Governo Inca

Mark Cartwright
por , traduzido por Paula Mieko Aoki
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Inca Ruler Atahualpa (by Mary Harrsch (taken at the Ojai Valley Museum), CC BY-NC-SA)
Governante Inca Atahualpa Mary Harrsch (taken at the Ojai Valley Museum) (CC BY-NC-SA)

O núcleo do poder inca era a capital Cusco, considerada o centro do mundo. 40.000 incas governaram um império de mais de 10 milhões de indivíduos que falavam mais de 30 línguas diferentes. Consequentemente, o governo centralizado empregou uma vasta rede de administradores locais que se apoiavam fortemente na combinação de relações pessoais, na generosidade do Estado, no ritual de permuta, na aplicação da lei e no poderio militar.

O sistema certamente funcionou e a civilização inca floresceu no Peru antigo entre 1400 e 1534. O Império Inca eventualmente expandiu-se pela América do Sul ocidental, desde Quinto, no norte, até Santiago, no sul, fazendo dele o maior império já visto nas Américas.

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Visão Geral Histórica - O Império

Cusco tornou-se um centro significativo, em algum momento, no início do Período Intermediário Tardio (1000-1400). Um processo de unificação regional começou do final do século XIV ao início do século XV, com a chegada do primeiro grande líder inca Pachacuti ("Reformador da Terra"). Os incas começaram a expandir em busca de saquear e de recursos de produção, primeiro para o sul e depois em todas as direções. Dessa forma, construíram um império que se estendeu através dos Andes.

A ascensão do Império Inca foi especularmente rápida. Primeiramente, todos os falantes da língua inca quíchua (ou runa simi) tinham um status privilegiado e essa classe nobre então dominou todos os papéis importantes dentro do império. Eventualmente, um sistema de tarifas e de administração nacionais foram instigados, o que consolidou o poder de Cusco. Os próprios incas chamavam seu império de Tawantinsuyo (ou Tahuantinsuyu) que significa "terra dos quatro cantos".

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Os incas impuseram sua religião, sua administração e até sua arte aos povos conquistados.

Os incas impuseram sua religião, sua administração e até sua arte aos povos conquistados. Eles coletaram tributos e até deslocaram populações leais (mitmaqs) para melhor integrar os novos territórios ao império. Entretanto, os incas também trouxeram certos benefícios, como a redistribuição de comida em situações de desastre ambiental, melhores instalações de armazenamento para alimentos, trabalho através de projetos patrocinados pelo Estado, celebrações religiosas custeadas pelo Estado, estradas, assistência militar e bens de luxo, especialmente objetos de arte apreciados pela elite local.

O Rei Inca

Os incas mantinham listas de seus reis hereditários (Sapa Inca que significa "único imperador"), assim conhecemos nomes como: Pachacuti - conhecido como Pachacuti Inca Yupanqui (governou de 1438-63), Thupa Inca Yupanqui (governou de 1471-93) e Wayna Qhapaq (o último governante pré-hispânico, governou de 1493-1525). É possível que dois reis tenham governado ao mesmo tempo e que as rainhas tenham tido alguns poderes significativos, mas os registros em espanhol não são claros sobre ambos os pontos. Era esperado do rei que se casasse com sua própria ascensão; com sua noiva, às vezes, sendo sua própria irmã. A rainha (Qoya) era conhecida como Mamancik ou "Nossa Mãe" e ela poderia exercer influência tanto no marido quanto no seu grupo de parentes, particularmente na seleção de qual filho poderia se tornar o herdeiro oficial do trono. A Qoya também tinha uma riqueza significativa própria que poderia ser utilizada como desejasse.

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O Sapa Inca era um governante absoluto cuja palavra era lei. Ele controlava a política, a sociedade, as lojas de alimentos do império e era o comandante-chefe do exército. Reverenciado como um deus, ele também era conhecido como Intip Churin ou "Filho do Sol". Dado esse status elevado, ele vivia uma vida de grande opulência. Ele bebia em copos de ouro e prata, calçava sapatos de prata e vivia em um palácio mobiliado com os melhores tecidos. Ele era mimado ao extremo. Ele era cuidado até após sua morte, já que os incas mumificavam seus governantes e posteriormente os "consultavam" para sua opinião em assuntos de Estado urgentes. Entretanto, apesar do seu status invejável, o rei tinha que negociar o consentimento e suporte dos nobres que, às vezes, poderiam, e faziam, destituir ou, até mesmo, assassinar seu governante. Além de privilegiar os nobres, o rei também tinha que desempenhar seu papel como benfeitor magnânimo para seu povo, por isso seu outro título: Huaccha Khoyaq ou "Amante e Benfeitor dos Pobres".

Map of the inca Empire
Mapa do Império Inca Wikipedia User: Zenyu (Public Domain)

Os Nobres do Império Inca

O governo inca era, muito como sua arquitetura famosa, baseado em unidades compartimentadas e interligadas. No topo, estava o rei, seu sumo sacerdote (Willaq Umu) – que também poderia atuar como marechal de campo - e dez grupos familiares de nobres reais chamados de panaqa. Esses nobres poderiam formar e instigar políticas nos conselhos com o rei e, ainda mais importante, influenciar na escolha final do sucessor do rei que raramente era simplesmente o filho mais velho. Na verdade, muitas ascensões reais eram precedidas por intrigas, manobras políticas, golpes e, até mesmo, assassinatos para promover o candidato de um grupo familiar específico. Esse pode ser o motivo por que, posteriormente, reis incas casaram-se com suas próprias irmãs, de modo a evitar a ampliação da base de poder da elite no topo da estrutura governamental.

A seguir, na sucessão para panaqa vieram mais dez grupos familiares, mais distantemente relacionados ao rei, e divididos em dois: Cusco Superior e Inferior. Então, veio um terceiro grupo de nobres que não tinham sangue inca, mas foram feitos incas, como um privilégio. Esse último grupo foi retirado dessa parte da população que havia habitado a região quando os incas chegaram. Como todos esses grupos eram compostos por linhagens familiares diferentes, havia muita rivalidade entre eles, o que, às vezes, irrompia em guerra.

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Os Administradores Incas

Na base do aparelho do Estado, estavam administradores recrutados localmente que supervisionavam assentamentos e a menor unidade populacional andina: a ayllu, que era uma coleção de domicílios, tipicamente de famílias relacionadas que trabalhavam em uma área de terra, viviam juntos e proviam suporte mútuo em momentos de necessidade. Cada ayllu era governado por um número pequeno de nobres ou kurakas, um cargo que poderia incluir mulheres.

Administradores locais colaboravam com e reportavam a mais de 80 administradores regionais (um tokrikoq) que era responsável por questões, como: justiça, censos, redistribuição de terra, organização de forças de trabalho móveis e manutenção de uma vasta rede de estradas e pontes em suas jurisdições. Os administradores regionais, que eram, quase sempre, de etnia inca, reportavam ao governador responsável por cada quarto do império. Os quatro governadores reportavam ao supremo governador inca em Cusco. Para assegurar lealdade, os herdeiros dos governantes locais também eram mantidos como prisioneiros bem cuidados na capital inca. Os papéis políticos, religiosos e militares mais importantes dentro do império eram, então, mantidos nas mãos da elite inca, chamada pelos espanhóis de orejones ou "orelhas grandes", devido aos grandes discos que usavam nas orelhas para indicar seus status. Para garantir melhor controle dessa elite sobre seus assuntos, tropas ocupavam o império e centros administrativos completamente novos foram construídos, em especial em Tambo Colorado, Huánuco Pampa e Hatun Xauxa.

Inca Qollqa
Inca Qollqa Stevage (CC BY-SA)

Tributação e Imposto

Para fins fiscais, os censos anuais eram realizados frequentemente para manter controle dos nascimentos, mortes, casamentos e status e habilidades dos trabalhadores. Para fins administrativos, populações eram divididas em grupos com base em múltiplos de dez (a matemática inca era quase idêntica ao sistema que utilizamos hoje), mesmo que esse método nem sempre se adequasse à realidade local. Esses censos e os próprios oficiais eram examinados de tempos em tempos, juntamente com os assuntos provinciais em geral, por inspetores dedicados e independentes, conhecidos como tokoyrikoq ou "aquele que vê tudo".

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Como não existia moeda no império inca, os impostos eram pagos em espécie - normalmente alimentos (como milho, batatas e carne seca), metais preciosos, lã, algodão, têxteis, penas exóticas, corantes e conchas espinhosas, mas também em trabalhadores que poderiam ser transferidos pelo império para serem utilizados onde fossem mais necessários. Esse serviço de trabalho era conhecido como mit'a. Terras agrícolas e rebanhos eram divididos em três partes: produção para o Estado, para religião e para os deuses; para o governante inca e para o uso do próprio fazendeiro. Também era esperado que as comunidades locais ajudassem a construir e manter projetos imperiais, como o sistema rodoviário que se estendia por todo o império. Para manter o controle dessas estatísticas, os incas utilizavam o quipo, uma montagem sofisticada de nós e cordas que era altamente transportável e podia registrar decimais de até 10.000.

As mercadorias eram transportadas pelo império por estradas especialmente construídas, utilizando lhamas (lamas) e carregadores (não existiam veículos com rodas). A rede rodoviária inca cobria mais de 40.000 km e, além de permitir a fácil movimentação de exércitos, administradores e mercadorias comerciais, também era um símbolo visual muito poderoso da autoridade inca sobre seu império.

O Colapso

O império inca foi fundado, e mantido, com base na força, por isso os governantes incas frequentemente eram impopulares com seus súditos (em especial, nos territórios do norte). Uma situação que os conquistadores espanhóis, liderados por Francisco Pizarro, tomariam como vantagem nas décadas do meio do século XVI. As rebeliões eram frequentes e os incas estavam ativamente envolvidos em uma guerra com o Equador, onde uma segunda capital inca tinha sido fundada em Quito, justo no período em que o império enfrentou sua maior ameaça de todos os tempos. Também atingido por doenças devastadoras trazidas pelos europeus que se espalharam pela América Central mais rapidamente que seus transportadores do Velho Mundo. Essa combinação de fatores trouxe o colapso da poderosa civilização inca antes que ela tivesse a chance de maturar por completo.

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Perguntas & Respostas

Que tipo de governo os incas tinham?

O governo inca era como uma monarquia com um governo centralizado que comandava milhares de funcionários por todo o império. O governo cobrava impostos e tributos da população.

O que o governo inca controlava?

O governo inca controlava tudo. O rei, ou Sapa Inca, era um governante absoluto cuja palavra era lei. Ele controlava a política, a sociedade, as lojas de alimentos do império e era o comandante-chefe do exército.

Quais características auxiliaram o governo inca a controlar seu império?

O governo inca, dominado pelo rei ou Sapa Inca, utilizou a força militar para controlar seu império e disseminou sua religião, sua arte e sua arquitetura para tentar criar uma unidade cultural.

Como o governo inca contribuiu para o colapso do império inca?

O governo inca dependia da força militar e impunha sua religião e cultura aos seus súditos. Isso significava que os incas não eram governantes populares e muitas rebeliões ocorreram por todo o império. Quando os conquistadores europeus chegaram, exploraram essas divisões no império.

Sobre o Tradutor

Paula Mieko Aoki
I'm a translator with a degree in Business Administration from USP and I've always been passionate about history! I believe history is fundamental to understanding who we are, why we got to where we are and the paths we'll take into the future.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
Mark é escritor, pesquisador, historiador e editor. Tem grande interesse por arte, arquitetura e por descobrir as ideias compartilhadas por todas as civilizações. Possui mestrado em Filosofia Política e é Diretor Editorial da WHE.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Cartwright, M. (2025, outubro 27). Governo Inca. (P. M. Aoki, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-14059/governo-inca/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "Governo Inca." Traduzido por Paula Mieko Aoki. World History Encyclopedia, outubro 27, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-14059/governo-inca/.

Estilo MLA

Cartwright, Mark. "Governo Inca." Traduzido por Paula Mieko Aoki. World History Encyclopedia, 27 out 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-14059/governo-inca/.

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