Coricancha

Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Coricancha, Cuzco (by Canopic, CC BY-NC-ND)
Coricancha, Cuzco Canopic (CC BY-NC-ND)

O complexo religioso de Coricancha (ou Qorikancha), situado em Cusco, a capital imperial, albergava o prestigiado Templo do Sol. Mais do que o local mais sagrado ou a principal huaca da cosmologia inca, este complexo era venerado como o verdadeiro centro do mundo. Conhecido como o Recinto Dourado, o espaço era consagrado às divindades supremas do panteão inca, nomeadamente: Viracocha: o deus criador; Quilla: a deusa da Lua; e, especialmente, Inti: o deus do Sol. Hoje, restam pouco mais do que alguns vestígios das suas magníficas muralhas de pedra, cuja mestria permite vislumbrar a escala monumental do recinto. Subsistem, porém, as narrativas lendárias que evocam a profusão de ouro outrora usada na ornamentação dos seus templos e do seu mítico jardim dourado.

Disposição e Arquitetura

A edificação do complexo é comummente atribuída a Pachacuti Inca Yupanqui, o nono soberano inca (1438-1471), que impulsionou igualmente um vasto programa de reconstrução da capital. Todavia, e apesar das diversas escavações realizadas, desconhece-se a cronologia exata do local. Na mitologia inca, o primeiro líder, Manco Capac (Manqo Qhapaq), terá erguido um templo naquele local logo no início do século XII; de facto, as evidências arqueológicas confirmam a existência de estruturas anteriores à formação do império.

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A disposição do complexo, quando observada de uma perspectiva aérea, assemelhava-se a um sol radiante, cujos raios emanavam em todas as direções. Estes raios eram as linhas sagradas — os ceques (zeq'e) —, autênticas vias físicas e rotas cósmicas que, num total de 41, estabeleciam a ligação a impressionantes 328 locais sagrados. A própria cidade de Cusco foi deliberadamente projectada para personificar a figura de um jaguar, encontrando-se o Coricancha estrategicamente situado na cauda do felino. Seguindo a típica simetria inca, o segundo local sagrado mais importante da capital — Sacsahuaman — coroava a cabeça da figura. O Coricancha foi edificado precisamente na confluência dos dois grandes rios da cidade, o Huatanay e o Tullamayo.

As portas eram revestidas com folhas de ouro, assim como os interiores e exteriores dos vários templos, e dizia-se que o lado interno da parede do perímetro era cravejado de esmeraldas.

Construídas com a habilidade em alvenaria pela qual os incas se tornaram famosos, as enormes paredes do complexo foram construídas com grandes blocos de pedra finamente cortados e encaixados sem argamassa. A grande parede curva a oeste era particularmente notável pela sua forma e alvenaria elegante e regular. A maioria das paredes também se inclinava ligeiramente para dentro à medida que aumentavam de altura, uma característica típica da arquitetura inca. Muitas portas e janelas trapezoidais permitiam o acesso e a entrada de luz nos espaços interiores, e foi adicionada uma larga faixa dourada a meia altura em redor das paredes. Os edifícios interiores tinham somente um andar e os telhados eram de palha. As portas também eram revestidas com folhas de ouro, assim como o interior e o exterior dos vários templos, e dizia-se que o lado interno da parede do perímetro era cravejado de esmeraldas.

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Templo do Sol

O templo mais importante do recinto era o Templo do Sol, dedicado ao deus sol Inti. As paredes internas e externas do templo, situado no canto norte do complexo, eram cobertas com ouro — considerado o suor do sol — que era martelado em placas. Supostamente, havia 700 placas de meio metro quadrado, cada uma com o peso de 2 kg.

No interior do templo, para além dos artefactos de ouro essenciais ao culto divino, repousava uma estátua de ouro maciço de Inti, profusamente incrustada com pedras preciosas. A efígie representava a divindade sob a forma de uma criança sentada, conhecida como Punchao (o Sol do Dia ou do Meio-dia). Da sua cabeça e dos ombros brilhavam os raios do sol, usava uma faixa real na cabeça e tinha cobras e leões a sair do corpo. A cavidade abdominal da estátua era oca, servindo de relicário para as cinzas dos órgãos vitais dos anteriores soberanos incas. Num ritual quotidiano, a efígie era transportada para o exterior, de modo a receber a luz direta do dia, sendo recolhida ao santuário ao cair da noite. Outra representação primordial da divindade — uma máscara colossal de cujas têmporas emanavam raios em zigue-zague — encontrava-se suspensa numa câmara do templo que lhe era exclusivamente consagrada.

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Inca Gold Sun Mask
Máscara Solar de Ouro Inca Andrew Howe (CC BY-NC-SA)

O jardim do templo era uma homenagem maravilhosamente concebida a Inti. Assim como as terras — às vezes até regiões inteiras — eram dedicadas ao deus, também este jardim foi construído em homenagem ao grande deus do sol Inti. Tudo nele era feito de ouro e prata. Um grande campo de milho e modelos em tamanho real de pastores, lamas, jaguares, porquinhos-da-índia, macacos, pássaros e até borboletas e insetos foram todos trabalhados em metais preciosos. E como se isso não bastasse para agradar a Inti, havia também um grande número de jarros de ouro e prata incrustados com pedras preciosas. Tudo o que resta destas maravilhas são alguns pés de milho dourados, um testemunho convincente, embora silencioso, dos tesouros perdidos de Coricancha.

Outros Templos

Cinco outros templos ou wasi foram colocados em redor do pátio principal da praça de Coricancha. Em ordem hierárquica, um templo era dedicado ao deus criador Viracocha (mais ou menos equivalente a Inti), um à deusa da lua Quilla, um a Vênus ou Chaska-Qoylor, um ao deus do trovão Illapa e, finalmente, um ao deus do arco-íris Cuichu. Assim como o templo de Inti era coberto de ouro, o templo de Quilla era coberto de prata, um metal considerado como as lágrimas da lua. Cada wasi albergava uma efígie de culto da respetiva divindade, bem como objetos religiosos e obras de arte de grande valor que lhe estavam associados.

Havia também um espaço dedicado aos restos mumificados dos antigos imperadores incas e suas consortes, conhecidos como mallquis. Estas figuras eram retiradas dos seus locais de repouso durante cerimónias especiais, tais como as celebrações dos solstícios. Eram apresentadas oferendas a estas múmias, trajadas com vestes de luxo, enquanto se proclamavam as grandes conquistas alcançadas durante os seus reinados, para que todos as pudessem honrar. O complexo dispunha igualmente de aposentos destinados aos sacerdotes e às sacerdotisas, enquanto outras dependências serviam de repositórios para tesouros artísticos e religiosos, repletos de artefactos confiscados aos povos submetidos. É provável que este espólio fosse ali mantido como um penhor de obediência ao domínio inca — uma estratégia de controlo análoga à dos próprios soberanos vencidos, que eram, por vezes, mantidos como reféns em Cusco durante períodos específicos do ano. Outra característica interessante do local era um canal subterrâneo pelo qual a água sagrada fluía para as praças em redor, fora do complexo.

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Coricancha Curved Wall
Muro Curvo do Coricancha Richard Twigg (CC BY-NC-SA)

Outras funções importantes do Coricancha incluíam a realização de observações astronómicas, especialmente da Via Láctea (Mayu). Havia, por exemplo, um par de torres que marcavam o solstício de verão e as observações eram feitas a partir da pedra sagrada ushnu contra marcos artificiais e naturais no horizonte para acompanhar o sol. As vítimas sacrificiais (capacochas) eram igualmente preparadas para o seu momento supremo no pátio do recinto, partindo depois em procissão ao longo das linhas de ceque para serem sacrificadas nas diversas províncias, em honra de Inti e da sua encarnação viva, o imperador Inca.

História Posterior

O portal de entrada do complexo, sóbrio, subsiste até aos nossos dias, preservando a sua típica ombreira dupla, bem como, se conservam diversos secções das muralhas exteriores, e algumas das paredes interiores originais. O Convento de Santo Domingo foi erguido sobre o complexo, num acto deliberado que visava simbolizar a supremacia de uma nova fé sobre a religião ancestral. A maior parte do ouro que adornava o recinto foi fundida em lingotes e enviada para a Coroa Espanhola. A peça principal, a estátua dourada de Inti, ffoi transferida para um local seguro aquando da chegada dos espanhóis. Contudo, tudo indica que os conquistadores a terão localizado trinta anos mais tarde, em 1572. Após essa data, o seu rasto perdeu-se definitivamente; terá sido, muito provavelmente, fundida, como inúmeros outros artefactos incas.

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Bibliografia

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Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Tradutora e autora, o gosto pelas letras é infindável – da sua concepção ao jogo de palavras, da sonoridade às inumeráveis possibilidades de expressão.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
Mark é Diretor Editorial da WHE e possui mestrado em Filosofia Política pela Universidade de York. Ele é pesquisador em tempo integral, escritor, historiador e editor. Tem grande interesse por arte, arquitetura e por descobrir as ideias compartilhadas por todas as civilizações.

Cite Este Artigo

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Cartwright, M. (2026, fevereiro 26). Coricancha. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-12513/coricancha/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "Coricancha." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, fevereiro 26, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-12513/coricancha/.

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Cartwright, Mark. "Coricancha." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 26 fev 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-12513/coricancha/.

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