Segunda Batalha do Marne

O Princípio do Fim para a Alemanha na Primeira Guerra Mundial
Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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A Segunda Batalha do Marne ocorreu em julho e agosto de 1918 e viu o último avanço da Alemanha na Ofensiva da Primavera ser repelido por um forte contra-ataque aliado. Com centenas de milhares de soldados americanos a desembarcar na Europa todos os meses e com centenas de novos tanques à sua disposição, as divisões aliadas — incluindo tropas francesas, britânicas, americanas, italianas, canadianas e australianas — empurraram o exército alemão para o que se tornou uma retirada permanente. A Segunda Batalha do Marne foi, então, em muitos aspectos, o tão esperado ponto de virada da Primeira Guerra Mundial.

British, French, & Italian Officers, 1918
Oficiais Britânicos, Franceses e Italianos, 1918 Imperial War Museums (CC BY-NC-SA)

A Ofensiva da Primavera

O Exército Alemão esgotara-se completamente em cinco campanhas na Frente Ocidental entre abril e junho de 1918, uma série de ataques conhecidos coletivamente como a Ofensiva da Primavera Alemã. O comandante-em-chefe alemão, o General Erich von Ludendorff (1865-1937), pretendia romper com a estagnação da guerra de trincheiras antes que os Aliados fossem significativamente reforçados pela chegada de novas divisões dos EUA. A quinta e última ofensiva fora a Ofensiva do Marne, em que Ludendorff pretendia avançar por ambos os lados de Reims e atravessar o rio Marne a leste de Paris. Esta área já tinha sido palco de combates na Primeira Batalha do Marne, em setembro de 1914. A batalha ficou conhecida como o 'Milagre do Marne', uma vez que os exércitos francês e britânico tinham sido fustigados e castigados, mas conseguiram reorganizar-se para explorar uma rutura nas linhas alemãs e impor uma derrota estratégica a um inimigo que parecia prestes a varrer a França e capturar Paris.

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Foi estabelecida uma profunda cabeça de ponte alemã, mas o progresso foi finalmente travado a 17 de julho.

No outro extremo da I Guerra Mundial, a liderança alemã, incluindo o Kaiser Guilherme II, reuniu-se a 3 de julho para discutir planos que continuavam a ignorar as realidades militares na frente de combate e as privações causadas pelo bloqueio naval aliado aos mantimentos que chegavam à Alemanha. Foi decidido um esforço para transformar a economia alemã numa economia de guerra total como forma de compensação pela falta de recursos da Alemanha, tendo sido sancionado um avanço no terreno para capturar as bacias de ferro e carvão da Lorena. Assim, foi dada luz verde a Ludendorff para mais uma ofensiva.

O Primeiro, Terceiro, Sétimo e Nono Exércitos receberam a tarefa de executar o mais recente plano de Ludendorff para o domínio alemão da Europa. O avanço do Primeiro e Terceiro Exércitos a leste de Reims começou a 15 de julho, ao longo de uma frente de 42 km (26 milhas). Esta parte da ofensiva foi um fracasso total, tendo sido travada logo no primeiro dia pelo Primeiro Exército Francês, sob o comando do General Henri Gouraud (1867-1946). A artilharia francesa revelou-se um obstáculo formidável a superar, e a tática de defesa em profundidade de Gouraud, em vez de manter rigidamente uma linha defensiva fina, revelou-se altamente eficaz. Enquanto isso, no lado oeste de Reims, o Sétimo e o Nono Exércitos alemães avançaram ao longo de uma frente de 35 km (22 milhas). Os atacantes obtiveram melhores resultados contra o Sexto Exército francês e conseguiram cruzar o Marne. Foi estabelecida uma profunda cabeça de ponte, mas o progresso foi finalmente travado a 17 de julho pelo Nono Exército Francês, com o apoio de tropas britânicas, italianas e norte-americanas.

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Map of the Western Front in World War I, 1914-1918
Mapa da Frente Ocidental na Primeira Guerra Mundial, 1914-1918 Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Apesar dos sucessos iniciais da Ofensiva da Primavera, a campanha como um todo fracassou porque o Exército Alemão encontrou forte resistência, mas não conseguiu reabastecer os seus homens com alimentos ou material, uma vez que não tinha transporte suficiente. A Alemanha desgastou as suas melhores tropas porque não adoptou o método de rotação usado pelos Aliados, em que os soldados não lutavam permanentemente nos pontos mais ferozes da frente. Além disso, os generais alemães de alta patente não tinham, ao contrário dos seus homólogos entre os Aliados, percebido o potencial das armas modernas, como o tanque, nem os benefícios do destacamento de armas combinadas (artilharia, infantaria e apoio aéreo).

Ludendorff desperdiçara 800 000 homens (entre mortos e baixas) nas suas ofensivas, as quais não tinham alcançado qualquer ganho estratégico significativo. A incapacidade de assegurar os nós ferroviários controlados pelos Aliados significava que o inimigo podia continuar a reabastecer-se à vontade. Em agosto, os EUA tinham 1,4 milhões de soldados em França e enviavam mais 250 000 homens todos os meses. As forças norte-americanas em França encontravam-se organizadas em 25 divisões — as quais eram substancialmente mais vastas que as congéneres de outras nações — enquanto, em simultâneo, nos Estados Unidos, procedia-se à constituição de outras 55 divisões.

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Em contrapartida, não havia reservas a que se pudesse recorrer na Alemanha, uma vez que o recrutamento militar obrigatório já tinha convocado todos os homens em idade de combate que não fossem essenciais para outras indústrias. A próxima geração de recrutas elegíveis só estaria disponível em novembro e precisaria de vários meses para ser treinada. Ludendorff arriscou e perdeu. A guerra já não podia ser vencida, e tudo o que restava era retardar a derrota, de modo a que pudessem ser obtidas condições de paz mais favoráveis.

Renault Tank, Second Battle of the Marne
Tanque Renault, Segunda Batalha do Marne T.K. Aitken - Imperial War Museums (CC BY-NC-SA)

O moral dos soldados alemães que restavam no terreno era extremamente baixo e sentia-se a ameaça de motim no ar. Já anteriormente os oficiais alemães tinham tido dificuldade em impedir que os seus homens simplesmente depusessem as armas para se banquetearem com quaisquer mantimentos aliados que encontrassem. Outro golpe no moral alemão, além das parcas rações, foi a propagação da gripe espanhola. A pandemia de gripe de 1918 atingiu as linhas alemãs algumas semanas antes das aliadas e, em junho, retirou 500 000 soldados da frente de combate, afectando seriamente a capacidade operacional de 13 divisões. Na verdade, estes dois problemas estavam relacionados, uma vez que a dieta mais pobre dos soldados alemães significava que a sua resistência ao vírus era muito inferior à dos soldados dos exércitos aliados.

A ponta de lança do ataque foi formada pela Primeira e Segunda Divisões dos EUA.

O Contra-ataque Aliado

Os Aliados sabiam que um ou dois golpes fortes contra as linhas alemãs poderiam levar à capitulação imediata. Os Aliados beneficiaram igualmente de uma estrutura de comando muito mais unificada sob o Marechal Ferdinand Foch (1851-1929), agora investido na chefia suprema das operações. A 18 de julho, Foch lançou uma enorme contra-ofensiva, a segunda fase daquela que ficaria conhecida como a Segunda Batalha do Marne. Os Aliados — divisões francesas, britânicas, do Império Britânico (nomeadamente divisões canadianas e australianas), italianas e norte-americanas — atacaram o saliente alemão em redor do Marne.

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O Décimo Exército Francês, comandado pelo famoso e agressivo general Charles Mangin (1866-1925), atacou o flanco oeste do saliente do Marne. Enquanto isso, os outros dois lados do saliente foram atacados pelo Sexto Exército francês comandado por Jean Degoutte (1866-1938). A ponta de lança do ataque foi formada pela Primeira e Segunda Divisões dos EUA. As divisões americanas lutaram particularmente bem, e "essas tropas frescas lutaram com um desprezo pelas baixas raramente visto na Frente Ocidental desde o início da guerra" (Keegan, pág. 409).

US Troops, WWI
Tropas Americanas, Primeira Guerra Mundial US National Archives (Public Domain)

Outras 14 divisões aliadas prestaram apoio e, talvez o mais importante de tudo, os Aliados conseguiram lançar contra o inimigo 750 tanques (incluindo os mais recentes tanques ligeiros Renault). Detinham também o domínio do ar, com as aeronaves aliadas a superarem as alemãs numa proporção de 5 para 1. Os aviões foram utilizados para identificar as posições da artilharia alemã e os pontos de defesa mais resistentes. Os caças aliados garantiram que a força aérea alemã não pudesse prestar o mesmo serviço aos seus comandantes no terreno. Finalmente, mesmo na artilharia (uma área onde o exército alemão gozara tradicionalmente de superioridade numérica) conseguiram apenas mobilizar metade do número de peças que os Aliados levaram para o combate. Os Aliados utilizaram a artilharia para criar uma 'barragem rolante', que era mantida constantemente enquanto a infantaria avançava atrás da queda das granadas, as quais eram disparadas progressivamente cada vez mais para a frente. A componente de artilharia do ataque foi intensa, disparando 'uma [granada] pesada por cada 1,16 metros (1,27 jardas) de terreno e três granadas de artilharia de campanha por cada 0,91 metros (1 jarda)' (Strachan, pág. 280).

Em 48 horas, os Aliados avançaram 8-9,5 km (5-6 milhas). A partir do oeste, o Quinto e o Nono Exércitos franceses juntaram-se ao avanço. Os alemães começaram a recuar do saliente de Marne, e Soissons foi retomada a 4 de agosto, com a captura de 35.000 soldados alemães e de 700 armas no processo. Os alemães, tendo perdido quase todo o saliente conquistado na primeira parte de julho, recuaram para uma linha defensiva ao longo dos rios Aisne e Vesle.

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Contra o inimigo agora entrincheirado, os Aliados não conseguiram fazer mais progressos. O embate no Marne custara 95 000 baixas francesas e 168 000 baixas alemãs, um valor que inclui os homens perdidos como prisioneiros de guerra (Bruce, pág. 245). Sem forças suficientes sob o seu comando, Ludendorff foi obrigado a abandonar quaisquer planos remanescentes para atacar os britânicos na Flandres. Na verdade, o simples facto de guarnecer a Linha Hindenburg (a Linha Siegfried para os alemães), a última linha defensável da frente de combate, exigiu medidas extraordinárias, tais como o re-envio de 70 000 feridos em convalescença para a frente. Além disso, as divisões alemãs tiveram de ser reorganizadas, eliminando as que estavam demasiado fracas para operar, sendo o excedente utilizado para reforçar as restantes

Walking Wounded, Western Front 1918
Feridos Ligeiros, Frente Ocidental 1918 J.W. Brooke - Imperial War Museums (CC BY-NC-SA)

A partir de então, o exército alemão seria constantemente empurrado de volta para a Alemanha, começando com a batalha de Amiens, o início do que é frequentemente chamado de Ofensiva dos Cem Dias dos Aliados. Foch não cometeu o erro de Ludendorff: não permitiu que os comandantes no terreno fossem seduzidos por avanços extravagantes para tirar partido de bolsas de fraqueza do inimigo, os quais resultavam apenas na criação de salientes vulneráveis defendidos por tropas exaustas. Em vez disso, os Aliados avançaram com muito maior cautela, aguardando sempre que a artilharia acompanhasse o movimento e apoiasse a infantaria.

As divisões francesas, britânicas e canadianas que atacaram Amiens beneficiaram da mobilização de 435 tanques. No espaço de 48 horas, à medida que o moral colapsava quase por completo em muitas unidades, foram capturados 30 000 prisioneiros alemães. Ludendorff descreveu a derrota em Amiens como o 'dia negro do exército alemão' (Bruce, pág. 231). A Alemanha não tinha resposta para o volume de soldados aliados, nem para a utilização eficaz e combinada de artilharia, infantaria, aviação e tanques. Com o descontentamento a atingir níveis sem precedentes, tanto nas forças armadas alemãs como no seio da população civil, a guerra chegou ao fim com a assinatura do armistício de 1918 com a Alemanha.

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Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Tradutora e autora, o gosto pelas letras é infindável – da sua concepção ao jogo de palavras, da sonoridade às inumeráveis possibilidades de expressão.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
Mark é Diretor Editorial da WHE e possui mestrado em Filosofia Política pela Universidade de York. Ele é pesquisador em tempo integral, escritor, historiador e editor. Tem grande interesse por arte, arquitetura e por descobrir as ideias compartilhadas por todas as civilizações.

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Cartwright, M. (2026, março 09). Segunda Batalha do Marne: O Princípio do Fim para a Alemanha na Primeira Guerra Mundial. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2899/segunda-batalha-do-marne/

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Cartwright, Mark. "Segunda Batalha do Marne: O Princípio do Fim para a Alemanha na Primeira Guerra Mundial." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, março 09, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2899/segunda-batalha-do-marne/.

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Cartwright, Mark. "Segunda Batalha do Marne: O Princípio do Fim para a Alemanha na Primeira Guerra Mundial." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 09 mar 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2899/segunda-batalha-do-marne/.

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