A história do chá verde no Japão remonta ao século VIII, período em que a bebida era um estimulante popular usado para a meditação dos monges. Neste artigo, veremos as origens e o cultivo do chá, como ele se tornou parte integrante da cultura japonesa, o simbolismo da cerimônia do chá japonês, e como se deve consumir a bebida de acordo com os princípios tradicionais japoneses.
Como descreveu o escritor japonês Kakuzo Okakura (1862-1913) em sua famosa obra O Livro do Chá: “Para nós, o chá tornou-se mais que uma idealização da forma de beber; é uma religião da arte da vida." (28).
Origem Budista
Nas tradições chinesa e japonesa, a descoberta do chá (cha) é creditado ao sábio indiano Daruma (conhecido também como Bodhidharma), o fundador do Budismo Chan, precursor do Zen Budismo, no século V a VI. Daruma espalhou a palavra de sua nova doutrina e fundou o Templo Shaolin no leste da China (Shorinji para os japoneses). Foi lá onde ele meditou, sentado de frente para uma parede por nove longos anos. No final desse período, suas pernas haviam enfraquecido e, quando estava prestes a atingir a iluminação, ele adormeceu. Enfurecido por ter fracassado no último passo, Daruma arrancou as próprias pálpebras e jogou-as no chão. E assim, cresceu um arbusto, a planta do chá.
A bebida é feita adicionando água quente às folhas jovens, ápices da folha e brotos da perene planta Camellia sinensis,que é nativa das colinas do sudoeste da China e/ou do nordeste da Índia. Nesse período inicial, a preparação consistia em ferver blocos de chá fermentado, e o sal era geralmente adicionado.
O chá se tornou popular entre os monges Zen budistas, pois acreditava-se que a bebida auxiliava na meditação e afastava o sono. O teor de cafeína no chá, embora menor do que no café (14-61 mg versus 95-200 mg por 240ml), torna a bebida um estimulante suave. Acreditava-se que o chá tinha qualidades medicinais, inclusive para aumentar a longevidade. Para alguns, o chá era considerado uma cura para a ressaca, um remédio para problemas de visão e até mesmo para o reumatismo (aplicado em forma de pasta). Testes mostraram que taninos, compostos antioxidantes presentes no chá, podem fortalecer o sistema imunológico.
O chá foi introduzido no Japão no século VIII por monges, comerciantes e diplomatas que estavam de visita ao país. Além disso, monges japoneses visitaram a China e trouxeram de volta práticas culturais como o consumo do chá. Um desses monges foi Saichō (767-822), fundador do Budismo Tendai que, segundo a tradição, trouxe sementes de chá para o Japão em torno de 805 e as plantou em Yeisan. A primeira menção ao chá na literatura japonesa se encontra no Nihon Koki, escrito por volta dos anos 840. No texto, o Imperador Saga (reinou de 809-823) é descrito visitando o templo Bonshaku e bebendo uma tigela de chá servida pelo monge Eichū (743-816). Impressionado com a bebida, Saga cultivou plantas de chá em diversas áreas do oeste do Japão.
O consumo do chá realmente se popularizou no Japão por volta de 1190, quando foi difundido pelo influente monge Eisai (1141-1215), que estabeleceu a Escola Rinzai do Budismo Zen no Japão. Em 1214, Eisai chegou a escrever um livro, intitulado Kissa Yojoki, exaltando as virtudes do chá. Nesse período, as pessoas comuns já podiam comprar chá de vendedores de rua. O primeiro vendedor mencionado na literatura aparece em uma obra datada de 1403. Comerciantes de chá normalmente vendiam a bebida em mercados de rua, à beira das estradas e ao redor dos templos. Eles divulgavam seus produtos exclamando ippuku issen!, que significa "uma tigela por uma moeda!".
Como o chá verde pode ser amargo, no período medieval, a bebida era preparada ao triturar as folhas e fazer uma bola com amazura (um adoçante feito de uvas) ou gengibre, que era então deixado em água quente. O chá, por ser caro, também ficou popular entre a aristocracia no Japão medieval. A serenidade do ato de beber chá se tornou atrativa durante o turbulento Período Sengoku (Sengoku Jidai, 1467-1568), também conhecido como a Era dos Estados em Guerra, quando senhores feudais rivais ou daimyo lutaram violentamente pelo controle do Japão. As casas de chá (veja abaixo), mais do que nunca, tornaram-se um lugar de refúgio e descanso, e assim, o consumo do chá se disseminou, principalmente entre a classe guerreira samurai. No século XVI, a planta estava sendo cultivada em todo o Japão, as lojas de chá a vendiam em cidades, vilas e aldeias, e praticamente todos na sociedade japonesa estavam consumindo chá, de agricultores humildes a funcionários de alto nível do governo.
Cultivo & Comércio
O templo Kōzan-ji, no Monte Toganoo, foi um dos primeiros lugares onde o chá de alta qualidade foi cultivado. Foi lá que pode ter sido descoberto que cultivar a planta na sombra resultaria em um chá menos amargo, tanto é que o próprio chá de Toganoo acabou se tornando uma espécie de marca. Uji, em Yamashiro, é a região mais conhecida pela produção de chá.
Um livro de 1680 de Totōmi, Hyakushō denki (A Vida de um Camponês), apresenta a seguinte reflexão sobre o cultivo do chá, destacando a versatilidade da cultura:
O chá é um elemento útil para todas as pessoas, desde a classe baixa até a alta. Pode ser plantado nas bordas de campos secos, em solos secos de montanha, ou em lugares onde o solo é ruim e não se consegue cultivar, ou nos quintais das casas, ou em qualquer área aberta.
(Farris, 83)
Nos dias de hoje, o processo está, em grande parte, mecanizado, mas as folhas de chá exigem várias etapas de produção para torná-las prontas para o consumo. Algumas casas de chá japonesas ainda utilizam métodos tradicionais. Em maio, é realizada a colheita das melhores e mais verdes folhas. Para evitar a fermentação e manter a cor verde, as folhas são cozidas no vapor. O cozimento no vapor dura até 20 segundos e, originalmente, era feito usando peneiras de bambu colocadas em cima de tanques com água fervente. Outra alternativa desse processo é colocar as folhas de chá em uma espécie de gaiola de bambu mantida sobre uma panela aquecida, porém, esse método era mais comum na China e em outros países da Ásia. Posteriormente, as folhas são espalhadas de modo uniforme para secar sobre uma mesa aquecida. As folhas são jogadas no ar com a mão para remover qualquer resquício de umidade. Para secar ainda mais as folhas e garantir que nenhuma fique emaranhada, elas são enroladas à mão, em pequena quantidade. Essa etapa, que também pode envolver o uso de um pincel e uma tábua, quebra as estruturas celulares internas da folha, aumentando seu sabor. Por fim, as folhas completamente secas e em formato de agulha são levadas ao forno para remover ao máximo sua umidade e, assim, prolongar sua vida útil. Para o matcha, o chá verde de maior qualidade do Japão, as folhas são selecionadas para remover impurezas, nervuras das folhas e caules, depois são cortadas, filtradas e secadas mais uma vez. Após esse processo, elas são armazenadas e moídas em um moinho de pedra para produzir um pó bem fino.
À medida que a produção do chá crescia, o produto se tornou uma fonte de receita tributária a partir do século XIII. O chá já não era mais consumido somente por quem o cultivava, havia se tornado um grande negócio e se firmado como parte integrante da cultura japonesa. No fim do século XVI, comerciantes portugueses e holandeses começaram a demonstrar interesse pelo chá, e a bebida foi introduzida na Europa por volta de 1607. O cultivo do chá acabou se espalhando para as colônias europeias, especialmente a Índia, até então, uma colônia britânica. Preferindo permanecer isolado durante grande parte de sua história, o Japão acabou buscando a Europa para fazer negócios. Semelhante às inovações de Madame Clicquot-Ponsardin, conhecida pela marca de seu champagne, o primeiro comerciante japonês de chá a buscar oportunidades no exterior foi uma mulher, Kei Ōura (1828-1884), que exportou seis toneladas de chá para Arábia, Inglaterra e Estados Unidos em 1853.
A planta continuou a ser cultivada com sucesso no século XIX. Segundo o historiador W. W. Farris, o excedente agrícola da produção de chá foi um fator que contribuiu para a industrialização japonesa. Os benefícios para a saúde em beber água fervida e os efeitos estimulantes do chá também podem ter sido fatores que ajudaram o Japão a obter mão de obra necessária para longos turnos de trabalho nas fábricas.
Em 1875, os produtores de chá começaram a se interessar por novos métodos que estavam sendo utilizados em plantações na Índia. Motokichi Tada (1829-1896) visitou Darjeeling, na Índia, e trouxe para o Japão ideias de novas máquinas e plantas de chá. O chá havia se tornado realmente uma bebida mundial. A planta continua popular entre os produtores japoneses neste século XXI, com cerca de 80.000 toneladas sendo produzidas anualmente.
Chá como Arte
Retornando ao Japão medieval, o chá era tão popular no século XIII que até escolas especializadas começaram a surgir, as quais ensinavam as pessoas como deveriam ingerir a bebida. O chá verde se disseminou em duas variedades, as folhas inteiras, que eram consumidas após as refeições, e o pó fino, que era reservado para ocasiões especiais. As pessoas consumiam a bebida em salas de chá (chashitsu) ou em uma casa de chá no jardim. A casa é chamada de sukiya, que significa 'casa do imperfeito', já que era feita inicialmente com materiais muito simples, como bambu, terra e palha, e era pouco mobiliada. Tinha portas baixas, talvez para lembrar a todos de que eram iguais e estavam entrando em um espaço onde não deveria haver hierarquia, independentemente de seu status do lado de fora.
A casa de chá pode ser estabelecida em seu próprio jardim especial (roji) com degraus de pedras (tobi-ishi), árvores perenes e bastante musgo, tudo projetado para acalmar o visitante antes de iniciar a cerimônia do chá. A partir dali, o indivíduo começa a ser transportado da agitação de sua vida cotidiana para um local calmo. Antes de entrar, passa-se por uma luminária de pedra e bacia de água (chōzu-bachi), onde as mãos são lavadas. Dentro do pequeno espaço do estabelecimento, os pisos são de tatami. O anfitrião prepara o chá atrás de um painel deslizante. As peças de porcelana ou laca podem ser usadas para recipientes de chá, bules e xícaras. Os utensílios de chá muitas vezes se tornavam objetos decorativos, por isso, acabavam fazendo parte dos ornamentos permanentes da casa.
Com poemas e livros escritos por especialistas sobre como se comportar e apreciar a bebida plenamente, o ato de beber chá se tornou uma forma de arte e um ritual altamente estilizado que ficou conhecido simplesmente como a cerimônia do chá japonesa. O chá aparece em muitos gêneros da arte japonesa, como literatura, teatro, pintura e caligrafia.
Um livro que continuou ganhando popularidade no século XXI é O Livro do Chá, escrito por Kakuzo Okakura e publicado pela primeira vez em 1906. Notas de Okakura:
Em nossa linguagem comum, falamos do homem ‘sem chá nenhum’, quando ele é indiferente aos interesses sério-cômicos do drama pessoal. Por outro lado, estigmatizamos o esteta indomado que, ignorando a tragédia mundana, se entrega na maré viva de emoções emancipadas, como alguém ‘com chá demais’.
(4)
A Cerimônia do Chá Japonesa
A cerimônia do chá japonesa é chamada chanoyu, que significa "água quente para o chá", ou chado ou sado, que significa "caminho do chá". As festas de chá começaram como ocasiões agitadas, onde os convidados tentavam adivinhar o tipo de chá que estavam bebendo. Mas no século XV, o xogum Ashikaga Yoshimasa (reinou de 1449-1473) pôs fim a tudo isso e tornou o evento muito mais tranquilo, proporcionando à classe dominante um cenário perfeito para conversas discretas sobre assuntos delicados.
A cerimônia representa o princípio estético japonês de wabi, o valor dado à apreciação da beleza e simplicidade nas coisas cotidianas. A prática de wabi na cerimônia do chá é creditada ao monge e mestre do chá, do século XVI, Sen no Rikyu (1522-1591), embora alguns historiadores apontem Murata Shukō (conhecido como Juko, 1422-1502), monge zen budista, como a primeira fonte de inspiração. De qualquer forma, acredita-se que vários mestres de chá ajudaram no desenvolvimento da cerimônia ao longo dos anos.
Rikyu foi o mestre das cerimônias do chá dos senhores feudais Oda Nobunaga (1534-1582) e seu sucessor Toyotomi Hideyoshi (1537-1598). Além de ser o mestre da bebida, Rikyu se tornou também um importante conselheiro de seus chefes. É por essa razão que a diplomacia japonesa passou a ser "chamada de 'política do chá', a qual deu origem ao uso de um mestre de chá nas negociações políticas, bem como nas cerimônias do governo" (Hall, 491).
Além de incluir a noção estética de wabi para o ato de beber chá, Rikyu também diminuiu o tamanho da sala de cerimônia, simplificou os processos e promoveu o uso de arranjos florais (ikebana) para criar a atmosfera ideal de calma. Os chefes de Rikyu consumiam chá ao encontrar figuras importantes, por outro lado, nem sempre ouviam seu mestre de chá, tendo em vista que Hideyoshi organizou uma festa do chá que durou um dia para 800 convidados, a qual ficou conhecida como a Grande Cerimônia do Chá de Kitano, para comemorar sua vitória militar em Kyushu, no ano de 1587. Hideyoshi também construiu duas casas de chá, uma no estilo rústico tradicional e outra, portátil, que brilhava com o dourado interno e externo, contrastando visivelmente com o estilo tradicional. Ainda assim, Rikyu obteve mais sucesso com as gerações posteriores, à medida que a cerimônia do chá foi se tornando mais estilizada, refinada e íntima. Inclusive, estabeleceu-se a norma de beber o chá verde em exatos três goles e meio, e finalizar com um pequeno doce. Deve-se usar utensílios específicos e executar tarefas em uma determinada ordem, com economia de movimento. As escolas de chá espalharam os princípios da cerimônia pelo Japão, sendo as primeiras fundadas pelo neto de Rikyu, Sen Sotan (1578-1658) e os descendentes Soshitsu (1622-1697), Sosa (1619-1672) e Soshu (1593-1675). Havia até escolas voltadas especificamente para envolver classes mais baixas, como por exemplo, a escola Urasenke.
Embora as festas de chá tenham diminuído o número de participantes, o amor pelos objetos decorativos relacionados à bebida nunca diminuiu. Tigelas, potes de chá e chaleiras se tornaram itens altamente valorizados por colecionadores e dados como presentes pelos governantes. Um exemplo disso foi quando Nobunaga presenteou Hideyoshi com uma chaleira, como recompensa por ter capturado o castelo de um inimigo. Os dois senhores feudais eram ávidos colecionadores de parafernália de chá.
Apesar da dominação dos senhores feudais, que muitas vezes limitavam quem poderia participar das festas, a experiência de beber chá, com o tempo, recuperou a essência do seu elemento espiritual. Consumir a bebida passou a ser um momento compartilhado de calma e renovação para seus participantes. Como diz o velho ditado Japonês, cha-Zen ichimi ou "Zen e chá têm o mesmo sabor.". Ou, como diz Okakura, "o Chaísmo era o Taoismo disfarçado" (29).
Os princípios para o consumo do chá são wa (harmonia), kei (respeito), sei (pureza) e jaku (elegância e tranquilidade). No entanto, a cerimônia do chá não é um evento formal ("cerimônia" é uma tradução inadequada), já que a ideia principal é relaxar os participantes. Mesmo assim, existem certos procedimentos a serem seguidos.
O Atual Consumo de Chá no Japão
Embora nem todos participem de uma cerimônia do chá completa em um sukiya, existem até hoje algumas questões de etiqueta ao tomar chá no Japão. O anfitrião deve fazer toda a preparação, não o convidado. O lugar deve ser tranquilo, de preferência com vista para uma paisagem serena, como um jardim, ou ter pelo menos um belo arranjo de flores no local. As flores devem ser dispostas de modo que pareçam estar crescendo naturalmente, e é essencial colocá-las em um vaso requintado. Uma parede pode ser adornada por uma estampa de escolha ou por um pergaminho de parede (jiku). O primeiro passo consiste em montar os utensílios adequados ou chadogu. Há um braseiro (furo) ou telha quente (shikigawara) para aquecer a chaleira (kama). Existem dois tipos de potes de chá, um de seda (chaire), para um chá espesso ou mais forte, e outro de porcelana (natsume), para um chá aquoso ou mais fraco. É necessário um batedor de bambu (chasen) para misturar pó de chá e água quente.
Como dito anteriormente, o chá verde de mais alta qualidade é o matcha. O pó super fino do matcha é colocado e misturado em água quente nas tigelas de chá para o consumo (chawan). A bebida obtém um aspecto espumoso. Outra alternativa é o sencha, um chá de folhas soltas de coloração amarronzada que é preparado ou infundido, e por ser bem mais barato que o matcha, ele é mais consumido. O matcha tende a ser reservado para ocasiões especiais e para a cerimônia do chá.
É possível utilizar tigelas feitas de qualquer material, mas peças com personalidade ou história podem proporcionar conversas envolventes. Tigelas e utensílios podem até ser objetos valiosos, mas não devem ter um design muito elaborado, pois isso contradiria o princípio de wabi. É preferível também que as cores complementem a do chá que está sendo servido. Tigelas antigas podem até exibir sinais de reparo, já que isso demonstra a qualidade de sabi, ou seja, a beleza desbotada vista em objetos muito apreciados e bem usados. Naturalmente, o anfitrião serve os convidados antes de si. O chá deve ser ingerido em pequenos goles. Uma apreciação completa da cerimônia do chá exige que o convidado possua não apenas um conhecimento da tradição, mas também esteja ciente das tendências nas artes visuais, arquitetura, paisagismo, arranjos florais e cerâmica.
Imbuída de princípios Zen, a cerimônia completa do chá é geralmente realizada para os visitantes em mosteiros budistas japoneses. Ainda existem três salas de chá originais no país, as quais foram designadas como Tesouros Nacionais do Japão; estão localizadas no Myoki-an de Yamasaki, dentro do santuário xintoísta de Minase-gu, e no mosteiro Saiho-ji em Quioto. Além desses ambientes mais formais, atualmente, é possível encontrar chá em todos os lugares do Japão, desde restaurantes de sushi até máquinas de venda automática. Por fim, é comum até hoje dar um pacote de chá de qualidade como presente, assim como faziam os monges budistas do século VIII, aqueles que deram início ao amor do Japão pelo chá.
