Punições de Piratas na Era de Ouro da Pirataria

Mark Cartwright
por , traduzido por Fabrício Cardozo Rocha Silva
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Durante a Era de Ouro da Pirataria (1690–1730), os piratas tanto aplicavam quanto recebiam uma ampla variedade de punições criativas. As vítimas da pirataria enfrentavam torturas, chicotadas e cerimônias de humilhação, mas, quando levados à justiça, os próprios piratas recebiam penas como longas sentenças de prisão, transportados para trabalhar nas condições letais das minas africanas ou execução pública por enforcamento.

Punições Entre Piratas

Chicotadas

O uso de chicotes como forma de punição era comum em todos os tipos de navios da época. No caso dos piratas, o risco de sofrer tal tratamento era bem menor, já que raramente um capitão se atrevia a usar esse método contra uma tripulação que provavelmente havia se tornado pirata justamente para escapar das duras condições da vida no mar. A aplicação da chicotada geralmente só era decidida se toda a tripulação, ou pelo menos a maioria, concordasse que o homem havia quebrado um dos artigos do navio — ou seja, as regras que juraram seguir. O responsável por aplicar a punição a bordo era o intendente. As chicotadas eram dadas por faltas como trazer mulheres a bordo, agredir outro tripulante ou não manter as armas em bom estado de prontidão.

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Punished Pirate
Pirata Punido Naughty Dog/PlayStation Studios (Copyright, fair use)

Se um marinheiro fosse chicoteado, ele era amarrado ao mastro ou a uma grade e açoitado nas costas nuas com um gato de nove rabos. Esse tipo especial de chicote consistia em nove tiras de corda, cada uma com cerca de 6 mm de diâmetro e até 60 cm de comprimento. Cada tira tinha três ou mais nós para tornar os golpes ainda mais dolorosos — e, em casos mais graves, adicionavam-se ainda mais nós. Durante a punição, o marinheiro frequentemente mordia uma bala para não gritar e evitar ser riducularizado por seus companheiros. Se gritasse de dor, os outros passavam a chamá-lo com desdém de "rouxinol".

Arrasto sob o Casco

Sabendo que sede e fome seriam inevitáveis, alguns pediam para ser mortos logo.

Ser arrastado sob o casco era uma das piores punições que um marinheiro podia receber, exceto pela própria morte — e, mesmo assim, a chance de sobrevivência era de no máximo 50%. A punição consistia em amarrar a pessoa com cordas, lançá-la ao mar e arrastá-la sob o navio de um lado ao outro ou ao longo de todo o comprimento do navio. Mesmo que escapasse de se afogar, o castigado sofria cortes e contusões graves ao ser arrastado contra o casco coberto de cracas.

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Abandono em Ilha Deserta

Para crimes sérios como motim, roubo ou covardia, a punição podia ser uma sentença de morte adiada. O marinheiro era abandonado em uma ilha remota, com apenas um barril de água e uma pistola — às vezes até nu. Outra versão consistia em deixá-lo à deriva num pequeno barco, sem remos ou com apenas um. Sabendo que sede e fome seriam inevitáveis, alguns pediam para ser mortos logo. Para outros, a pistola servia para tirar a própria vida antes de enlouquecer com o sofrimento. O mais famoso marinheiro a ser abandonado foi Alexander Selkirk (1676–1721), deixado nas Ilhas Juan Fernández, no Pacífico, em 1704. Outro exemplo foi Edward Low, cuja tripulação se cansou de suas atitudes sádicas. A palavra "maroon" vem do espanhol cimarrón, termo usado para escravos fugitivos, significando "selvagem" ou "indomado".

Edward Low Cigarette Card
Cartão de Cigarro de Edward Low Metropolitan Museum of Art (Copyright)

Punições em Cativos Inocentes

Tortura

Enquanto a maioria dos piratas estivesse interessada apenas em saques, alguns capitães eram especialmente cruéis com as tripulações capturadas — principalmente se suspeitassem que estavam escondendo riquezas a bordo. Havia também a ideia de que torturar alguns prisioneiros faria com que outras tripulações se rendessem mais facilmente em futuros ataques.

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As torturas, às vezes chamadas eufemisticamente de “persuasões piratas”, incluíam espancamentos, chicotadas, cortes e até colocar pavios acesos entre os dedos das vítimas. Uma técnica favorita, herdada dos bucaneiros, era amarrar um cordão ao redor da cabeça do prisioneiro e apertar até que seus olhos saltassem das órbitas. Outra punição, comum na Marinha Real Britânica e adotada por alguns piratas, era o mergulho na retranca. Nela, amarrava-se uma corda ao redor da cintura, entre as pernas e sob os braços do prisioneiro, que era então içado até o mastro e solto repentinamente para cair no mar. Esse processo era repetido várias vezes até que o prisioneiro falasse.

Um capitão português que havia jogado sua bolsa ao mar teve os lábios cortados, que depois foram queimados diante dele.

O pirata inglês Charles Vane (enforcado em 1721) era particularmente brutal. Em seu julgamento, testemunhas e ex-prisioneiros relataram uma série de torturas. Marinheiros eram espancados, cortados e até enforcados. Uma vítima foi amarrada ao gurupés do navio e torturada com pavios acesos. Outro pirata inglês infame foi Henry Every (b. 1653), que capturou em 1695 o Ganj-i-Sawai, um navio do imperador mogol repleto de tesouros. Muitos dos passageiros foram torturados para revelar onde estavam os objetos de valor e, depois, foram estuprados, mortos e lançados ao mar.

Outro capitão sádico foi o galês Bartholomew Roberts, também conhecido como “Black Bart” Roberts (c. 1682–1722). Embora extremamente bem-sucedido na captura de navios, Roberts ainda assim infligia torturas desnecessárias. Em um episódio notório em outubro de 1720, ele ordenou que seus homens cortassem as orelhas de um grupo de prisioneiros holandeses; alguns foram enforcados, e seus corpos usados como alvo. Em outra ocasião, Roberts enforcou o governador da Martinica no próprio mastro do governador.

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The Hanging of Stede Bonnet
O enforcamento de Stede Bonnet Unknown Artist (Public Domain)

O mais cruel de todos os piratas foi o inglês Edward Low, ativo no Caribe e no Atlântico leste entre 1721 e 1724. “Ned” Low construiu uma série de crimes desprezíveis. Em 1722, ele esquartejou e enforcou um grupo de passageiros portugueses, incluindo dois frades. Um cozinheiro de um navio francês foi amarrado ao mastro e queimado com o navio. Um capitão português que havia jogado sua bolsa no mar teve os lábios cortados, e estes foram queimados diante dele. Um pescador capturado próximo a Nantucket teve as orelhas cortadas antes de ser morto a tiros. Outro foi forçado a comer suas próprias orelhas. Um capitão capturado perto de Rhode Island teve o coração arrancado, e outro prisioneiro foi forçado a comê-lo.

De uma maneira similar, um artilheiro da tripulação do pirata inglês Edmund Condent (ativo entre 1718 e 1720) teria fervido e comido o coração de um prisioneiro indiano que ameaçou explodir o navio pirata. Condent também gostava de mutilar suas vítimas, cortando os narizes e orelhas de vários cativos portugueses na costa do Brasil.

Humilhações

Um pouco antes da tortura, havia certos “jogos” que os piratas inventavam para humilhar seus prisioneiros. Um desses “esportes” era o sangrar e suar, que consistia em fazer o prisioneiro correr entre uma fileira de marinheiros que usavam agulhas de vela para espetá-lo enquanto ele passava. Em seguida, a vítima era colocada dentro de um barril cheio de baratas. Uma alternativa mais branda era fazer o prisioneiro correr em círculos sem parar ao redor do mastro principal. A ponta de uma espada curta era usada para forçar a vítima a continuar correndo até desmaiar de exaustão.

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Andar na prancha

Não há muitas evidências de que os piratas da Era de Ouro realmente faziam suas vítimas “andar na prancha” — isto é, serem vendadas, com as mãos amarradas, e forçadas a caminhar por uma tábua estendida para fora do convés, caindo no mar. No entanto, essa punição apareceu em muitas histórias fictícias de piratas, e algumas fontes afirmam que Stede Bonnet (enforcado em 1718) teria inventado esse método como uma forma de entreter sua tripulação e se livrar de passageiros indesejados.A ideia dessa forma incomum de execução pode ter origem nos piratas cilícios do século I a.C., que, segundo Plutarco (c. 45–c. 125 d.C.), obrigavam prisioneiros romanos a caminhar por uma escada sobre a água. Outra possível origem seria o hábito de fazer marinheiros suspeitos de estarem bêbados caminhar em linha reta sobre uma prancha colocada no convés.

Walking the Plank by Howard Pyle
O Caminhar na Prancha de Howard Pyle Howard Pyle (Public Domain)

Punições para Piratas Capturados

Chicotadas e Marcas a Ferro

No Oceano Índico, durante a Era de Ouro, a Marinha Britânica concedeu à Companhia das Índias Orientais o direito de perseguir e julgar piratas a partir de 1683. Assim, os piratas passaram a correr o risco de serem punidos onde quer que causassem problemas. Uma punição comum era ser chicoteado a bordo de um único navio ou então ser levado para todos os navios do porto e receber chicotadas em cada um deles — uma pena também usada pela Marinha Real. No Oceano Índico, havia tantos piratas que os capturados eram frequentemente marcados com a letra “P” na testa, com um ferro em brasa. Nessa região, as sentenças de morte eram executadas pelo enforcamento, com o pirata sendo pendurado na retranca do navio.

Prisões

No início da Era de Ouro, alguns piratas capturados recebiam perdão, principalmente se fossem membros menores da tripulação ou jovens inexperientes. Porém, à medida que o período avançava e a pirataria aumentava, as autoridades passaram a ser muito mais severas. Em todo lugar, os piratas corriam o risco de serem presos como a pena “menos pior” caso fossem capturados. Muitos morreram esperando julgamento, seja por ferimentos, seja por doenças que eram comuns nas prisões.Para a maioria, a possibilidade real era uma longa sentença de prisão, caso não conseguissem convencer o tribunal de que haviam sido forçados a se juntar a uma tripulação pirata — defesa que precisavam fazer sozinhos, pois, geralmente, eram analfabetos e não tinham direito a advogado.As prisões coloniais eram especialmente duras, e as prisões na Inglaterra não eram muito melhores. Algumas sentenças incluíam trabalhos forçados, como nas colônias penais da África Ocidental, onde os presos trabalhavam em minas sob condições quase fatais.

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Enforcamentos

No final da Era de Ouro, a forma mais comum de punir piratas capturados era o enforcamento, geralmente logo após o julgamento. Essas execuções ocorriam em público, muitas vezes em locais visíveis para marinheiros que passavam pelo mar.Em Londres, os piratas tinham um local exclusivo para execução chamado Execution Dock, em Wapping, às margens do rio Tâmisa. Normalmente, vários piratas eram enforcados juntos, especialmente quando a guerra contra a pirataria se intensificava e tripulações inteiras eram condenadas em massa. Os condenados eram escoltados da prisão — geralmente Newgate ou Marshalsea — com um oficial à frente carregando um remo de prata, símbolo da autoridade da Alta Corte da Almirantado.

Captain Kidd
Capitão Kidd Unknown Artist (Public Domain)

O local do enforcamento tinha vários pontos de significado especial. Ficar perto do mar simbolizava que os crimes tinham sido cometidos por marinheiros, enquanto o fato de ser exatamente no ponto da maré baixa indicava que a Almirantado era responsável pela execução, já que a área além da maré baixa era jurisdição das autoridades civis.

Os homens condenados estavam de pé no cadafalso de madeira primitivo enquanto um capelão fazia sua oração e oferecia uma prece pelos prestes a morrer. Depois, os homens podiam falar suas últimas palavras, que muitas vezes eram anotadas e distribuídas impressas para o público curioso.O pirata era então empurrado do escadote que havia subido, geralmente morrendo por estrangulamento e não por fratura do pescoço. Depois de morto, o corpo era retirado e preso na praia ou amarrado a um poste de madeira para ficar exposto por três marés. Os restos eram enterrados em túmulos sem identificação. Esse procedimento também era seguido nas colônias, um direito garantido a partir de 1701.A maior execução em grupo da Era de Ouro aconteceu no Forte Cape Coast, em Guiné, na África Ocidental, em 1722, onde 52 membros da tripulação capturada de Bartholomew Roberts foram enforcados.

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Para piratas particularmente notórios, geralmente capitães, eles eram enforcados e depois seus corpos eram pendurados para apodrecer em uma jaula de ferro. O corsário escocês transformado em pirata, Capitão Kidd (c. 1645–1701), foi condenado por pirataria e assassinato em seu julgamento em Londres, em maio de 1701. Ele foi enforcado, seu corpo foi embebido em piche e pendurado numa jaula no rio Tâmisa. Os restos de Kidd ficaram visíveis para navios que passavam por dois anos. Esse tipo de punição ainda era aplicado vinte anos depois.

O pirata inglês John Rackham, conhecido como “Calico Jack”, foi condenado por quatro acusações de pirataria e enforcado na Jamaica em novembro de 1720. Seu corpo também foi pendurado numa jaula como aviso público, dessa vez numa ilha chamada Deadman’s Cay, em Port Royal. Charles Vane recebeu o mesmo tratamento um ano depois.

Não havia nenhum amor perdido entre piratas e autoridades, e isso fazia com que os piratas lutassem desesperadamente para não serem capturados vivos. Barba Negra (Edward Teach) precisou levar cinco tiros e vinte golpes de espada antes de finalmente cair, em novembro de 1718. O tenente Maynard, que capturou o temido pirata, colocou a cabeça de Barba Negra na proa de seu navio como aviso para os outros. Bartholomew Roberts pediu a seus homens que jogassem seu corpo ao mar para evitar ser enjaulado, pedido que cumpriram quando ele foi morto em combate, em fevereiro de 1722.Uma coisa era certa: os piratas não podiam reclamar que não sabiam das punições terríveis que os esperavam quando, como quase todos, finalmente eram levados à justiça.

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Sobre o Tradutor

Fabrício Cardozo Rocha Silva
Sou professor de inglês com experiência em escolas de idiomas e foco em gramática avançada para alunos fluentes. Também atuo na área de tradução, com cursos na área e atenção especial às nuances linguísticas e culturais.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
Mark é escritor, pesquisador, historiador e editor. Tem grande interesse por arte, arquitetura e por descobrir as ideias compartilhadas por todas as civilizações. Possui mestrado em Filosofia Política e é Diretor Editorial da WHE.

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Estilo APA

Cartwright, M. (2025, julho 06). Punições de Piratas na Era de Ouro da Pirataria. (F. C. R. Silva, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1847/punicoes-de-piratas-na-era-de-ouro-da-pirataria/

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Cartwright, Mark. "Punições de Piratas na Era de Ouro da Pirataria." Traduzido por Fabrício Cardozo Rocha Silva. World History Encyclopedia, julho 06, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1847/punicoes-de-piratas-na-era-de-ouro-da-pirataria/.

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Cartwright, Mark. "Punições de Piratas na Era de Ouro da Pirataria." Traduzido por Fabrício Cardozo Rocha Silva. World History Encyclopedia, 06 jul 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1847/punicoes-de-piratas-na-era-de-ouro-da-pirataria/.

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