmo após ser substituído pela madeira como material principal. Quando os pequenos barcos de madeira se desenvolveram como grandes navios de navegação, a planta era tecida em cordas para as velas. A corda de papiro, no entanto, era usada para finalidades diversas além da navegação, e a fibra do papiro, que era muito resistente, provou ser útil em outros produtos.

As esteiras e as persianas para janelas eram tecidas através de uma técnica similar à usada para fazer o material de escrita. Os caules das plantas eram dispostos verticalmente, e depois trançados com outros, horizontalmente, e puxados com firmeza, após o que eram amarrados com uma fibra mais fina da planta. As sandálias eram produzidas enrolando o papiro, e eram tão resistentes que muitos exemplos tem sido encontrados ainda em boas condições, mesmo decorridos milhares de anos após terem sido feitas. As sandálias de papiro exigiam grande habilidade para serem produzidas, e eram muito caras para a maioria das pessoas. Heródoto relata que apenas os sacerdotes de Amon usavam sandálias, a respeito das quais os eruditos, juntamente com outra evidência, interpretam como prova adicional da grande riqueza desfrutada pelos sacerdotes. Os bonecos ou outras figuras de brinquedo eram feitos com os caules do papiro, que eram agrupados e modelados em fibras amarradas com firmeza, para criar a cabeça, os braços e as pernas.

Papyrus Sandals
Sandálias de papiro The Trustees of the British Museum (Copyright)

Esse ‘agrupamento’ da planta era empregado na criação de uma oferenda popular para os deuses: a figura da ankh. A ankh, símbolo da vida e da promessa de vida eterna, era um dos ícones mais importantes do Egito antigo, e frequentemente depositada como oferenda aos deuses nos templos ou obeliscos. O egiptólogo Richard H. Wilkinson observa como “a ankh podia estar simbolizada através de ramos de flores e da ‘faixa de papiro’ (feixes de flores e folhagens de plantas amarradas em volta de um maço central de caules de papiro), que geralmente era oferecida aos deuses” (161). Essa mesma técnica foi usada na criação do Sma-Tawy, símbolo que representava a unidade do país. A associação do papiro com a unidade e com os deuses é adequada, pois a planta, assim como os deuses e as dádivas da terra, era parte integrante da vida da população.

Remover publicidades
Publicidade

Remover publicidades
Publicidade

Sobre o Tradutor

Nazareth Accioli Lobato
Historiadora e ex-professora de História. Especialista em História Medieval, mas também interessada em outros períodos históricos e na divulgação de conhecimentos sobre o passado para um público amplo.

Sobre o Autor

Joshua J. Mark
Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Mark, J. J. (2025, agosto 30). Papiro Egípcio. (N. A. Lobato, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15420/papiro-egipcio/

Estilo Chicago

Mark, Joshua J.. "Papiro Egípcio." Traduzido por Nazareth Accioli Lobato. World History Encyclopedia, agosto 30, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15420/papiro-egipcio/.

Estilo MLA

Mark, Joshua J.. "Papiro Egípcio." Traduzido por Nazareth Accioli Lobato. World History Encyclopedia, 30 ago 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15420/papiro-egipcio/.

Remover publicidades