A Rainha Seondeok (Sondok) governou o antigo reino de Silla de 632 a 647 e foi a primeira soberana mulher na Coreia antiga. Silla estava prestes a dominar a totalidade da península coreana e Seondeok ajudou a fazer progredir o seu reino rumo a esse objetivo, o seu reinado distinguiu-se também pela crescente integração do Budismo, que já era a religião oficial do Estado, e pela construção do famoso Cheomseongdae, o observatório mais antigo da Ásia Oriental.
A Ascensão ao Trono
O rei Jinpyeong (Chinpyong, reinou 579-632), não tinha nenhum herdeiro varão, pelo que a filha Seondeok subiu ao trono. O facto de uma rainha poder governar sozinha é testemunho do tradicional estatuto elevado das mulheres na linhagem real e ilustra a rigidez do sistema de classes sociais de Silla. Este último baseava-se no sistema de classificação por ossos (Golpumjeo), que ditava todo o tipo de privilégios e obrigações com base no nascimento e na linhagem sanguínea de cada indivíduo. O nível social mais alto era a classe do osso sagrado, a qual era exclusivamente detida por membros da casa real de Kim. Quando Jinpyeong morreu, não havia homens vivos com a classificação de osso sagrado, pelo que uma de duas coisas teria de acontecer: ou todo o sistema de classes sociais era reestruturado ou permitia-se que uma rainha governasse. Optou-se pela última escolha, tal como voltaria a acontecer pelas mesmas razões com a sucessora de Seondeok.
Seondeok era a filha mais velha do Rei e a sua ascensão foi reconhecida pela Dinastia Tang no ano de 635. Em registos históricos como o Samguk sagi do século XII. ("História dos Três Reinos"), ela é referida como wang (rei), tal como os seus predecessores masculinos. Seondeok foi a 27.ª governante do reino e herdou um Estado próspero, com Silla, no sudeste da península coreana, prestes a conquistar os seus rivais de longa data do período dos Três Reinos: Baekje (Paekche) a oeste e Goguryeo (Koguryo) a norte. De acordo com o Samguk sagi, um dos primeiros atos de Seondeok como rainha foi instituir ajuda para os plebeus pobres nas zonas rurais.
Os Dois Kims
Seondeok beneficiou o de ter à sua disposição os talentos do famoso general Kim Yu-sin (595-673) e do seu sobrinho, o talentoso diplomata Gim Chun-chu (também conhecido como Kim Chunchu, † 661). Chun-chu foi enviado numa missão diplomática ao Rei Bojang de Goguryeo, em 641, para pedir ajuda contra uma Baekje cada vez mais agressiva. O rei de Goguryeo, contudo, só ajudaria se Silla abdicasse de parte do território que tinha anteriormente retirado ao seu reino. Seondeok recusou e, por isso, Chun-chu foi aprisionado. Desta forma, a rainha enviou um exército de 10 000 homens liderado por Kim Yu-sin para resgatar Chun-chu e repreender Bojang pela sua impudência. Quando o monarca de Goguryeo descobriu que um exército estava a caminho, libertou prontamente o seu cativo. Ambos os Kims viriam a ajudar grandemente Silla a unificar a Coreia, conquistando assim o estatuto lendário de que ainda hoje desfrutam na Coreia.
As Relações com a China Tang
Os vizinhos imediatos de Seondeok continuavam a ser poderosos e prosseguiram com o assédio a Silla (especialmente Baekje), ao ponto de, no ano de 643, a rainha enviar uma embaixada diplomática à China para os persuadir a ajudar a enfrentar esta ameaça. A Dinastia Tang da China (618-907) viu ali uma oportunidade para jogar estes problemáticos reinos do sul uns contra os outros em benefício próprio, pelo que teve todo o gosto em criar uma aliança com um deles, de modo a lidar melhor com os dois restantes.
Silla e a China eram parceiros comerciais de longa data e o intercâmbio cultural já tinha levado à adoção de costumes da corte Tang, bem como ao envio de estudantes e académicos de Silla para a China com o intuito de estudarem. A Rainha Seondeok fortaleceu ainda mais estes laços, mas os Tang não dariam ajuda a troco de nada. Apesar do imperador Taizong oferecer generosamente um exército e até vários milhares de uniformes e estandartes do exército Tang para que os soldados de Silla pudessem intimidar melhor os seus inimigos, havia uma condição: a rainha teria de abdicar e permitir que um príncipe chinês governasse Silla, sendo que a justificação do imperador Tang para esta necessidade era a sua convicção de que uma governante feminina estava a encorajar os inimigos de Silla. Como seria de esperar, Seondeok recusou diplomaticamente esta condição, mas conseguiu obter a assistência militar Tang de qualquer forma, e os dois Estados formaram um exército conjunto para esmagar Baekje e Goguryeo. Contudo, o plano de ação não foi bem-sucedido e foram redondamente derrotados por uma força de Goguryeo liderada pelo célebre general Yang Manchun, em 644. Os exércitos Tang seriam derrotados mais três vezes ao longo da década seguinte, e Silla teria de esperar até 660, altura em que se formou outra força conjunta Tang-Silla — desta vez consideravelmente maior do que as invasões anteriores — e Baekje (660) e Goguryeo (668) foram finalmente esmagados.
Um Reino Próspero
A nível interno, as políticas internas de Seondeok foram mais bem-sucedidas do que a sua política externa, e Silla assistiu a um florescimento das artes e das ciências. O Estado tornou-se mais centralizado e o Budismo foi ainda mais incentivado, especialmente porque aumentava a aura de poder de que a classe dominante de Silla desfrutava e apoiava o monarca como uma encarnação de Buda. Não surpreende, por isso, que a rainha também tenha supervisionado um vasto programa de reconstrução, especialmente de templos budistas. Infelizmente, os templos eram maioritariamente feitos de madeira e, por isso, não sobreviveram, mas alguns dos seus pagodes de pedra ainda subsistem. As escolas foram outra área de investimento por parte da rainha durante o seu reinado.
Uma estrutura sobrevivente notável do reinado da Rainha Seondeok é o observatório de Cheomseongdae em Gyeongju, a capital de Silla. Com nove metros de altura, funcionava como um relógio de sol, mas tem também uma janela virada a sul que capta os raios solares no chão do seu interior em cada equinócio. Fazia provavelmente parte de um complexo maior dedicado à ciência e, em particular, à astronomia. É o observatório sobrevivente mais antigo da Ásia Oriental. A torre tem 27 fiadas de tijolos, representando Seondeok como a 27.ª governante de Silla. Alguns historiadores, sem grande apoio em termos de provas ou de consenso académico alargado, vão mais longe e sugerem que a forma de garrafa da estrutura é, em si mesma, uma representação de Seondeok e da forma feminina, ou um templo dedicado ao seu culto.
O Templo de Hwangnyongsa
Outro importante projeto de construção concluído durante o reinado da Rainha Seondeok foi o templo budista de Hwangnyongsa ("Templo do Ilustre Dragão") em Gyeongju. Na verdade, o projeto foi iniciado no reinado do Rei Jinheung, por volta de 553, no local onde se dizia ter aparecido um dragão amarelo que prometera que Silla destruiria todos os seus inimigos.
O recinto quadrado do templo media cerca de 280 x 280 metros e continha uma estátua enorme de Buda, possivelmente com cerca de 4 metros de altura. Sob a liderança da Rainha Seondeok, foi adicionado ao recinto do templo um imponente pagode de madeira com nove andares, tendo a sua construção sido supervisionada pelo monge e Abade Chefe do Estado, Jajang (também conhecido como Chajang, 590-658), e construído pelo mestre arquiteto Abiji, vindo de Baekje. Concluído em 645, o pagode terá atingido uma altura de 68 a 70 metros, o que o tornou um dos edifícios mais altos da Ásia Oriental na época. Os nove níveis do edifício representavam as outras nove nações da Ásia Oriental que se acreditava que Silla viria eventualmente a conquistar, incluindo o Japão e a China.
Um sino maciço, que se dizia pesar umas (improváveis) 300 toneladas e ter 3 metros de altura, foi fundido e adicionado ao templo em 754, mas não sobreviveu. Infelizmente, o templo de Hwangnyongsa foi destruído pelos Mongóis em 1238 d.C., mas as fundações e várias bases de estátuas permanecem hoje em dia para ajudar os visitantes modernos a visualizar a sua grandeza perdida.
A Morte e os Sucessores
Seondeok morreu durante uma rebelião de fações descontentes da aristocracia de Silla, liderada por Kim Bidam, presidente do conselho de nobres do governo. Estes aristocratas, que contavam com o apoio da Dinastia Tang, não concordavam que uma rainha devesse sentar-se no trono de Silla e acreditavam que os monarcas passariam agora a ser escolhidos entre membros fora da classe do osso sagrado — ou seja, eles próprios. A tentativa de tomar o seu trono foi esmagada pela baixa aristocracia, que era liderada pelos dois Kims, mas a Rainha Seondeok acabou por morrer, de qualquer forma, provavelmente devido a doença. A rainha foi sepultada no interior da montanha sagrada de Nangsan, em Gyeongju.
Seondeok foi sucedida por outra rainha, Jindeok (reinou 647-654), que seguiu as pisadas da sua prima e ajudou Silla a dominar a península coreana. Mais uma vez, não havia nenhum homem Gim/Kim com a classificação de osso sagrado e, após duas rainhas, o sistema de classificação por ossos foi modificado: o nível mais elevado de osso sagrado foi abolido e os monarcas passaram a ser escolhidos a partir do segundo nível, mais abrangente, a classe do osso verdadeiro. O monarca seguinte após Jindeok seria ninguém menos do que Gim Chun-chu, que passou a intitular-se Rei Muyeol. Ele foi o primeiro monarca de Silla a não ter sido membro da classe do osso sagrado (sendo originário da classe do osso verdadeiro), e o seu filho viria finalmente a criar o Reino de Silla Unificado, governando a totalidade da península coreana a partir de 668.
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