Alimentação e Agricultura dos Incas

Mark Cartwright
por , traduzido por Ana Luisa Ribeiro
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O império Inca controlou quatro zonas climáticas e, consequentemente, sua produção agrícola era diversificada. Os antigos povos andinos eram em grande parte vegetarianos, complementando sua dieta com carne de camelídeos e com peixes e frutos do mar, quando possível. Os incas desenvolveram um enorme aparato agrícola, no qual colheitas e rebanhos eram tomados de povos conquistados e suas próprias pessoas eram periodicamente obrigadas a trabalhar em fazendas estatais.

Um benefício mais positivo para a população local sob o governo inca foi a vasta rede de instalações de armazenamento desenvolvida para se protegerem contra períodos de seca e desastres. Além disso, alimentos eram frequentemente distribuídos por oficiais incas como presentes, com os quais os governantes esperavam aumentar sua popularidade.

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Organização e Métodos

Em nível micro, cada unidade familiar produzia seu próprio alimento. As unidades familiares faziam parte de um grupo de parentesco mais amplo, ou ayllu, que possuía coletivamente terras agrícolas. Idealmente, um ayllu possuía pelo menos alguma terra tanto nas terras altas quanto nas terras baixas mais temperadas, para que uma diversidade de alimentos pudesse ser cultivada. Por exemplo, as terras altas poderiam oferecer boas pastagens e permitir a produção de batata e milho, enquanto a coca só poderia ser cultivada em altitudes mais baixas. Uma área de terra para cultivo de milho (talvez em torno de 1,5 acres), chamada tupu, era dada aos recém-casados ​​por seu ayllu para que pudessem ser autossuficientes. Além disso, seu primeiro filho ou filha dava ao casal o direito a mais meio tupu. Se o proprietário da terra morresse sem deixar herdeiros, a terra era devolvida ao ayllu para futura redistribuição.

Inca Agricultural Terracing
Sistemas de Terraços Agrícolas Incas McKay Savage (CC BY)

A terra era trabalhada com ferramentas simples, como enxada, de quebra de torrões e arado de pé – o chakitaqlla, que consistia em uma vara pontiaguda de madeira ou bronze que era fincada no solo apoiando-se o pé de quem a utiliza em uma barra horizontal. As lâminas das enxadas eram tipicamente feitas com pedras afiadas. A agricultura era uma prática comunitária, e os agricultores trabalhavam em pequenas equipes de sete ou oito pessoas, muitas vezes cantando enquanto trabalhavam, com os homens capinando e as mulheres seguindo atrás, quebrando os torrões e semeando. Enquanto isso, crianças e jovens adultos eram responsáveis ​​por cuidar do rebanho familiar de camelídeos.

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As culturas cultivadas por todo o Império Inca incluíam milho, coca, feijão, grãos, batata, batata-doce, ulluco, oca, mashua, pimenta, tomate, amendoim, caju, abóbora, pepino, quinoa, cabaça, algodão, tarwi (lupino andino), alfarroba, chirimoia, lúcuma, goiaba e abacate. O gado era composto principalmente por rebanhos de lhamas (lamas) e alpacas. Esses animais eram vitais para muitos aspectos da vida andina, pois forneciam lã, carne, couro, bens móveis e transporte — especialmente para o exército, e eram frequentemente sacrificados em cerimônias religiosas. Alguns dos maiores rebanhos estatais podiam ter dezenas de milhares de animais e todos os rebanhos eram meticulosamente contabilizados em um censo estatal realizado todo mês de novembro.

OS INCAS ERAM AGRICULTORES AMBICIOSOS E TRANSFORMARAM A PAISAGEM COM TERRAÇOS, CANAIS E REDES DE IRRIGAÇÃO.

Os incas eram agricultores ambiciosos e, para maximizar a produção agrícola, transformaram a paisagem com terraços, canais e redes de irrigação, enquanto os pântanos eram frequentemente drenados para torná-los adequados para o cultivo. Além disso, os incas tinham plena consciência do valor da rotação regular de culturas e fertilizavam a terra com esterco seco de lhama, guano ou cabeças de peixe, caso esses materiais estivessem disponíveis. Ainda assim, o clima andino, muitas vezes rigoroso, podia trazer inundações, secas e tempestades que, juntamente com doenças, faziam com que as quebras de safra anuais não fossem incomuns. Nessas ocasiões, o talento dos incas para armazenar alimentos se mostrava essencial.

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Armazenamento de Alimentos

Alimentos (e outras mercadorias) eram armazenados em armazéns (qollqa), que foram construídos aos milhares em todo o império, geralmente dispostos em fileiras organizadas e localizados próximos a centros populacionais, grandes propriedades e postos ao longo das estradas. Os funcionários do Estado mantinham registros meticulosos de seus estoques usando o quipu (quipo), um dispositivo de registro feito de cordas e nós. As qollqa eram construções de pedra de um único cômodo, circulares ou retangulares, erguidas de maneira notavelmente uniforme. Situadas em encostas para aproveitar a brisa fresca, as qollqa foram projetadas para maximizar o tempo de armazenamento dos produtos perecíveis que continham. Possuíam canais de drenagem, piso de cascalho e ventilação tanto no piso quanto no teto, a fim de manter o interior o mais fresco e seco possível, permitindo o armazenamento de produtos comuns por até dois anos e alimentos liofilizados por até quatro anos. Os arqueólogos determinaram que o milho, a batata e a quinoa eram os alimentos mais comuns armazenados nas qollqa. O milho e a coca desses estoques eram frequentemente distribuídos às massas por governantes em busca de popularidade e em épocas de quebra de safra.

Agricultura e Religião

Rituais, cantos e sacrifícios eram parte vital da agricultura para os Incas. Nessas cerimônias, lhamas e porquinhos-da-índia eram sacrificados, e a chicha era derramada no solo e perto de rios e nascentes para obter o favor dos deuses e dos elementos da natureza. Além disso, o ambiente andino, por vezes hostil, fazia com que a agricultura fosse vista como uma forma de guerra, de modo que, como o historiador T. N. D'Altroy eloquentemente afirmou, "Os incas abordavam a agricultura com armas nas mãos e orações nos lábios" (276).

Havia também muitos campos sagrados na capital inca, Cuzco. A colheita desses campos era usada como oferendas em santuários, e um campo em particular era reservado para o plantio cerimonial do primeiro milho do ano. Era ali, no mês de agosto, que o rei inca lavrava cerimonialmente o primeiro solo do ano com um arado de ouro. O sagrado Coricancha, que possuía um templo dedicado ao deus sol inca Inti, tinha até mesmo um campo de milho em tamanho real feito inteiramente de ouro e prata, completo com animais e insetos de metais preciosos. Quando os incas conquistavam um território, dividiam a terra e o gado em três partes desiguais: uma para a religião estatal, uma para o rei e uma para os habitantes locais. Alternativamente, como os impostos eram frequentemente cobrados na forma de trabalho (mit'a), os agricultores eram realocados para trabalhar nas terras do governante inca ou ajudar em outros projetos estatais, como a construção de estradas e grandes edifícios. A produção agrícola das próprias terras dos agricultores era em grande parte deixada intocada, e eles também tinham permissão para cultivar pequenos lotes ao lado das fazendas estatais enquanto cumpriam sua mit'a.

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Inca Qollqa
Inca Qollqa Stevage (CC BY-SA)

Comida e Bebida Inca

Os incas faziam duas refeições principais por dia, uma no início da manhã e outra no final da tarde, ambas feitas sentados no chão, sem mesa. A dieta inca, para as pessoas comuns, era predominantemente vegetariana, pois a carne — de camelídeos, patos, porquinhos-da-índia e animais selvagens como veados e o roedor vizcacha — era tão valiosa que era reservada apenas para ocasiões especiais. Mais comum era a carne liofilizada (ch'arki), um alimento popular durante as viagens. Um mingau de quinoa era um alimento básico, e perto da costa consumiam peixe, geralmente em ensopados. Usando pequenos barcos de junco, os pescadores incas esperavam capturar anchovas, sardinhas, atuns, salmões, robalos e mariscos. Entre as frutas silvestres disponíveis estavam cerejas-ácidas, frutas-do-conde, sabugueiros, frutos de cactos, abacaxis e um tipo de banana.

A comida era preparada em fogueiras de lenha ou esterco de lhama, usando fogões de pedra ou barro, de modo que a maioria dos alimentos era cozida ou assada. O milho era cozido em forma de pequenos bolinhos ou torrado, enquanto a pipoca era considerada uma iguaria especial. A batata era outro alimento básico importante, e podia ser armazenada secando-a ou liofilizando-a, na forma de chuño. Os grãos quinoa e canihua também eram importantes, assim como os tubérculos oca, mashua e maca. Os grãos eram preparados socando-os em pilões de pedra ou com um pilão. Sabores adicionais eram obtidos com a adição de ervas e especiarias, especialmente pimenta. A bebida mais popular era a chicha, uma bebida levemente alcoólica, fermentada e semelhante à cerveja, que as mulheres preparavam mascando milho ou outras plantas e deixando a polpa fermentar por vários dias.

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Sobre o Tradutor

Ana Luisa Ribeiro
Sou tradutora e professora, com formação em Letras/Inglês e Geografia, além de mestrado também em Geografia, na área de planejamento ambiental. Atualmente, vivo em Campinas, Brasil.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
Mark é escritor, pesquisador, historiador e editor. Tem grande interesse por arte, arquitetura e por descobrir as ideias compartilhadas por todas as civilizações. Possui mestrado em Filosofia Política e é Diretor Editorial da WHE.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Cartwright, M. (2025, dezembro 04). Alimentação e Agricultura dos Incas. (A. L. Ribeiro, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-792/alimentacao-e-agricultura-dos-incas/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "Alimentação e Agricultura dos Incas." Traduzido por Ana Luisa Ribeiro. World History Encyclopedia, dezembro 04, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-792/alimentacao-e-agricultura-dos-incas/.

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Cartwright, Mark. "Alimentação e Agricultura dos Incas." Traduzido por Ana Luisa Ribeiro. World History Encyclopedia, 04 dez 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-792/alimentacao-e-agricultura-dos-incas/.

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